ISSN 1807-1783                atualizado em 18 de fevereiro de 2010   


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A Revolução Mexicana na literatura - As representações literárias de Mariano Azuela (Parte 1)

por Warley Alves Gomes

Sobre o autor[1]

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Este ano a Revolução Mexicana comemora seu centenário. No dia 20 de novembro de 1910 teve início a primeira revolução do século XX, liderada por Francisco Madero. Não tardou para que as massas camponesas também levantassem em armas contra o governo ditatorial de Porfírio Díaz, reivindicando terras e melhores condições de vida. Neste artigo vamos buscar mostrar como a Revolução Mexicana foi representada através da literatura de Mariano Azuela, um dos mais célebres escritores mexicanos. Azuela testemunhou e narrou diversos acontecimentos passados no México durante a primeira metade do século XX. Suas obras literárias nos apresentam importantes representações da Revolução e de suas conseqüências políticas. Apesar de sua importância, o escritor é pouco pesquisado no Brasil[2].

Devido à complexidade do tema, não podemos dispensar algumas questões teóricas, como a relação entre a história e a ficção, a modernidade, e a questão do intelectual como objeto de estudo. Acreditamos que estas questões são bastante pertinentes no debate historiográfico atual, e extrapolam a área de pesquisa de História da América.

Vamos refletir sobre cada uma destas questões antes de entrar no tema central de nosso trabalho – a Revolução Mexicana através da pena de Mariano Azuela. Um primeiro passo é pensar sobre a relação que envolve a história e a ficção. Este tema vem sendo largamente discutido por vários autores nas últimas décadas. Aqui daremos ênfase às interpretações de Luiz Costa Lima e Sandra Pesavento, por nos parecerem mais adequadas ao enfoque que escolhemos dar à pesquisa.

Luiz Costa Lima[3] pensa a relação entre a história e a ficção a partir da mímesis. A mímesis seria uma imaginação produtora articulada a uma certa comunidade ou sociedade humana. Ela estabelece uma correspondência entre um estado de mundo e uma configuração textual, sendo que essa configuração interna da obra é concebida como um organismo-mundo. A mímesis seria uma representação que respeita certos limites, construída conectada ao eixo de costumes, valores e usos da sociedade em que é engendrada. Tanto a ficção quanto a história se utilizam da mímesis, devido ao fato de ambas serem representações construídas com base nos valores contidos em uma sociedade específica. A história se utiliza da mímesis enquanto representação do passado, e se difere da ficção por apresentar um compromisso com a verdade. A história busca se aproximar o máximo possível do passado tal como foi, embora saibamos que é impossível restituí-lo completamente. Luiz Costa Lima se aproxima de Ginzburg[4] neste ponto, ao comparar a história com um processo jurídico, no qual o que ocorre é uma articulação entre provas – documentos – e retórica – a construção textual. Sendo assim, a história não é tão livre quanto a ficção, que possui licença poética.

A ficção nos revela possibilidades distintas, nela o imaginário é muito mais livre. Ela narra algo como se tivesse ocorrido. Mas, como dissemos, a ficção também pode supor uma mímesis em atividade, pois pode ser construída de acordo com os valores e costumes de uma dada sociedade, mesmo que isso fique oculto na própria obra ficcional. A ficção, ao se utilizar da mímesis, acaba por colocá-la em um tema – ela tematiza esse ato da imaginação produtora.

Outra contribuição importantíssima para a relação história/literatura é a de Sandra Pesavento[5]. Segundo ela, o historiador, ao utilizar uma obra literária como fonte histórica, deve levar em consideração o contexto no qual a obra foi produzida, as idéias que circulavam na época e o autor que a produziu. Sendo assim, o historiador não deve realizar um estudo fechado em torno da obra, ou compará-la com a realidade. Os personagens provavelmente são fictícios, não viveram as situações descritas. A obra é interessante como produto de uma época, de idéias temporalmente localizadas. A autora defende uma concepção histórica baseada no estudo das representações e do imaginário, sendo este último um sistema de idéias, imagens, que dão significado à realidade. A reflexão sobre o imaginário, e consequentemente, a literatura, possibilita ao historiador pensar não só sobre o que ocorreu de fato, mas também sobre o que poderia ter ocorrido. O imaginário exerce uma função criadora que parte de uma via simbólica e expressa a vontade de reconstrução do real.

A partir da análise de Pesavento, pensamos a literatura como uma construção do imaginário, como uma representação de uma dada realidade social. Mais que isso, a literatura é parte de uma realidade social. Ela exprime uma vontade de reconstruir o mesmo, e apresenta uma conexão com o mundo vivido, essencial para que seja aceita e compreendida por seus leitores.

Uma outra preocupação presente em nosso trabalho é a questão da modernidade. O que foi esse processo e como ele se desenvolveu na América Latina? A modernidade foi um processo que compreende mudanças materiais, intelectuais, e de comportamento. Segundo Marshall Berman,[6] estas mudanças ocorrem incessantemente, em um ritmo cada vez mais intenso. Para Berman a modernidade compreende dois movimentos: a modernização, que seria as mudanças materiais, urbanas e tecnológicas, e o modernismo, que seria o desenvolvimento intelectual, criativo e artístico. Esse processo teve seu início na Europa e chegou ao continente americano por volta do século XIX.

Alguns autores, como Mary Louise Pratt, abordam a discussão em torno da modernidade articulando-a com os conceitos de civilidade e alteridade. O ser ingresso na modernidade é o “civilizado”, enquanto os “outros”, aqueles que ainda não foram inseridos nesse processo, são os “bárbaros”, que “devem” ser subjugados e modernizados por aqueles que detêm o conhecimento e o controle das novas técnicas. Devemos ter consciência de que esse processo modernizador parte de um lugar específico, a Europa, e, posteriormente, os Estados Unidos, e representa os interesses dessas regiões, que passam a difundir esses modelos para os países subdesenvolvidos. Como afirma Mary Louise Pratt:

A modernidade como projeto tem um caráter claramente difusionista e centrípeto, uma missão civilizadora. A modernidade como discurso, no entanto, é ferozmente centrífuga, ou seja, ela procura continuamente consolidar-se em torno de um centro. Normalmente este centro é uma narrativa das origens, ou uma gama de características essenciais. Sempre é garantido por uma construção do Outro.(...)O que permanece invariável é que sempre deve haver um outro.[7]

O desenvolvimento da modernidade na América Latina foi muito diferente do que o processo europeu e o estadunidense. Até princípios do século XIX éramos ainda colônias européias, e mesmo nossa independência política foi marcada por uma forte dependência econômica. A modernização, marcada por inovações tecnológicas se desenvolveu ao lado da tradição religiosa, da cultura rural e agrária, dos padrões sociais ainda bastante ligados aos laços clientelares, familiares.

Esse processo de modernização, nos países latino-americanos, não resultou na solução de nossos problemas sociais, pelo contrário, muitas vezes possibilitou a continuidade no poder das velhas aristocracias, que eram, na maioria dos casos, responsáveis ou colaboradoras dessas inovações. De fato, essas elites nem sempre buscavam um rompimento com seu passado, e muitas vezes se voltavam às tradições para justificar seu poder. É claro que não podemos pensar nestes desenvolvimentos artísticos e tecnológicos como meros instrumentos nas mãos destas elites. A relação é bem mais complexa, sendo que os artistas muitas vezes buscam uma autonomia frente às pressões dos grupos no poder. Mas também não podemos descartar, e este com certeza não é o propósito de nosso estudo, as maneiras como a arte e a tecnologia são apropriadas por estes setores. Tradição e modernidade, o culto e o popular, elite e povo se encontram imbricados ao longo do percurso histórico latino-americano.

O estudo de Julio Ramos[8] apresenta alguns aspectos característicos da modernidade na América Latina no final do século XIX e início do XX. Nesse período, diversas cidades latino-americanas sofreram uma intensa reelaboração do espaço, sendo que a cidade, e não mais o campo, passou a ser o centro das atividades. É importante perceber que o surgimento dessas cidades modernas na América Latina ocasionou o nascimento de uma cultura urbana, que modificou comportamentos, estimulou o aparecimento de novas formas artísticas e possibilitou o despontar de novos meios de entretenimento (como é o caso dos cinemas e dos grandes teatros). A cidade moderna, com suas ruas e avenidas, permitiu uma maior circulação de mercadorias, um trâmite mais amplo dos bens culturais e um maior desenvolvimento do capitalismo, que trouxe consigo relações econômicas e sociais ambíguas, contraditórias. É evidente que as mudanças do capitalismo repercutiram na relação do artista com a arte, que passou a ser vista como mercadoria. E o artista – incluindo o literato - tornou-se, por sua vez, um produtor de mercadorias a serem vendidas no mercado, cada vez mais amplo, marcado pelo fenômeno da cultura de massa. A modernização e o avanço do capitalismo desencadearam uma divisão do trabalho mais complexa, na qual o artista foi inserido.

Em relação ao desenvolvimento do sistema capitalista e à modernidade na América Latina é preciso ressaltar um outro aspecto importante para nosso trabalho: a acentuação das diferenças entre as cidades modernas e o campo. Marshall Berman, em seu livro Tudo que é sólido desmancha no ar, analisa, entre outros temas, os processos de modernização nos países subdesenvolvidos. Acredito que alguns elementos utilizados na análise de Berman podem ser usados para pensar o processo de modernização no México. Este autor reflete sobre a relação entre autoritarismo e modernidade nos países subdesenvolvidos, mostrando como esses fatores estão imbricados, e as possíveis conseqüências desse cruzamento. Isso é facilmente observado durante o governo de Porfirio Díaz (1876 – 1910). O período conhecido como porfiriato foi caracterizado por um grande desenvolvimento econômico, modernização das áreas urbanas, progresso nos meios de transporte - como pode ser evidenciado pela ampliação da malha ferroviária durante seu governo -, mas, também, por uma grande concentração de renda nas mãos de grupos favorecidos pelo general Díaz, além de uma forte censura e violenta repressão. Esse desenvolvimento foi sustentado em grande parte por investimentos internacionais, principalmente dos Estados Unidos, o que acarretou uma dependência cada vez maior do México em relação ao seu vizinho do norte.

A ditadura de Porfirio Díaz foi marcada, no âmbito das idéias, pela predominância do positivismo como corrente ideológica entre os círculos do governo. Buscava-se o ideal de uma sociedade bem organizada, alicerçada na ciência e na razão, sempre na marcha do progresso. Concomitante a esse discurso oficial, existia no país uma forte tradição católica, além de uma cultura baseada nos valores indígenas - não podemos esquecer que o México é um país de acentuada miscigenação e que as tradições indígenas nunca deixaram de influenciar as práticas sociais -, ainda muito vinculadas a um mundo de encantamentos no qual a crença na ciência ainda não tinha uma força significativa.

A Cidade do México, e também alguns estados do norte, apresentaram um crescimento econômico e urbano desproporcional em relação às áreas agrícolas. O ambiente rural mexicano passou a contrastar com cidades modernas, onde circulavam não só bens materiais, como também uma quantidade considerável de bens culturais, como a literatura e o cinema. Diversos elementos representativos da modernidade passaram a figurar no cenário mexicano, como as ferrovias, os automóveis, o telégrafo, e as novas construções urbanas. Paralelamente a essa modernização, ainda persistia a cultura rural, a economia agrícola, as camadas populares que permaneceram ligadas a estas -como é o caso da população do sul do México. Estas contradições entre o campo e a cidade, entre os exploradores e explorados elevou-se a um tal nível de pressão, que a situação ficou insustentável. Políticos liberais e camponeses roubaram a cena no evento conhecido como Revolução Mexicana, e o mundo olhou para um México rebelde que jamais seria o mesmo.

A Revolução Mexicana iniciou-se no dia 20 de novembro de 1910 com o Plan de San Luis Potosí, formulado por Francisco Madero[9]. Desencadeou-se assim uma série de violentos levantes que se intensificaram ainda mais após a morte de Madero[10] em fevereiro de 1913. Durante a Revolução Mexicana as mais diversas frentes ideológicas e sociais se manifestaram (liberais, anarquistas, camponeses, fazendeiros, e etc.). Entre as questões fundamentais estão a política – liberais ligados a Madero ou influenciados por ele desejavam um México cuja política fosse adequada às liberdades políticas democráticas[11] como liberdade de imprensa, equilíbrio de poderes, representação partidária e etc. – e a mais evidente: a questão da terra – representada principalmente pelos grupos camponeses liderados por Emiliano Zapata, que desejavam ter seus ejidos[12] de volta, e por Francisco Villa, mais conhecido como Pancho Villa. Outro importante personagem na Revolução foi o general Carranza, liberal que agregou seguidores da antiga aristocracia rural, marginalizada da vida política durante o governo de Porfírio Díaz. A década de 1910 foi toda marcada por esses conflitos armados, que desolaram grande parte da infra-estrutura do país, sem mencionar o enorme número de mortos. A reconstrução do país, e sua conseqüente reorganização, ocorreriam na década seguinte, durante os governos de Álvaro Obregón (1920-1924) e Plutarco Elias Calles (1924-1928).

Passemos agora para uma análise mais centrada em Mariano Azuela. A reflexão de Benoit Denis[13] sobre o intelectual engajado apresentada em seu livro Literatura e engajamento – de Pascal a Sartre nos parece muito válida para iluminar alguns aspectos sobre o escritor mexicano. Segundo Denis a figura do intelectual é plenamente moderna e surge na França na passagem do século XIX para o século XX, durante o Caso Dreyfus[14]. O intelectual, sendo externo à esfera política – ele não necessariamente precisa estar ligado a algum partido ou exercer algum cargo político -não deixa de atuar nela e intervir na esfera pública. Para Denis:

(...) o intelectual é aquele que, invocando a competência que lhe reconhecem na sua disciplina, deseja abusar dela para a boa causa, quer dizer, para tomar posição no debate público em nome dos valores desinteressados que orientam o seu trabalho de escritor, cientista ou professor[15] .

Para o autor, o escritor engajado é aquele que coloca a escrita literária – que a priori não necessita apresentar nenhuma posição política, ou mesmo uma aproximação com fatos reais – a serviço de seus ideais, ou de uma causa política específica. O escritor engajado vê a literatura como um meio de tomar parte no debate político e social. Ele a vê como dotada de uma força propositiva e/ou de contestação política. Partindo destas proposições de Denis[16] considero Mariano Azuela como um escritor engajado, na medida em que em diversas de suas obras podemos encontrar críticas sociais e, principalmente às consequências da Revolução.

Azuela foi um escritor que observou e narrou tanto experiências do campo como da cidade. Viveu nestes dois ambientes e escreveu criticamente sobre esses dois mundos. Sua escrita apresenta traços tanto do naturalismo/realismo de Zola e Balzac – autores modernos muito lidos pelo mexicano -, quanto dos escritores de seu pueblo, Lagos, onde viveu suas primeiras experiências literárias, freqüentando clubes de leitura, trocando idéias com outros intelectuais, e mesmo atuando politicamente. Entre as características do escritor podemos destacar a simplicidade e a crítica ao que ele chamava de “snobismo”, comum a muitos intelectuais[17].

Passemos agora para uma análise mais centrada nas obras do escritor. Mala yerba é resultado das experiências campestres de Azuela. A novela conta a história da família Andrade, que goza de grande prestígio e poder nos pueblos de San Pedro de las Gallinas e San Francisquito. Entre as personagens centrais estão Julián de Andrade - fazendeiro famoso e cruel nos arredores -, Marcela - uma atraente aldeã que desperta as paixões de Julián e de Gertrudis - robusto e valente empregado de Julián. A novela gira em torno destes três personagens. Julián, que manda e desmanda em San Pedro de las Gallinas, cometendo as maiores atrocidades sem ter quem o puna – visto que os grandes fazendeiros detinham um enorme poder local nas áreas rurais do México – se apaixona intensamente por Marcela, que sabe que é bela e capaz de seduzir aos homens, mas que não se apaixona por nenhum, utilizando deles para se beneficiar. Gertrudis, a princípio grande amigo de Marcela, também acaba se apaixonando pela moça, o que o leva a pedi-la em casamento. Após muito insistir, Gertrudis finalmente convence Marcela a viver com ele, mesmo a moça não demonstrando o menor sinal de amor. Tal envolvimento irrita profundamente Julián que ao longo de toda a estória é rejeitado por Marcela. Resolvendo se vingar de ambos, e sabendo de sua impunidade, Julián mata os dois, sem sofrer grandes conseqüências por isso.

Essa novela de Azuela foi publicada em 1909, ou seja, ela antecede a Revolução Mexicana, mas já podemos perceber nela o caráter de crítica social que iria marcar as posteriores obras de Azuela. O intelectual escreve sobre Mala yerba:

En mi novela Mala yerba hice ya lo primero en forma y con el resultado que no me toca a mí calificar: allí están los peones del campo sumidos en la miseria, resignados y sin el menor rayo de esperanza; los señores hacendados en plenitud de su poder, dueños de honras y vidas de sus esclavos y todopoderosos que con su dinero y su pistola resuelven todos sus conflictos[18]

Esta crítica ao caciquismo se repete em outras obras de Azuela. O autor concebia esta prática política – arcaica, podemos inferir -como um dos maiores males do México. Essa crítica é bastante plausível quando nos atentamos para o fato de Azuela defender o liberalismo político. A visão política liberal de Azuela é bastante moderna e humanista, assim como a de Francisco Madero, político que nosso escritor apoiou firmemente e a quem não poupava elogios, como pode ser evidenciado neste trecho:

!Qué lástima me inspiran los niños de teta de la revolución y la cálifa de oportunistas y logreros que han mostrado desdén y compasión por la revolución de Madero, atribuyendo su triunfo a los dólares americanos! ¿Sin Madero quiénes habrían sido estos pobres diablos extremistas de hoy? [19]

Outra novela de Azuela na qual este critica o caciquismo é Andrés Pérez, maderista, escrita em 1911. Nesta novela o escritor também apresenta uma àcida crítica aos chamados “maderistas de última hora”, ou seja, aos oportunistas que aderiram – ou fingiram aderir - à causa de Madero apenas quando o fracasso do governo de Porfírio Díaz parecia iminente. Os personagens que mais se destacam no conto são Andrés Pérez - que acaba aderindo à causa revolucionária apenas como uma forma de aumentar seu prestígio pessoal, de maneira bastante oportunista, simbolizando os maderistas de última hora - e Don Octavio, um intelectual que defendia verdadeiramente a Revolução Mexicana. Os dois personagens apresentam opiniões contrastantes a respeito da Revolução, que vão se chocando ao longo da obra. Através das falas de Don Octavio o autor manifesta a maioria de suas críticas ao governo de Díaz, como transparece neste trecho do conto no qual o personagem se refere à Porfirio Díaz:

Don Octavio, en efecto, dijo con aplomo:

-Los desaciertos del gobierno aumentan la gravedad de la situación del país. Se siente la senilidad, la decrepitud del dictador. Nos tenía acostumbrados a su dictadura cuerda, lógica, tolerante;(…)[20].

Podemos perceber que as críticas de Azuela são dirigidas, principalmente, para os problemas políticos mexicanos. A questão agrária não é discutida com profundidade, como causa do conflito social. Quando a questão das terras é mencionada, aparece apenas como subordinada à política, mais um aspecto desse caciquismo, como nos mostra o trecho do conto no qual Romualdo Contreras López, um coronel do Ejército Libertador, se dirige à Andrés Pérez:

-La verdad es que ya urge que nos quiten a don Porfírio y a todos los bandidos de su gobierno, mi coronel. Soy dueño de una garrita de tierra que no llega ni a dos caballerías, y pago por ella de contribuciones tanto como el coronel Hernández paga por la hacienda del Cedazo. ¿Y sabe usted lo que acaban de ofrecerle por ella? Doscientos cincuenta mil pesos. Le digo a usted que es un Gobierno de ladrones[21].

Podemos perceber então, que diferente das causas zapatistas, a questão da terra para Azuela não ocupa um lugar central na Revolução Mexicana, ela está subordinada aos interesses dos chefes locais. Azuela se posicionou como um maderista, e nesses primeiros momentos da Revolução não apenas atuou a seu exemplo no campo literário, como também no campo político. O escritor chegou até mesmo a ser chefe político da cidade de Lagos após a queda de Porfirio Díaz, mas exerceu o cargo por apenas um mês e decidiu abandoná-lo, decepcionado pela atuação de vários políticos que, apesar de se apresentarem como maderistas, exerciam as velhas práticas tradicionalistas do período porfirista. Azuela, ao renunciar, teve que entregar o posto de chefe político à mesma pessoa que havia substituído. Este afastamento foi o motivo de uma grande desilusão de Azuela com a Revolução, como ele indica neste trecho:

Esto me dio la medida cabal del gran fracaso de la revolución. Fue para mí el máximo instante de la desilusión, de irreparables consecuencias. El caciquismo recuperaba sus fueros, sorprendido él mismo de la debilidad catastrófica del gobierno maderista. Decidido a retirarme de una manera absoluta de toda actividad política me dediqué al ejercicio de mi profesión y en las horas muertas a componer el primer volumen de una serie que debió haberse llamado Cuadros y escenas de la Revolución Mexicana[22].

Na edição do conto Andrés Pérez, maderista, publicada em 2002 pelo Instituto Politécnico Nacional, encontramos em anexo correspondências de Mariano Azuela que nos possibilitam ter uma ligeira amostra de seu posicionamento político, bem como de sua ligação com diversos membros do Comite Ejecutivo Electoral propagandista de la formula Madero- Vázquez Gómez- Gutiérrez Allende. As correspondências datam de 14 de maio de 1911 a 17 de junho de 1912 e também abarcam o período em que Azuela foi chefe político em Lagos. Em carta a Salvador Gómez, membro do comitê citado anteriormente, datada de 31 de dezembro de 1911 - na qual o escritor aceitava a candidatura para deputado por um clube político liberal - percebemos claramente o posicionamento liberal de Azuela:

(…)hasta ahora me había abstenido porque nunca he trabajado por personalidad alguna ni lo haré más tarde, pero me basta el hecho de que sean los partidarios amparados bajo la bandera liberal los que me honren con tal ofrecimiento, para que los acepte desde luego, pues mi labor modesta ha sido siempre por el triunfo de las ideas liberales[23].

Azuela aceitou a candidatura apenas para garantir a vitória do clube liberal, mas avisa a Salvador Gómez que não exerceria o cargo, do qual se retiraria para que um suplente o ocupasse. Por uma mudança de planos da parte de Salvador Gómez, a candidatura do escritor não se efetivou, apesar da decisão tornar evidente sua intenção em colaborar com partidos liberais.

Esse liberalismo, presente neste primeiro momento da trajetória de Azuela, está fortemente associado à idéia de democracia. A principal crítica do escritor é dirigida à forma na qual a política é exercida no México, nada moderna, sendo que as decisões estavam vinculadas à interesses particulares de poderosos chefes locais. Ou seja, as leis moldavam-se aos valores desses líderes, a justiça ficava subordinada aos seus comandos, a administração do bem público, seja em âmbito regional ou central, vinculava-se aos seus interesses.

O que é preciso notar, é que esse liberalismo defendido por Azuela - bastante influenciado pelas idéias de Madero - estava voltado para um viés legalista, defendia instituições políticas legítimas e independentes entre si, os poderes políticos (Legislativo, Judiciário e Executivo) funcionando de maneira equilibrada e, é claro, o direito ao voto, livre da pressão dos caciques políticos. Podemos inferir que o escritor estava voltado para uma visão política mais moderna, indo na direção contrária ao tradicionalismo autoritário que vigorava no México.

Após a morte de Madero, Azuela passou a um posicionamento político mais radical e acabou se integrando como médico[24] nas tropas villistas de Julián Medina, por influência do amigo laguense José Becerra. Nesta época Azuela já pretendia escrever um romance inspirado nos acontecimentos revolucionários e nas experiências vividas pelos homens que lutavam na Revolução. Foi a partir das experiências que vivenciou e de sua convivência com os revolucionários villistas, que Azuela escreveu Los de abajo, seu romance de maior sucesso.

Antes de passarmos para a análise do romance é necessário fazer uma breve descrição de seu enredo. A obra conta a história de Demetrio Macias, um pequeno proprietário da região norte do México e se passa entre 1913 e 1915. Demetrio Macias, no início do romance, era um fugitivo de Don Mónico - cacique local que desejava as terras de Demetrio. O personagem junta-se com alguns amigos e se vê em meio à Revolução, sem nem mesmo compreender o que se passava. Ao primeiro encontro com as forças federais, Demetrio Macias é ferido e, no momento de sua recuperação, surge a figura de Luis Cervantes, um jornalista da cidade que, no início dos conflitos bélicos, escrevia artigos contrários à Revolução. Cervantes, ao ser obrigado a alistar nas tropas federais, resolveu fugir e, quando percebeu que os revolucionários poderiam vencer, aliou-se a eles, incorporando-se nas tropas de Demetrio Macias após ganhar sua confiança. Ao longo da estória Demetrio Macias e seus homens ganharam diversas batalhas e se tornaram conhecidos, sendo que seu auge foi a conquista de Zacatecas e a vitória sobre Don Mónico. Demetrio tornou-se general.

Depois de tantas vitórias Demetrio conheceu sua decadência. As práticas de seu grupo contribuíram para que esta se acentuasse. Roubos e saques por seus homens, e mesmo as atitudes oportunistas de Luis Cervantes - combinadas à derrota de Villa - levaram Demetrio à sua derrocada. No final da estória, Luis Cervantes abandonou seus companheiros e foi para os Estados Unidos, muitos homens de Demetrio morreram, e esse, fugindo das tropas de Carranza, acabou morrendo.

Los de abajo, como dito anteriormente, é uma forte crítica ao caciquismo, que no romance é representado pelas figuras de Don Mónico e Demetrio Macias. Ao longo da narrativa, os dois personagens disputam o poder em várias localidades e é possível observar a denúncia de várias práticas efetivadas por esses homens de poder. Os personagens- principalmente os secundários - saqueiam, estupram mulheres, matam sem qualquer sinal de escrúpulo. Azuela relata a barbárie, um México onde as leis parecem nem mesmo existir. Muitas das situações narradas e vários personagens criados por Azuela, foram inspirados em fatos vivenciados ou contados ao autor por companheiros de batalha. Los de abajo mostra uma visão desencantada da Revolução Mexicana. A obra narra a trajetória dos que faleceram nas batalhas e ficaram esquecidos pela história. Mais do que isso, o romance mostra a visão que Azuela tinha da Revolução como “lugar da barbárie”. O romance apresenta uma estrutura cíclica - a narração termina na mesma localidade em que começa – o que demonstra a posição pessimista do autor em relação à Revolução. Após seu desfecho as coisas voltariam para o mesmo lugar. Os que morreram nas batalhas seriam esquecidos e a política mexicana continuaria nas mãos de caudilhos.

Podemos refletir aqui sobre a relação entre civilização e barbárie apresentada por Mary Louis Pratt. É justamente a partir de uma visão política moderna, que respeita as leis, a divisão de poderes e a liberdade, defendida por Azuela, que o faz ver os comportamentos dos revolucionários como bárbaros. É um movimento bastante complexo: a Revolução deveria vir para combater a política caciquista, considerada pelo escritor como brutal e antiquada, mas essa brutalidade acaba sendo reafirmada nas próprias práticas dos revolucionários. Eles não compartilham do idealismo de Azuela, não são intelectuais. São homens brutos, valentes, que só querem melhores condições de vida. Eles não buscam uma política libertária e nem mesmo conhecem as modernas teorias políticas. Suas práticas, ao contrário, são bastante próximas dos caciques. Aqui a política civilizada vislumbrada por Azuela realça sua visão da barbárie revolucionária.. A relação aqui é de alteridade, e de incompreensão da parte do escritor em relação às práticas e experiências de vida daqueles que lutaram ao seu lado na Revolução.

Ao transpô-la para a literatura Azuela não pôde entender a principal questão da Revolução Mexicana: o problema agrário. Como já foi dito, a questão das terras só aparece enquanto produto da exploração dos caciques locais, e não como uma questão fundamental na sociedade mexicana, o que o levou a ser criticado por muitos e a ser visto por alguns grupos como conservador. Segundo Azuela sua posição frente à Revolução está expressa nas palavras de sua personagem Solís – presente em Los de abajo - que ainda que concorde com os ideais da Revolução já aponta para seus males e deturpações, como fica evidenciado nesta fala da personagem:

(...) Amigo mío: hay hechos y hay hombres que no son sino pura hiel... Y esa hiel va cayendo gota a gota en el alma, esperanzas, ideales, alegrías… ¡nada! Luego no le queda más: o se convierte usted en un bandido igual a ellos, o desaparece de la escena, escondiéndose tras las murallas de un egoísmo impenetrable y feroz[25].

Mais à frente Solís nos apresenta novamente um posicionamento crítico sobre a Revolução:

Hay que esperar un poco. A que no haya combatientes, a que no se oigan más disparos que los de las turbas entregadas a las delicias del saqueo; a que resplandezca diáfana, como una gota de agua, la psicología de nuestra raza, condensada en dos palabras: ¡robar, matar!... ¡Qué chasco, amigo mío, si los que venimos a ofrecer todo nuestro entusiasmo, nuestra misma vida por derribar a un miserable asesino, resultásemos los obreros de un enorme pedestal donde pudieran levantarse cien o doscientos mil monstruos de la misma especie! ¡Pueblo sin ideales, pueblo de tiranos!... ¡Lástima de sangre[26]!

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[1] Warley Alves Gomes é aluno do 8º período do curso de graduação em História da FAFICH/UFMG. Começou a iniciação científica em 2008, com o tema Mariano Azuela: uma visão sobre Los de abajo, orientado pela professora Kátia Gerab Baggio.

[2] Salvo as contribuições de Carlos Alberto Sampaio Barbosa, cuja dissertação de mestrado é sobre a obra Los de abajo de Mariano Azuela. Ver: BARBOSA, Carlos Alberto S., Morte e vida da Revolução Mexicana: Los de Abajo de Mariano Azuela. Dissertação de Mestrado, PUC, SP, 1996. Nosso enfoque aqui é um pouco diferente do estudado por Carlos Alberto, pois nos centramos em Mariano Azuela como intelectual, e não exclusivamente em Los de abajo.

[3] LIMA, Luiz Costa. História, ficção e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

[4] Ver GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002., p.13-79.

[5] PESAVENTO, Sandra Jatahy. Em busca de uma outra história: Imaginando o Imaginário. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, Contexto/ANPUH, vol. 15, nº 29, 1995.

[6] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. Embora todo o livro de Berman circule em torno das mudanças geradas na modernidade, o capítulo 1, O fausto de Goethe: a tragédia do desenvolvimento, parece ser o que melhor evoca a idéia da velocidade e do dinamismo no qual estas ocorrem.

[7] PRATT, Mary Louise. Pós-colonialidade: projeto incompleto ou irrelevante? In: VÉSCIO, Luiz Eugênio; SANTOS, Pedro Brum (orgs). Literatura e História. Perspectivas e convergências. São Paulo: EDUSC, 1999, p.44-45.

[8] Ver RAMOS, Julio. Desencontros da modernidade na América Latina: literatura e política no século 19. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

[9] O Plan de San Luis Potosi, escrito por Francisco Madero em seu exílio nos Estados Unidos, conclamava os mexicanos para uma sublevação contra Porfírio Díaz. Essa sublevação estava marcada para começar às 18:00 do dia 20 de novembro. Foi o início da Revolução Mexicana. O Plan de San Luis Potosi pode ser encontrado em anexo no livro de CÓRDOVA, Arnaldo. La ideologia de la Revolución Mexicana, México D.F.: Ed. Era, 1977, p.427.

[10] Francisco Madero foi assassinado no dia 22 de fevereiro de 1913, fuzilado juntamente com Pino Suárez, vice-presidente, por ordem do general Victoriano Huerta, que conspirava com o governo norte-americano para derrubar Madero. O episódio ficou conhecido como “Decena Trágica”. Ver AGUILAR CAMÍN, Héctor & MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução Mexicana: História mexicana contemporânea, 1910-1989. São Paulo: Edusp, 2000, p.52-54.

[11] É interessante notar que esta é uma visão política moderna quando a comparamos com as práticas clientelistas que existiam na política mexicana, nas mãos de poderosos fazendeiros. Essa prática política tradicional mexicana, conhecida como caciquismo, é bastante parecida com o coronelismo da República Velha no Brasil.

[12] Os ejidos, durante o período colonial, eram as propriedades comunais destinadas ao trabalho agrícola. Após a Constituição de 1917 o nome foi recuperado, embora os direitos de uso destes ejidos não sejam os mesmos dos ejidos do período colonial.

[13] DENIS, Benoit. Literatura e engajamento: de Pascal a Sartre. São Paulo: Edusc, 2002.

[14] O Caso Dreyfus ocorreu na França. Em 1894, o capitão Alfred Dreyfus, foi condenado erroneamente pelo crime de espionagem e deportado para a Guiana. A família de Dreyfus e alguns intelectuais realizaram uma ampla campanha a favor da revisão do processo e da reabilitação do capitão, que ganha um amplo acesso após a intervenção de Émile Zola, com a publicação do Eu acuso. A opinião pública se divide então em dreyfusards – que defendem a verdade e a justiça, que estão além da razão do Estado- e anti-dreyfusards – que apresentam um nacionalismo exacerbado e um anti-semitismo violento, defendendo o prestígio do exército. A figura do intelectual surge desse debate, a início dos dreyfusards – é obvio que depois tal entendimento do conceito de intelectual sofre mudanças.

[15] DENIS, Benoit. Literatura e engajamento: de Pascal a Sartre. São Paulo: Edusc, 2002, p.210.

[16] É preciso avaliar com cuidado as proposições de Denis acerca do intelectual. Eu utilizo o autor por pensar que suas contribuições teóricas acerca do escritor engajado são bastante produtivas, mas discordo da diferenciação que o autor faz entre o intelectual – cuja intervenção pode se dar pontualmente , em um determinado momento - e o escritor engajado – cuja intervenção apresenta um caráter mais permanente, como uma escolha de escritura. Esta separação entre o escritor e o intelectual é, no mínimo, polêmica e deve ser confrontada com outras interpretações acerca do intelectual.

[17] Azuela ao escrever sobre outros intelectuais sempre observa e critica a questão do snobismo, que aparece como uma qualidade negativa. Para mais detalhes ver AZUELA, Mariano. Obras Completas Vol III. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1960, pp.569-668; 773-811.

[18] AZUELA, Mariano,op. cit., p.1110.

[19] AZUELA, Mariano, op. cit., p. 1067.

[20] AZUELA, Mariano. Andrés Pérez, maderista. México, D.F.: Instituto Politécnico Nacional, 2002, p.37.

[21] AZUELA, Mariano, op. cit., p.47.

[22] AZUELA, Mariano. Obras Completas. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1960, p.1070.

[23] AZUELA, Mariano. Andrés Pérez, maderista. México, D.F.: Instituto Politécnico Nacional, 2002, p.111.

[24] Mariano Azuela também exercia a profissão de médico. O fato do escritor exercer outra profissão não é nada excepcional, pois é fato que somente poucos escritores conseguiam viver apenas de suas obras no início do século XX.

[25] AZUELA, Mariano. Los de Abajo. Edición Crítica. Colección Archivos, RUFFINELLI, Jorge (coord.). Ed. ALLCA/UFRJ, 1996, p.96.

[26] AZUELA, Mariano, op. cit., pp.71-72.