ISSN 1807-1783                atualizado em 27 de outubro de 2009   


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A Crítica do Relativismo Histórico em Carlo Ginzburg

por Francisco Chagas Vieira Lima Júnior

Sobre o autor*

1 Considerações iniciais

A tradicional análise crítica do documento histórico tem como elemento um corpo de procedimentos, critérios e métodos adotados para a construção do conhecimento factível e histórico. Desenvolvida no final do século XIX e início do século XX, concebia os documentos dentro de uma perspectiva positivista, bipolarizada com o dualismo do “verdadeiro” e “falso” (FUNARI, 2003).

Nessa perspectiva, procedimentos análogos aos de um tribunal de justiça eram utilizados para determinar os elementos fictícios ou factíveis de um testemunho histórico. Os textos que se mostrassem “falsos” eram simplesmente descartados, pois eram considerados inúteis para a construção do conhecimento histórico.

No entanto, essa perspectiva tem se transformado desde meados do século XX, principalmente depois do advento das escolas francesas de história e do trabalho de historiadores como Carlo Ginzburg, que ajudaram a ampliar a noção de documento histórico, utilizando-se até mesmo de documentos falsos para a construção do conhecimento histórico.

Ainda assim, diversas tendências oriundas da filosofia da história e da teoria literária, aplicadas à narrativa histórica, tentaram estabelecer um abismo intransponível entre o nosso relato a respeito (‘historia rerum gestarum’) e os eventos que ocorreram (‘res gestae’)” no passado. De acordo com essa intuição, os eventos passados não podem mudar, mas nossa compreensão destes eventos muda, pois além do passado ser inacessível à cognição humana, as representações do passado (“historia rerum gestarum”), que se apresentam de forma narrativa, refletem muito mais a subjetividade da mente do narrador do que o fato passado propriamente dito (“res gestae”) (FUNARI, 2003).

Deve-se ter em mente que tal distinção entre eventos que ocorreram objetivamente e nossas representações subjetivas do passado remonta ao legado dos sofistas da Grécia Antiga, os quais pregavam a completa incapacidade humana não somente de conhecer a realidade, como também de transmitir tal conhecimento, o que trouxe diversas conseqüências sobre as futuras reflexões acerca da epistemologia e da natureza representativa da narrativa histórica.

No entanto, existem vozes espalhadas por todo o mundo que persistem em um grito de protesto contra essa postura, e defendem a possibilidade de não somente se poder conhecer o passado, mas também de reconstruí-lo no presente mediante uma análise apurada e, principalmente, investigativa sobre os elementos que ficaram nas entrelinhas da narrativa.

Uma dessas vozes é o historiador italiano Carlo Ginzburg, que afirma que o discurso do relativismo histórico é em grande parte reducionista e errôneo, pois não apenas se baseia em considerações unidimensionais sobre a leitura de uma narrativa, mas também relega o conhecimento histórico a um grau de relativismo tão intenso que acaba por se contradizer e se caracterizar como um extremo do positivismo.

O presente artigo tem como principal objetivo fazer um paralelo entre a antiga sofística grega e a retórica romana e as abordagens relativistas pós-modernistas. Desse modo, aborda não somente as críticas do relativismo ao conhecimento histórico e as respostas apologéticas oferecidas a essas críticas, mas também, de modo breve, tenta vislumbrar uma forma de fazer história capaz de superar tais objeções e permitir ao historiador ir além da mera leitura simplista da narrativa ao enfatizar a necessidade de se atentar aos diversos aspectos quase imperceptíveis, porém relevantes, presentes em uma narrativa histórica.

Para isso, o presente artigo analisa algumas das opiniões dos mais famosos pensadores pós-modernistas da atualidade, enfatizando a similaridade existente entre o discurso epistemológico destes com a epistemologia apresentada pelos antigos sofistas. O artigo também apresenta duas das principais obras do historiador Carlo Ginzburg, “Relações de Força” e “Mitos, Emblemas e Sinais”, definindo e contrapondo o paradigma indiciário ao discurso pós-moderno e enfatizando a importância desse novo paradigma para a construção do conhecimento histórico e para uma nova epistemologia da história.

2 O relativismo histórico do discurso pós-moderno

O “pós-modernismo” se caracteriza na contemporaneidade como um fenômeno abrangente, inserindo em âmbitos diversificados, começando pela filosofia, passando pela história e chegando, inclusive, ao cinema[1].

Esse fenômeno que tende a relativizar não somente as possibilidades do conhecimento, mas também a realidade em si, recebeu certa influência da “revolução digital” que ocorreu no último quarto do século XX – a qual possibilitou a reflexão sobre os sentidos humanos, os quais se depararam com “realidades virtuais” criadas a partir das simulações geradas por computador para o consumo.

De acordo com o discurso relativista da pós-modernidade, o sujeito está situado em complexas relações de produção e de significação sobre a realidade, a qual, ao se transformar em discurso – perdendo, desse modo, as características que a faz “real” -, é percebida, ainda, como o real, criando assim um “discurso da realidade”, porém ilusório. Desse modo, quem se enuncia é o sujeito, mas o que se objetiva é o discurso. O discurso se torna toda a produção lingüística humana, muita das quais, especialmente em se tratando de historiografia, passa-se por “realidade”. Trata-se de um discurso que tenta organizar um sentido da realidade, a qual tenta impor-se e legitimar-se, mediante um “efeito-verdade”, como a única possível e digna de ser escrita.

A forma mais resumida de se transmitir essa idéia, que associa realidade, narrativa e ilusão dentro de algo chamado “discurso”, é dada por Górgias, um dos principais sofistas de seu tempo, que viveu por volta do século V a.C., na Grécia Clássica. Górgias afirmou, em seu Tratado do Ser, suas célebres teses cépticas: 1) “Nada existe”; 2) “E se existe alguma coisa, é incognoscível”. 3) “E ainda que seja cognoscível, é incomunicável”. Em outras palavras, Górgias nega não somente a realidade, mas também o conhecimento e, de igual modo, a capacidade de se transmitir ambos através da linguagem (GÓRGIAS, 1991, p. 701-705). Trata-se de um “triângulo epistemológico”, que abre um abismo na relação entre objeto, sujeito e conhecimento.

Apesar das tentativas da filosofia aristotélica de utilizar a retórica como recurso na busca pelo conhecimento, diversos retóricos na Antiguidade greco-romana, tais como Cícero, tomaram a crítica epistemológica sofística como um pretexto para a criação de um conceito de retórica estritamente ligada ao convencimento, já que a verdade não poderia ser conhecida.

De acordo com Sebastiani (2007, p. 80), Cícero foi um dos primeiros a proporem que na produção do conhecimento histórico “[...] não se necessitam especificamente de experiência direta dos fatos narrados, e sim do conhecimento da maneira apropriada para narrá-lo”. Desse modo, a História, dada sua formação mais discursiva do que objetiva, passa a ser tratada como gênero literário.

Em Cícero, a retórica historiográfica concede lugar ao estilo, ao gosto e ao convencimento, em detrimento da verdade histórica:

[...] um indivíduo conhecedor das práticas retóricas pode escrever tanto sobre o presente vivenciado quanto sobre o passado cuja maior ou menor escassez de vestígios condicionava a maior ou menor veracidade do relato. O método de trabalho do historiador não mais se centra no estabelecimento de uma verdade que corresponda diretamente à tradução literária de sua apreensão pessoal da realidade, mas à ueritas (verdade) entendida em termos de fides, credibilidade emprestada à narrativa. Enquanto construção retórica, a verdade se situa no plano da plausibilidade que o leitor encontra no relato, e não necessariamente na exata correspondência entre realidade e discurso (ibid, p. 81).

Em outras palavras, a retórica “empresta”, por si só, veracidade à narrativa. Como não se pode chegar ao passado para confirmar os fatos, o uso retórico resolveria esse problema, preenchendo tal “vazio” através de recursos lingüísticos, estilísticos, inferências, embelezamentos, etc. A verdade, desse modo, não estaria no fato histórico em si, mas na retórica que a concedia. Desnecessário é, então, dizer o quanto fictício pode ser uma história construída unicamente a partir dos embelezamentos fornecidos pela retórica ciceroniana.

De acordo com Sebastiani (op. cit., p. 84): “Seguindo os preceitos de Cícero, o historiador comporta-se como ‘exornator rerum’ (De oratore, II, 54), ou seja, embelezador de assuntos, o que lhe possibilita ater-se exclusivamente à composição da narrativa e não necessariamente na experiência [...]”.

Na historiografia retórica ciceroniana, que herdou a retórica sofística grega, as intenções literárias tinham prioridade: “exigia-se que se respeitasse antes de tudo o lado artístico da obra, sua redução retórica, mesmo em detrimento da verdade e da exatidão históricas” (MANDEL, apud SEBASTIANI, 2007, p. 89). Desse modo, a estética, o adorno literário e o poder persuasivo possuíam prioridade sobre o saber histórico e o conhecimento do passado.

O discurso pós-modernista atual, por sua vez, pode ser caracterizado como um “retorno” (talvez eterno?) à antiga crítica cética sofística sobre a impossibilidade de se alcançar o conhecimento da verdade e da realidade das coisas, sendo que tal discurso sustenta que “tudo o que é sólido desmancha no ar”, ou que, em outras palavras, todas as verdades, por mais sólidas que possam parecer, padecem de objetividade e não passam de ilusões construídas subjetivamente pelo sujeito do conhecimento (Cf. WHITE, 2000; FOUCAULT, 1985. DERRIDA, s/d).

A história como disciplina, por sua vez, foi atacada de forma similar: não existe diferença alguma entre uma narrativa histórica e uma narrativa de ficção. Segundo esse ponto de vista relativista, a narrativa histórica “forja” o real sobre o discurso, sendo que todo discurso historiográfico se articula no real perdido (passado), o qual é reintroduzido em um texto fechado, como “relíquia” (CERTEAU, 1982, p. 51).

Assim, a realidade “se exila na linguagem”, e dessa forma é impossível alcançar a realidade velada. Isso significa que decifrar a “verdade” que supostamente habita no corpo do documento histórico mediante a determinação acurada do significado das palavras e expressões usadas é uma tarefa fadada ao fracasso.

Hyden White (2000), por exemplo, afirma que todo historiador, consciente ou inconscientemente, utiliza de artifícios literários e retóricos para compor sua “reconstrução do passado”, e que às vezes chegam a confundir verdade histórica com elementos literários.

Isso significa que um texto histórico não é capaz de fornecer a realidade dos fatos, mas apenas realidades discursivas que se separam do real pelo imenso abismo denominado “linguagem” e seus artifícios.

Segundo o ponto de vista relativista, a narrativa histórica “forja” o real sobre o discurso, sendo que todo discurso historiográfico se articula no real perdido (passado), o qual é reintroduzido em um texto fechado, como “relíquia”. Assim, a realidade “se exila na linguagem”, como dizia outro proponente do relativismo histórico, Michel de Certeau (1982, p. 51).

Isso significa que decifrar a “verdade” que supostamente habita no corpo do documento histórico mediante a determinação acurada do significado das palavras e expressões usadas é uma tarefa fadada ao fracasso. No máximo, o que se consegue eliciar disso é a forma subjetiva na qual o autor do documento experimentou o fato relatado ou a forma idiossincrática com que quis interpretá-lo ao descrevê-lo. A análise do documento histórico é a análise da subjetividade da pessoa do autor do documento, e não uma análise objetiva da realidade dos fatos históricos ocorridos.

Nem mesmo o próprio conceito de “realidade” escapa: não podemos alcançar a realidade objetiva, e tudo o que chega aos nossos sentidos são meros “simulacros”.

3 Carlo Ginzburg e a crítica do relativismo histórico

Carlo Ginzburg se caracteriza como um dos mais ferrenhos críticos ao pós-modernismo e ao relativismo cultural, ressaltando que o relativismo cultural é um tipo de “preguiça intelectual, moral e de reconhecimento”, e enquadrando o “pós-modernismo” como um “positivismo às avessas”.

Se por um lado o positivismo via nas fontes históricas um portal para a realidade objetiva dos fatos, no outro extremo o relativismo se apresenta com a concepção de que as fontes históricas obstruem o caminho para a realidade objetiva por causa da natureza subjetiva, narrativa e discursiva dessas fontes.

Para começar, o historiador italiano critica o conceito de verdade relativa, ao afirmar que, na mesma medida em que o pós-modernismo postula que a “verdade não existe ou é relativa”, acaba por se contradizer, por também proclamar uma espécie de “verdade absoluta”: a de que a verdade é relativa.

Ginzburg também vê em Nietzsche o precursor dessa abordagem relativista da história. A crítica nietzscheana da verdade, e mais especificamente da linguagem, é a base das teses céticas sobre o conhecimento histórico:

[...] [para Nietzsche] a pretensão do homem de conhecer a verdade, além de ser efêmera, é também ilusória. Ela tem as suas raízes na regularidade da linguagem, mas, “nas palavras, [segundo Nietzsche] a verdade nunca tem importância e nem mesmo expressão adequada. Caso contrário, com efeito, não existiriam tantas línguas” (GINZBURG, 2002, p. 23).

Desse modo, a incapacidade das palavras de oferecem uma “expressão adequada” da verdade e da realidade rechaçaria toda a possibilidade de conhecimento. Essa incapacidade, característica intrínseca e inexorável da linguagem, destituiria a razão de ser de qualquer tentativa de expressar a realidade com palavras: “[Para Nietzsche existe um] abismo que separa as palavras e coisas: [por isso] a linguagem não pode dar uma imagem adequada da realidade” (ibid., p. 28).

As origens da aversão nietzscheanas às palavras e a linguagem remontam aos seus estudos históricos sobre o Novo Testamento bíblico.

Nietzsche declarou que o seu antigo interesse pela teologia estava vinculado exclusivamente ao “aspecto filológico da crítica aos Evangelhos e da pesquisa das fontes neo-testamentárias”. [...] [Nietzsche disse:] “Na época eu imaginava ainda que a história e a pesquisa histórica pudessem dar uma resposta direta a certas questões religiosas e filosóficas” (op. cit., p. 27).

De acordo com Ginzburg, foi a decepção de Nietzsche com o cristianismo que fomentou seu interesse na crítica da linguagem. Essa interpretação faz todo sentido, haja vista que Nietzsche afirmara que a humanidade não se desvencilhou de Deus, porque ainda acredita na gramática.

Ginzburg também demonstra que a aversão nietzscheana à linguagem é derivada da própria noção teológica existente no Evangelho de João 1.1: “No princípio era o Verbo [Logos]...”. Nietzsche havia baseado suas críticas à linguagem no livro de von Humboldt, que comenta que “a linguagem é espírito”. No entanto, esse comentário remete ao pensamento religioso de Lutero sobre o “Verbo de Deus”, Jesus Cristo, de modo que o espírito identificado com linguagem nada mais é que o Espírito Santo.

Lutero (apud GINZBURG, 2002, p. 31) dizia: “os retóricos mundanos se ufanam de dispor as palavras de tal modo que dão a impressão de comunicar e tornar visível a própria coisa: essa é mesmo a característica de Paulo, isto é: do Espírito Santo”.

Para Nietzsche, tanto os retóricos, ao usarem as palavras para passar a impressão de se estar comunicando a realidade, como os cristãos, que usam o Espírito Santo para transmitir “verdades eternas” de um mundo metafísico, não comunicam nada mais que ilusões.

Quando Lutero afirma que própria redenção humana, feita pó Cristo, é entendida graças a um tropo, a metáfora, Nietzsche proclama sua aversão a verdade contida nas palavras:

O que é a verdade? Um exército móbil de metáforas, metonímias, antropomorfismos, em resumo: uma suma de relações humanas que foram reforçadas poética e retoricamente, que foram deslocadas e embelezadas e que, após um longo uso, parecem a um dado povo, sólidas, canônicas e vinculatórias [...] o verdadeiro significa servir-se das metáforas usuais (apud GINZBURG, ibid., p. 24).

De acordo com Ginzburg, a hostilidade de Nietzsche ao cristianismo nasce velada nessa frase, em sua crítica a verdade, reduzida à linguagem.

Ginzburg (2002, p. 31) também comenta que “o Verbo que é verdade, o Verbo mediante o qual tudo o que existe se criou, o Verbo que se comunica por meio de tropos retóricos: estes temas foram recuperados e desviados por Nietzsche para uma direção radicalmente cética”.

Por isso, sua aversão de Nietzsche as “palavras” (logos) reflete sua aversão ao próprio cristianismo e em especial a figura de Jesus – que foi chamado de “Logos”, ou “Palavra”, no Evangelho de João. No entanto, a crítica à linguagem como representação da realidade já estava sendo discutida bem antes de Nietzsche por outros filósofos, inclusive por iluministas, culminando na moderna filosofia da linguagem.

Trazendo essa abordagem para o campo histórico, os relativistas apregoam que a narrativa histórica “forja” o real sobre o discurso, e que a linguagem não pode dar uma imagem adequada da realidade, não existindo diferença entre uma narrativa histórica e uma narrativa de ficção.

Ginzburg (2008 [online], grifos do autor), em sua entrevista a revista “Euro Maganize”, rejeita essa tentativa de reduzir a história à narrativa e o relato histórico ao relato fictício:

O fato de que uma escrita histórica às vezes se desenrola até uma ficção e que, mais ainda, ela seguidamente baseia-se em modelos literários, não deveria nos surpreender. Uma aproximação mais desafiadora – tanto para a história quanto para a literatura – é partir do fato que ambas disciplinas dividem uma obrigação para com a verdade e ver como esta relação tem sido feita em épocas diferentes. Eu considero o modernismo literário, antes de mais nada, como uma tentativa de descobrir novas formas de verdade, incluindo o plano formal. Neste aspecto ele é totalmente relevante para mim como historiador.

Desse modo, ainda que aceitemos a idéia de que “a realidade esteja exilada na linguagem, Ginzburg comenta que “Cada obra literária – seja um texto ficcional ou histórico – torna a realidade visível em sua própria maneira, transmite sua visão de realidade. Poderia ser dito que formas lingüísticas específicas são relacionadas a formas específicas de verdade.

Rechaçando o discurso relativista de que a história se resume a narrativa, a qual, por sua vez, se resume ao discurso, Ginzburg propõe novas abordagens.

Enquanto os relativistas afirmam que o conhecimento da realidade é impossível, pois a realidade objetiva é inacessível aos seres humanos, Ginzburg afirma que ainda assim o ser humano é capaz de decifrar essa realidade: “Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas - sinais, indícios - que permitem decifra-la” (1989, p. 87).

De acordo com Ginzburg (2002, p. 44): “as fontes não são nem janelas escancaradas, como acreditam os positivistas, nem muros que obstruem a visão, como pensam os cépticos: no máximo poderíamos compará-las a espelhos deformantes”.

Desse modo, ainda que as fontes históricas não sejam janelas abertas que permitem o acesso ao conhecimento histórico objetivo, tampouco podem ser consideradas janelas fechadas que impedem qualquer tipo de acesso ao conhecimento; as fontes históricas são, para Ginzburg, janelas revestidas por um vidro que permite uma visão embaçada do conhecimento histórico. Por isso Ginzburg (ibid., p. 45) afirma que “o conhecimento (mesmo o conhecimento histórico) é possível”.

4 As “raízes” do Paradigma Indiciário

Entendemos o foco metodológico de Ginzburg nos “sinais” e nos “indícios” não apenas como uma forma de contrapor o relativismo pós-modernista em História[2], mas também como uma forma de advertência a respeito da necessidade de uma mudança epistemológica tanto no campo do saber historiográfico como no próprio conceito de ciência.

Para que se possa alcançar um conhecimento histórico sóbrio, Ginzburg (1989) enfatiza não apenas a necessidade de uma análise minuciosa de cada detalhe, chamados “sinais”, mas também que, as vezes, a narrativa deve ser lida “de cabeça pra baixo”, sendo destacando as intenções, ainda que inconscientes, do autor. Frequentemente, tais detalhes mínimos são os fatos mais negligenciáveis na pesquisa. Em contrapartida, portam as respostas mais abrangentes. Desse modo, o historiador deve-se comportar como um detetive, levando em consideração todo sinal ou vestígio encontrado como “pista”.

As bases da prática indiciária são bastante antigas, antecedendo, inclusive, a própria criação dos paradigmas científicos. Na Pré-História, os homens se empenhavam na decifração do mundo e deles mesmos a partir de indícios, como na caça, na pesca e noutras práticas de sobrevivência, buscando retirar de detalhes uma realidade complexa. Um dos méritos de Ginzburg é ressaltar que a análise minuciosa dos “sinais” esteve presente desde os primórdios da história humana.

No ensaio intitulado “Raízes de um Paradigma Indiciário”, Ginzburg (1989) aponta as características comuns de três personagens históricos, que foram os principais contribuintes para o fomento de métodos de foco indiciário no campo do conhecimento no mundo contemporâneo: Freud, Morelli e Conan Doyle. Morelli aperfeiçoou a análise de quadros de artes ao observar as características mais negligenciáveis como, detalhes na orelha e detalhes nos dedos, ao invés de observar os quadros através de características óbvias de cada autor. Com esse procedimento, conseguiu identificar falsificações e peculiaridades antes desconhecidas.

Freud, por sua vez, introduziu na psicanálise elementos analíticos bastante parecidos com os de Morelli, baseando-se na idéia de que poderia fazer suposições sobre o indivíduo mediante a observação de suas atitudes inconscientes. Por último, Conan Doyle, ao dar vida ao seu personagem Sherlock Holmes, apresenta diversos exemplos em seus romances policiais da demonstração desse paradigma, ao enfatizar que a chave para a descoberta dos crimes complexos reside na análise minuciosa de pistas que passariam despercebidas aos olhos comuns.

Desse modo, Ginzburg traça os elementos comuns desses três indivíduos: “Pistas: mais precisamente, sintomas (no caso de Freud), indícios (no caso de Sherlock Holmes) signos pictóricos (no caso de Morelli)”.

Ginzburg revela que, enquanto o paradigma galileano (predominante nas ciências hoje chamadas de exatas) se fundamenta na quantificação e repetitividade dos fenômenos, o paradigma indiciário se fundamenta na qualificação e na individualidade dos fenômenos.

De acordo com o paradigma indiciário, as reconstruções históricas formuladas pelo historiador devem abdicar a suposta veracidade e realidade explícita apresentada pelas narrativas, para dar ouvidos aos sinais e indícios que deixam transparecer uma realidade inconsciente e despercebida por parte do narrador dentro de sua narrativa. É nesse sentido que se faz necessária uma desconstrução e desestruturação da narrativa, para que se possa detectar o discurso e fazer dos motivos e objetivos subjacentes ao mesmo objeto de análise histórica.

Um dos aspetos que precisa ser enfatizado na pesquisa e na análise de uma narrativa histórica são os processos que o narrador usou ao construir tal narrativa, não os fatos narrados pelo narrador. É uma historiografia que se constrói de forma subnarrativa, baseando-se no fato de que a maior parte dos processos que performam uma narrativa são oriundos de imperativos ideológicos, culturais, políticos, sociais e religiosos que podem muito nos dizer, com uma certeza razoável, sobre a realidade histórica pesquisada. Desse modo, a seleção e ordenamento realizados de forma consciente pelo narrador ficam em segundo plano. É uma prática histórica realizada “a contragosto” do narrador, pois prescinde do que ele escreveu deliberadamente para analisar o que ficou nas entrelinhas.

Por esse motivo, é que Jacques Le Goff (2006, p. 109), um dos principais proponentes da “Nova História Cultural” afirmou que: “o documento ‘falso’ é também um documento histórico e pode ser um testemunho precioso da época em que foi forjado e do período durante o qual foi considerado autêntico e, como tal, utilizado”. Isso porque, ainda que os pós-modernistas tenham razão em afirmar que toda narrativa histórica é fictícia, esse mesmo caráter fictício inerente a toda narrativa é capaz de fornecer dados históricos legítimos em suas entrelinhas sobre o real.

Portanto, para Ginzburg a visão pós-modernista da história é falha por considerar fictícia toda narrativa histórica e, por esse motivo, pressupor que a leitura realizada pelos historiadores profissionais é uma leitura simplista do documento – como fazem os cronistas ou cronologistas, ou mesmo os obsoletos historiadores do positivismo. A prática do historiador contemporâneo está muito longe disso.

A realidade precisa ser reconstruída pelo historiador a partir de sinais e indícios existentes na narrativa histórica. O historiador deve ler o documento/narrativa “às avessas”, isto é, contra as intenções de quem escreveu, como enfatiza Ginzburg (2002, p. 43):

Ao avaliar as provas, os historiadores deveriam recordar que todo ponto de vista sobre a realidade, além de ser intrinsecamente seletivo e parcial, depende das relações de força que condicionam, por meio da possibilidade de acesso à documentação, a imagem total que uma sociedade deixa de si. Para “escovar a história ao contrário” (die Geschichte gegen den Strich zu bursten), como Walter Benjamim exortava a fazer, é preciso aprender a ler os testemunhos às avessas, contra as intenções de quem os produziu. Só dessa maneira será possível levar em conta tanto as relações de força[3] quanto aquilo que é irredutível a elas.

Desse modo, as próprias forças existentes na realidade influenciam a escrita da história, deixando seus efeitos na narrativa, os quais podem ser determinados e utilizados pelos historiadores na construção do conhecimento histórico. Para Ginzburg, não apenas a subjetividade do narrador influencia a elaboração da narrativa (como afirmam os pós-modernistas), mas também a própria realidade objetiva do narrador o influencia, ainda que de forma inconsciente, deixando seus sinais na narrativa – mesmo a despeito das vontades do narrador. Desse modo, se o historiador se atentar para as “relações de força” que influenciaram a elaboração de uma narrativa histórica, poderá alcançar o conhecimento.

Tal procedimento supera o desafio pós-modernista, pois todos os elementos apontados pelos relativistas como os fatores que caracterizam a “ficcionalidade” da narrativa também podem ser utilizados para a construção da “factibilidade” do conhecimento histórico.

5 Considerações finais

Concordamos com os pós-modernistas, tal como vez Ginzburg, sobre o fato de que nenhuma narrativa é capaz de oferecer uma reconstrução objetiva do passado, pois sempre poderá ser definida como um “constructo” subjetivo do narrador, como uma elaboração fictícia e opaca e, portanto destituída de historicidade. Toda narrativa é opaca. No entanto, epistemologicamente, isso em nada prejudica o trabalho do historiador. Como enfatizou Carlo Ginzburg: “Se a realidade [ou mesmo a realidade expressa pela narrativa] é opaca, existem áreas privilegiadas”, que nos permite acessar a realidade por traz da opacidade. Essas áreas privilegiadas são sinais, indícios, fios e rastros.

Desse modo, a “História” (com letra maiúscula) não é trazida à tona pela narrativa ou pelos autores dos documentos históricos; a Historia só pode ser revelada pela reconstrução do historiador que – mesmo sendo, como a narrativa, uma “reconstrução”, e não a realidade narrada em si – tem muito mais chances, devido à metodologia, de apresentar uma descrição e ordem dos eventos de forma mais fidedigna com a realidade histórica.

Por isso, Paul Veyne (apud LE GOFF, op. cit., p. 109) defendeu que a história deveria ser uma luta contra a óptica imposta pelas fontes, sendo que os verdadeiros problemas de epistemologia histórica são problemas de crítica, pois o conhecimento histórico é o que dele fizeram as fontes.

Nesse sentido, o historiador deve adentrar nas profundezas da narrativa, muitas vezes deixando de lado o que o narrador disse para se atentar ao que ele quis dizer e não disse e aquilo que ficou nas entrelinhas. Somente assim, o historiador poderá oferecer uma versão mais acurada e normalizada pelos critérios e metodologias históricas sobre a mesma narrativa histórica, oferecendo muito mais segurança a respeito da veracidade histórica do que a mera narrativa histórica é capaz de oferecer e, assim, superando as objeções que a pós-modernidade trouxe para a filosofia da história.

Referências

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. 4ª impressão. São Paulo: Ed. Paulus, 2006.

CERTEAU, Michel de. A Escrita da história. Trad. de Maria de L. Menezes; rev. técnica [de] Arno Vogel. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

DERRIDA, Jacques. A Estrutura, o Signo e o Jogo no Discurso das Ciências Humanas. In: Estruturalismo: antologia de textos teóricos. Eduardo Prado Coelho (org.). Martins Fontes, s/d.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1985.

FUNARI, Pedro Paulo A. Documentos: Análise tradicional e hermenêutica contemporânea. In: ______________. Antiguidade clássica. A história e a cultura a partir dos documentos. 2.ed. Campinas,SP: Editora da UNICAMP, 2003.

GINZBURG, Carlo C. No lado negro da história. Disponível em: < http://www.eurozine.com/articles/2005-07-20-ginzburg-pt.html > Acesso: 14 dez. 2008.

GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” In: Mitos, emblemas, sinais:. Morfologia e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

GINZBURG, Carlo. Relações de força. História, retórica, prova. Trad. Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

GÓRGIAS. Sobre o não-ser ou sobre a natureza. In: DUMONT, J.-P. (Ed.). Les écoles présocratiques. Paris: Gallimard, 1991.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Trad. Bernardo Leitão... [et al.]. 5. ed. 2ª impressão. Campinas-SP: Editora da UNICAMP, 2006.

SEBASTIANI, Breno Battistin. A política como objeto de estudo: Tito Lívio e o pensamento historiográfico romano do século I a.C. In: JOLY, Fabio Duarte. (org.). História e retórica: ensaios sobre historiografia antiga. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2007, p. 80.

WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. Trad. Alípio C. de Franca Neto. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2000.



* Graduado em História pela Universidade Estadual do Maranhão - Centro de Estudos Superiores de Imperatriz - UEMA/CESI. Graduando em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) - Centro de Ciências Sociais, Saúde e Tecnologia (CCSST), Campus II - Imperatriz-MA. Pós-graduando em Metodologia do Ensino na Educação Superior pela Faculdade Internacional de Curitiba - FACINTER. Endereço eletrônico: jrcoffer@hotmail.com.

[1] Nos últimos anos, “Hollywood” tem produzido filmes que, “forçosamente”, se propuseram a encabeçar o “pós-modernismo” no âmbito cinematográfico, tais como “Matrix”, dos irmãos Wachovsky. Nesse filme, a “realidade” é um “simulacro”, uma ilusão gerada por computador cuja função é “iludir” bilhões de pessoas continuamente, fazendo-as crerem que essa ilusão é a própria realidade.

[2] Em “Relações de Força”, Ginzburg comenta que, inicialmente, sua ênfase no paradigma indiciário tinha como interesse unicamente propor novas metodologias para a construção do conhecimento histórico. Foi somente anos mais tarde que percebeu que seu projeto se adequada como uma resposta as criticas do relativismo histórico ao oficio do historiador.

[3] Michel de Certeau (op. cit., p. 20), por exemplo, explana de uma forma bastante diferente e pessimista: “O real que se inscreve no discurso historiográfico provém das determinações de um lugar. Dependência com relação a um poder estabelecido em outra parte, domínio das técnicas concernentes às estratégias sociais, jogo com os símbolos e as referências que legitimam a autoridade diante do público são as relações efetivas que parecem caracterizar este lugar da escrita”. Contrariando sua perspectiva cética, Ginzburg enfatiza que são exatamente esses elementos que precisam ser levados em conta para a construção de um conhecimento histórico que se aproxime da realidade histórica pesquisada.