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Este ano a Revolução Mexicana comemora seu centenário. No dia 20 de novembro
de 1910 teve início a primeira revolução do século XX, liderada por Francisco
Madero. Não tardou para que as massas camponesas também levantassem em armas
contra o governo ditatorial de Porfírio Díaz, reivindicando terras e melhores
condições de vida. Neste artigo vamos buscar mostrar como a Revolução Mexicana
foi representada através da literatura de Mariano Azuela, um dos mais célebres
escritores mexicanos. Azuela testemunhou e narrou diversos acontecimentos
passados no México durante a primeira metade do século XX. Suas obras literárias
nos apresentam importantes representações da Revolução e de suas conseqüências
políticas. Apesar de sua importância, o escritor é pouco pesquisado no Brasil[2].
Devido à complexidade do tema, não podemos dispensar algumas questões
teóricas, como a relação entre a história e a ficção, a modernidade, e a questão
do intelectual como objeto de estudo. Acreditamos que estas questões são
bastante pertinentes no debate historiográfico atual, e extrapolam a área de
pesquisa de História da América.
Vamos refletir sobre cada uma destas questões antes de entrar no tema central
de nosso trabalho – a Revolução Mexicana através da pena de Mariano Azuela. Um
primeiro passo é pensar sobre a relação que envolve a história e a ficção. Este
tema vem sendo largamente discutido por vários autores nas últimas décadas. Aqui
daremos ênfase às interpretações de Luiz Costa Lima e Sandra Pesavento, por nos
parecerem mais adequadas ao enfoque que escolhemos dar à pesquisa.
Luiz Costa Lima[3]
pensa a relação entre a história e a ficção a partir da mímesis. A
mímesis seria uma imaginação produtora articulada a uma certa comunidade ou
sociedade humana. Ela estabelece uma correspondência entre um estado de mundo e
uma configuração textual, sendo que essa configuração interna da obra é
concebida como um organismo-mundo. A mímesis seria uma representação que
respeita certos limites, construída conectada ao eixo de costumes, valores e
usos da sociedade em que é engendrada. Tanto a ficção quanto a história se
utilizam da mímesis, devido ao fato de ambas serem representações
construídas com base nos valores contidos em uma sociedade específica. A
história se utiliza da mímesis enquanto representação do passado, e se
difere da ficção por apresentar um compromisso com a verdade. A história busca
se aproximar o máximo possível do passado tal como foi, embora saibamos
que é impossível restituí-lo completamente. Luiz Costa Lima se aproxima
de Ginzburg[4]
neste ponto, ao comparar a história com um processo jurídico, no qual o que
ocorre é uma articulação entre provas – documentos – e retórica – a construção
textual. Sendo assim, a história não é tão livre quanto a ficção, que possui
licença poética.
A ficção nos revela possibilidades distintas, nela o imaginário é muito mais
livre. Ela narra algo como se tivesse ocorrido. Mas, como dissemos, a
ficção também pode supor uma mímesis em atividade, pois pode ser
construída de acordo com os valores e costumes de uma dada sociedade, mesmo que
isso fique oculto na própria obra ficcional. A ficção, ao se utilizar da
mímesis, acaba por colocá-la em um tema – ela tematiza esse ato da
imaginação produtora.
Outra contribuição importantíssima para a relação história/literatura é a de
Sandra Pesavento[5].
Segundo ela, o historiador, ao utilizar uma obra literária como fonte histórica,
deve levar em consideração o contexto no qual a obra foi produzida, as idéias
que circulavam na época e o autor que a produziu. Sendo assim, o historiador não
deve realizar um estudo fechado em torno da obra, ou compará-la com a realidade.
Os personagens provavelmente são fictícios, não viveram as situações descritas.
A obra é interessante como produto de uma época, de idéias temporalmente
localizadas. A autora defende uma concepção histórica baseada no estudo das
representações e do imaginário, sendo este último um sistema de idéias, imagens,
que dão significado à realidade. A reflexão sobre o imaginário, e
consequentemente, a literatura, possibilita ao historiador pensar não só sobre o
que ocorreu de fato, mas também sobre o que poderia ter ocorrido. O imaginário
exerce uma função criadora que parte de uma via simbólica e expressa a vontade
de reconstrução do real.
A partir da análise de Pesavento, pensamos a literatura como uma construção
do imaginário, como uma representação de uma dada realidade social. Mais que
isso, a literatura é parte de uma realidade social. Ela exprime uma vontade de
reconstruir o mesmo, e apresenta uma conexão com o mundo vivido, essencial para
que seja aceita e compreendida por seus leitores.
Uma outra preocupação presente em nosso trabalho é a questão da modernidade.
O que foi esse processo e como ele se desenvolveu na América Latina? A
modernidade foi um processo que compreende mudanças materiais, intelectuais, e
de comportamento. Segundo Marshall Berman,[6]
estas mudanças ocorrem incessantemente, em um ritmo cada vez mais intenso. Para
Berman a modernidade compreende dois movimentos: a modernização, que seria as
mudanças materiais, urbanas e tecnológicas, e o modernismo, que seria o
desenvolvimento intelectual, criativo e artístico. Esse processo teve seu início
na Europa e chegou ao continente americano por volta do século XIX.
Alguns autores, como Mary Louise Pratt, abordam a discussão em torno da
modernidade articulando-a com os conceitos de civilidade e alteridade. O ser
ingresso na modernidade é o “civilizado”, enquanto os “outros”, aqueles que
ainda não foram inseridos nesse processo, são os “bárbaros”, que “devem” ser
subjugados e modernizados por aqueles que detêm o conhecimento e o controle das
novas técnicas. Devemos ter consciência de que esse processo modernizador parte
de um lugar específico, a Europa, e, posteriormente, os Estados Unidos, e
representa os interesses dessas regiões, que passam a difundir esses modelos
para os países subdesenvolvidos. Como afirma Mary Louise Pratt:
A modernidade como projeto tem um caráter
claramente difusionista e centrípeto, uma missão civilizadora. A modernidade
como discurso, no entanto, é ferozmente centrífuga, ou seja, ela procura
continuamente consolidar-se em torno de um centro. Normalmente este centro é uma
narrativa das origens, ou uma gama de características essenciais. Sempre é
garantido por uma construção do Outro.(...)O que permanece invariável é que
sempre deve haver um outro.[7]
O desenvolvimento da modernidade na América Latina foi muito diferente do
que o processo europeu e o estadunidense. Até princípios do século XIX éramos
ainda colônias européias, e mesmo nossa independência política foi marcada por
uma forte dependência econômica. A modernização, marcada por inovações
tecnológicas se desenvolveu ao lado da tradição religiosa, da cultura rural e
agrária, dos padrões sociais ainda bastante ligados aos laços clientelares,
familiares.
Esse processo de modernização, nos países latino-americanos, não resultou na
solução de nossos problemas sociais, pelo contrário, muitas vezes possibilitou a
continuidade no poder das velhas aristocracias, que eram, na maioria dos casos,
responsáveis ou colaboradoras dessas inovações. De fato, essas elites nem sempre
buscavam um rompimento com seu passado, e muitas vezes se voltavam às tradições
para justificar seu poder. É claro que não podemos pensar nestes
desenvolvimentos artísticos e tecnológicos como meros instrumentos nas mãos
destas elites. A relação é bem mais complexa, sendo que os artistas muitas vezes
buscam uma autonomia frente às pressões dos grupos no poder. Mas também não
podemos descartar, e este com certeza não é o propósito de nosso estudo, as
maneiras como a arte e a tecnologia são apropriadas por estes setores. Tradição
e modernidade, o culto e o popular, elite e povo se encontram imbricados ao
longo do percurso histórico latino-americano.
O estudo de Julio Ramos[8]
apresenta alguns aspectos característicos da modernidade na América Latina no
final do século XIX e início do XX. Nesse período, diversas cidades
latino-americanas sofreram uma intensa reelaboração do espaço, sendo que a
cidade, e não mais o campo, passou a ser o centro das atividades. É importante
perceber que o surgimento dessas cidades modernas na América Latina ocasionou o
nascimento de uma cultura urbana, que modificou comportamentos, estimulou o
aparecimento de novas formas artísticas e possibilitou o despontar de novos
meios de entretenimento (como é o caso dos cinemas e dos grandes teatros). A
cidade moderna, com suas ruas e avenidas, permitiu uma maior circulação de
mercadorias, um trâmite mais amplo dos bens culturais e um maior desenvolvimento
do capitalismo, que trouxe consigo relações econômicas e sociais ambíguas,
contraditórias. É evidente que as mudanças do capitalismo repercutiram na
relação do artista com a arte, que passou a ser vista como mercadoria. E o
artista – incluindo o literato - tornou-se, por sua vez, um produtor de
mercadorias a serem vendidas no mercado, cada vez mais amplo, marcado pelo
fenômeno da cultura de massa. A modernização e o avanço do capitalismo
desencadearam uma divisão do trabalho mais complexa, na qual o artista foi
inserido.
Em relação ao desenvolvimento do sistema capitalista e à modernidade
na América Latina é preciso ressaltar um outro aspecto importante para nosso
trabalho: a acentuação das diferenças entre as cidades modernas e o campo.
Marshall Berman, em seu livro Tudo que é sólido desmancha no ar, analisa,
entre outros temas, os processos de modernização nos países subdesenvolvidos.
Acredito que alguns elementos utilizados na análise de Berman podem ser usados
para pensar o processo de modernização no México. Este autor reflete sobre a
relação entre autoritarismo e modernidade nos países subdesenvolvidos, mostrando
como esses fatores estão imbricados, e as possíveis conseqüências desse
cruzamento. Isso é facilmente observado durante o governo de Porfirio Díaz (1876
– 1910). O período conhecido como porfiriato foi caracterizado por um grande
desenvolvimento econômico, modernização das áreas urbanas, progresso nos meios
de transporte - como pode ser evidenciado pela ampliação da malha ferroviária
durante seu governo -, mas, também, por uma grande concentração de renda nas
mãos de grupos favorecidos pelo general Díaz, além de uma forte censura e
violenta repressão. Esse desenvolvimento foi sustentado em grande parte por
investimentos internacionais, principalmente dos Estados Unidos, o que acarretou
uma dependência cada vez maior do México em relação ao seu vizinho do norte.
A ditadura de Porfirio Díaz foi marcada, no âmbito das idéias, pela
predominância do positivismo como corrente ideológica entre os círculos do
governo. Buscava-se o ideal de uma sociedade bem organizada, alicerçada na
ciência e na razão, sempre na marcha do progresso. Concomitante a esse discurso
oficial, existia no país uma forte tradição católica, além de uma cultura
baseada nos valores indígenas - não podemos esquecer que o México é um país de
acentuada miscigenação e que as tradições indígenas nunca deixaram de
influenciar as práticas sociais -, ainda muito vinculadas a um mundo de
encantamentos no qual a crença na ciência ainda não tinha uma força
significativa.
A Cidade do México, e também alguns estados do norte, apresentaram um
crescimento econômico e urbano desproporcional em relação às áreas agrícolas. O
ambiente rural mexicano passou a contrastar com cidades modernas, onde
circulavam não só bens materiais, como também uma quantidade considerável de
bens culturais, como a literatura e o cinema. Diversos elementos representativos
da modernidade passaram a figurar no cenário mexicano, como as ferrovias, os
automóveis, o telégrafo, e as novas construções urbanas. Paralelamente a essa
modernização, ainda persistia a cultura rural, a economia agrícola, as camadas
populares que permaneceram ligadas a estas -como é o caso da população do sul do
México. Estas contradições entre o campo e a cidade, entre os exploradores e
explorados elevou-se a um tal nível de pressão, que a situação ficou
insustentável. Políticos liberais e camponeses roubaram a cena no evento
conhecido como Revolução Mexicana, e o mundo olhou para um México rebelde que
jamais seria o mesmo.
A Revolução Mexicana iniciou-se no dia 20 de novembro de 1910 com o Plan
de San Luis Potosí, formulado por Francisco Madero[9].
Desencadeou-se assim uma série de violentos levantes que se intensificaram ainda
mais após a morte de Madero[10]
em fevereiro de 1913. Durante a Revolução Mexicana as mais diversas frentes
ideológicas e sociais se manifestaram (liberais, anarquistas, camponeses,
fazendeiros, e etc.). Entre as questões fundamentais estão a política – liberais
ligados a Madero ou influenciados por ele desejavam um México cuja política
fosse adequada às liberdades políticas democráticas[11]
como liberdade de imprensa, equilíbrio de poderes, representação partidária e
etc. – e a mais evidente: a questão da terra – representada principalmente pelos
grupos camponeses liderados por Emiliano Zapata, que desejavam ter seus
ejidos[12]
de volta, e por Francisco Villa, mais conhecido como Pancho Villa. Outro
importante personagem na Revolução foi o general Carranza, liberal que agregou
seguidores da antiga aristocracia rural, marginalizada da vida política durante
o governo de Porfírio Díaz. A década de 1910 foi toda marcada por esses
conflitos armados, que desolaram grande parte da infra-estrutura do país, sem
mencionar o enorme número de mortos. A reconstrução do país, e sua conseqüente
reorganização, ocorreriam na década seguinte, durante os governos de Álvaro
Obregón (1920-1924) e Plutarco Elias Calles (1924-1928).
Passemos agora para uma análise mais centrada em Mariano Azuela. A reflexão
de Benoit Denis[13]
sobre o intelectual engajado apresentada em seu livro Literatura e
engajamento – de Pascal a Sartre nos parece muito válida para iluminar
alguns aspectos sobre o escritor mexicano. Segundo Denis a figura do intelectual
é plenamente moderna e surge na França na passagem do século XIX para o século
XX, durante o Caso Dreyfus[14].
O intelectual, sendo externo à esfera política – ele não necessariamente precisa
estar ligado a algum partido ou exercer algum cargo político -não deixa de atuar
nela e intervir na esfera pública. Para Denis:
(...) o intelectual é aquele que, invocando a competência que lhe reconhecem na
sua disciplina, deseja abusar dela para a boa causa, quer dizer, para tomar
posição no debate público em nome dos valores desinteressados que orientam o seu
trabalho de escritor, cientista ou professor[15]
.
Para o autor, o escritor engajado é aquele que coloca a escrita literária – que
a priori não necessita apresentar nenhuma posição política, ou mesmo uma
aproximação com fatos reais – a serviço de seus ideais, ou de uma causa política
específica. O escritor engajado vê a literatura como um meio de tomar parte no
debate político e social. Ele a vê como dotada de uma força propositiva e/ou de
contestação política. Partindo destas proposições de Denis[16]
considero Mariano Azuela como um escritor engajado, na medida em que em diversas
de suas obras podemos encontrar críticas sociais e, principalmente às
consequências da Revolução.
Azuela foi um escritor que observou e narrou tanto experiências do campo como
da cidade. Viveu nestes dois ambientes e escreveu criticamente sobre esses dois
mundos. Sua escrita apresenta traços tanto do naturalismo/realismo de Zola e
Balzac – autores modernos muito lidos pelo mexicano -, quanto dos escritores de
seu pueblo, Lagos, onde viveu suas primeiras experiências literárias,
freqüentando clubes de leitura, trocando idéias com outros intelectuais, e mesmo
atuando politicamente. Entre as características do escritor podemos destacar a
simplicidade e a crítica ao que ele chamava de “snobismo”, comum a muitos
intelectuais[17].
Passemos agora para uma análise mais centrada nas obras do escritor. Mala
yerba é resultado das experiências campestres de Azuela. A novela
conta a história da família Andrade, que goza de grande prestígio e poder
nos pueblos de San Pedro de las Gallinas e San Francisquito. Entre as
personagens centrais estão Julián de Andrade - fazendeiro famoso e cruel nos
arredores -, Marcela - uma atraente aldeã que desperta as paixões de Julián e de
Gertrudis - robusto e valente empregado de Julián. A novela gira em torno destes
três personagens. Julián, que manda e desmanda em San Pedro de las Gallinas,
cometendo as maiores atrocidades sem ter quem o puna – visto que os grandes
fazendeiros detinham um enorme poder local nas áreas rurais do México – se
apaixona intensamente por Marcela, que sabe que é bela e capaz de seduzir aos
homens, mas que não se apaixona por nenhum, utilizando deles para se beneficiar.
Gertrudis, a princípio grande amigo de Marcela, também acaba se apaixonando pela
moça, o que o leva a pedi-la em casamento. Após muito insistir, Gertrudis
finalmente convence Marcela a viver com ele, mesmo a moça não demonstrando o
menor sinal de amor. Tal envolvimento irrita profundamente Julián que ao longo
de toda a estória é rejeitado por Marcela. Resolvendo se vingar de ambos, e
sabendo de sua impunidade, Julián mata os dois, sem sofrer grandes conseqüências
por isso.
Essa novela de Azuela foi publicada em 1909, ou seja, ela antecede a
Revolução Mexicana, mas já podemos perceber nela o caráter de crítica social que
iria marcar as posteriores obras de Azuela.
O intelectual escreve sobre Mala yerba:
En mi novela Mala yerba hice ya lo primero en forma y con el resultado que no me
toca a mí calificar: allí están los peones del campo sumidos en la miseria,
resignados y sin el menor rayo de esperanza; los señores hacendados en plenitud
de su poder, dueños de honras y vidas de sus esclavos y todopoderosos que con su
dinero y su pistola resuelven todos sus conflictos[18]
Esta crítica ao caciquismo se repete em outras obras de Azuela. O autor concebia
esta prática política – arcaica, podemos inferir -como um dos maiores males do
México. Essa crítica é bastante plausível quando nos atentamos para o fato de
Azuela defender o liberalismo político. A visão política liberal de Azuela é
bastante moderna e humanista, assim como a de Francisco Madero, político que
nosso escritor apoiou firmemente e a quem não poupava elogios, como pode ser
evidenciado neste trecho:
!Qué lástima me inspiran los niños de teta de la revolución y la cálifa de
oportunistas y logreros que han mostrado desdén y compasión por la revolución de
Madero, atribuyendo su triunfo a los dólares americanos! ¿Sin Madero quiénes
habrían sido estos pobres diablos extremistas de hoy?
[19]
Outra novela de Azuela na qual este critica o caciquismo é Andrés Pérez,
maderista, escrita em 1911. Nesta novela o escritor também apresenta uma
àcida crítica aos chamados “maderistas de última hora”, ou seja, aos
oportunistas que aderiram – ou fingiram aderir - à causa de Madero apenas quando
o fracasso do governo de Porfírio Díaz parecia iminente. Os personagens que mais
se destacam no conto são Andrés Pérez - que acaba aderindo à causa
revolucionária apenas como uma forma de aumentar seu prestígio pessoal, de
maneira bastante oportunista, simbolizando os maderistas de última hora - e Don
Octavio, um intelectual que defendia verdadeiramente a Revolução Mexicana. Os
dois personagens apresentam opiniões contrastantes a respeito da Revolução, que
vão se chocando ao longo da obra. Através das falas de Don Octavio o autor
manifesta a maioria de suas críticas ao governo de Díaz, como transparece neste
trecho do conto no qual o personagem se refere à Porfirio Díaz:
Don Octavio, en efecto, dijo con aplomo:
-Los desaciertos del gobierno aumentan la gravedad de la situación del país. Se
siente la senilidad, la decrepitud del dictador. Nos tenía acostumbrados a su
dictadura cuerda, lógica, tolerante;(…)[20].
Podemos perceber que as críticas de Azuela são dirigidas, principalmente, para
os problemas políticos mexicanos. A questão agrária não é discutida com
profundidade, como causa do conflito social. Quando a questão das terras é
mencionada, aparece apenas como subordinada à política, mais um aspecto desse
caciquismo, como nos mostra o trecho do conto no qual Romualdo Contreras López,
um coronel do Ejército Libertador, se dirige à Andrés Pérez:
-La verdad es que ya urge que nos quiten a don Porfírio y a todos los
bandidos de su gobierno, mi coronel. Soy dueño de una garrita de tierra que no
llega ni a dos caballerías, y pago por ella de contribuciones tanto como el
coronel Hernández paga por la hacienda del Cedazo. ¿Y sabe usted lo que acaban
de ofrecerle por ella? Doscientos cincuenta mil pesos. Le digo a usted que es un
Gobierno de ladrones[21].
Podemos perceber então, que diferente das causas zapatistas, a questão da terra
para Azuela não ocupa um lugar central na Revolução Mexicana, ela está
subordinada aos interesses dos chefes locais. Azuela se posicionou como um
maderista, e nesses primeiros momentos da Revolução não apenas atuou a seu
exemplo no campo literário, como também no campo político. O escritor chegou até
mesmo a ser chefe político da cidade de Lagos após a queda de Porfirio Díaz, mas
exerceu o cargo por apenas um mês e decidiu abandoná-lo, decepcionado pela
atuação de vários políticos que, apesar de se apresentarem como maderistas,
exerciam as velhas práticas tradicionalistas do período porfirista. Azuela, ao
renunciar, teve que entregar o posto de chefe político à mesma pessoa que havia
substituído. Este afastamento foi o motivo de uma grande desilusão de Azuela com
a Revolução, como ele indica neste trecho:
Esto me dio la medida cabal del gran fracaso de la revolución. Fue para mí el
máximo instante de la desilusión, de irreparables consecuencias. El caciquismo
recuperaba sus fueros, sorprendido él mismo de la debilidad catastrófica del
gobierno maderista. Decidido a retirarme de una manera absoluta de toda
actividad política me dediqué al ejercicio de mi profesión y en las horas
muertas a componer el primer volumen de una serie que debió haberse llamado
Cuadros y escenas de la Revolución Mexicana[22].
Na edição do conto Andrés Pérez, maderista, publicada em 2002 pelo
Instituto Politécnico Nacional, encontramos em anexo correspondências de Mariano
Azuela que nos possibilitam ter uma ligeira amostra de seu posicionamento
político, bem como de sua ligação com diversos membros do Comite Ejecutivo
Electoral propagandista de la formula Madero- Vázquez Gómez- Gutiérrez Allende.
As correspondências datam de 14 de maio de 1911 a 17 de junho de 1912 e
também abarcam o período em que Azuela foi chefe político em Lagos. Em carta a
Salvador Gómez, membro do comitê citado anteriormente, datada de 31 de dezembro
de 1911 - na qual o escritor aceitava a candidatura para deputado por um clube
político liberal - percebemos claramente o posicionamento liberal de Azuela:
(…)hasta ahora me había abstenido porque nunca he trabajado por personalidad
alguna ni lo haré más tarde, pero me basta el hecho de que sean los partidarios
amparados bajo la bandera liberal los que me honren con tal ofrecimiento, para
que los acepte desde luego, pues mi labor modesta ha sido siempre por el triunfo
de las ideas liberales[23].
Azuela aceitou a candidatura apenas para garantir a vitória do clube liberal,
mas avisa a Salvador Gómez que não exerceria o cargo, do qual se retiraria para
que um suplente o ocupasse. Por uma mudança de planos da parte de Salvador
Gómez, a candidatura do escritor não se efetivou, apesar da decisão tornar
evidente sua intenção em colaborar com partidos liberais.
Esse liberalismo, presente neste primeiro momento da trajetória de Azuela, está
fortemente associado à idéia de democracia. A principal crítica do escritor é
dirigida à forma na qual a política é exercida no México, nada moderna, sendo
que as decisões estavam vinculadas à interesses particulares de poderosos chefes
locais. Ou seja, as leis moldavam-se aos valores desses líderes, a justiça
ficava subordinada aos seus comandos, a administração do bem público, seja em
âmbito regional ou central, vinculava-se aos seus interesses.
O que é preciso notar, é que esse liberalismo defendido por Azuela - bastante
influenciado pelas idéias de Madero - estava voltado para um viés legalista,
defendia instituições políticas legítimas e independentes entre si, os poderes
políticos (Legislativo, Judiciário e Executivo) funcionando de maneira
equilibrada e, é claro, o direito ao voto, livre da pressão dos caciques
políticos. Podemos inferir que o escritor estava voltado para uma visão política
mais moderna, indo na direção contrária ao tradicionalismo autoritário que
vigorava no México.
Após a morte de Madero, Azuela passou a um posicionamento político mais
radical e acabou se integrando como médico[24]
nas tropas villistas de Julián Medina, por influência do amigo laguense José
Becerra. Nesta época Azuela já pretendia escrever um romance inspirado nos
acontecimentos revolucionários e nas experiências vividas pelos homens que
lutavam na Revolução. Foi a partir das experiências que vivenciou e de sua
convivência com os revolucionários villistas, que Azuela escreveu Los de
abajo, seu romance de maior sucesso.
Antes de passarmos para a análise do romance é necessário fazer uma breve
descrição de seu enredo. A obra conta a história de Demetrio Macias, um pequeno
proprietário da região norte do México e se passa entre 1913 e 1915. Demetrio
Macias, no início do romance, era um fugitivo de Don Mónico - cacique local que
desejava as terras de Demetrio. O personagem junta-se com alguns amigos e se vê
em meio à Revolução, sem nem mesmo compreender o que se passava. Ao primeiro
encontro com as forças federais, Demetrio Macias é ferido e, no momento de sua
recuperação, surge a figura de Luis Cervantes, um jornalista da cidade que, no
início dos conflitos bélicos, escrevia artigos contrários à Revolução.
Cervantes, ao ser obrigado a alistar nas tropas federais, resolveu fugir e,
quando percebeu que os revolucionários poderiam vencer, aliou-se a eles,
incorporando-se nas tropas de Demetrio Macias após ganhar sua confiança. Ao
longo da estória Demetrio Macias e seus homens ganharam diversas batalhas e se
tornaram conhecidos, sendo que seu auge foi a conquista de Zacatecas e a vitória
sobre Don Mónico. Demetrio tornou-se general.
Depois de tantas vitórias Demetrio conheceu sua decadência. As práticas de
seu grupo contribuíram para que esta se acentuasse. Roubos e saques por seus
homens, e mesmo as atitudes oportunistas de Luis Cervantes - combinadas à
derrota de Villa - levaram Demetrio à sua derrocada. No final da estória, Luis
Cervantes abandonou seus companheiros e foi para os Estados Unidos, muitos
homens de Demetrio morreram, e esse, fugindo das tropas de Carranza, acabou
morrendo.
Los de abajo, como dito anteriormente, é uma forte crítica ao
caciquismo, que no romance é representado pelas figuras de Don Mónico e
Demetrio Macias. Ao longo da narrativa, os dois personagens disputam o poder em
várias localidades e é possível observar a denúncia de várias práticas
efetivadas por esses homens de poder. Os personagens- principalmente os
secundários - saqueiam, estupram mulheres, matam sem qualquer sinal de
escrúpulo. Azuela relata a barbárie, um México onde as leis parecem nem mesmo
existir. Muitas das situações narradas e vários personagens criados por Azuela,
foram inspirados em fatos vivenciados ou contados ao autor por companheiros de
batalha. Los de abajo mostra uma visão desencantada da Revolução
Mexicana. A obra narra a trajetória dos que faleceram nas batalhas e ficaram
esquecidos pela história. Mais do que isso, o romance mostra a visão que Azuela
tinha da Revolução como “lugar da barbárie”. O romance apresenta uma estrutura
cíclica - a narração termina na mesma localidade em que começa – o que demonstra
a posição pessimista do autor em relação à Revolução. Após seu desfecho as
coisas voltariam para o mesmo lugar. Os que morreram nas batalhas seriam
esquecidos e a política mexicana continuaria nas mãos de caudilhos.
Podemos refletir aqui sobre a relação entre civilização e barbárie
apresentada por Mary Louis Pratt. É justamente a partir de uma visão política
moderna, que respeita as leis, a divisão de poderes e a liberdade, defendida por
Azuela, que o faz ver os comportamentos dos revolucionários como bárbaros. É um
movimento bastante complexo: a Revolução deveria vir para combater a política
caciquista, considerada pelo escritor como brutal e antiquada, mas essa
brutalidade acaba sendo reafirmada nas próprias práticas dos revolucionários.
Eles não compartilham do idealismo de Azuela, não são intelectuais. São homens
brutos, valentes, que só querem melhores condições de vida. Eles não buscam uma
política libertária e nem mesmo conhecem as modernas teorias políticas. Suas
práticas, ao contrário, são bastante próximas dos caciques. Aqui a política
civilizada vislumbrada por Azuela realça sua visão da barbárie revolucionária..
A relação aqui é de alteridade, e de incompreensão da parte do escritor em
relação às práticas e experiências de vida daqueles que lutaram ao seu lado na
Revolução.
Ao transpô-la para a literatura Azuela não pôde entender a principal questão
da Revolução Mexicana: o problema agrário. Como já foi dito, a questão das
terras só aparece enquanto produto da exploração dos caciques locais, e
não como uma questão fundamental na sociedade mexicana, o que o levou a ser
criticado por muitos e a ser visto por alguns grupos como conservador. Segundo
Azuela sua posição frente à Revolução está expressa nas palavras de sua
personagem Solís – presente em Los de abajo - que ainda que concorde com
os ideais da Revolução já aponta para seus males e deturpações, como fica
evidenciado nesta fala da personagem:
(...) Amigo mío: hay hechos y hay hombres que no son sino pura hiel... Y esa
hiel va cayendo gota a gota en el alma, esperanzas, ideales, alegrías… ¡nada!
Luego no le queda más: o se convierte usted en un bandido igual a ellos, o
desaparece de la escena, escondiéndose tras las murallas de un egoísmo
impenetrable y feroz[25].
Mais à frente Solís nos apresenta novamente um posicionamento crítico sobre a
Revolução:
Hay que esperar un poco. A que no haya combatientes, a que no se oigan más
disparos que los de las turbas entregadas a las delicias del saqueo; a que
resplandezca diáfana, como una gota de agua, la psicología de nuestra raza,
condensada en dos palabras: ¡robar, matar!... ¡Qué chasco, amigo mío, si los que
venimos a ofrecer todo nuestro entusiasmo, nuestra misma vida por derribar a un
miserable asesino, resultásemos los obreros de un enorme pedestal donde pudieran
levantarse cien o doscientos mil monstruos de la misma especie!
¡Pueblo sin ideales, pueblo de tiranos!... ¡Lástima de sangre!
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[1]
Warley Alves Gomes é aluno do 8º período do curso de graduação em
História da FAFICH/UFMG. Começou a iniciação científica em 2008, com o
tema Mariano Azuela: uma visão sobre Los de abajo,
orientado pela professora Kátia Gerab Baggio.
[2]
Salvo as contribuições de Carlos Alberto Sampaio Barbosa, cuja
dissertação de mestrado é sobre a obra Los de abajo de Mariano
Azuela. Ver: BARBOSA, Carlos Alberto S., Morte e vida da Revolução
Mexicana: Los de Abajo de Mariano Azuela. Dissertação de Mestrado,
PUC, SP, 1996. Nosso enfoque aqui é um pouco diferente do estudado por
Carlos Alberto, pois nos centramos em Mariano Azuela como intelectual, e
não exclusivamente em Los de abajo.
[3]
LIMA, Luiz Costa. História, ficção e literatura. São Paulo:
Companhia das Letras, 2006.
[4]
Ver GINZBURG, Carlo. Relações de força:
história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras,
2002., p.13-79.
[5]
PESAVENTO, Sandra
Jatahy. Em busca de uma outra história: Imaginando o Imaginário.
In: Revista Brasileira de História. São Paulo,
Contexto/ANPUH, vol. 15, nº 29, 1995.
[6]
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar.
Embora todo o livro de Berman circule em torno das mudanças geradas na
modernidade, o capítulo 1, O fausto de Goethe: a tragédia do
desenvolvimento, parece ser o que melhor evoca a idéia da velocidade e
do dinamismo no qual estas ocorrem.
[7]
PRATT, Mary Louise. Pós-colonialidade: projeto incompleto ou
irrelevante? In: VÉSCIO, Luiz Eugênio; SANTOS, Pedro Brum (orgs).
Literatura e História. Perspectivas e convergências. São
Paulo: EDUSC, 1999, p.44-45.
[8]
Ver RAMOS, Julio. Desencontros da
modernidade na América Latina: literatura e política no século 19.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
[9]
O Plan de San Luis Potosi, escrito por Francisco Madero em seu
exílio nos Estados Unidos, conclamava os mexicanos para uma sublevação
contra Porfírio Díaz. Essa sublevação estava marcada para começar às
18:00 do dia 20 de novembro. Foi o início da Revolução Mexicana. O
Plan de San Luis Potosi pode ser encontrado em anexo no livro de
CÓRDOVA, Arnaldo.
La ideologia
de la Revolución Mexicana,
México D.F.: Ed. Era, 1977, p.427.
[10]
Francisco Madero foi assassinado no dia 22 de fevereiro de 1913,
fuzilado juntamente com Pino Suárez, vice-presidente, por ordem do
general Victoriano Huerta, que conspirava com o governo norte-americano
para derrubar Madero. O episódio ficou conhecido como “Decena Trágica”.
Ver AGUILAR CAMÍN, Héctor & MEYER, Lorenzo. À sombra da Revolução
Mexicana: História mexicana contemporânea, 1910-1989. São
Paulo: Edusp, 2000, p.52-54.
[11]
É interessante notar que esta é uma visão política moderna quando a
comparamos com as práticas clientelistas que existiam na política
mexicana, nas mãos de poderosos fazendeiros. Essa prática política
tradicional mexicana, conhecida como caciquismo, é bastante
parecida com o coronelismo da República Velha no Brasil.
[12]
Os ejidos, durante o período colonial, eram as propriedades
comunais destinadas ao trabalho agrícola. Após a Constituição de 1917 o
nome foi recuperado, embora os direitos de uso destes ejidos não
sejam os mesmos dos ejidos do período colonial.
[13]
DENIS, Benoit. Literatura e engajamento: de Pascal a Sartre. São
Paulo: Edusc, 2002.
[14]
O Caso Dreyfus ocorreu na França. Em 1894, o capitão Alfred Dreyfus, foi
condenado erroneamente pelo crime de espionagem e deportado para a
Guiana. A família de Dreyfus e alguns intelectuais realizaram uma ampla
campanha a favor da revisão do processo e da reabilitação do capitão,
que ganha um amplo acesso após a intervenção de Émile Zola, com a
publicação do Eu acuso. A opinião pública se divide então em
dreyfusards – que defendem a verdade e a justiça, que estão além da
razão do Estado- e anti-dreyfusards – que apresentam um nacionalismo
exacerbado e um anti-semitismo violento, defendendo o prestígio do
exército. A figura do intelectual surge desse debate, a início dos
dreyfusards – é obvio que depois tal entendimento do conceito de
intelectual sofre mudanças.
[15]
DENIS, Benoit. Literatura e engajamento: de Pascal a Sartre. São
Paulo: Edusc, 2002, p.210.
[16]
É preciso avaliar com cuidado as proposições de Denis acerca do
intelectual. Eu utilizo o autor por pensar que suas contribuições
teóricas acerca do escritor engajado são bastante produtivas, mas
discordo da diferenciação que o autor faz entre o intelectual – cuja
intervenção pode se dar pontualmente , em um determinado momento - e o
escritor engajado – cuja intervenção apresenta um caráter mais
permanente, como uma escolha de escritura. Esta separação entre o
escritor e o intelectual é, no mínimo, polêmica e deve ser confrontada
com outras interpretações acerca do intelectual.
[17]
Azuela ao escrever sobre outros intelectuais sempre observa e critica a
questão do snobismo, que aparece como uma qualidade negativa.
Para mais detalhes ver AZUELA, Mariano. Obras Completas Vol III.
México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1960, pp.569-668; 773-811.
[18]
AZUELA, Mariano,op. cit., p.1110.
[19]
AZUELA, Mariano, op. cit., p. 1067.
[20]
AZUELA, Mariano. Andrés Pérez, maderista. México, D.F.:
Instituto Politécnico Nacional, 2002, p.37.
[21]
AZUELA, Mariano, op. cit., p.47.
[22]
AZUELA, Mariano. Obras Completas.
México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1960, p.1070.
[23]
AZUELA, Mariano. Andrés Pérez, maderista.
México, D.F.: Instituto Politécnico Nacional, 2002, p.111.
[24]
Mariano Azuela também exercia a profissão de médico. O fato do escritor
exercer outra profissão não é nada excepcional, pois é fato que somente
poucos escritores conseguiam viver apenas de suas obras no início do
século XX.
[25]
AZUELA, Mariano. Los de Abajo. Edición Crítica. Colección
Archivos, RUFFINELLI, Jorge (coord.).
Ed. ALLCA/UFRJ, 1996, p.96.
[26]
AZUELA, Mariano, op. cit., pp.71-72.