ISSN 1807-1783                atualizado em 30 de dezembro de 2008   


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Os estudos históricos sob investigação: panorama das vicissitudes interpretativas do debate acerca história como verdade ou ficção (Parte 1)

por Julierme Sebastião Morais Souza

Sobre o autor [1]

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O Sentido de um acontecimento para sua posteridade, enquanto se difere de seu sentido para a sua própria época ou de suas causas, está perpetuamente aberto a revisões. [...] A história, em suma, é inacabada no sentido de que o futuro sempre utiliza seu passado de novas maneiras.

 

Peter Gay

 

Este ensaio converge para uma área problemática, porém, muito reflexiva. Abordar o estatuto do texto histórico, por vezes encarado como ciência, por outras, como ficção, não é tarefa simples, bem como não é novidade nos estudos históricos. O movimento de auto-reflexão dos historiadores acerca da disciplina histórica remonta a Heródoto e Tucídides, sobretudo, quando o segundo colocou em suspensão a veracidade da história por Heródoto, já que este se baseava em testemunhos orais (considerados manipuláveis). Entretanto, buscaremos mapear os debates sobre o estatuto do texto histórico - norteado pelo questionamento do caráter epistemológico da história, especialmente, em torno da questão da narrativa - na chamada “Nova história” das décadas de 1970 e 1980[2], período considerado reacionário contra os paradigmas tradicionais, em que a história, seja cultural, política ou cultural, foi conduzida a introduzir novos questionamentos e reintroduzir alguns mais antigos.

Para tal pretensão, a discussão evocará alguns estudiosos que balizam teoricamente a investigação epistemológica da “construção” dos discursos históricos (narrativa histórica). Dentre eles situam-se, Michel Foucault, Paul Marie Veyne, Hayden White, Roger Chartier, Michel de Certeau e Peter Gay. Obviamente, sabemos que muitos teóricos que se manifestaram sobre o tema em voga foram excluídos de nossa abordagem, não obstante, também sabemos que é quase um truísmo afirmar que a justificativa disso é pautada na explicação de que somos levados a fazer escolhas, e que estas são influenciadas pelo local social e contexto de escrita do texto. Assim, desde já, gostaríamos de evidenciar o caráter panorâmico de nossas explanações, pois as premissas desses teóricos são demasiadamente instrumentalizadas na historiografia corrente, sua utilidade é de inegável valor teórico e indiscutível universo de sugestões, porém, mensurar os limites destas contribuições seria arbitrário de nossa parte; desse modo, acreditamos que a escolha da visão panorâmica tem sua pertinência justificada.

Para iniciarmos a discussão podemos trazer para centro do debate o filósofo que se fez historiador Michel Foucault, cujas perspectivas desde a década de 1960 chamavam a atenção dos estudiosos para que a realidade a ser estudada, incondicionalmente, seria produção de discursos e práticas e não pela sociedade[3]. Dando demasiada ênfase à linguagem, em diversos de seus trabalhos o estruturalista aborda a necessidade de ampliação da noção de discurso, a fim de torná-lo visto como a ordenação dos objetos e relações de poder[4]. Em sua obra As palavras e as coisas[5], Foucault trabalha o estatuto da linguagem e a maneira como sistemas de pensamento são elaborados no interior das sociedades com o decorrer de determinados períodos. Adentrando ao campo epistemológico, especificamente no décimo capítulo intitulado “As ciências humanas”, o filósofo aborda a história tecendo imensuráveis contribuições.

Foucault começa abordando o lugar da história entre os meios de conhecimento afirmando:

 

Com efeito, ela talvez não tenha um lugar entre as ciências humanas nem ao lado delas: é provável que entretenha com elas relação estranha, indefinida, indelével e mais fundamental do que o seria uma relação de vizinhança num espaço comum[6].

 

Dessa forma, o filósofo delineia um lugar complexo para a história, um lugar que não pode ser confundido dentro das ciências humanas, muito menos evidenciado por uma relação de vizinhança comum, mas, sim, mais importante do que isso. Por conseguinte, inicia sua corrosiva análise do primado da descontinuidade cotejando uma epistémê clássica de história e uma epistémê moderna, surgida no começo do século XIX. Na epistémê clássica, de acordo com Foucault, uma grande história, plana, uniforme em cada um de seus pontos, garantia a todos os homens, coisas e animais um mesmo ciclo, entretanto, com o surgimento de uma epistémê moderna no século XIX, aquela unidade clássica foi fraturada, fazendo surgir historicidades variadas.

 Em meio a esta variedade de historicidades, segundo Michel Foucault, uma representação das coisas não conseguia mais carregar consigo temporalidades unívocas, assim, o pensamento moderno voltou-se para sua própria historicidade, encontrando campo nos domínios de uma auto-analise em termos históricos. Desse modo, com a fratura provocada na epistémê clássica, o pensamento moderno naturaliza a historicidade pensando sua história com “leis internas de funcionamento e que sua cronologia se desenvolve segundo um tempo que decorre primeiramente da sua coerência singular”[7]. Nesse sentido, a análise Foucaultiana encontra características políticas e sociais introduzidas pela epistémê moderna. Para o autor,

 

[...] supõe-se que, a partir daí, estendeu-se a historicidade descoberta no homem aos objetos que ele fabricara, à linguagem que falava e, mais longe ainda, à vida. O estudo das economias, a história das literaturas e das gramáticas, enfim, a evolução do ser vivo, nada mais seriam que o efeito de difusão, em regiões do conhecimento cada vez mais longínquas, de uma historicidade descoberta primeiramente no homem. Na realidade, foi o contrário que se passou. As coisas receberam primeiro uma historicidade própria que as liberou deste espaço contínuo que lhes impunha a mesma cronologia que aos homens. (Grifo nosso) [8]

 

Tais contribuições de Foucault adentram ao campo epistemológico de análise das relações de verdade e poder incitando a problematização de como são instaurados e constituídos os regimes de verdade. Em outras palavras, para Michel Foucault, no século XIX o homem deixa de ser sujeito construtor de historicidade única, sendo perpassado por diversas historicidades, não mais irradiando o mundo. Assim, o homem do início do século XIX não tem mais história, não é o sujeito da história e, portanto, é desistoricizado. Tal desistoricização do homem, segundo Foucault, fez como que este buscasse sua historicidade, “uma historicidade que lhe estivesse ligada essencialmente”[9], porém, essa historicidade do homem moderno, desde o início, se demonstra ambígua; por um lado, carrega consigo continuidades e descontinuidades, fugindo ao sujeito, por outro, faz-se necessária para o seu fazer como sujeito histórico.

Dessa maneira, segundo Foucault, o homem que se constitui como sujeito da história somente pela supervalorização das coisas e das palavras, invertendo a relação de simples passividade, exercendo sobre a linguagem uma pressão interior, na qual a história do próprio homem, antes escondida atrás da história das positividades ganha foco[10]. Este movimento exercido sobre a linguagem permite ao homem conquistar sua própria historicidade e, conseqüentemente, sua própria história, facultando-o desdobrar a partir de sua história, a história das coisas, dos objetos, das disciplinas e demais histórias.

Com efeito, o cerne das críticas Foucaultianas atinentes à história, é direcionado ao historicismo do século XIX que, para Foucault, desconsidera as demais historicidades envoltas ao homem, que na sua inter-relação com a historicidade própria do homem, são a “mola propulsora” de uma construção do sujeito histórico possuidor de historicidade. Em outros termos, a continuidade e a descontinuidade entremeadas formam a historicidade do homem, porém, são desconsideradas pelo historicismo. Em suma, a importância das idéias engendradas por Foucault nos faculta pensar que as várias possibilidades de construção de verdade passam por um construto da linguagem/discurso, que para além de construir o sujeito, obviamente, também percorre os domínios da discussão sobre o estatuto de verdade em história. Ou seja, o estatuto do texto histórico é colocado em suspensão.

Dentre os “historiadores de ofício”, talvez, Paul Marie Veyne seja o primeiro a demonstrar claramente a influência de Michel Foucault na discussão acerca da legitimidade do texto histórico. Em um ensaio de 1971, sugestivamente intitulado Como se escreve a história [11], o autor, com muito vigor crítico, edifica sua acusação à prática dominante na historiografia questionando o que seria a história. Segundo Veyne, a história narrando fatos constitui um discurso que pretende dar conta de explicar os acontecimentos numa seqüência lógica em uma narração verídica. Assim, essa pretensão de verdade da história não é descartada por Veyne, porém, o historiador coloca sob suspeita o paradigma da história como verdade sobre o passado afirmando que o lastro seguido pelo historiador não é por si só a verdade, mas, sim, a produção de um discurso que classifica, seleciona, e normaliza a história. Com isso, Veyne chega à definição de história em sua relação com o romance afirmando,

 

A história é uma narrativa de eventos: todo o resto resulta disso. Já que é, à primeira vista, uma narrativa, ela não faz reviver esses eventos, assim como, tampouco o faz o romance; o vivido, tal como ressai das mãos do historiador, não é o dos atores; é uma narração, o que permite evitar alguns falsos problemas. Como o romance, a história seleciona, simplifica, organiza, faz com que um século caiba numa página, e essa síntese da narrativa é tão espontânea quanto a da nossa memória, quando evocarmos os dez últimos anos que vivemos[12].

 

Em grande medida, Paul Veyne problematizando a legitimidade do texto histórico enquanto ciência coloca à prova seu estatuto como puro e objetivo. Para o historiador, a história como narração organizada numa trama compreensível, marcada pelo acaso, por causas, pelo cotidiano, se contrapõe ao mundo científico regido por normas e generalização de leis. Em outros termos, a história para Veyne não é ciência na medida em que busca compreensão dos acontecimentos cotidianos sem método específico, enquanto a ciência persegue a formulação de leis gerais.

 Insistindo na aproximação da história à ficção, Veyne coteja a narrativa do historiador à do romancista, o que, de fato, levanta questões acerca do caráter subjetivo da história, em seus modos de organizar, selecionar e produzir fatos. Nesse sentido, Veyne aprofunda-se na abordagem esboçando que os eventos apreendidos pela história nunca aparecem de modo completo e direto, mas, sim, por meio de documentos e testemunhos parciais, sendo estes, portanto, apenas indícios[13]. Por conseguinte, partindo desse pressuposto de incompletude dos eventos, o historiador destaca o caráter lacunar da história na medida em que os documentos não são os próprios eventos, mas, indícios, pelos quais o sujeito do conhecimento histórico, no caso o historiador, arma sua trama/intriga. Automaticamente, somos levados a considerar que o fato histórico é produção mediante documentos, todavia, efeito de uma trama/intriga urdida pelo historiador. Dessa maneira, o fato para Veyne não existe senão a trama/intriga; ou seja, a narrativa urdida pelo historiador é que da vida aos fatos históricos, trazendo-os, assim, a público.

À luz de um exame adequado notamos que esta posição de Veyne, evidentemente, leva em consideração aspectos artísticos e, portanto, ficcionais do processo de urdidura da narrativa histórica, pois o historiador formula a aproximação da narrativa histórica à ficção, precisamente, ao romance. Conforme a exposição de Paul Veyne podemos pensar no sujeito do conhecimento histórico como sujeito que possui internalizado em si uma  das perspectivas  possíveis de urdir a narrativa, ou seja, a trama/intriga é interna ao sujeito[14]. Em conseqüência disso Veyne argumenta:

 

A história não explica, no sentido de que ela não pode deduzir e prever (só um sistema hipotético-dedutivo pode fazê-lo); essas explicações não são a volta a um princípio que tornaria o acontecimento inteligível, elas são o sentido que o historiador dá à narração[15].

 

Em outros termos, sinteticamente, quem atribui sentido aos fatos é o sujeito do conhecimento histórico.

Seguindo essa linha de raciocínio, Paul Veyne trilha um caminho ardiloso ao aproximar de maneira, digamos, bastante perigosa a história da ficção, e, desse modo, abre passagem para diversas discussões epistemológicas concernentes ao estatuto do texto histórico. O primeiro a manifestar-se antes mesmo de Veyne foi Hayden White, precisamente na década de 1960, com seu no ensaio “O fardo da história”, todavia, o mesmo ganhou maior notoriedade e inaugurou uma grande “polêmica” nos debates da década de 1970 quando arregimentado a outros ensaios de sua autoria na obra Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura[16].

No idiossincrático ensaio, a chave de entrada de White nos debates da década de 1970 é um forte golpe nos historiadores. Logo nas primeiras linhas do texto White afirma que os historiadores, ao serem questionados pelos cientistas sociais ─ sobre a amenidade do método, a imperfeição do sistema de metáforas ou a ambigüidade das pressuposições sociológicas ou psicológicas ─, respondem que a história não reivindica o status de ciência pura, que a disciplina depende de métodos intuitivos e analíticos. Entretanto, ao serem questionados pelos literatos ─ em sua incapacidade de sondar as camadas mais sombrias da consciência humana e a relutância em utilizar modelos mais contemporâneos de representação literária ─, voltam a concepção de que a história é uma semiciência, de que os dados históricos não podem ser manipulados artisticamente, e de que a forma narrativa é imposta pela própria natureza da matéria histórica[17]. Dessa maneira, criticando o modo com que esses profissionais lidam com essas críticas, White demonstra um quadro no qual a reivindicação dos historiadores por uma localização da história em um plano médio entre a arte e a ciência e, portanto, “epistemologicamente neutro”, mantém uma síntese harmoniosa entre arte e ciência dentro da disciplina, sobretudo, faculta aos historiadores se desvencilharem das críticas mais ferrenhas sobre seu método e, ao mesmo tempo, coagir as acusações de repressão da sensibilidade dos agentes históricos.

Tomando por base essas asserções, o teórico expressa:

 

Entre os historiadores contemporâneos, percebe-se uma suspeita cada vez maior de que essa tática atua essencialmente para impedir considerações mais sérias dos avanços significativos operados na literatura, na ciência social e na filosofia do Século XX. E parece estar tomando estar tomando vulto entre os não-historiadores a opinião de que, longe de ser o mediador desejável entre arte e a ciência que ele reivindica ser, o historiador é o inimigo irremissível de ambas. Em resumo, avulta em toda a parte um ressentimento motivado pelo que parece ser a má fé do historiador em reivindicar os privilégios tanto do artista quanto do cientista, ao mesmo tempo em que recusa submeter-se aos modelos críticos que atualmente vão sendo estabelecidos na arte e na ciência. (Grifo nosso)[18]

 

O historiador como “inimigo irremissível” da arte e da ciência. As palavras de White ecoaram sensivelmente sobre a estrutura metodológica e epistemológica do texto histórico e, evidentemente, perpassaram o simples tom de contestação, atingindo os princípios teórico-metodológicos que balizaram as carreiras de diversos historiadores. Quanto ao ressentimento concernente à história por parte dos não-historiadores, segundo White existem duas causas primordiais: a oposição da historiografia à auto-análise crítica provocada por uma simulação de ingenuidade metodológica; e um consenso geral entre os pensadores contemporâneos de que a clivagem tradicional entre arte e ciência como meios de compreender o mundo assim como os historiadores concebem, não mais é evidente, bem como a trivial necessidade de um mediador entre ambas.

White coloca a historiografia em uma posição bastante incomoda, pois ao expor aos historiadores da segunda metade do século XX a algumas tarefas que possibilitariam a história seguir um lastro frutífero a sua auto-redefinição, afirma:

 

Precisam preparar-se para alimentar a idéia de que a história, tal como se costuma concebê-la, é um tipo de acidente histórico, um produto de uma situação histórica específica, e de que, desfeitos os mal-entendidos que deram origem a essa situação, a história talvez perca a sua condição de modo de pensamento autônomo e autolegitimador. É bem possível que a tarefa mais difícil que a atual geração de historiadores é chamada a realizar seja expor o caráter historicamente condicionado da disciplina histórica, presidir à dissolução da reivindicação de autonomia que a história mantém com respeito às demais disciplinas e promover a assimilação da história a um tipo superior de investigação intelectual que, por estar fundada numa percepção mais das semelhanças entre arte e ciência que das suas diferenças, não pode ser adequadamente assinada nem por uma nem por outra. (Grifo nosso)[19]

 

Em outros termos, é proposto um movimento de interdisciplinaridade que parta da história, bem como uma autocrítica que assuma sua verdadeira natureza, mais pautada mais nas semelhanças entre arte e ciência que, propriamente, nas diferenças, exaustivamente expressadas pelos historiadores. Por conseguinte, com maior “fôlego” na análise e demonstrando muita erudição, White consegue delinear um mapa da querela entre ciências sociais e história e traçar um esboço das críticas dos literatos à “suposta” repressão da sensibilidade nos estudos históricos e sua inadmissível defesa do passado como essencial a toda experiência humana. Para tanto, evocando um respeitável elenco de escritores que inclui, dentre outros, Thomas Mann, Jean-Paul Sartre, Camus, Proust, Ernst Jünger, Valéry e Kafka, argumenta que,

 

[...] para um seguimento significativo da comunidade artística, o historiador parece ser o portador de uma doença que foi ao mesmo tempo a força motriz e a nêmese da civilização do século XIX. É por isso que grande parte da ficção moderna gira em torno da tentativa de libertar o homem ocidental da tirania da consciência histórica. Ela nos diz que somente libertando a inteligência humana do senso histórico é que os homens estarão aptos a enfrentar os problemas do presente[20].

 

Com efeito, Hayden White conclui seu ensaio evidenciando a necessidade de uma história que possa ser “[...] mediadora entre o que é e o que os homens acham que deveria ser, exercendo efeito verdadeiramente humanizador”[21]. E ainda que, “[...] enquanto se recusar a usar os olhos que tanto a arte moderna quanto a ciência moderna lhe podem dar, ela haverá de permanecer cega”[22].

As questões concernentes à legitimidade do texto histórico, suas diversas nuances de abordagem e a “possível” natureza da narrativa histórica são encarados nesta obra de White como em nenhuma outra. Assim, com o ensaio “O texto histórico como artefato literário”, também publicado em Trópicos do discurso, podemos resumir bem as posições do teórico:

 

Uma das marcas do bom historiador profissional é a firmeza com que ele lembra a seus leitores a natureza puramente provisória das suas caracterizações dos acontecimentos, dos agentes e das atividades encontrados no registro histórico sempre incompleto. E tampouco quer dizer que os teóricos da literatura nunca estudaram a estrutura das narrativas históricas. Mas de modo geral houve uma relutância em considerar as narrativas históricas como aquilo que elas manifestamente são: ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas tem mais em comum com os seus equivalentes na literatura do que com os seus correspondentes nas ciências[23].

 

Hayden White, dessa forma, aponta que a história é um tipo de artefato verbal em prosa, sobre o qual não existe método específico por parte de quem o escreve, no caso o historiador. Ao mencionar o conceito de representação, White esboça que a história seria uma representação do passado, do mesmo modo que as fontes utilizadas pelos historiadores também seriam. E ao enfatizar que o efeito explicativo da história depende em grande medida da urdidura de enredo fabricada pelo historiador, White aproxima-se muito da noção de trama/intriga de Paul Veyne, entretanto, atribuindo demasiada importância à urdidura de enredo fabricada pelo historiador, que, de acordo com o teórico, se constitui no cerne do texto histórico. Sobre esta urdidura de enredo White afirma:

 

Os acontecimentos são convertidos em estória pela supressão ou subordinação de alguns deles e pelo realce de outros, por caracterização, repetição do motivo, variação do tom e do ponto de vista, estratégias descritivas alternativas e assim por diante ─ em suma, por todas as técnicas que normalmente se espera encontrar na urdidura de enredo de um romance ou de uma peça[24].

 

A supressão, o realce, o tom, o ponto de vista, todos, irrefreavelmente, fazem parte do repertório do historiador. Portanto, há uma “suposta” indistinção entre os documentos utilizados pelos historiadores e os textos estudados pelos críticos literários. Convém ressaltar que neste ensaio o duro golpe desferido nos historiadores, antes de tudo, fundamenta-se em uma argumentação que desconsidera qualquer tipo de método em história, sobretudo, naquilo que elide a grande preocupação dos historiadores no trato dos documentos, e não na indistinção entre história e literatura, pois o teórico não suprime a capacidade de conhecimento por parte de ambas. Vejamos:

 

Do mesmo modo, dizer que conferimos sentido ao mundo impondo-lhe a coerência formal que costumamos associar aos produtos dos escritores de ficção não diminui de maneira nenhuma o status de conhecimento que atribuímos à historiografia. Só diminui se acreditássemos que a literatura não nos ensinou algo acerca da realidade, por ter sido o produto de uma imaginação que não era deste mundo, mas de outro, de um mundo inumano. (Grifo nosso)[25]

 

A indistinção entre história e literatura na teoria de White somente toma corpo, digamos, bastante teórico-metodológico na obra já citada em nota, Meta-história: a imaginação histórica do século XIX[26], quando o teórico, agredindo em pontos formais os estudos históricos encara o trabalho do historiador em seu nível de manifestação como: “[...] uma estrutura verbal na forma de um discurso narrativo em prosa que pretende ser um modelo, ou ícone, de estruturas e processos passados no interesse de explicar o que eram representando-os”[27].

A partir de uma análise formalista[28] de clássicos do pensamento europeu do século XIX ─ historiadores: Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt; e filósofos da história: Hegel, Marx, Nietzsche, Crocce ─, White problematiza a estrutura da imaginação histórica, ou seja, os princípios interpretativos nos quais se baseia o trabalho histórico. Desse modo, é importante ressaltar o que teórico denomina por trabalho histórico e em quais elementos o divide:

 

As histórias (e filosofias da história) combinam certa quantidade de “dados”, conceitos teóricos para “explicar” esses dados e uma estrutura narrativa que os apresenta como um ícone de conjuntos de eventos presumivelmente ocorridos em tempos passados. Além disso, digo eu, eles comportam um conteúdo estrutural profundo que é em geral poético e, especificamente, lingüístico em sua natureza, e que faz do paradigma pré - criticamente aceito daquilo que deve ser uma explicação eminente “histórica”. Esse paradigma funciona como o elemento “meta histórico” em todos os trabalhos históricos que são mais abrangentes em sua amplitude do que a monografia ou o informe de arquivo. (grifo nosso)[29]

 

Em outros termos, certa quantidade de dados, conceitos teóricos que os explique e uma estrutura narrativa de essência profundamente poética, constituem, assim, o trabalho histórico. Nesse sentido, Hayden White defende que os trabalhos historiográficos são sempre ficções com pretensão de verdade, construindo-se a partir de “metahistórias” que entrecruzam de maneira sistematicamente articulada, concepções ideológicas, modos de interpretação e modos de urdir o enredo. Assim, uma combinação específica, não indiscriminada, de concepção ideológica, interpretação e urdidura do enredo, constituem o que White denonima “estilo historiográfico”[30].

Na abordagem das estratégias de explicação que os historiadores podem se utilizar para atingir diferentes tipos de impressão explicativa, White divide-as em três modos as denominados: explicação por argumentação; explicação por elaboração de enredo e explicação por implicação ideológica. Para cada estratégia de explicação são enfatizados diferentes modos de articulação do discurso histórico.  Na explicação por argumentação são esboçados, o formismo, o organicismo, o mecanicismo, e o contextualismo; na explicação por elaboração de enredo são apresentadas, a estória romanesca, a comédia, a sátira e a tragédia; e para a explicação por implicação ideológica são enfatizados, o anarquismo, o conservadorismo, o radicalismo, e o liberalismo[31].

Com rigor, White postula um nível profundo de consciência, no qual o historiador escolhe suas estratégias. Esse nível profundo é considerado por White essencialmente poético e denominado como prefiguração do campo histórico. Desse modo, vide argumentação é necessário uma longa passagem da análise do teórico:

 

Os relatos históricos se querem modelos verbais, ou ícones, de segmentos específicos do processo histórico. Mas tais modelos são necessários porque o registro documental não apresenta uma imagem não equívoca da estrutura dos eventos nele atestados. A fim de imaginar “o que realmente aconteceu” no passado, portanto, deve primeiro o historiador prefigurar como objeto possível de conhecimento o conjunto completo de eventos referidos nos documentos. Este ato prefigurativo é poético, visto que é precognitivo e pré-crítico na economia da própria consciência do historiador. É também poético na medida em que é constituído da estrutura cuja imagem será subseqüentemente formada no modelo verbal oferecido pelo historiador como representação e explicação daquilo “que realmente aconteceu” no passado. Mas é constituído não somente de um domínio que o historiador pode tratar como possível objeto de percepção (mental). É também constituído dos conceitos que empregará para identificar os objetos que povoam aquele domínio e caracterizar os tipos de relações que eles podem manter entre si. No ato poético que precede a análise formal do campo o historiador cria seu objeto de análise e também predetermina a modalidade das estratégias conceptuais de que se valerá para explicá-lo. [...] Em suma, a teoria dos tropos fornece-nos uma base para classificar as formas estruturais profundas da imaginação histórica num dado período de sua evolução. (Grifo nosso)[32]

 

Diante disso, White articula sua abordagem sublinhando aspectos sobre os documentos, que segundo ele, não apresentam uma imagem inequívoca do passado, na medida em que, o historiador com fito de imaginar o que realmente aconteceu, prefigura o campo histórico em um ato considerado essencialmente poético. Assim, o teórico adentra a discussão acerca do sujeito do conhecimento histórico distanciando muito da proposta de Paul Veyne. Segundo White, o sujeito do conhecimento histórico está exposto há pré-figurações literárias externas a si, que direcionam seu labor. Obviamente, as escolhas são do historiador, entretanto, são escolhas por “prefigurações”, por tropos da linguagem, que do ponto de vista formalista estão prontos.

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[1] Graduado em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) onde é Mestrando pelo Programa de Pós Graduação em História (PPHIS) e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC).

[2] Segundo Peter Burke, para muitos a “Nova história” associa-se aos Annales, para alguns, uma nova historiografia surgiu com a escola Rankeana do século XIX, e ainda, para outros, as tentativas de se fazer uma história mais abrangente remontam a sociólogos do século XIX (Conte, Spencer e Marx) e até mesmo historiadores do iluminismo como Voltaire, Gibbon, Vico e outros. Cf. BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editora da Unesp, 1992.

[3] FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

[4] _______A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

[5]_______ As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução: Salma Tannus Muchail. 2ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

[6] Ibid., p. 384.

[7] FOUCAULT, 1981, p. 385.

[8] Ibid., loc. cit.

[9] Ibid., p. 386.

[10] Ibid., p. 386-387.

[11] VEYNE, Paul. Como se escreve a história: Foucault revoluciona a história. Brasília: Editora da UNB, 1982.

[12] Ibid., p. 11.

[13] Ibid., p. 12.

[14] Ao contrário do pensamento de Hayden White que, ao enfatizar o papel do sujeito construtor da narrativa histórica, esboça uma teoria em que há pré-figurações literárias externas ao sujeito do conhecimento histórico que direcionam o trabalho do historiador. C.f. WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 1992.

[15] VEYNE, 1982, p. 53.

[16] WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: EDUSP, 1994.

[17] Ibid., p. 39.

[18] WHITE, 1994, p. 40.

[19] WHITE, 1994, p. 41.

[20] Ibid., p. 52.

[21] Ibid., p. 63.

[22] Id.  

[23] WHITE, 1994, p. 98.

[24] Ibid., p. 100.

[25] Ibid., p. 115.

[26] WHITE, 1992.

[27] WHITE, 1992, p. 11.

[28] Termo expresso pelo próprio White ao denominar seu método.

[29] Ibid. loc. cit.

[30] Ibid., p. 43.

[31] Ibid., p. 12.

[32] WHITE, 1992, p. 45.