ISSN 1807-1783                atualizado em 31 de outubro de 2008   


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Resenha do livro “A história entre a filosofia e a ciência” de José Carlos Reis

por Diego José Fernandes

Sobre o autor[1] 

 

Introdução

     José Carlos Reis inicia seu livro tecendo comentários sobre o século XIX, o qual foi marcado, na atmosfera intelectual, pelo Cientificismo. As ciências estavam embebedadas pelas idéias de Darwin e pela herança cientifica do passado. Razão, Método, Objetividade e Imparcialidade eram as bandeiras de tal época. Essa maré científica inundou a História, que até então era reduto de filósofos metafísicos.  Como estes davam mais ênfase ao geral (humanidade) e eram especulativos e idealísticos, beirando ao misticismo, logo entraram em choque com a mentalidade de tal época. A história decidiu-se pela ciência, abandonando a filosofia. Essa decisão tinha uma serie de implicações; rejeita a qualquer a priorismo, valorização da pesquisa, fortalecimento de um método empírico, delimitação de um objeto próprio e ênfase ao singular. A história agora pretendia ser cientifica.

     Nesse percurso para fazem da história uma ciência, surgem três grandes escolas; Metódica (dita positivista), Marxista e Annales. Todas estas possuíam em comum a crença na cientificidade de Clio e a recusa categórica a filosofia da história, pois esta era a-histórica, especulativa e metafísica. O autor, porém, afirma que mesmo tentando romper com a filosofia da história, tais escolas estavam carregadas, sem saber e sem confessar, de pressupostos filosóficos, sobretudo as duas primeiras. Assim, caminhando para os braços da Mãe-Ciência, a historia carregava no seu calcanhar a filosofia da história. Advém daí o titulo do livro. O autor pretende analisar essas três escolas históricas, mostrando como a filosofia esteve em suas entranhas.

 

A escola metódica, dita “positivista”

O autor pretender mostrar as principiais características desta escola bem como sua ligação com a filosofia da história, ainda que tal escola tenha postulado a recusa total da “história especulativa”. O autor inicia tratando da escola metódica Alemã, mais precisamente de seu principal representante; L. V. Ranke. Alemanha e França, em termos de escola histórica, foram as principais herdeiras da crítica filológica do século XVI e XVII. Nesses dois países desenvolveu-se, quase simultaneamente, um grande desenvolvimento da pesquisa histórica, baseada nos métodos dos exegetas bíblicos. Ranke vai absorver toda essa atmosfera de crítica textual, ao ponto valorizá-la demasiadamente, afirmando ser possível, a partir de tal, uma história completamente objetiva. Sua pesquisa histórica contemplava assuntos relacionados aos Estados nacionais, tidos por ele como “agentes universais do processo histórico”.

Ranke acreditava ser possível, por meio de um método, reviver o passado tal qual aconteceu. O historiador seria capaz de mergulhar no passado despojado de toda influência do presente e de subjetividade, fazendo assim emergir um conhecimento real, objetivo. Vai-se ao passado para ressuscitá-lo, jamais para julgá-lo. Daí a preocupação com as reflexões filosóficas e interpretações, pois estas poderiam contaminar o conhecimento. A ciência histórica deveria - e poderia - ser completamente neutra e imparcial, do mesmo modo que as ciências da natureza. Para atingir um conhecimento com estas características, o historiador alemão advogava um método de critica histórica. A despeito destas considerações históricas, Ranke absorveu também a atmosfera filosófica de sua época, sobretudo as idéias de Hegel. Tal como este, acreditava que “a história era o palco da manifestação do Espírito”. A história cumpriria certos propósitos transcendentais, uma força supra-histórica atuava no curso dos eventos. Chegar-se-ia a essa compreensão quando se atentasse para os documentos oficiais, de onde brotavam naturalmente os fatos históricos. Por isso a importância do método, visto que por meio dele se faz não somente a reconstituição do passado tal qual aconteceu, mas também a apreensão do sentido da humanidade. Desta forma, Ranke, mesmo sem saber, combina história científica e filosofia da história (hegeliana).

Na escola metódica da França ocorreram também as mesmas características; valorização do método, negação da filosofia da história, fetiche dos fatos históricos,  valorização dos eventos políticos, cultivo a dúvida e observação, imparcialidade, etc. A única diferença consiste na incorporação da filosofia Iluminista. A escola histórica Francesa afirma um processo histórico gradual, irreversível e linear. O ápice da história era o futuro, e não o presente. Enquanto a escola histórica tradicional alemã incorporava a filosofia hegeliana, a Francesa vai absorver a da Ilustração. Esta escola vai simplificar o método defendido por Ranke. Langlois e Seignobos conceberam o método histórico dividido em três etapas; heurística (pesquisa), operações analíticas (critica interna e externa) e operações sintéticas (escrita histórica). O fim de tudo isso era fazer da história uma ciência, reviver o passado. Fustel de Coulanges, com a obra “a cidade antiga”, é tido como o primeiro a fazer uma obra próxima a preconizada por essas escolas históricas metódicas, embora ele não tenha sido um positivista no sentido comtiano. O autor propõe uma relativização do termo “positivista” para denominar essas duas escolas históricas (Alemã e Francesa), rotulando-as de “metódicas”, uma vez que ambas supervalorizavam o método. Para ele, o termo “positivo” caberia em vez de “positivista”, já que nenhum dos representantes da escola dita positivista reivindicava tal atributo. Eles não buscavam leis históricas a lá Comte, apenas compartilhavam com este pensador a preocupação por objetividade, empirismo e rejeição a metafísica.

Reis finaliza tal capítulo com uma instigante reflexão; os historiadores metódicos realizaram, inconscientemente, uma evasão do presente vivido. Valendo-se de algumas idéias de Nora (séc. XIX e XX produção vertiginosa de eventos), o autor afirma que tais historiadores praticavam uma negação do evento presente mediante um culto do evento passado, na medida em que aquela era imanipulável, imprevisível, novidade, emergência. No passado buscavam o sentido do presente e do futuro, visto que os eventos passados eram inseridos em uma continuidade histórica. Ademais, os eventos passados eram divinizados, cumpriam certos propósitos transcendentais. Portanto, uma evasão acontecimental, utópica e divina. Reis vê nessa evasão plural a consciência da burguesia que, vendo seus feitos revolucionários, teme ser deles vítima.

O Historicismo; Aron X Dilthey

Reis inicia afirmando que a emergência do Historicismo representa o fim da filosofia da história tradicional; esta buscava uma evolução no processo histórico, a presença de uma entidade supra-histórica guiando o curso dos homens. De fato, o historicismo possui duas características fundamentais; a recusa da filosofia da história tradicional e da objetividade, tal qual das ciências naturais, nas ciências humanas. Os historicistas resgataram a critica kantiana contra a física newtoniana. Assim, se auto-intitulavam filosofia critica da história, responsáveis pela crítica histórica. A principal reflexão destes pensadores era acerca da objetividade do conhecimento e singularidade das ciências do espírito, e não questões metafísicas de sentido ou evolução da história. Perscrutavam sobre o conhecimento das ciências humanas, de como ele era produzido ou atingido, se tinha validade universal ou não.

O resultado destas reflexões é a defesa da singularidade das ciências do espírito, o total afastamento das ciências da natureza e a negação da objetividade (tal qual pensada nas ciências naturais). De fato, a principal característica do historicismo é o relativismo. Pensadores como Droysen e Dilthey gritavam a favor da relatividade no conhecimento histórico, o qual seria sempre parcial, limitado e unilateral. Para entender tal afirmação é preciso atentar para as primeiras premissas do Historicismo; todo fenômeno é histórico, objeto e sujeito estão imersos no fluxo do processo histórico e subjetividade e conhecimento são inseparáveis. Segundo o Reis, estas três idéias só podem oferecer uma única coisa às ciências humanas; a relatividade.

Além deste caráter intrínseco da história, Dilthey pensa Clio com um processo de “consciência de si”, isto é, a história é o estudo do homem pelo homem. Para o filósofo alemão, o objeto da história é o próprio sujeito da história. Trata-se de algo que não é exterior, como ocorre nas ciências da natureza (nomotéticas). Existe uma identidade entre sujeito e objeto, uma solidariedade entre passado e presente. Para Reis, nestas postulações encontra-se a incorporação de aspectos filosóficos na história, embora não sejam confessados. Dilthey vê a história como uma viagem ao interior do próprio homem, é a consciência presente querendo conhecer a consciência passada. Desta forma, valorizava, ao contrario da filosofia da história tradicional, somente o passado e o presente no conhecimento histórico, dado que esses dois tempos estão ligados espiritualmente. O futuro, segundo os historicistas, era devir, invisível, incomtemplavel, disperso, caótico. A história se fazia somente a partir da relação presente – passado, do encontro destas consciências separadas pelo tempo.

O autor finaliza tal capítulo citando o estudo de Raymond Aron sobre os historicistas. Tal pensador combinou as idéias do Historicismo com a filosofia da história evolucionista. Tal como os historicistas, o sociólogo alemão afirmava a especificidade da historia e seu condicionamento a época, mas negava o devir histórico de Dilthey, colocando-o em seu lugar a idéia Iluminista. Finalmente, Reis retoma a idéia de Aron que o Historicismo formulou o pensamento da aristocracia alemão do final século XIX, pois ela era justamente a classe que rejeitava o futuro. Materializando este medo, Dilthey formula a união entre passado e presente, haja vista que este representava a segurança e aquele a gloria para a aristocracia.

O marxismo

Reis aborda algumas idéias de Marx correlacionadas ao pensamento histórico. Seu intuito não é discorrer sobre as principais idéias do marxismo, mas sim aquelas que se relacionam com a história, que foram incorporadas pelos historiadores. Em suma, idéias de Marx que pertencem ao âmbito do pensamento histórico. Nesse sentido, inicia afirmando que o marxismo compartilha o mesmo objetivo das escolas históricas analisadas anteriormente, embora tente alcançar seu objetivo através de um outro caminho. Pergunta o autor; teria o marxismo conseguido eliminar a filosofia da história e erigir uma história científica?

Segundo Villar, historiador marxista e dos Annales, sim. Para ele, a recusa ao idealismo hegeliano e a metafísica de Feuerbarch confirmam a positividade do projeto marxista. O objeto da história, segundo as idéias de Marx, não é uma exteriorização do pensamento nem muito menos “expressões do Espírito”. Trata-se de algo concreto e objetivo, isto é, as estruturas econômico-sociais. De fato, Marx almeja uma teoria global que contemple toda a realidade, a qual é objetiva e dialética. Afirma-se que ele criou as primeiras teorias estruturais. Assim, o marxismo seria uma filosofia, mas não uma filosofia da história, entendendo esta como especulativa e idealística. Embora o marxismo afirme um sentido para história, ele quer dizer com isso que a historia é racionalmente estruturada, que possui regularidades.

O pensamento de Marx aproxima-se da história na medida em que formula tal teoria global, pois esta quer apreender o movimento das sociedades, o qual seria fruto da interação entre três fatores; A) forças produtivas. B) classes sociais. C) modo de produção (relação de produção + forças produtivas). Estes elementos engendram as mudanças e realizam as rupturas. Assim, a história deveria se debruçar sobre aqueles elementos. Reis afirma que, ao propor a interação destes elementos, o pensamento marxista rompe com a idéia de homem universal e a metafísica. Esta porque são os homens quem fazem a história, ainda que existam grandes condicionamentos, e aquela porque os homens são analisados socialmente, isto é, por grupos e classes, os quais são produtos dos modo de produção. 

A despeito de todo esse materialismo, o autor diz que Marx retoma certas idéias de Hegel, cientificizando-as; a duplicidade da ação humana (consciente e inconsciente). Se Hegel afirma que os homens, ao agirem, cumprem inconscientemente certas vontades do Espírito, Marx vai afirmar que os homens, ao agirem, cumprem certas necessidades da estrutura econômico-social. Assim, toda ação humana, quer individual ou coletiva, para ambos os autores remetem para a involuntariedade do sujeito.

A despeito da enorme variedade de leituras da obra de Marx, devido a sua riqueza teórica, o autor propõe duas interpretações. A primeira consiste na visão marxista segundo a qual a história é um processo evolutivo, contínuo. Em muitos escritos de Marx podemos enxergar essa visão. A história culminaria, inelutavelmente, no comunismo, estágio em que se eliminam todas as contradições da sociedade. Um reino de justiça, paz e igualdade. A outra seria a visão repetitiva da história, a qual deixa de representar uma continuidade para representar uma descontinuidade, ruptura. Encontra-se tal visão nas análises de Marx sobre os modos de produção pré-capitalistas.  Assim, o capitalismo não é somente um estágio a ser superado, mas um estágio descontinuador. Reis acredita que se pode combinar estas duas leituras em uma só, evitando qualquer polarização. Para Marx, a história é, ao mesmo tempo, permanência e ruptura, evolução e repetição.

Segundo o autor, ao propor a história também como evolução cujo termino é a “cidade feliz dos homens”, a teoria de Marx torna-se uma filosofia da história. Seu caráter emancipador da história transforma suas idéias em uma filosofia da história. Para Reis, há nas idéias de Marx uma síntese das filosofias da história anteriores; Hegelianismo, dialética, contradição da realidade. Positivismo, extermínio da metafísica, da religião e da imaginação. Iluminismo, a visão linear da história, a redenção histórica. Darwinismo, existe ou existirá uma espécie evoluída. Portanto, o autor conclui que o marxismo não rompeu com a filosofia da história, mas que se tornou uma espécie de resumos das teorias históricas especulativas.

Finalmente, Reis vê no marxismo, tal como nas outras escolas históricas, uma evasão. Esta se dá pelo presente, pois não percebe a sua própria historicidade, e pelo conceito. Ao pensar a realidade como objetiva, se perde em conceitos abstratos, rompendo como o materialismo, com a concreticidade que se propõe.

Os Annales

Reis inicia discutindo as questões da unidade dos Annales e seu status de continuidade ou descontinuidade. Para tal, vale-se da idéia de “paradigma”, proposta por Kuhn. Aquele possui duas acepções, uma de caráter sociológico e outra de caráter filosófico. Sob o prisma deste, paradigma é aquilo que, a despeito de todas as diferenças, permite uma comunicação entre os sujeitos. Trata-se de algo central, o qual promove a comunicação intersubjetiva. Sob o prisma sociológico, paradigma é aquilo que é compartilhado por todos, indiscutivelmente. Nesse sentido, pergunta o autor; haveria um paradigma entre os membros dos Annales? Todos possuem semelhanças mais que diferenças? Trata-se de um grupo homogêneo? Eis as problemáticas iniciais abordadas pelo autor.

Segundo Reis, muitas são as respostas para tal problemática, de uma maneira que se pode facilmente observar as diferenças e oposições. Uns afirmaram que sim, que os Annales constituíram um paradigma, qual seja, o estrutural-funcionalista. Embora houvesse discordâncias entre os membros, todos eles se harmonizavam e formavam um conjunto coerente e harmônico. Braudel posiciona-se mais radicalmente a questão. Para ele, não existe nem se quer uma escola, imagine um paradigma, pois os fundadores – Bloch e Febvre – jamais admitiram algo fechado, rigorosamente articulado, como sugere tais termos. Outros falam, ainda, em filosofia dos Annales e múltiplos paradigmas, isto é, em razão de os Annales advogarem uma história aberta, tem-se varias orientações, visões e concepções. Por fim, Reis apresenta a visão de Le Goff, a qual sustenta um espírito, orientação, tendências comuns entre os membros dos Annales.

O autor resolve a questão da unidade dos Annales propondo um outro conceito e relativizando o conceito de paradigma (usá-lo fora do entendimento de Kuhn), usando mais frouxamente. Reis pensa a unidade dos Annales como um programa, isto é, entre os diversos membros dos Annales existem expressões comuns (seu significado para paradigma). Eis o programa dos Annales; interdisciplinaridade, novos objetos e mudanças analíticas (tempo, explicação, fonte, fato, etc.). No entanto, problematizar a questão da unidade dos Annales traz como corolário a discussão da continuidade ou descontinuidade. Haveria uma permanecia entre a história tradicional e a nova? As três gerações dos Annales praticaram apenas um “seguimento”? Ou mudaram tudo bruscamente? São eles herdeiros da escola metódica? Nesse sentido, as posições variam aos extremos; para uns, houve uma completa ruptura, para outros houve sim uma completa continuidade. Alguns também combinam essas duas polarizações.

No inicio do século XX, o pensamento científico mudara bastante e nesta alteração uma ciência despontava com grande prestigio; as ciências sociais. Estas viam com um discurso crítico, modernizador e sedutor. Nesse sentido, empreenderam uma serie de críticas a história vigente. Pediam uma total revisão dos saberes históricos. Tais recriminações encontraram solo fértil em alguns historiadores que decidiram aceitar o ponto de vista das ciências sociais, promovendo uma renovação do conhecimento histórico. Entre tais homens estavam os progenitores dos Annales. Eles perceberam que a história estava em um beco sem saída; ou cedia aos “cientistas sociais” ou eram engolidos por eles. Assim, realizaram varias reformulações no pensamento histórico, destacando a abertura da historia a outros saberes e a nova concepção de tempo. Trata-se, então, de uma revolução?

Reis acredita que não. Revolução é uma palavra muito forte. Houve sim, para o autor, uma mudança substancial. Os Annales herdaram, e fizeram questão disso, os métodos da história tradicional, o caráter de valorização da pesquisa, da busca, mas sem incorporar o metodismo. Porém, rejeitaram categoricamente o isolacionismo e o fetichismo dos fatos e documentos oficiais, bem como a noção de tempo. Assim, tem-se uma combinação de continuidades e descontinuidades, as quais produziram uma nova história. O mesmo raciocínio aplica-se as três gerações dos Annales; a continuidade se expressa na fidelidade ao diálogo proposto pelos fundadores, a descontinuidade refere-se aos novos objetos, explicações.

A) A interdisciplinaridade

Como conseqüência direta da adesão ao ponto de vista das ciências sociais, opera-se um dialogo intenso entre os historiadores e os cientistas sociais (sociólogos, economistas, políticos, geógrafos). A história bebe e se torna bebida para as ciências sociais. Em suma, a história passa a circular nos interstícios das ciências sociais. Advém daí inúmeros trabalhos historiográficos de caráter econômico, geográfico, jurídico, antropológico, etc. Reis propõe uma problematização desta união, uma reflexão crítica, precisa e atenta. Nesse sentido, o autor aponta aspectos positivos e negativos deste contato.

O ponto positivo da abertura da história consistem na riqueza do arcabouço metodológico que ela passa a incorporar. Conceitos, idéias, visões, novos objetos estão agora disponíveis a historia. Existe uma diversidade de meios para tal disciplina atingir seu fim, alcançando uma compreensão muito mais elevada e profícua. Há, agora, uma riqueza no instrumento analítico do historiador. No entanto, Reis vê um perigo; a perda da identidade. Ao assimilar métodos, conceitos e objetos das ciências sociais, a história estaria correndo o serio risco de uma auto-dissolução e fragmentação. Tanto é assim que, passado alguns anos da interdisciplinaridade, a história passa a ser a historia de...ou seja, surge vários objetos para historia.

Desta forma, o autor propõe uma revisão desta união, abertura, diálogo para com as ciências sociais. Tal contato não deve ser feito de maneira desenfreada, irracional e religiosa. Pelo contrario, deve ser conscientizada e balizada por questões éticas e filosóficas. Assim, evita-se a perda da especificidade do olhar histórico, mantendo esta disciplina ainda singular.

B) Novos objetos

O autor ratifica a ampliação dos objetos da história, de uma maneira que se opera um alargamento do campo de pesquisa do historiador. Por conseguinte, verifica-se uma ruptura para com a história tradicional do século XIX, cujos objetos eram, tradicionalmente, a política, economia, diplomacia, religião e grandes homens. A história que dialoga com as ciências sociais vai rejeitar profundamente tal maneira de enquadrar a pesquisa histórica. Para ela, os fenômenos, qualquer sejam, não possuem uma natureza que os aprisionem em uma categoria objetiva. Pelo contrario, o sujeito é que enquadra os fenômenos em tal ou qual categoria.

Reis diz que os objetos refletiam a disciplina que a historia dialogava. Assim, na primeira fase dos Annales, os objetos eram aqueles que eram também abordados pela economia, sociologia e demografia; o problema da população russa, o ouro no Medievo, conflitos sociais da França feudal, etc. Portanto, o objeto a ser pesquisado vai variar mediante a aliança com uma disciplina específica, operando uma renovação e ampliação no campo de pesquisa histórica. Porém, tal febre por novos objetos traz também o esquecimento do político, dificultando uma compreensão mais profícua do passado.

O autor finaliza dizendo que os historiadores, em pleno contato com as ciências sociais, encontram novos horizontes. Seja de objetos, pesquisa, compreensão e análise, redundando em uma reatualização do pensamento histórico, faces as transformações do presente.

C) Os Annales e a compreensão de Ciência

Reis aborda a questão do entendimento de Ciência, isto é, do que seria ciência para os membros dos Annales. Em cada fase dos Annales pode se perceber compreensões diferentes sobre o que é ciência, pois tal escola se caracterizava, entre outras coisas, pela diversidade de paradigmas, concepções, valores, idéias,etc. Assim, o autor investiga a compreensão que cada fase dos Annales tinha da história, de seu caráter científico.

Desta forma, Reis inicia discorrendo sobre alguns modelos epistemológicos que influenciaram o pensamento intelectual do século XIX. De uma maneira quase hegemônica, vigorava naquele século o modelo nomológico ou nomotetico, o qual afirmava a existência de leis objetivas em qualquer fenômeno. Tal modelo era originado das ciências naturais, e como este gozava de grande prestigio e desenvolvimento, foi logo transportado para as ciências humanas. Assim, afirmava-se que natureza e sociedade eram realidades que poderiam ser analisadas a partir de um mesmo método. Os fenômenos naturais eram idênticos aos sociais.

Existindo marginalmente tinha-se o modelo hermenêutica, erguido por Dilthey. Tal modelo afirmava a diferença entre ciências naturais e ciências do espírito. Aquele era nomotetico e este era ideográfico. A conseqüência disto era uma serie de discrepâncias, que ia do objeto ao sujeito, entre ciências naturais e ciências do espírito, beirando a quase uma oposição. Nas ciências do espírito valorizava-se a interpretação muito mais do que a descrição, a fim de se alcançar uma compreensão. Havia ainda o modelo epistemológico erguido pelo marxismo, o qual, segundo Reis, seria um modelo médio entre os dois já analisados. A epistemologia marxista combina a visão do modelo nomotetico e ideográfico; afirmam-se as regularidades verificáveis, a evolução, coordenação e sentido, mas também se afirma a compreensão subjetiva, em razão do caráter inconsciente da vida humana.

Sendo assim, qual foi à postura adotada pelos Annales? Ou melhor, quem e quando adotou tal ou qual modelo? Para responder a esta pergunta, o autor procede a uma analise sobre como a história era praticada e pensada em cada uma das fases dos Annales. Em suma, como era praticada a história no decorrer das gerações dos Annales. Nesse sentido, a primeira geração falava de uma história-problema, história-global e compreensão. Não havia ainda um consenso na práxis histórico. Bloch fala mais de uma compreensão, de um estudo que relacionasse reciprocamente presente e passado. Febvre afirmava a necessidade de uma interpretação, de uma problematização mais sobre as sociedades dos que sobre os homens. Em suma, o primeiro era mais sociólogo e o segundo mais historicista. Em comum, todavia, existia a crença que a história caminhava para ser uma ciência, ainda que com alto grau de especificidade.

Com a segunda geração, coexistiam modos diferentes de “historear”; historia-problema e historia-global. Esta se caracteriza por uma analise sobre sistemas, os quais interligados permitiriam uma visão global, total. Com essa práxis a analise historica tendeu ao tempo de longa duração, isto é, o objeto era estudado em um tempo extenso, largo. Tal projeto mostrou-se inviável, somente alguns tentaram tal feito (Braudel). A terceira geração falará ainda de uma história geral, mas deslocará a analise histórica para a descontinuidade, a ruptura, o novo. Foucault é a grande influencia. Com tal geração ocorre ainda a ampliação do objeto. Tudo pode ser objeto da historia, desde que seja problematizável. Advém daí a critica ao esmigalhamento da história.

Feito o percurso pela práxis histórica nas três gerações do Annales, pode-se responder ao questionamento principal do tópico. Segundo Reis, os fundadores dos Annales – Febvre e Bloch – acreditavam que a cientificidade da história era um dado certo para o futuro, a história era uma ciência em construção. Por isso a geração dos Annales posterior viveu o “otimismo cientifico”; eles confiavam que sua disciplina tinha atingido o patamar de “Ciência”. Historiadores (Labrousse, Braudel, Chaunu,etc) se referiam a sua profissão como exata, informatizada e quantificada. Porém, a terceira geração não só mostrou o equivoco de tal ambição como o esqueceu, repudiou completamente o caráter cientifico da história.

Para demonstrar o pensamento da terceira geração sobre a cientificidade da história, Reis vale-se de algumas idéias de Duby. Este vai afirmar a história como um gênero narrativo singular, uma arte específica. O discurso histórico se aproxima muito mais da arte literária do que da narrativa científica. Contudo, a arte histórica exige certas condições, frutos do esforço de veracidade que se impõe ao historiador. Trata-se, assim, de um discurso que não se fundamenta tão somente pela imaginação, mas sim pelo dado empírico também. O historiador precisa de provas. Ainda que esta não dê, por si só, inteligibilidade ao discurso.

Portanto, a terceira geração dos Annales mostra o limite da ambição científica da história, colocando esta muito mais como arte literária “sui generis”. De fato, a posição atual dos Annales é exatamente a negação a qualquer delírio nostálgico cientificista.

 

A legitimidade intelectual e social da história

Para finalizar seu livro, Reis discorre sobre a razão de ser da história, isto é, dos motivos que fazem valer a pena praticar e estudar historia. Para tal, ele vale-se de algumas reflexões feitas por historiadores da primeira e terceira geração dos Annales. Nesse sentido, inicia com as reflexões realizadas por Bloch, o qual problematizou acerca da utilidade e legitimidade da história. Para aquele historiador, a razão de ser da história reside, antes de tudo, no fato de ela ser constituidora da civilização ocidental. Esta, desde o berço, já cultuava a historia e a valorizava. Assim, a história aparenta ser parte congênita da sociedade ocidental. No entanto, isto é apenas uma constatação. Não resolve o problema da razão ser da história, o qual complica ainda mais na medida em que verifica-se que a história não pode evitar a infelicidade de guerras e catástrofes.

Reis continua com as idéias de Bloch. Este começa respondendo a problemática supracitada de maneira aparentemente ingênua; A história entretém. Ainda que todas as utilidades da história sejam negadas, ficará uma irrefutável, qual seja, ela satisfaz, traz um gozo e diverte o espírito humano. Porventura tal prazer justificaria o tamanho investimento, esforço e gasto que a prática histórica exige? A justificativa que o autor apresenta consiste no diálogo entre passado e presente que a história possibilita. A história permite um “papo” entre dois mundos diferentes, uma visualização do passado pelo presente. Assim, enriquece a vida no presente, fazendo com que este não seja vivido, experimentado de forma solitária, desconexa e solto no ar. O dialogo promovido pela historia desanestesia o presente. Portanto, Bloch dá razões de ser para história bastante relevantes; A) caráter distintivo e constitutivo da civilização ocidental. B) a história toca o espírito humano, deleitando-o. C) põe em contato os mortos com os vivos.

Febvre compartilha a mesma visão de Bloch. Para ele, a história possui uma clara função social; organizar o passado. Continuando com os historiadores dos Annales, Reis mostra as opiniões de Duby e Le Goff. Ambos reivindicam a importância da história. O primeiro afirma que a história ensina a duvida metódica, a questionar a realidade, aguçando olhar crítico sobre o presente. Já Le Goff grita a incorporação da história a toda atividade intelectual, pois ela é o conhecimento de toda criação. Para contrastar um pouco, Reis apresenta a visão de Veyne, o qual afirma que a história é apenas uma atividade de conhecimento, algo frio que encontra razão de ser no sujeito.

Sendo assim, o autor finaliza seu livro defendendo uma legitimidade e utilidade para a história. O simples fato de o homem existir já demonstra uma legitimidade para a história, uma vez que se faz necessário uma problematização, um estudo sobre tal ser. A história fornece tal estudo. Ademais, o historiador é uma espécie de mediador entre o passado e o presente. Sua ação faz com que a finitude humana pareça menos incerta e estonteante.  
 

Referência Bibliográfica

REIS, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência. 3.ed., 1 reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

 



[1] Aluno do 4º período de história da UFRN. E-mail: diego5739@gmail.com