ISSN 1807-1783                atualizado em 07 de janeiro de 2009   


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Dante e o amor cortês

por Michel Silva


Dante Alighieri
Foto de Wikipedia

Sobre o autor *

Embora Dante tenha feito na Divina comédia a grande homenagem a sua “dama” Beatriz, colocando-a em destaque no Paraíso, próxima a Deus, é na Vida nova que o poeta narra o caminhar desse amor que tanto marcou sua trajetória pessoal e literária. Vida nova é um pequeno livro, formado por poemas produzidos ao longo de vários anos, articulados pela narrativa dos episódios relacionados ao amor do poeta por Beatriz. Dante, que não desfrutou do convívio mais íntimo com Beatriz, descreve nesse texto uma mulher que, embora com uma existência concreta, encarna o símbolo de mulher e de amor ideais da época. Essa é a razão pela qual hoje não temos condições de conhecer quem realmente foi Beatriz; os registros que temos de sua vida são os escritos de Dante, onde aparece a imagem de uma Beatriz idealizada pelo poeta.

Essa Beatriz imaginada é parte de um contexto bastante específico, no qual o lirismo refletia fielmente, quando não exacerbava, aquela concepção medieval e cavalheiresca do culto à mulher, a qual era exaltada, num plano de idealidade e sublimação, como se se tratasse não de uma criatura física, mas de uma abstração, um símbolo dos sentimentos e aspirações a que as regras de cortesia impunham uma expressão peculiar, de extrema delicadeza e reverência (MARTINS, 2003, p. 40).

Dante associou a imagem de Beatriz a uma idéia específica de amor; em sua obra, beleza e amor caminham juntos, pois são originários de Deus. Beatriz não apenas está próxima dessa divindade também imaginada, como também se confunde, bela e bondoso, com esse amor. “Amor me move: Só por ele eu falo” (DANTE ALIGHIERI, 1984, p. 114), diz Beatriz, na Divina Comédia, quando pede ao poeta latino Virgílio que vá socorrer Dante, perdido no Inferno. Pode-se perceber em Dante uma idéia, comum na época, de “elevação” pelo amor:

Os sábios da Idade Média acreditavam que, à medida que se afastavam da Terra, elevando-se em direção a Deus, as esferas celestes se tornavam sucessivamente mais puras e “etéreas” em virtude de sua crescente proximidade do Ser Supremo (WERTHEIM, 2001, p. 41).

O amor, associado à divindade, tornava-se um caminho de salvação para o homem, perdido e sem rumo, aproximando essa alma da divindade: “quanto mais próximo de Deus estava um lugar, mais nobre era considerado, ao passo que quanto mais afastado Dele estivesse, menos participaria supostamente da graça divina” (WERTHEIM, 2001, p. 41). Tal fato fica demonstrado pela construção que faz Dante dos espaços visitados na Divina comédia: o Inferno é uma fenda dentro da Terra, o Purgatório é uma montanha na superfície dela e o Paraíso coincide com as estrelas. Nessa obra, o poeta está perdido no Inferno, extraviado do “bom” caminho.

A meio do caminho desta vida

achei-me a errar por uma selva escura,

longe da boa via, então perdida.

(DANTE ALIGHIERI, 1984, p. 101).

Beatriz, protegida pela misericórdia divina, intervém para ajudar seu amigo, ou seja, fazê-lo novamente caminhar pela estrada que leva a Deus. Pede a dama a Virgílio que ajude Dante a encontrar um caminho de elevação e de luz:

Meu amigo, porém não da ventura,

o seu caminho teve interrompido,

e recua, na encosta erma e insegura.

Receio que ele esteja tão perdido

que esta ajuda a destempo vá prestada,

por tudo o que no céu eu tenho ouvido.

(DANTE ALIGHIERI, 1984, p. 114).

Virgílio é homem de grande sabedoria e valor. Estava no inferno apenas porque, tendo nascido antes de Cristo, não pôde seguir o rito da Igreja Católica e, portanto, conhecer o Deus dessa religião. Virgílio, chamado “mestre”, leva o poeta pelo Inferno e pelo Purgatório, deixando-o às portas do Paraíso, onde não poderia entrar.[1] Desse ponto em diante, até Deus, é a Beatriz que caberá guiar o poeta.

Beatriz não precisou que a Divina Comédia fosse escrita para que tivesse um assento junto a Deus; em Vida nova é enunciado que Beatriz está no “grande século”, o Paraíso. Por volta de 1092, sob o impacto da morte da musa, Dante concluiu Vida Nova. Os poemas que compõem a obra vinham sendo tornados públicos desde 1083. Criou-se inclusive uma certa curiosidade sobre a identidade dessa musa que vinha inspirando tão belos versos, musa essa sempre associada ao amor e, a partir de certo momento, divinizada pelo poeta, que, antes da morte da morte de Beatriz, dizia:

Um anjo clama na razão divina,

E diz: “Senhor, entende-se, no mundo,

Que seja maravilha o que provém

De uma alma tal que até no céu resplandece”.

E o Céu, que não possui outro defeito

Que o de não tê-la, ao seu senhor pede,

E cada santo grita por mercê.

(DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 113).

Depois da morte de Beatriz, diz o poeta:

Que de sua humildade a luz intensa

Atravessou os céus com tanta força

Que ao eterno senhor fez maravilha

Tal que o doce desejo

Lhe veio de chamar tanta virtude;

E fê-la ir habitar junto de si,

Pois viu que esta vida tormentosa

Não merecia coisa tão gentil.

(DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 134).

Uma imagem que Dante constrói de Beatriz é sua associação com Deus, o que não significa dizer que Beatriz encarna Deus. Dante quer mostrar que sua musa encarna aquele que é a principal manifestação divina, o amor. Essa ligação fica mais evidente na Divina comédia, por meio das aparições que Beatriz vai fazendo ao longo dos vários cantos do Paraíso. Na Vida nova tal ligação também ocorre, embora não de pronto, pois Dante começa falando de um amor carnal (ou que poderia ter alguma materialidade) para evoluir à elevação divina do amor e de sua amada.[2]

Nesse ponto, Dante não estava isolado, sendo essa compreensão de amor produto das mudanças que vinham ocorrendo desde o século XII na Europa. No filósofo Abelardo há a compreensão de que o amor “é uma vontade boa em relação ao outro”, nesse sentido não sendo possível falar “amor voltado para Deus se se ama para si, não por ele, e se pomos em nós, não nele, o fim de nossa intenção” (apud DUBY, 2001, p. 104-5).

São Bernardo, outro importante pensador medieval, escrevendo por volta de 1106, quando fala da sublimação dos desejos, afirma que

em um primeiro tempo, o homem estima a si próprio. O apetite tem necessariamente sua origem no mais profundo do carnal. Somos carne. Deus se fez carne e a reabilitou. Ela constitui todo o fundo sobre o qual toda espiritualidade se erige. Depois, subindo um degrau, o homem chega a amar deus. Mas, de início, de modo egoísta, “para si próprio”, para apropriar-se dele. Elevando-se mais, ele chega a amar deus por deus, e esse é o passo decisivo (DUBY, 2001, p. 105).

Na última etapa, conforme São Bernardo, o homem “esquece-se totalmente, funde-se no objeto de seu desejo”, tendo acesso a um amor considerado “verdadeiro”, que não tem causa nem espera recompensa (DUBY, 2001, p. 105).

Essa forma de amor perpassa a Divina comédia e principalmente Vida nova. Nesta obra descreve-se o caminhar, embora não de uma forma exata, do amor de Dante pelas etapas definidas por São Bernardo. Nos primeiros poemas há grandes saudações e elogios ao amor que sentia o poeta. Ele não se preocupa com Deus ou com um amor que seja superior e etéreo, mas com o sentimento que tomava seu corpo e mente.

Alegre amor me parecia, tendo

Meu coração; e nos seus braços ia,

Envolta, minha amada adormecendo.

(DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 94).

Depois, passa a elogiar sua dama, destacando suas qualidades, que fazem de Beatriz uma alma que certamente se dirigiria ao Paraíso.

Minha amada deseja-se no céu

Quero, pois, que saibais sua virtude.

Quem queira gentil dama parecer,

Com ela à rua vá, que, quando passa,

Coloca Amor em peito vil um gelo,

Pelo qual todo sentimento morre;

(DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 113).

Depois de sofrer com a morte de Beatriz, de desejar a própria morte em função de não ter mais a presença corpórea da musa, a Dante aparece uma visão, “na qual vi coisas que me fizeram propor-me não mais falar dessa abençoada, enquanto não pudesse mais dignamente ocupar-me com ela” (DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 148). Em poucos anos, Dante começou a escrever a Divina comédia.

Um importante elemento para se compreender Vida nova é o que foi chamado “fino amor”, modelo de união sentimental e corporal entre pessoas de sexos diferentes surgido no século XII, na França, presente em certos poemas elaborados para o divertimento de várias cortes européias. Ele se propagou,  conforme Duby (1990, p. 332-4), muito depressa para cortes de outros países, fortificando-se e desenvolvendo-se, vindo a influenciar Dante dois séculos depois. É sob essa influência, embora com grande originalidade, que Dante viria a produzir suas imagens de Beatriz.

Nesse modelo cortês uma “dama” ocupa uma posição central para o homem que a ama. “O que ele vê do seu rosto, o que adivinha da cabeleira, oculta pelo véu, do seu corpo, oculto pelos adornos, perturba-o” (DUBY, 1990, p. 331). Tudo isso, que começa com um olhar lançado, leva o homem a fazer o cerco, sonhando em apoderar-se dessa mulher. Mas ela é esposa de um senhor, muitas vezes do senhor do próprio cavalheiro, sendo este não apenas um vassalo pela hierarquia da sociedade, mas também pelo seu sentimento. Esse homem doa a si mesmo e empenha sua palavra, prometendo não prestar serviço a mais ninguém.

O excitante deste jogo vinha do perigo a que se expunham os parceiros. Amar de fino amor era correr aventura. Obrigado à prudência, e sobretudo à discrição, tinha que se exprimir por sinais, edificando no seio da confusão doméstica a clausura de uma espécie de jardim secreto, e fechar-se com a sua dama nesse espaço de intimidade (DUBY, 1990, p. 332).

Dante, diante do primeiro encontro e dos gestos delicados de cumprimento de Beatriz, começou a produzir poemas que falavam de uma bela dama e do amor que sentia, mas não revela o nome de sua querida amada. O poeta se coloca como um vassalo desse amor, entregando a ela seu coração. Contudo, o mistério, cujas razões concretas podemos apenas deduzir, acabou sendo deletério ao poeta, quando ele procurou enganar aos demais se mostrando interessado por outra dama da cidade.[3] “Os rumores sobre o seu novo idílio chegaram, certamente, até Beatriz, que, passando algum tempo depois por ele, na rua, recusou-lhe o esperado e desejado cumprimento” (MARTINS, 1984, p. 41).  Essa cena é assim descrita por Dante, com tristeza:

E, por isso, isto é, por causa da excessiva murmuração que parecia me infamar de vicioso, aquela gentilíssima, que foi destruidora de todos os vícios e rainha das virtudes, passada por certo lugar, negou-me a sua dulcíssima saudação, na qual estava toda a minha beatitude (DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 101).

Embora tenha sido na Divina Comédia que Dante conseguiu dizer de Beatriz “o que nunca se disse de nenhuma [dama]” (DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 148), não é possível entender a construção da imagem acerca de Beatriz ou mesmo esse monumento a ela dedicada sem ler Vida nova. É obra menor na carreira do poeta, sem o mesmo rigor filosófico e a construção poética da Divina comédia, e marcada por um forte espírito juvenil. Também, conforme Martins (1984, p. 38-9), Dante escreveu os primeiros sonetos da Vida nova quanto tomava contato com a construção dos versos.

Certamente não era possível repetir na Florença de fins do século XIII o modelo cortês surgido na corte francesa do século anterior. Num continente em movimento, aos poucos apareciam novas formas de organização das cidades, novas classes, novas idéias, sendo a futura Itália, conforme Duby (1989, p. 173), um lugar bastante destacado nesse aspecto:

Na Itália de 1300 para onde se transferira o forte da inovação, não são os camponeses, nem os guerreiros, nem os padres que dominam. São os negociantes, os banqueiros, que traficam tudo, especiarias, panos, seda, obras de arte, que emprestam ao rei, que recolhem em toda a cristandade o imposto que o Papa cobra, que para isso formam aquilo a que chamam companhias, presentes através de filiais nas principais praças do comércio.

Pode-se afirmar que uma primeira diferença da produção de Dante em relação às primeiras expressões do “amor cortês” é sua procura por algo superior que lhe sirva de guia espiritual. Na Divina comédia, obra escrita no exílio, procura na Teologia, simbolizada por Beatriz, esse caminho, que deverá necessariamente levar a um estágio superior de vida. Em Vida nova essas preocupações não ficam tão evidentes, embora apareçam em momentos esparsos. Mas, embora seja obra menor, em Vida nova o poeta mostra o caminho que o leva do idealismo do amor cortês a uma compreensão idealista de mundo fortemente marcada pela presença da divindade. Em meio a tudo isso, pode-se ver a Beatriz que pinta Dante, casta, bela, jovem, um modelo feminino perfeito para as idéias da época.[4]

Referências

DANTE ALIGHIERI. A divina comédia. 4ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: INL, 1984, v. 1.

DANTE ALIGHIERI. Da monarquia / Vida nova: texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2003.

DUBY, Georges. A Europa na idade média. Lisboa: Teorema, 1989.

DUBY, Georges. Eva e os padres. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

DUBY, Georges. O modelo cortês. In: KLAPISCH-ZUBER, Christiane (org.). Historia das mulheres no ocidente: A Idade  Média. Porto: Afrontamento, 1990, v. 2.

MARTINS, Cristiano. A vida atribulada de Dante Alighieri. In: DANTE ALIGHIERI. A divina comédia. 4ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: INL, 1984, v. 1.

WERTHEIM, Margareth. Uma história do espaço: de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.


* Graduando em História na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

[1] Sobre Virgílio, é importante destacar que na Divina comédia seu lugar é no Limbo, onde as almas não passam pelas mesmas torturas físicas que nos demais círculos do Inferno. Neste círculo, o primeiro do Inferno, descrito no Canto IV, estão as crianças mortas sem batismo e figuras antigas consideradas sábias, como Homero e Aristóteles. Cf. Dante Alighieri (1984, p. 108-36).

[2] Dante, no início de Vida nova, dizia que, tendo o amor se apoderado dele, “começou a tomar sobre mim tanta segurança e tanta senhoria, pela virtude que lhe dava a minha imaginação, que me convinha satisfazer completamente todos os seus prazeres”. Contudo, ponderava o poeta: “E, se bem que a sua imagem, que continuamente estava comigo, fosse audácia de Amor a se apoderar de mim, todavia era de tão nobre virtude que nenhuma vez tolerou que o Amor se regesse sem o fiel conselho da razão nas coisas em que tal conselho fosse útil de ouvir” (DANTE ALIGHIERI, 2003, p. 92).

[3] Para Martins (1984, p. 40), “os usos e costumes da época não podiam deixar qualquer dúvida ao apaixonado poeta de que aquele era um amor impossível de se realizar segundo os padrões da vida ordinária. Os casamentos se efetuavam, vida de regra, não por escolha pessoal ou inclinação afetiva dos futuros esposos, mas por decisão das famílias, que no propósito de promover uma união conveniente e segura firmavam os compromissos, sem mesmo consultar as partes diretamente interessadas. (...) A um jovem nas condições de Dante, de família modesta, e que sequer havia ensaiado os passos na vida prática, não poderia estar aberta a mínima possibilidade de qualquer sucesso futuro junto à herdeira dos Portinari”.

[4] Duby (2001, p. 160), quando comenta um tratado sobre o amor, escrito por André le Chapelain, chama a atenção: “Da utilidade do amor. A disciplina que ele impõe supostamente torna as mulheres graciosas, desejáveis, sutis, tão discretas quanto acolhedoras, capazes de se dar sem trair seu esposo. O sonho. Quanto aos homens, ficando para trás sua juventude, sabendo daí em diante perfeitamente ‘refrear seu cavalo’, orgulhosos de suas vitórias, já não os divertindo o jogo, chegam, maduros, calejados, a pensar na salvação de sua alma. Nesse momento, André retrai-se, cede o passo aos teólogos”.