Sobre o autor[1]
Este texto foi escrito visando abordar algumas teses que rondam a
Arqueologia no sentido de defini-la conceitualmente. Ao ser perguntado de como
eu definiria a Arqueologia, o que eu poderia dizer? Seria fácil definir
arqueologia com a simples frase: "é a ciência que estuda a história através de
artefatos" ou se ela não fosse uma ciência com um objeto de trabalho definido e
todos nós fossemos arqueólogos como Schliemann que era apenas um comerciante que
viajava pela Europa no início do século e hoje é um nome respeitado entre os
arqueólogos. O fato é que a Arqueologia é uma ciência tentando demarcar seu
território, definindo seu espaço entre as ciências já existentes, respeitando
seus limites e tentando explicar, através de suas técnicas e métodos de
trabalho, o que é um limite para outras ciências como é o caso da sua relação
com a História.
Nesta relação com a História e o que a Arqueologia traz de informações
que estão fora do alcance nos estudos históricos, estamos dando ênfase para a
pré-história (claro que todos nós sabemos que Arqueologia não vive só de
pré-história, ela também estuda objetos de todas as épocas complementando e
aumentando o número de informações que obtemos nos estudos históricos) que não
existia escrita, documentos, o que a impossibilita de ser estudada pela
História, pelo menos sem o auxílio dos arqueólogos. A exemplo disso temos a
história dos povos africanos que tudo que sabemos até hoje sobre a maioria
desses povos se deve muito a Arqueologia que desvenda desenhos rupestres,
objetos entre outros registros que não possuem escrituras devido a inexistência
da forma escrita dos dialetos destes povos. Em "Arqueologia de la
Naturaleza/Naturaleza de la Arqueologia" (Arqueologia da natureza/natureza
da arqueologia), Haber aborda este tema:
Fixar o limite do arqueológico, já incluindo e excluindo o moderno,
implica necessárias decisões que não só vinculam nossas noções de tempo, mas
também nossas idéias sobre a distância na qual mantemos o objeto - curiosa esta
necessidade minha de dizer isto no âmbito de uma disciplina cujos contornos
estão definidos pela Pré-história. (HABER, 2004: pg. 16).
Não deixa dúvidas entre os profissionais e acadêmicos da Arqueologia que
ela teve sua origem na tentativa de desvendar os mistérios da pré-história.
Neste ramo ela se iniciou e vem mostrando sua importância também nos outros
ramos da História como complemento de informações e respostas a questões que não
são respondidas em documentos.
Mas, de fato, o que é a Arqueologia?
No meu ponto de vista, ela estuda sim a História (ao contrário do que
muitos arqueólogos pensam), e é sim uma Ciência Humana. Estuda a História
através dos objetos e restos (sejam restos de matéria humana corpos sejam
objetos fabricados por eles ou resquícios de suas fabricações), deixados por
sociedades que habitaram o local escavado. Ela desvenda os mistérios sobre os
ritos e culturas dos povos que habitavam uma determinada região e também mostra
a sua colaboração para a modificação deste local, de sua natureza.
Numa concepção parecida, ao responder esta mesma pergunta, Funari expõe
seu ponto de vista sobre a Arqueologia em seu texto: O que é Arqueologia?:
[...] não há consensos, sendo a própria Arqueologia uma ciência em
construção. Do meu ponto de vista a Arqueologia estuda os sistemas
socioculturais, sua estrutura, funcionamento e transformações com o decorrer do
tempo a partir da totalidade material transformada e consumida pela sociedade.
[...] tem como objetivo a compreensão das sociedades humanas e, como objeto de
pesquisa imediato, objetos concretos.
(FUNARI, 2003: pg. 16).
É um ponto de vista interessante que complementa o que eu falava a
respeito.
Alguns autores desvinculam a Arqueologia da História (como é o caso de
Binford) alegando que registros arqueológicos não podem ser símbolos, palavras
ou conceitos, são apenas materiais que se distribuíram na natureza e a única
maneira de entendê-los seria averiguando sua origem e como tomaram sua forma
atual.
Seguindo a linha de pensamento de Binford (BINFORD, 1988: pg. 27), eu
poderia escrever A história de uma pedra: sua ontogenia e explicação de como
foi parar no quintal da minha casa, ou seja, seria uma materialização total da
arqueologia, usando suas técnicas para uma observação de materiais sem olhos e
curiosidades de historiador. Creio que isso não venha a ser o interesse comum e
nem o nosso principal objeto de estudos.
Para finalizar, o processo evolutivo em andamento da Arqueologia tem um
futuro promissor se seguir a mesma linha que está seguindo. Cada vez mais ela
adquire mais respeito e importância para o mundo acadêmico e para a humanidade
como um todo. Cada vez mais as pessoas se interessam pela ciência (que existe
desde o século XVIII e teve sua profissionalização no século XIX) e cada vez
mais forma-se arqueólogos capazes de discutir suas teses ao redor do mundo.
Ainda o número de Arqueólogos é muito escasso, tratando-se de Brasil, por
exemplo, existe uma média de apenas 200 profissionais. É muito pouco para um
país de grande extensão e uma diversificada história pré-européia como o nosso.
A ligação da Arqueologia com a História e a Antropologia é inevitável,
as três ciências andam de mãos dadas e unidas abrem os olhos da sociedade para a
realidade que a ciência traz a tona desvendando permita-me expressar de uma
maneira romântica os mistérios e mitos sobre o passado.
Os objetivos comuns com as outras ciências sociais trazem a Arqueologia
para perto delas, podendo sim defini-la como uma ciência social que também
necessita de uma análise interdisciplinar para cada objeto de estudo, e é este
objeto que diferencia a Arqueologia das demais e lhe dá importância fundamental
em meio às ciências humanas.
Bibliografia:
BINFORD, L. Descifrando el Registro Arqueológico.
In: BINFORD, L. En Busca del Pasado.
Barcelona: Crítica. 1988, pp. 23-34.
FUNARI, P. P. O que é Arqueologia? In: FUNARI, P. P. Arqueologia.
São Paulo: Contexto, 2003.
HABER., A. La Arqueologia de La naturaleza / Naturaleza de La Arqueologia. In: HABER, Alejandro (org).
Hacia una Arqueologia de lãs Arqueologias Sudamericanas. Bogotá:
Ediciones Uniandes, 2004. pp. 15-32.
[1]
Aluno do curso de Bacharelado em História da Universidade Federal de
Pelotas, UFPel.