ISSN 1807-1783                atualizado em 11 de novembro de 2009   


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Sobre a Vigilância do Poder: O Deops em Ação Contra o Antinacionalismo e a Erosão da Cultura e da Identidade Nacional

por Bruna de Souza David e Vinicius Rajão da Fonseca

Sobre o artigo[1]

Sobre a autora[2]

Sobre o autor[3]

O presente trabalho tem como proposta analisar os atos de repressão do governo brasileiro durante o Estado Novo, contra aos que foram denominados “antinacionalistas” (circunscrevendo apenas aos grupos de estrangeiros alemães radicados no estado de São Paulo). Designamos, para tanto, documentos registrados pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social da cidade de São Paulo (DEOPS-SP), entre 1937-1945, relatando a repressão política sobre este determinado grupo e revelando a articulação, manutenção e manipulação de preceitos que respectivamente vinculassem esses indivíduos a crimes contra a nação, determinando assim meios legais para a criação de um sentimento de “brasilidade”, preservando assim a cultura e a identidade nacional e coibindo, desta maneira, aspectos sociais, econômicos e culturais dos imigrantes ressaltados acima.

A Delegacia de Ordem Política e Social da cidade de São Paulo (DEOPS-SP) foi um órgão criado em 1924 e inserido no aparato repressivo do Estado republicano com a função específica de controle político- social. Segundo Castro (2007), “através da vigilância dos cidadãos considerados subversivos por desvirtuarem a ordem instituída ou a segurança pública, esta força policial concretizava o protótipo pública de militarização da Força Pública do Estado de São Paulo” [4].

Era o órgão responsável pela vigilância dos grupos considerados subversivos, ganhando destaque a partir dos anos de 1930, tendo o comunismo como seu principal inimigo, no entanto, principalmente em 1938, e após a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1942) volta-se aos grupos de estrangeiros fixados no país, dando ênfase aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) no qual o Brasil estava em guerra.

O processo de imigração alemã

A imigração européia deu-se no contexto em que os fazendeiros brasileiros, buscavam consolidar a grande propriedade e a agricultura de exportação, buscando angariar proletários de qualquer parte do mundo, de qualquer raça, para substituir nas fazendas os escravos mortos, fugidos e os que deixaram de vir da África pelos altos preços após a proibição do tráfico negreiro[5].

Segundo Alencastro & Renaux (1997), havia impedimentos para que se concretizasse o processo imigratório, pois o Código Criminal do Império de 1830, no seu artigo de número 276, punia “com multa e dispersão do culto” [6], isto é, o culto de outra religião que não fosse à do Estado, ou seja, o catolicismo. Isso ajudou a travar a imigração européia para o Império.

É nesse contexto em que o governo imperial, tende a mudar as leis do Estado, para facilitar e privilegiar o afluxo e a integração dos imigrantes protestantes vindos de alguns países da Europa, dentre eles, a Alemanha. Enquanto os nobres e a intelectualidade do império queriam fazer da imigração um instrumento de civilização, assunto que na época era muito discutido - o embranquecimento da população, ou seja, encarava com outros olhares diferentemente do Estado e da política imigrantista.

A imigração alemã teve início no império brasileiro, por volta de 1824 com a vinda aproximadamente de 350.000 alemães[7] para a fundação da colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Novamente em 1830-1850 vieram imigrantes da região Sudoeste; em 1850-1865 da região Norte e Leste e, em 1865-1895 vieram do Sul, dando destaque que esses estrangeiros viviam em regiões praticamente de estruturas agrícolas. Somente “a partir de 1880 que vieram colonos emigrados de áreas urbanas” [8] e que se estabeleceram por todas as regiões do Brasil, principalmente na região Sudeste e Sul.

Diferentemente da imigração do século XIX, que por sua vez foi quase que totalmente rural a do século XX, foi praticamente urbana, ou seja, modifica-se o perfil da imigração alemã no país. A cidade de São Paulo ganha destaque internacional devido ao grande processo de industrialização e desenvolvimento econômico, desempenhado pelo governo Varguista a partir da década 1930, sendo “considerada São Paulo o maior pólo industrial da América Latina” [9].

Modificações culturais dos imigrantes alemães com a criação do pangermanismo

O imigrante alemão que chegou ao Brasil no século XIX, por volta de 1830, dando ênfase às camadas mais pobres e modestas, caracterizava-se pela “ausência de sentimento de Pátria” [10]. Ao chegarem ao Brasil e se fixaram, compuseram canções como “América terra livre [...] a Europa só nos oferece escravidão[11]·.

Tomando de exemplo, a educação para os imigrantes na época era diminuta, ou seja, praticamente não existiam escolas adaptadas para os estrangeiros, o que levou esses novos colonos a criarem alternativas. Foram criadas as escolas comunitárias, fixada na casa de algum imigrante que era designado a ensinar as crianças da comunidade. Os materiais didáticos, em sua maioria eram produzidos e fornecidos pelo próprio império, e que, segundo Alencastro & Renaux (1997) perpetuava nesses manuais, valores como “amor à nova Pátria e fidelidade a velha mãe Pátria” [12], ou seja, tentava-se assim promover a consciência de uma nova unidade alemã cultural e não política, determinada pela língua e tradições em comum, caracterizando um biculturalismo[13].

Os Teuto-Brasileiros[14], aprendiam com a cartilha (escrita em alemão), além da gramática alemã (e também portuguesa) e da ciência, a História da Alemanha[15] e do Brasil abordando a questão da nacionalidade e da tradição cultural, como mostra o fragmento a seguir:

“O Brasil é a terra em que nasceste. O Brasil é a terra em que pela primeira vez avistaste o céu e o sol reluzente. O Brasil é a terra onde teu pai e tua mãe vivem. Por isto, é a tua pátria [...] Mas os teus avós não nasceram aqui no Brasil [...] Eles vieram da Alemanha. Por isso, o avô e a avó eram alemães e não brasileiros como vocês são [...] É certo, sois brasileiros, por isso deveis falar a língua nacional brasileira e aprendê-la e exercitá-la na escola para que mais tarde na vida destaqueis como verdadeiros cidadãos brasileiros (grifo nosso) . Mas em casa, na família, junto ao pai e à mãe, aí vocês precisam falar alemão. Com isso honrarão seus antepassados e tua pátria. Sem vossos laboriosos antepassados germânicos, vocês hoje não seriam bons brasileiros”[16]. (ROTERMUND apud ALENCASTRO & RENAUX, 1997. p.333)

No trecho acima, fica claro a tentativa do governo brasileiro de implantar um sentimento de nacionalidade brasileira nos imigrantes alemães, mas não usando de práticas repressivas para conseguir esse objetivo, pois havia livre expressão das tradições culturais, religiosas que para os germânicos davam a si também o seu orgulho da nacionalidade e da sua Pátria.

Esse contexto muda a partir das últimas décadas do século XIX, com a unificação da Alemanha. Doravante, surge o chamado pangermanismo, caracterizado como o espírito do povo, isto é, a nacionalidade e o patriotismo alemão. Com esse movimento, “todos os descendentes de imigrantes alemães que estavam em outros países” [17] podiam adquirir a partir de então a nacionalidade alemã.

Essa nova política gerou enormes modificações, pois incitava os imigrantes alemães a privilegiarem e exaltarem somente a cultura, as tradições religiosas, a História e as crenças alemãs, implicando na extinção, gradativamente do biculturalismo. Isso se agrava e fica mais claro, a partir da década de 1930 quando a Alemanha se reergue com a política do nacional- socialismo do partido nazista. Os alemães que emigraram para o Brasil nessa época vão trazer na sua bagagem as ideologias do novo governo, dentre elas, a de praticar e transmitir aos que aqui já estavam (imigrantes e descendentes) a nova política de seu país, representada com a inserção de sedes do Partido Nazista no Brasil, ou seja, o novo governo alemão age estrategicamente dentro país, com o objetivo não só de agrupar aliados como também de resgatar a nacionalidade de seu povo, perpetuando a exaltação patriótica.

As escolas para imigrantes agora eram mantida pelo governo alemão, que trazia da Alemanha professores para ensinar o seu povo aqui no Brasil. Vários empreendimentos, como bancos alemães, fundações, câmara de comércios, empresas e associações foram instalados no país como forma também de articulação política. Devido a esses fatores, o Governo brasileiro vai adotar medidas que reprimam, através de leis, decretos e portarias, buscando extirpar as organizações ressaltadas acima.

A criação do sentimento de brasilidade e do perigo alemão

A historiografia brasileira, especializada no assunto, destaca que entre 1930-1938, foi um período de aproximação entre ambos os países, pois até 1938, a Alemanha era vista como modelo de modernidade e inspirava um paradigma para a construção de um Estado forte e nacionalista. Os alemães eram vistos como um povo que sofrera derrotas e humilhações, e mesmo assim conseguiram se reerguer, atingindo alto grau de desenvolvimento, o que inspirava o Brasil “no reerguimento, desenvolvimento, e evolução do país” [18].

Gertz (1987) afirma que havia “simpatias crescentes do governo brasileiro em relação ao regime imposto pelo nacional-socialismo na Alemanha” [19]. Sant’Anna (1991) também considera essa idéia, pois em seus estudos afirma que “havia uma propensão em exaltar tudo o que fosse identificado com a cultura alemã” [20].

Segundo Carneiro (1995), outra estratégia adotada pelo Governo Vargas, era a devolução de judeus para a Alemanha, o que fazia “parte de uma política de aproximação entre os dois países, principalmente no que diz respeito à questão anti-semita” [21].

Outro fator que aproximou os países foram às relações comerciais, que segundo Gambini (1977) a “Alemanha (1936) se tornou o segundo país em importância nas exportações e importações comerciais com o Brasil” [22].

Os intelectuais das décadas dos anos de 1920-1940, que eram oriundos de famílias oligárquicas decadentes, temiam a perda dos seus status, sendo assim, formaram opiniões ideológicas par ao fortalecimento de um Estado nacionalista, visando garantir seus lugares dentro das elites. Buscou-se a recuperação da nacionalidade, restringindo idéias estrangeiras como liberalismo e o comunismo.

Segundo Perazzo (1999), o ideólogo Cassiano Ricardo contribuiu para a criação de um sentimento de brasilidade, afirmando que “brancos, negros e índios, tinham potencial para a construção da unidade nacional, enquanto o imigrante era visto como ameaçador” [23]. Mas, segundo Lauerhass (1986) “Getúlio Vargas não fora o criador do nacionalismo brasileiro, pois esse já vinha se desenvolvendo desde o advento da República” [24]. No entanto, esse caráter político ganhou forma, força e visibilidade no Estado Novo.

Com o fragmento a seguir, percebem-se os esforços para a busca de uma nação forte, baseada na centralização do poder e no nacionalismo:

“O Projeto Político e Cultural de regeneração do País, o Estado deveria estar orientado para o desenvolvimento interno e constituição de uma nação moderna, superando seu passado atrelado à idéia de nação atrasada, abalada pelos males coloniais como subordinação política e econômica, escravidão, etc”. (grifo nosso). (PERAZZO, 1999. p. 43).

Fica claro no trecho acima destacado a busca do país para se mostrar como uma nação forte perante aos demais países. As datas cívicas passaram a ser comemorações oficiais, iniciadas no Estado Novo, buscando aproximar os laços de afetividade com o Poder Público e o povo, e, sendo assim, construir a alma brasileira, isto é, a brasilidade. Em 1942 foi criada a Liga de Defesa Nacional, visando promover e propiciar aos brasileiros as paradas cívicas objetivando a “revigoração” do patriotismo para defender o país dos antinacionalistas que estavam destruindo a cultura e a identidade nacional com suas ideologias, buscando acima de tudo a tão sonhada brasilidade.

Foram criados também, os congressos de Brasilidade, realizados entre os anos de 1941 a 1944, para a produção do conhecimento sobre o nacionalismo. Eram realizadas conferências abordando diversos temas, dentre eles: política, cultural, histórica, moral, jurídica, social, geográfica, econômica, financeira e patriótica, para a solidificação da unidade.

Como destaca Fáveri (2005):

“Na conferência intitulada Unidade Patriótica, (grifo do autor) o jornalista José Guedes da Fonseca salientou a importância da homogeneização (grifo nosso) da “alma brasileira” [25], (grifo do autor) propondo um projeto de unidade ética que padronizasse os brasileiros através do trabalho, da saúde e da beleza”. (DEOPS, 1941. p. 156 apud FÁVERI, 2005. p. 63) [26].

Mais uma vez evidencia-se o uso do termo “perigo alemão” para a legitimação do projeto de nacionalização e a criação do sentimento de “brasilidade” do Estado Varguista. Nesse sentido, o Departamento Estadual de Ordem política e Social da Cidade de São Paulo (DEOPS-SP) terá papel fundamental no combate e no cumprimento dos ideais Estadonovista.

O DEOPS em ação no aprisionamento de presos políticos

O Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS-SP) teve importância primordial no contexto da repressão de imigrantes considerados presos políticos ou não. A partir de 1938, e, principalmente com a entrada do Brasil na Segunda Guerra (1942) o cerco se fecha para os imigrantes com ênfase aos do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). A polícia política combateu tantos os acusados de crime políticos quanto os apenas meros descendentes.

Cabe mencionar que antes do advento do Estado Novo, o governo Vargas já vinha criando delegacias especializadas e definindo crimes contra a ordem política e social e após, a institucionalização do governo ditatorial redefine o papel da polícia, isto é, modifica-se o aparato do Estado, o Poder Judiciário tornou-se inoperante frente ao Poder Policial. Doravante processos, julgamentos, pedidos de informação, transferências, internações e criações de vagas em presídios, era função da polícia política.

Segundo Perazzo (1999), a “montagem do aparato repressivo do Estado foi constituída a partir de uma rede composta por: planos de autodefesa do Estado e uma vigilância constante por parte de organizações acionadas para esse fim” [27], ou seja, permitia-se através dessas estratégias uma articulação direta com o Ministério da Justiça, a polícia política e a Presidência da República[28].

O governo brasileiro, também vai acionar por meio da legislação, leis e diretrizes de cunho nacionalista para conter o perigo alemão[29]. O regime Estadonovista em 1937 dispõe sobre a extinção de partidos políticos[30] (proibindo qualquer atividade política organizada). Em 1938, veda os estrangeiros a qualquer tipo de atividade política no Brasil[31], no mesmo ano aplica normas à entrada de estrangeiros no país[32] (ficava vetada a entrada de elementos aleijados, mutilados, inválidos, indigentes, vagabundos, ciganos, doentes nervosos dentre outros[33]), implanta também a nacionalização do ensino primário de todos os núcleos de populações estrangeiras no país[34] que segundo Perazzo (1999) [...] “através do ensino e da língua portuguesa e da História do Brasil. As escolas deveriam ter dois terços de professores brasileiros e seus diretores não podiam ser estrangeiros” [35]. Com a entrada na Segunda Guerra, a situação piora, levando o governo a decretar restrições de caráter geral[36] e intervenções de clubes e comunidades[37] além de estabelecer a obrigatoriedade do salvo-conduto[38] (a partir de agora os imigrantes só poderiam se locomover com esse documento e destinado especialmente aos súditos do Eixo) e ainda em 1943, intervém sobre a locomoção dos imigrantes ao litoral brasileiro[39] (também destinados aos súditos do Eixo).

O relatório a seguir demonstra que o Senhor Emilio Adolfo Claus, segundo DEOPS/SP (1942) é:

“[...] Fabricante de distintivos. Agitar infame. Antes de rebentar a guerra, foi um dos maiores propagandistas para o repatriamento dos técnicos e bons profissionais alemães com a intenção de prejudicar a indústria nacional em favor da Alemanha. [...] pessoa de destaque e de confiança do Partido Nazista [...]” [40]

Reproduzia-se pela polícia política um levantamento de provas que muitas vezes não existia, ficando claras as manipulações e articulações de preceitos que ligassem esses indivíduos a crime contra a nação. E como o Poder Judiciário era subordinado ao Poder Policial, facilitava para a polícia política a prisão do acusado. Não existia contra esses elementos um processo formal dentro do Estado, pois se criavam os dossiês e prontuários “interagindo” com os inquéritos.

De acordo com o prontuário registrado, o Senhor Arthur Nansen Júnior[41] foi preso por se “achar” que fez o juramento de fidelidade a Hitler. E que o senhor Erich Stute[42] é um “Elemento conhecido como "Hitlerista Roxo". Já o Senhor Hellner Heinz[43] é descrito como “agente nazista e agitador a soldo nazista. Disse que tem uma lista de alemães e brasileiros que irão apanhar assim que Hitler o deseje”. Essas pessoas estão descritas identicamente ao documento, notando-se que, não há algum tipo de provas concretas para manteres-nos presos e sim de certa forma uma articulação política, pois os documentos afirmam que foram presos e postos em liberdades por mais de uma vez.

Segundo o documento, o Senhor Andriessen[44], era tido como:

“Chefe político dos districtos de Villa Mariana, Indianópolis e Bosque. Conhecido como agitador. É da opinião que as crianças teuto-brasileiras, somente devem falar o idioma alemão, não permitindo o idioma nacional. É um odioso adversário da igreja e durante uma reunião no Turnverein, acusou os padres de terem entregue os jovens alemães aos franceses durante a ocupação da Renania”[45].

Nesse caso a polícia política conseguiu provas para poder prendê-lo, achando com os mesmo, fotos que reverenciavam o governo alemão e o Partido Nazista. Sobre o partido destaco documento PARTIDO NAZISTA - (CAPITAL - SÃO PAULO) [46] em que o DEOPS consegue várias vezes, com provas, prender e desarticular membros do Partido Nazista em São Paulo, onde:

“Todos os clubes e sociedades alemãs fechavam as suas portas e concitavam os sócios a assitir ao festejo político. havia desfile de bandeiras "swasticas", discursos, políticos, em que eram ressaltados os sentimentos de obediência e disciplina ai "Fuehrer", na necessidade que tinha a Alemanha de reaver as colônias, etc”.[47]

Com os alemães partidários do nazismo, sempre se achava documentos e principalmente fotos com a imagem de Hitler e/ou a bandeira da suástica, elementos esses que comprovavam a culpabilidade dos indivíduos.

A polícia política (DEOSP-SP) era um órgão muito bem articulado, treinado e sabia o que fazer, faziam vigilância cerrada aos suspeitos com o interesse de conseguir provas para que obtivessem manter os indivíduos presos. Há registros em documentos de que passavam o dia todo perseguindo os suspeitos, sabendo em que hora levantavam, pegavam ônibus para ir ao trabalho, quando chegavam em casa, etc. Agiam como órgão de espionagem, infiltrando-se por bancos, fundações, comunidades, empresas entre várias outras, incitando as pessoas descontentes com o regime de governo, e, ao final prenderem a todos.

De acordo com o prontuário a seguir, na Empresa Bromberg[48] - São Paulo /SP havia agitadores dentro “cuja função principal é fiscalizar os alemães do exterior e instigá-los contra o país que os hospeda” e que a mesma teria instigados “os alemães a escrever cartas de queixas as grandes personalidades do governo alemão referindo-se ao mau tratamento do qual eram vítimas por parte das autoridades brasileiras”. O próprio documento afirma que os “agitadores” conseguiram escapar para a Alemanha.

O governo brasileiro também adotou duras medidas durante a guerra, como os campos de concentração (presídios, colônias penais e campos de internamento) para os súditos do Eixo (alemães, italianos e japoneses), mas não campo de concentração no modelo hitlerista como ficou estereotipado (quando se fala sobre campos de concentração, logo se pensa o holocausto), eram colônias agrícolas para onde os imigrantes eram enviados, havia trabalhos forçados no campo e torturas, mas pelos registros não há evidências de mortes, isto é, fato que não se sabe a veracidade. No entanto, não podemos descartar essa nossa História que ficou escondida durante muitos anos nos arquivos das DEOPS, lembrando que muitos desses presos eram acusados e condenados de crimes contra a nação, mas como afirma Perazzo (2002) “muitas pessoas também foram vítimas, sendo presas injustamente” [49], tendo seus bens confiscados pelo o Estado e não mais devolvidos.

O DEOPS juntamente com os outros órgãos representantes da segurança nacional, imprimiu grande repressão a esses estrangeiros alemães com o advento do Estado Novo e sua política de nacionalidade e construção da “brasilidade”, articulando preceitos para a idéia de perigo alemão, agindo de forma anti-semita e xenófoba.

ARQUIVOS E ACERVOS CONSULTADOS

Arquivo Público do Estado de São Paulo – Fundo DEOPS/SP

Biblioteca de História – UFMS/MS

Projeto Integrado Arquivo Público e Universidade de São Paulo – PROIN (www.proin.usp.br).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CARNEIRO, M. L. T. O anti-semitismo na era Vargas: fantasmas de uma geração (1930-1945). (2ª Ed.). São Paulo: Brasiliense, 1995.

CASTRO, E. G. A Torre sobre vigia: as testemunhas de Jeová em São Paulo (1930-1954). Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCH – USP, 2007.

DIETRICH, A. M. Caça às suásticas: o partido nazista em São Paulo sob a mira da polícia política. São Paulo: Associação Editorial Humanitas: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, FAPESP, 2007.

FÁVERI, M. Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo durante a Segunda Guerra em Santa Catarina. (2ª Ed.) Itajaí: Editora Univali / Florianópolis: Editora da UFSC, 2005.

GAMBINI, R. O duplo jogo de Vargas: influência americana e alemã no Estado Novo. São Paulo: Símbolo, 1977.

GERTZ, R. O fascismo no sul do Brasil – germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

LAUERHASS, J, L. Getúlio Vargas e o triunfo do nacionalismo brasileiro. Belo Horizonte / São Paulo: Itatiaia / EDUSP, 1986.

PERAZZO, P. F. O perigo alemão e a repressão policial no Estado Novo. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999.

_____________. Prisioneiros de guerra: os cidadãos do eixo nos campos de concentração brasileiros (1942-1945). Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH-USP, 2002.

SANT’ANNA, S. B. B. História Palinódica (significações de uma regionalidade teuto-brasileira). Tese de doutorado. São Paulo: FFLCH-USP, 1991.


[1] Trabalho apresentado no II Colóquio Nacional de Ensino de História: Educação, História e Diversidade Cultural que ocorreu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul no período de 26 a 30 de outubro de 2009.

[2] Graduanda do 3° ano do curso de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS – CCHS – DHI). Email: brunasd@gmail.com

[3] Graduando do 2° ano do curso de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS – CCHS – DHI). Email: vinicius_rdf@hotmail.com

[4] CASTRO, E. G. A Torre sobre vigia: as testemunhas de Jeová em São Paulo (1930-1954). Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCH – USP, 2007. p.10.

[5] Lei Eusébio de Queiroz, aprovada em 1850 durante o Segundo Reinado por pressão também da Inglaterra.

[6] ALENCASTRO, L. F. & RENAUX. M. L. Cara e modos dos migrantes e imigrantes. IN: NOVAIS, F. A. História da vida privada no Brasil: império. São Paulo: Companhia da Letras, 1997. p.291-336. cit.,p.292.

[7] Esses imigrantes alemães vieram de várias regiões da Alemanha, se contrapondo às vezes no próprio dialeto.

[8] ALENCASTRO, L. F. & RENAUX. M. L. Cara e modos dos migrantes e imigrantes. IN: NOVAIS, F. A. História da vida privada no Brasil: império. São Paulo: Companhia da Letras, 1997. p.291-336. cit.,p.318.

[9] DIETRICH, A. M. Caça às suásticas: o partido nazista em São Paulo sob a mira da polícia política. São Paulo: Associação Editorial Humanitas: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, FAPESP, 2007. p.207.

[10] ALENCASTRO, L. F. & RENAUX. M. L. Cara e modos dos migrantes e imigrantes. IN: NOVAIS, F. A. História da vida privada no Brasil: império. São Paulo: Companhia da Letras, 1997. p.291-336. cit.,p.318.

[11] (HOFFMANM apud ALENCASTRO & RENAUX, 1997. p.319).

[12] ALENCASTRO, L. F. & RENAUX. M. L. Cara e modos dos migrantes e imigrantes. IN: NOVAIS, F. A. História da vida privada no Brasil: império. São Paulo: Companhia da Letras, 1997. p.291-336. cit.,p.332.

[13] Nesse período não se proibia as tradições culturais, sociais e religiosas desde que amasse a nova pátria e mantivesse a fidelidade pela velha pátria, permitindo ao imigrante uma integração entre as culturas.

[14] Brasileiros descendentes de germânicos.

[15] As aulas que se referiam à cultura alemã ficavam sob responsabilidade das pessoas naturais da Alemanha e/ou dos descendentes que receberam o conhecimento.

[16] Fibel für Deutsche Schulen in Brasilien (Cartilha para alemães em escolas no Brasil).

[17] ALENCASTRO, L. F. & RENAUX. M. L. Cara e modos dos migrantes e imigrantes. IN: NOVAIS, F. A. História da vida privada no Brasil: império. São Paulo: Companhia da Letras, 1997. p.291-336. cit.,p.334.

[18] PERAZZO, P. F. O perigo alemão e a repressão policial no Estado Novo. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999. cit.,p.34.

[19] GERTZ, R. O fascismo no sul do Brasil – germanismo, nazismo, integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. cit.,p.63.

[20] SANT’ANNA, S. B. B. História Palinódica (significações de uma regionalidade teuto-brasileira). Tese de doutorado. São Paulo: FFLCH-USP, 1991. cit.,p.63.

[21] CARNEIRO, M. L. T. O anti-semitismo na era Vargas: fantasmas de uma geração (1930-1945). (2ª Ed.). São Paulo: Brasiliense, 1995. cit.,p.213.

[22] GAMBINI, R. O duplo jogo de Vargas: influência americana e alemã no Estado Novo. São Paulo: Símbolo, 1977. cit.,p.21.

[23] (RICARDO, 1941. p.116 apud PERAZZO, 1999. p.41)

[24] LAUERHASS, J, L. Getúlio Vargas e o triunfo do nacionalismo brasileiro. Belo Horizonte / São Paulo: Itatiaia / EDUSP, 1986. cit.,p.16.

[25] Ver primeiro Congresso de Brasilidade em Santa Catarina. Florianópolis: DEOPS / SP, 1941. p.156. O jornal A Gazeta, de 01/11/1941, reproduziu essa conferência.

[26] FÁVERI, M. Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo durante a Segunda Guerra em Santa Catarina. (2ª Ed.) Itajaí: Editora Univali / Florianópolis: Editora da UFSC, 2005.

[27] PERAZZO, P. F. O perigo alemão e a repressão policial no Estado Novo. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999. cit.,p.143.

[28] Cria-se a DESP (polícia especial) que tinha como função levantar provas para condenar os implicados.

[29] Não só os imigrantes alemães, mas qualquer estrangeiro de outra nacionalidade que não respeitasse e cumprisse com as regras estabelecidas.

[30] Decreto- Lei n°37 de 02/12/1937. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano I, 1937.

[31] Decreto- Lei n°383 de 18/04/1938. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano II, 1938.

[32] Decreto – Lei n° 406 de 04/05/1938. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano II, 1938.

[33] Prática xenófoba e anti-semita.

[34] Decreto – Lei n° 868 de 18/11/1938. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano II, 1938.

[35] PERAZZO, P. F. O perigo alemão e a repressão policial no Estado Novo. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999. cit.,´p.47.

[36] Portaria n° 30 de 28/01/1942. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano VI, 1942.

[37] Portaria n° 90 de 20/03/1942. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano VI, 1942.

[38] Portaria n° 147 de 12/11/1942. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano VI, 1942.

[39] Portaria n° 128 de 05/04/1943. Lex, Coletânea de legislação. São Paulo: Lex, ano VII, 1943.

[40] Prontuário n° 9509, caixa 74; Emilio Adolfo Clauss. São Paulo: Arquivo Público [Fundo DEOPS], 1942.

[41] Prontuário n° 15680, Caixa 35; Arthur Nansen Júnior. São Paulo: Arquivo Público [Fundo DEOPS], 1942.

[42] Prontuário n° 11755, Caixa 76; Erich Stute. . São Paulo: Arquivo Público [Fundo DEOPS], 1942.

[43] Prontuário n°11230, Caixa 110, Hellner Heinz. São Paulo: Arquivo Público [Fundo DEOPS], 1942.

[44] Prontuário n°51087, Caixa 17, Andriessen. São Paulo: Arquivo Público [Fundo DEOPS], 1943.

[45] Manteve-se a grafia correta dos documentos.

[46] Prontuário n° (registro sem número), Caixa 215. . São Paulo: Arquivo Público [Fundo DEOPS], 1943.

[47] Manteve-se a grafia correta do documento.

[48] Prontuário n° (registro sem número), Caixa 237. São Paulo: Arquivo Público [Fundo DEOPS], 1942

[49] PERAZZO, P. F. Prisioneiros de guerra: os cidadãos do eixo nos campos de concentração brasileiros (1942-1945). Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH-USP, 2002. cit.,p.59.