Sobre o autor(*)
O problema é que essas biografias não são (ou não inteiramente) biografias no
sentido que damos ao termo. Elas não discutem o desenvolvimento da
personalidade, freqüentemente ignoram a cronologia e em geral introduzem
materiais aparentemente irrelevantes, dando uma impressão de ausência de forma.
(BURKE, 1997, p. 1).
Este artigo será
desenvolvido tendo por base duas questões principais: as questões concernentes
às definições do gênero biografia e as discussões sobre o seu pertencimento ou
não ao gênero historiográfico na Antiguidade do século I d.C.
Abaixo será observado que o
gênero biográfico possui várias complicações dentro de sua própria
especificidade. As dificuldades não se encontram apenas na sua localização
dentro das disciplinas ou de sua proximidade com outros gêneros e subgêneros,
mas, também na sua definição. Definir o gênero biografia, suas características,
suas singularidades nunca foi uma tarefa fácil, seja atualmente ou na
Antiguidade. Vários problemas se evidenciam durante o processo de definição. E
no caso deste trabalho, é o nosso objetivo localizá-lo num tempo preciso: no
primeiro século da Era Cristã. Além das discussões propostas muito útil nos
serão as obras de dois grandes biógrafos da Antiguidade: Plutarco e Suetônio.
Outra questão que se levanta
é a distinção entre biografia e história, tão bem aclamada por Plutarco, em sua
Vida Paralela de Alexandre e César (PLUTARCO, I, 2). Será necessário
verificar a abrangência dessa distinção. Para que tudo isso fique claro faz-se
indispensável delinear uma “história” deste gênero.
1. Gênero biográfico
1.1. Questões
preliminares
A biografia é um dos gêneros mais intrigantes. Parece não ter dono, ou
melhor, ter muitos donos dentro dos vários campos do saber. Não é só a história
e a literatura que lhe tomam como suas. Ramos como a sociologia, a filosofia[1],
a psicologia e mesmo a jornalística utilizam-na largamente (VILAS BOAS, 2002, p.
15). Advinda de gêneros menores como as anedotas, os encômios[2],
e mesmo as orações de funerais (MOMIGLIANO, 1971, p. 23-24), produziu outros
subgêneros, como: a autobiografia e a hagiografia. A primeira:
Trata-se de uma biografia, ou história de uma vida, que o próprio autor elabora.
Por outras palavras, define-se como a[3]
“narração retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz da sua própria
existência, uma vez que põe ênfase na sua vida individual, em particular a
história da sua personalidade”. (MOISÉS, 2004, p. 46).
E a segunda: “designa a narrativa das vidas dos santos, em grande voga
durante a Idade Média.” (MOISÉS, 2004, p. 46).
A biografia é aparentada de vários outros gêneros, tais como as
confissões, os diários, as memórias. Esse parentesco muitas vezes dificulta a
distinção entre eles. No caso das confissões, temos a seguinte relação
definidora:
Designa um relato pessoal, inscrito no espaço da autobiografia, do diário, e das
memórias, não raro em mescla, já evidente no título da obra, já no seu conteúdo.
À semelhança dessas modalidades limítrofes, o foco narrativo é o da primeira
pessoa do singular, mas diversamente delas, sobretudo da autobiografia e do
diário, não se presta obediência à cronologia. (MOISÉS, 2004, p. 46).
Os diários são um pouco mais evidentes: “Designa o relato de
acontecimentos ocorridos durante as vinte e quatro horas do dia.” (MOISÉS, 2004,
p. 121). Já as memórias nem tanto:
Movendo-se no espaço ocupado pela autobiografia, pelo diário e pelas confissões,
as memórias distinguem-se por constituir um relato na primeira pessoa do
singular que visa à reconstrução do passado, com base nas ocorrências e nos
sentimentos gravados na memória, segundo as duas formas (a voluntária e a
espontânea) que pode assumir. (MOISÉS, 2004, p. 280).
Dito isto, algumas perguntas
centrais ainda carecem de respostas. A primeira grande questão é: o que os
escritores e, particularmente, os biógrafos do século I d.C. entendiam por
biografia? É possível descobrir o conceito de biografia na Antiguidade? Diante
desses questionamentos será fundamental determinar o que os escritores do
primeiro século, principalmente os biógrafos e os historiadores, entendiam por
biografia, e se esta tinha “status” de história. Porém, antes de adentrar
estes problemas, quero expor algumas definições prévias do termo.
1.2. Buscando a definição de biografia
Em linhas gerais, isto é, no
senso comum, costuma-se dizer que biografia é a “História da vida de uma
pessoa” (FERREIRA, 1963, p. 75; RODRIGUES et alli, 2004, p. 108; e,
BOURDIEU, 2005, p. 183). Uma definição um pouco mais abrangente acrescenta a
palavra “descrição” (Michaelis, 2002, p. 112). Outro dicionário diz que é
uma “descrição pormenorizada da vida de uma pessoa” (CARVALHO & PEIXOTO.
1964, p. 145). O Dicionário de Termos Literários é bastante objetivo: “Designa
toda obra que narra, na totalidade ou em parte, a vida de figuras ilustres”
(MOISÉS, 2004, p. 56). Tais definições são úteis, porém, bastantes vagas. Não
abarcam a gama de particularidades, de aspectos que se inscrevem e se
circunscrevem na construção da narrativa de uma vida.
Para Pierre Bourdieu, essa
ideia existente no senso comum não passa de uma “ilusão biográfica”. Segundo
ele, não se pode pensar que a descrição de uma vida, isto é, uma biografia,
transcorre como algo seqüencial e de forma total, como ocorre na história
(BOURDIEU, 2005, p. 183-184). Ele deixa claro que:
Tratar a vida como uma
história, isto é, como o relato coerente de uma seqüência de acontecimentos com
significado e direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica, uma
representação comum da existência que toda uma tradição literária não deixou e
não deixa de reforçar. (BOURDIEU, 2005, p. 185).
Mais à frente, em seu texto,
detalha o seu posicionamento:
Tentar compreender uma vida
como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro
vínculo que não a associação a um “sujeito” cuja constância certamente não é
senão aquela de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a
razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a
matriz das relações objetivas entre as diferentes estações. Os acontecimentos
biográficos se definem como colocações e deslocamento no espaço social, isto é,
mais precisamente nos diferentes estados sucessivos da estrutura da distribuição
das diferentes espécies de capital que estão em jogo no campo considerado.
(BOURDIEU, 2005, p. 189-190).
Para além da crítica de
Bourdieu, outros estudiosos sobre o assunto buscaram outras definições. Arnaldo
Momigliano, por exemplo, prefere definir biografia como “um relato da vida de um
homem desde o seu nascimento à sua morte”. O que parece não acrescentar muito.
Mas, segundo ele, evita problemas com uma definição mais longa, e possibilita o
estudo da pré-história do termo (Momigliano,
1971, pág. 21).
Jean Orieux vê o trabalho
biográfico como um “artesanato” (ORIEUX, 1989, p. 33), ou seja, compara o
processo de construção de uma narrativa biográfica: pesquisa, coleta de dados,
redação, etc. à técnica utilizada pelo artesão ao fabricar uma peça. Em suas
palavras: “Arte é uma palavra demasiado imponente para abordarmos a questão.
Falemos antes de artesanato...” (ORIEUX, 1989, p. 23); mais à frente
minucia:
Em suma, com um trabalho de
formiga, tempo, solidão, e um grão de loucura, mais um pouco de sorte,
conseguimos fazer surgir da poeira dos velhos papéis um personagem até então
destruído. (ORIEUX, 1989, pág. 41);
E conclui: “É este o segrego
da arte do biógrafo” (ORIEUX, 1989, p. 42).
Os termos história, relato,
artesanato juntos esclarecem melhor o que se pretende com uma biografia. É
preciso agora entender outros aspectos do termo: sua origem histórica e sua
definição dentro do século I d.C.
1.3.Etimologia do termo
Etimologicamente falando, o
termo é a junção de duas palavras gregas:
bios ,
vida; e
grafw , escrever,
descrever, compor, registrar (PEREIRA, 1998. p. 116-117). Literalmente, seria
algo como a descrição de uma vida, escrever sobre uma vida. O que é interessante
é que
bios[4]
não era a única palavra
grega que significava vida. Havia também
zwh
e
yuch .
Ambas se diferem de
bios.
Esta se relaciona mais com
o aspecto existencial da vida, a vida enquanto existência, “duração de vida”
“condição de vida”, a vida com seus valores culturais (PEREIRA, 1998. p.
104);
zwh
é a vida natural, num sentido mais
geral, utilizada tanto para se referir à vida do homem quanto a dos animais, é o
“gênero de vida” (PEREIRA, 1998, p. 254).
yuch,
relaciona-se mais com os
aspectos interiores de uma vida,
Sopro de vida, alento; alma;
vida; ser vivo, pessoa; coisa amada; alma humana; entendimento, conhecimento,
prudência; sentimento, coração, valor, carácter; desejo, inclinação, gosto,
apetite (PEREIRA, 1998, p. 638).
Curiosamente o vocábulo
zwh
deu origem ao termo zoografia, que está relacionado à vida animal, é uma
“zoologia descritiva”, um “tratado sobre animais”
(http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php. Acessado em: 05 jan.
2008); e,
yuch
deu
origem ao termo psicografia, que possui dois significados básicos: um com viés
científico: “descrição da mente e suas funções” e, outro, voltado para o
espiritualismo: “escrita de um espírito pela mão do médium” (MICHAELIS,
2002, p. 639).
Reservou-se ao termo
bioj,
acrescido de
grafw ,
a descrição narrativa da
vida de um homem, de sua existência, de seus valores, mas não de um homem comum,
é um ilustre, um notável, um herói, um humano que se sobressaiu aos demais.
Então, posso dizer que uma biografia é um relato artístico da história da
existência de um humano[5],
que se sobressaiu sobre outros, que visa demonstrar alguns traços específicos de
seu caráter, visando mostrar-lhe como exemplo a ser seguido ou revelando o
porquê ele é um notável. Essa definição, apesar da abrangência, ainda não
responde a todas as questões que o termo oferece. Não soluciona algumas
dificuldades existentes. Mas, ela proporciona um referencial. A partir deste
ponto, posso aprofundar um pouco mais, investigando, na Antiguidade, o que se
entendia por uma obra biográfica e as questões relativas à vinculação com a
historiografia da época.
O gênero biográfico só
recebeu o nome de biografia no final da Antiguidade, anteriormente, os gregos
utilizavam o termo
Bios[6]
(vida),
ou
Bioi
(vidas) (BURKE, 1997, P.
7). Momigliano assinala que esses termos surgiram no século V a.C. quando já
havia algumas tentativas de se escrever algo como uma biografia. Porém, somente
no período helenístico[7]
é que se teve uma noção mais exata da definição deste gênero (Momigliano,
1971, p. 12).
Para Momigliano, a pré-história do gênero biográfico pode ser reconhecida em
outros gêneros com teor biográfico. Ele diz: “Me inclino a considerar as
anedotas, as coleções de ditos, cartas avulsas ou agrupadas, e os discursos
apologéticos como os verdadeiros antecedentes da biografia ou da autobiografia”.
(Momigliano, 1971, p. 23). Ele
salienta que não temos obras biográficas tanto no VI quanto no V século a.C., ao
contrário das obras historiográficas, onde podemos encontrar várias. Só podemos
contar com os encômios de Isócrates e Xenofontes (Euagoras, do primeiro;
e, Agesilaus, do segundo), ambos escritos no V século a.C.; uma novela
filosófica (Cyropaedia) também de Xenofontes, escrita no V século a.C.; e
um fragmento onde consta a Vida de Satirus, escrita por Eurípedes no III
século a.C.. Apenas no I século a.C. é que teremos as primeiras coleções
biográficas[8].
(Momigliano, 1971, p. 8,9).
1.4. Biografia no 1º
século da Era Cristã
Como não pretendemos cometer um anacronismo conceitual é de fundamental
importância apresentar o que se entendia por biografia no mundo antigo. Antes,
porém é importante assinalar que para entendermos o sentido de biografia para os
autores do primeiro século é preciso ter em mente que havia escritores de duas
culturas que foram a base para o desenvolvimento do gênero: a grega e a latina.
Apesar das interações culturais, das “trocas culturais” (CHEVITARESE,
2003, p. 12) entre elas é razoável pensar que cada uma possuía sua
especificidade. Para se compreender o que se entendia por biografia no primeiro
século proporemos analisar algumas obras de dois dos principais biógrafos deste
período: Plutarco e Suetônio. Do primeiro: veremos algumas de suas Vidas
Paralelas; do segundo, Vida dos Césares. Nelas poderemos observar
algumas características específicas que nos auxiliaram na compreensão do gênero
biográfico.
1.4.1. Plutarco
Plutarco, nascido na cidade
de Queronéia, na região da Beócia, em meados do primeiro século, morreu
aproximadamente em 120 d.C. Mais conhecido como o grande biógrafo da
Antiguidade, criador das Vidas Paralelas. Graças as suas obras estarem
carregadas de preocupação com a moral e de pesquisa histórica, recebeu também os
títulos de filósofo e historiador. O total de suas obras chega a quase
trezentas, destas cerca de 130 sobreviveram – 101 completas e 30 em fragmentos
(FUNARI, 2007, p. 134; KURI, s.d., p. 13-16). A razão pela qual ele escrevia
suas biografias é evidenciada na sua introdução à vida de Timoleão:
Se empreendi a composição
destas biografias foi, de início, para proveito dos outros; mas agora é para mim
mesmo que persevero nesse agradável desígnio. A história dos varões ilustres é
como um espelho que observo para, de algum modo, tentar regular minha vida
conformemente à imagem de suas virtudes. Ocupando-me deles, parece-me estar
vivendo com eles. (PLUTARCO, Vida de Timoleão, 91).
Em suas obras biográficas,
nota-se, geralmente, a seguinte estrutura narrativa:
1.
Uma pequena árvore genealógica, que tem como função mostrar as origens
nobres, senão divinas, do biografado;
2.
A educação, revelando a formação intelectual e moral;
3.
Feitos extraordinários, que fazem parte da consumação daquilo para o que
o herói nasceu e foi educado;
4.
E, também, de grande relevância, sua morte, onde ele concretiza a sua
função de herói.
Primeiramente, é importante
dizer que este é um esquema básico que acontece em praticamente todas as obras,
porém, com algumas variações. Por exemplo, as vidas de Timoleão e
Pelópidas possuem um prefácio antes de tratar das origens do biografado; e a
de Flaminino começa com uma breve descrição de seu perfil físico e
psicológico, passando para sua carreira e educação, sem adentrar aspectos de sua
origem familiar.
As duas primeiras
características da estrutura narrativa revelam a influência filosófica de
Plutarco: a escola peripatética, onde as virtudes do herói são vistas não como
algo nato, nem desenvolvido através do aprendizado, mas uma mistura dos dois
(FUNARI, 2007, p. 133).
Em Plutarco, algumas
particularidades se evidenciam devido à analogia que ele desenvolve em algumas
de suas Vidas Paralelas[9].
Estas são, geralmente, divididas em três etapas: a narração de um herói grego,
depois de um romano, e a finalização é feita com uma comparação de ambos (KURY,
s.d., p. 15).
As biografias plutarqueanas possuem também alguns aspectos ligados à ordem
do divino, cheias de superstição. Vê-se isso geralmente ligado a algum fenômeno
físico, chamado por ele de “acontecimentos de ordem divina” (PLUTARCO,
Vida de César, [69], 4)[10]
também traduzidos como “fenômenos celestes” (PLUTARCO, Vida de César,
p. 124)[11]:
Entre os acontecimentos de
ordem divina, houve o grande cometa, pois se mostrou resplandecente por sete
noites, depois do assassinato de César, e em seguida desapareceu; houve também o
obscurecimento da luz do sol. Por todo aquele ano, de fato, o disco solar
levantou-se pálido e sem seu brilho trepidante; e leve e tênue era o calor que
dele descia, de sorte que o ar circulava obscuro e pesado, por causa da
insuficiência do calor que o determinava, os frutos murcharam, meio amadurecidos
e imperfeitos, e deterioraram-se em virtude do frio da atmosfera. (PLUTARCO,
Vida de César, [69], 4-5).
1.4.2. Suetônio
Gaio Suetônio Tranqüilo
nasceu aproximadamente no ano 69 d.C., provavelmente em Roma. Ocupava posição de
eqüestre e trabalhou como gramático; depois, dedicou-se ao serviço público,
tendo sido nomeado para vários cargos, com a responsabilidade especial de cuidar
das bibliotecas imperiais e da correspondência. Foi despedido em 121/122 d.C.,
por ter se envolvido com a esposa de Adriano, Sabina. Suas pesquisas históricas
eram feitas nos momentos que lhe sobravam dos deveres públicos. (NASSETI, 2004,
p. 433-434; ver também: CONY, 2002, p. 17). Não era exatamente um grande
escritor tal como Tácito ou Tito Lívio, mas, a relevância de suas obras para o
estudo da história de sua época é inquestionável. (CONY, 2002, p. 9-13).
Como era um estudioso dos
costumes de seu povo e de sua época, escreveu grande tomo de obras eruditas,
entre as quais examina minuciosamente as personagens principais da época. Era um
completo e indiscreto devassador das intimidades da corte romana, nos revelando
uma visão íntima e completamente desprovida de cerimônias dos vícios dos
imperadores e das picuinhas que colocavam a nobreza em conflito. (NASSETTI,
2004, p. 434).
Faleceu por volta do ano 141
d.C. (CONY, 2002, p. 17). A produção escrita por Suetônio é bastante vasta e os
assuntos bastante variados. Escreveu sobre as antigas diversões gregas (De
Ludis Grecorum); a história dos espetáculos romanos (De spectaculis et
Certamininbus Romanorum); as origens das imprecações e juramentos; uma
terminologia do vestuário (De Nominibus Propiis et de Generibus Vestium);
os cortesãos famosos (Stemma Ilustrium Romanorum); os defeitos físicos e
o crescimento da burocracia. Estas obras, conhecidas pelo nome de Pratum,
são uma demonstração da erudição enciclopédica que Suetônio possuía, porém, elas
estão todas perdidas. O que se conhece delas é através de “fragmentos e pelos
catálogos de títulos” (MENDONÇA, 2007, p. 12; cf. também: NASSETTI, 2004, p.
434-435). Salvaram-se partes de outros escritos seus, como De Viris
Illustribus (Os Homens Ilustres). Esta obra representa o conjunto
conhecido como: De Gramaticis (Os Gramáticos), De Rhetoribus
(Os Retóricos), e De poetis (Os Poetas). Esta última possui
cinco biografias, entre elas encontram as de Horácio e Virgílio (NASSETTI, 2004,
p. 434-435).
Mas a sua principal obra é A Vida dos Doze Césares, ou
simplesmente, Vida dos Césares (De Vita Caesarum), obra na qual
repousa a fama de Suetônio. Esta obra é uma coleção das biografias que
compreende a vida
Caio Júlio César (59-44 a.C.),
mais
os onze primeiros Imperadores Romanos, são eles:
Caio Júlio César Otaviano Augusto (43 a.C.-14 d.C.),
Tibério
Cláudio Nero César (14-37 d.C.),
Caio César Germânico (Calígula)
(37-41 d.C.),
Tibério Cláudio César Augusto Germânico (41-54 d.C.),
Nero
Cláudio César Augusto Germânico (54-68 d.C.),
Sérvio Sulpício Galba (68-69 d.C., governou apenas cerca de sete meses),
Marco Sálvio Oton (69, governou apenas cerca de três meses),
Aulo Vitélio Germânico (69, governou apenas cerca de oito meses),
Tito Flávio Sabino Vespasiano (69-79),
Tito
Flávio Vespasiano Augusto (79-81)
e Tito Flávio Domiciano (81-96)[12].
(NASSETTI, 2004, p. 435-437; BORNECQUE & MORNET, 1976, p. 12-17).
A estrutura da obra pode ser
resumida da seguinte forma:
1.
A origem familiar do biografado;
2.
A carreira política e administrativa;
3.
Morte.
Uma divisão ainda menor
poderia ser proposta: o lado bom do indivíduo e o lado malévolo, características
constantes em quase todas as narrativas. Suetônio constrói assim uma narrativa
bastante irônica e cheia de anedotas, fazendo de sua obra uma diversão. A
estrutura de seu método parece ser denunciada, por ele mesmo, ao retratar a vida
de Augusto:
Até aqui sua vida foi retratada
de uma forma sintética. Agora, porém, irei minuciá-la, por partes, não
obedecendo uma ordem cronológica, mas, classificando-lhe os fatos para que se
possa vê-los e conhecê-los mais claramente. (SUETÔNIO, Vida de Augusto, 2004, p.
76).
É interessante notar que,
assim como Plutarco, Suetônio também insere os “acontecimentos de ordem
divina” em suas biografias (PLUTARCO, Vida de César, [69], 4). Como
exemplo, vê-se na vida de Cláudio:
Com relação aos presságios da
sua morte, os maiores foram os seguintes: a aparição de uma dessas estrelas de
cabeleira a que chama cometa. A queda de um raio no túmulo do seu pai Druso. E a
morte, no mesmo ano que a dele, da maioria dos magistrados. Ao que parece, ele
mesmo não ignorava nem disfarçava que se estavam aproximando os últimos dias da
sua existência. (SUETÔNIO, Vida de Cláudio, 2004, p. 276).
Como podemos observar, os padrões criados por Plutarco e Suetônio carregam
algumas semelhanças. A estrutura de seus textos biográficos obedece a algumas
seqüências básicas: origem familiar, educação, as ações e os sinais da morte.
2.História e biografia na Antiguidade
Um dos maiores especialistas
no estudo sobre as origens do gênero biográfico e seu desenvolvimento na
Antiguidade Clássica foi, sem dúvida alguma, o historiador judeu-italiano
Arnaldo Momigliano. Em seu livro The Development Of Greek Biography
examina o desenvolvimento deste gênero desde as primeiras manifestações em
outros gêneros como “as anedotas, as coleções de ditos, cartas avulsas ou
agrupadas, e os discursos apologéticos” (Momigliano,
1971, p. 23) até a sua apresentação em coletâneas de biografados que começaram
com Varrão (116-27 a.C.) e Cornélio Nepos (100-24 a.C.) no século I a.C. (Momigliano,
1971, p. 9 e 98; MENDONÇA, 2007, p. 13), e foram aperfeiçoadas em obras tais
como as Vidas Paralelas de Plutarco (46-119 d.C.) e Vida dos Césares,
de Suetônio (70-141 d.C.). Entre outras coisas, ele discute a distinção entre
biografia e história (Momigliano,
1971, p. 1-7). Segundo ele, a ideia de uma distinção entre esses dois gêneros na
Antiguidade era hegemônica. O seu embasamento para defender a ideia dessa
distinção no mundo grego clássico era, basicamente, as declarações de Políbio e
Plutarco. O primeiro diz:
Se eu não tivesse escrito sobre
Filopôimen uma obra à parte, onde revelo quem era ele e de que família ele
provinha, e a natureza de sua formação quando jovem, ser-me-ia necessário expor
todos esses aspectos agora. Mas, considerando que já lhe dediquei anteriormente
uma obra em três livros (ela não faz parte desta História), onde exponho a sua
formação desde menino e enumero seus feitos mais famosos, é óbvio que na
presente narrativa o procedimento adequado é omitir detalhes relativos à sua
formação inicial e às ambições de sua juventude, e em vez disso acrescentar
detalhes à exposição resumida que fiz nessa obra à parte acerca de seus feitos
na maturidade, pois assim o caráter próprio a cada obra poderá ser preservado.
(POLÍBIO, História, X, 21).
O segundo:
Escrevemos, neste livro, a Vida
do rei Alexandre e a Vida de César, que desafiou Pompeu. Como único preâmbulo,
dado o número infinito de fatos que constituem a matéria, limitamo-nos a pedir
aos leitores que não nos censurem, se, em lugar de expor ampla e
pormenorizadamente cada acontecimento, ou algum dos atos mais memoráveis, damos
aqui, apenas, um simples sumário, da maior parte deles. Com efeito, não
escrevemos história, mas Vidas. Nem sempre aliás, são as ações mais brilhantes
as que mostram melhor as virtudes ou os vícios dos homens. Muitas, vezes, uma
pequena coisa, a menor palavra, um gracejo, fazem ressaltar melhor um caráter do
que combates sangrentos, batalhas campais e ocupações de cidades. Assim como os
pintores, em seus retratos, procuram fixar os traços do rosto e o olhar,
refletindo nitidamente a índole da pessoa, sem se preocuparem com as outras
partes dos corpos, assim também se permitirá que concentremos nosso estudo,
principalmente, sobre as manifestações características da alma, esbocemos, de
acordo com esses sinais, a vida dessas duas personagens, deixando a outros os
grandes acontecimentos e os combates. (PLUTARCO, Alexandre e César, I, 2).
Momigliano vê a partir dessas declarações o que ele chama de o “divórcio” (Momigliano, 1971, p. 41) entre a história e a biografia.
Apesar de a biografia ter sua origem na mesma época que a historiografia, ela
“nunca foi considerada como história no mundo clássico” (Momigliano,
1971, p. 13). E afirma que:
Ninguém, na atualidade,
provavelmente duvidará que a biografia seja um tipo de história. Podemos voltar
no tempo, aos inventores da biografia (os gregos antigos), e perguntar-lhes o
porquê eles nunca reconheceram que biografia é história. (Momigliano,
1971, p. 6)
E mais à frente diz:
Xenofontes escreveu retratos de
generais no Anabasis. Theopompus reconheceu a importância do indivíduo como tal
e colocou um homem no centro de sua narração histórica na Philippica. Os
historiadores de Alexandre, o Grande seguiu o seu exemplo. Mas a biografia e a
história não se combinam (Momigliano,
1971, p. 102-103).
Gentilli e Cerri não vêem
essa ideia da separação entre os dois gêneros como algo universal, que fazia
parte do pensamento de todos os escritores da época. Eles reconhecem que há, na
verdade, duas noções de história: uma história que visava os acontecimentos
político-militares, e outra que abarcava todos os aspectos da vida humana (Gentilli
& Cerri, 1988, p. 62). Eles mostram que:
Quando Dionísio de Halicarnasso
esboça os aspectos e as tendências da historiografia de Theopompus, ele sublinha
explicitamente o fato de que o objetivo biográfico era um dos pontos centrais de
sua Histories. Ao contrário de outros historiadores, Ele não fez da narrativa
biográfica uma espécie de digressão secundária da própria narrativa histórica,
mas uma parte fundamental e indispensável dela (Gentilli
& Cerri, 1988, p. 63).
E citam a seguinte passagem
do próprio Dionísio para corroborar:
A maioria dos elementos
característicos de sua historiografia, que não é desenvolvida com igual cuidado
e eficácia em qualquer dos outros historiadores seja do passado ou do
presente... não é apenas para ver e para dizer o que é evidente a qualquer um em
vários eventos políticos, mas também buscar os motivos ocultos das ações e do
homem que as praticou e as paixões que moveram a alma, o que não se percebe
facilmente na maioria dos homens, e desvendar os segredos de uma virtude
aparente e de um vício dissimulado e ignorado (Dionísio,
apud: Gentilli & Cerri, 1988, p.
63)
Eles também trazem uma
interpretação diferente quanto à declaração de Políbio. Segundo eles, Políbio
não declarou uma distinção entre biografia e história quando anunciou que
omitiria os detalhes da vida de Filopêmen. A razão para eles é simples: a
omissão ocorreu porque Políbio já havia escrito uma obra anteriormente sobre
Filopêmen, sendo desnecessário inserir toda uma obra já escrita em outra.
(GENTILLI & CERRI, 1988, p. 65).
Quanto a Plutarco, eles
argumentam que apesar de ele fazer clara distinção entre história e biografia,
as suas obras não deixam de ser, de certa forma, um trabalho historiográfico.
Plutarco não rejeita a investigação histórica para construir as suas Vidas
Paralelas (GENTILLI & CERRI, 1988, p. 67-68).
Plutarco deixa evidente a
sua preocupação com a utilização de escritos historiográficos em suas obras:
Não me seria possível silenciar
sobre fatos relatados por Tucídides e Filisto, pois tais fatos destacam o
caráter de meu personagem, suas disposições íntimas... Indiquei-os ligeiramente,
atendo-me às coisas essenciais, para não ser acusado de omisso em minha tarefa.
Mas o que me esforcei principalmente por reunir foram os aspectos geralmente
ignorados; desinteressando-me de amontoar coisas que nada dizem, procurei
recolher o que é adequado a fazer conhecer os hábitos; e a natureza da alma.
(PLUTARCO, Vida de Nícias, I, apud: KURY, s.d., p. 13).
Fica claro assim que as
relações entre História e Biografia são muito profundas, elas se entrecruzam
dentro de seus objetivos, de suas “histórias”, mesmo dentro de suas definições.
Ambas servem-se uma da outra, e por isso, muitas das vezes, são
interdependentes. Biografia possui História e História possui, no mínimo,
resíduos biográficos. As biografias, bem como as memórias, as auto-biografias,
as hagiografias, os diários, e etc. servem-nos como excelentes fontes
históricas. E por sua vez, os relatos históricos são muitos úteis nas
construções biográficas. Como disse Plutarco: “Não me seria possível
silenciar sobre fatos relatados por Tucídides e Filisto” (PLUTARCO, Vida
de Nícias, I, apud: KURY, s.d., p. 13). Temos assim, apesar das suas
especificidades, uma relação de cumplicidade entre elas.
Bibliografia
A)
Documentos textuais
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B)
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1964.
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Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1963.
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C)
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History and Biography in Ancient Thought.
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KURY, Mario da Gama. O Homem das 50 Vidas. In: Alexandre e César: Vidas
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São Paulo: Summus, 2002.
D)
Endereços eletrônicos
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php
*
Mestrando em
História pela Universidade Federal de Goiás.
[1]
As Vidas Paralelas de Plutarco têm sido associadas, muitas das
vezes, mais como uma obra filosófica do que como uma obra
historiográfica, devido à sua preocupação com o ethos, isto é, a
formação moral do biografado. (FUNARI, 2007, p. 132-133).
[2]
O encômio foi “inventado por Simônides de Ceos, poeta grego do século V
a.C., consistia num canto entoado durante um festim em louvor do
anfitrião. Com o tempo, passou a designar todos os cantos de exaltação a
alguém (sobretudo os heróis na guerra e nos jogos olímpicos), executados
em qualquer parte, mas distinguiam-se dos hinos por se destinar a um
homem e não a um deus. Mais tarde, veio a denominar todo escrito ou
discurso que contivesse elogio a uma pessoa.” (MOISÉS, 2004, p. 141-142;
cf. também: GENTILLI & CERRI, 1988, p. 100).
[3]
Até aqui a citação é do Dicionário de Termos Literários, adiante é uma
citação que está nesse dicionário, mas pertence a Lejeune, 1973, pág.
138; e 1975 pág. 14.
[4]
Platão, em Filebo, traz um diálogo de Sócrates com um certo
Protarco em que trata de três tipos de Bios: “Nessas bases, admitamos
três espécies de vida (Bios ):
uma agradável, outra dolorosa, e uma terceira, que não será nem uma
coisa nem outra... estreme de prazer e de dor, que se caracteriza pela
mais pura sabedoria.” (PLATÃO, Filebo, p. 24, 32).
[5]
Não descartando a possibilidade também de uma biografia ser feita de um
sobre humano ou semideus ou até de deuses devido a concepções
mitológicas, como é o caso de Hércules, Aquiles, e até mesmo Jesus.
[6]
No mundo romano o seu correspondente latino era Vita.
[7]
O período helenístico teve inicio no século IV a.C. com as conquistas de
Alexandre Magno e foi até a dominação romana em 31 d. C. (MOSSÉ, 2004,
p.159).
[8]
Escritas, em latim, por Cornélio Nepos, biógrafo contemporâneo de Cícero
(o ilustre pensador, filósofo, político e orador romano).
[9]
As obras Vida de Alexandre e César; de Temístocles e Camilo; de Fócion e
Catão, o Novo; e de Pirro e Caio Mário, não possuem a analogia. (KURY,
s.d., p. 15).
[10]
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
[11]
Tradução de Hélio Vega.
[12]
Os negritos são nossos e têm o objetivo de identificar como eles são
melhor conhecidos na história.