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1.
INTRODUÇÃO
O ofício do historiador, antes de lidar com uma suposta História tal como ela
foi – i.e. enquanto mera sucessão de fatos –, depara-se com algo muito mais
perturbador: a História é contada por alguém, e este sujeito invariavelmente
imprime nela sua marca. O Século das Luzes é marcado por esta historicidade, e a
História, então um discurso, será manejada de acordo com o movimento dos
agentes inseridos no mundo moderno. A História Antiga não foge à regra: nós a
interpelamos baseados, a priori, nas concepções dos antigos e dos
modernos. Mas de qual contexto social e histórico discorriam os antigos e
discorrem os modernos sobre essa história? E como estas duas esferas de
pensamento podem convergir ao que se entende, hoje, por História Antiga? O que
será buscado neste artigo é estabelecer um diálogo entre a filosofia
setecentista, especialmente a obra de Jean-Jacques Rousseau, e o pensamento
antigo expresso nos textos plutarquianos (sobretudo a biografia de Licurgo); tal
diálogo será, por fim, confrontado ao processo revolucionário francês visto
pelos olhos de Andrzej Wajda em Danton (1983). Antes de prosseguir,
porém, cabe apresentar uma breve introdução à conjuntura que delineia a obra de
cada autor, bem como ao tema do presente artigo.
Tucídides afirmara ser a história uma aquisição permanente. Desta forma, ele
direcionava o fazer história para o tempo futuro: ali, os homens agiriam
guiados pelo conhecimento dos fatos antigos. Conhecer o passado, portanto,
tornaria o indivíduo prudente e o capacitaria a planejar as ações futuras.
Maquiavel, cerca de um milênio depois, traria a historia magistra vitae
(“História mestra da vida”) para o campo dos assuntos políticos e teorias do
Estado; sua preocupação repousava nas diretrizes políticas que assegurariam ao
dominante a estabilidade do domínio, ainda que sua posição política seja
controversa. Nesta perspectiva, vários autores coetâneos ou posteriores a ele
trataram a questão da forma de governo ideal, resgatando experiências da
Antigüidade; dentre eles, Rousseau, Diderot, Voltaire, e outros iluministas
inseridos no movimento republicano francês. Se, por um lado, a iminente
revolução aproximaria antigos e modernos, por outro, acirraria tensões entre os
defensores dos modelos divergentes.
Mas quais seriam as imagens antigas de República utilizadas na modernidade?
Maquiavel, recorrendo ao paradigma de Políbio – que, de seu lado, bebe da fonte
de Aristóteles –, aponta três espécies virtuosas de governo: democracia,
monarquia e aristocracia, que se degeneram, respectivamente, em anarquia,
tirania e oligarquia – suas formas viciosas. Para ele, estes modelos
movimentam-se em um eterno ciclo, resgatando da teoria polibiana a idéia de
movimento circular da História. Maquiavel, no entanto, vê todas igualmente
desvantajosas, à medida que eram instáveis; a excelência estatal apenas viria
conjugando suas virtudes num governo misto e justo: a Politeia. Esparta e
Roma são exemplos de politeias, mas não Atenas, tão exposta às mazelas dos
vícios populares e destemperos oligárquicos. Ainda nesta concepção
maquiavelista, Roma sobrepõe-se à Esparta por ser mais aberta ao crescimento e
fortalecida face às ameaças externas; o modelo espartano, ao contrário, prima
pela harmonia social, evitando os conflitos internos e, por conseguinte,
fragilizando suas estruturas de poder. É importante ressaltar que esta
contraposição entre Roma e Esparta será paulatinamente substituída pelo embate
entre os modelos espartano e ateniense, mormente no auge do processo
revolucionário.
A querela entre modernos e antigos, como já foi dito acima, terá na Revolução
Francesa um campo fértil, quando o Estado e o conceito de sociedade civilizada
estarão em pauta. Peter Gay (1977: 92) sintetiza:
“(...) enquanto os antigos olhavam para a morte como confirmação da vida, eles
[filósofos do Iluminismo] olharam o passado por seus ideais”[3]
.
Esta ideologia veiculada pelo pensamento teórico do século XVIII fomenta, em
última instância, a crítica sobre a configuração política na França. Rousseau
valer-se-á do Contrato Social e de seus Discursos para colocar em
foco a pretensa civilização ocidental – não para destruí-la, mas purificá-la.
Deste modo, ao confrontar aquela França pré-revolução, Rousseau restabelece uma
Esparta virtuosa e autêntico modelo de República, sem os vícios do progresso
civilizatório. Para tanto, a importância de Licurgo, sentida através dos textos
de Plutarco, será peça fundante na construção desta imagem rousseauniana,
recuperada na obra cinematográfica de Wajda pela figura de Robespierre. O
arquétipo ateniense, contrário ao espartano, corresponderá, por sua vez, ao
próprio personagem Danton. É, pois, por meio desta interação entre os dois
modelos, expressa tanto no filme como nas fontes textuais já mencionadas, que
examinamos a historicidade daquele período e seu diálogo com a Antigüidade.
2.
DANTON,
1983: A FRANÇA DE ANDRZEJ WAJDA
Ganhador, dentre outros, dos prêmios César (melhor direção, 1983) e BAFTA (na
categoria para filmes estrangeiros, 1984), Danton foi dirigido pelo
polonês Andrzej Wajda, tendo estreado no início de 1983 na França.
A película – co-produção entre França, Polônia e Alemanha (Ocidental, na época)
– tem sua história centrada no período do Terror da Revolução Francesa (1793 –
1794): fase marcada pela reação enérgica da Convenção Nacional sobre os chamados
contra-revolucionários, com perseguições e execuções na guilhotina. A narrativa
abarca um episódio específico deste momento, o julgamento e a condenação à morte
do jacobino Georges Jacques Danton, famigerada figura da Revolução.
O filme todo é focado nas discussões que existiam dentro do governo francês, nos
impasses entre o Comitê de Salvação Pública e o Comitê de Segurança Pública e
destes com a Convenção Nacional. Embora, como é sabido, os comitês fossem uma
criação da Convenção, a obra de Wajda pormenoriza os jogos de interesses
existentes no desenrolar do Terror: ganham destaques as cenas das reuniões
oriundas do Comitê de Salvação Pública e os discursos apresentados na Convenção.
Danton
é passível de ser observado de várias maneiras. Uma delas é referente ao
contexto histórico em que foi produzido. Seu diretor pertenceu ao sindicato
independente Solidariedade, que fazia frente ao Partido Operário Unificado
Polonês (POUP). Quando o Solidariedade foi considerado ilegal pelo governo, em
1981, Wajda se refugiou na França, onde produziu seu filme. Por isso, também é
possível notar em Danton uma enorme crítica aos comunistas, neste caso,
incorporados na figura do homônimo revolucionário e dos demais revolucionários.
Crítica essa, que rendeu problemas a Wajda, como aponta o historiador Robert
Darnton (1997: 108-109):
“Na França, tudo parecia pronto para fazer de
Danton um sucesso: Wajda era idolatrado; o Solidariedade havia conquistado o
coração do povo; o recém-eleito governo socialista estava ansioso por apresentar
o filme como um prelúdio ao bicentenário da Revolução Francesa, em 1989. No
entanto, Danton causou um escândalo, em especial junto à esquerda, onde a
difícil aliança entre os socialistas e os comunistas deixou incertezas sobre
quem representava a tradição revolucionária. Os comunistas montaram uma
condenação mais forte: ‘O filme é contra-revolucionário’, escreveu o crítico do
jornal L’Humanité. Os socialistas responderam à altura: ‘Ele desfigura tudo o
que há de mais belo [na Revolução]’, declarou Philippe Boucher no Le Monde.
Pierre Joxe acrescentou: ‘A história dele [Wajda] não é a nossa’. (...) Acusaram
Wajda de ter feito com que o Terror parecesse gratuito, ao eliminar todas as
referências ao contexto original: a guerra civil na Vendéia, as revoltas
federalistas nas províncias, as intrigas contra-revolucionárias em Paris e a
invasão prestes a atravessar a fronteira. Wajda ignorou a campanha de
Robespierre contra os extremistas de esquerda chefiados por Jacques René Hébert,
apagando desse modo o sentido da oposição de esquerda a Robespierre na Comissão
de Segurança Pública e obscurecendo as razões políticas de Robespierre contra os
dantonistas: a necessidade de preservar a aliança com os sans-culottes e impedir
que a Revolução pendesse para a direita após o expurgo da esquerda herbetista.
Wajda eliminou os próprios sans-culottes: o povo comum mal aparece em seu filme,
mesmo tendo sido a Revolução Francesa um levante das massas, e não
um duelo parlamentar entre oradores burgueses”.
“Um duelo parlamentar entre oradores burgueses”. É justamente esta frase
de Darnton que possibilita uma segunda visão sobre o filme. Danton é
também, utilizando-se aqui uma analogia com a Grécia Antiga, uma aristeia
entre Georges Danton (Gérard Depardieu) e Maximilien Robespierre (Wojciech
Pszoniak): termo definido por Jaeger como uma palavra “empregada para os
combates singulares dos grandes heróis épicos” (JAEGER 1996: 23). As duas
principais personagens do filme podem ser comparadas com os famosos heróis da
Ilíada de Homero. Aquiles destaca-se da áristoi (grupo de combatentes
munidos de areté, virtude), assim como Heitor, por fazer parte da
prómachoi (os combatentes da dianteira) e, conseqüentemente, sendo também
representante da prótoi (os primeiros). Metaforicamente, desta maneira,
podemos apontar Danton e Robespierre como os opostos que mais se destacam dentre
os políticos que travam embates. E Wajda é bem claro ao desenvolver sua
narrativa: qualquer espectador que tenha conhecimentos sobre a Revolução
Francesa sabe, desde o início, que Danton morrerá; não antes, porém, de
enfrentar Robespierre.
Os mais de 120 minutos da película pintam o interessante quadro da mentalidade
moderna acerca das civilizações clássicas. Há múltiplas referências implícitas à
Antigüidade em Danton; desde o Renascimento, os homens se debruçam nas
leituras de autores gregos e romanos, influência ainda mais notória em finais do
século XVIII. Se os intelectuais modernos estudaram as obras clássicas a fim de
aplicar e/ou sustentar seus argumentos nos campos da economia e da política, o
trabalho de Wajda, por sua vez, converge também na concepção tucidideana de
historia magistra vitae, na qual os homens do futuro, inteirados do
conhecimento dos fatos antigos, poderão fazer analogias com o passado.
Estas interpretações diferentes sobre o passado ficam patentes nos discursos
políticos da França revolucionária. De fato, duas vertentes são apresentadas e
defendidas pelos modernos: de um lado, a conservadora Esparta; de outro, a
flexível Atenas. Mencionando-se aqui expoentes, podemos afirmar que Rousseau
representava a primeira vertente e Voltaire a segunda. O iluminista Rousseau
contrapôs a Esparta austera, fechada, à Atenas viciosa: Esparta manteve-se
virtuosa justamente por não incorporar o “progresso” advindo das artes e
ciências; Atenas, diferentemente, tornou-se modelo de polidez e bom gosto,
reunindo filósofos e artistas, degenerando-se. Este pensamento mais conservador
do filósofo suíço, preferindo o modelo espartano, é oriundo, principalmente, de
suas leituras de Plutarco, as quais fez durante toda a vida, e, de igual
maneira, dos demais autores antigos, como notamos na seguinte passagem de
Políbio (História, VI, 10):
Agora farei uma breve alusão à legislação de Licurgo, pois o assunto não é
estranho ao nosso plano. Esse legislador (...) levou em conta que uma
constituição simples e baseada num princípio único é precária, pois tenderá
rapidamente para a forma degenerada que lhe é própria e inerente à sua natureza.
Do mesmo modo que a oxidação no caso do ferro e o caruncho e as cracas no caso
da madeira são pragas ínsitas a esses materiais, e eles, embora escapem aos
agentes destruidores externos, são desfeitos por elementos nocivos presentes em
si mesmos, cada constituição sofre de um mal congênito e inseparável de si mesma
– na monarquia esse mal é a tendência ao despotismo, na aristocracia é a
tendência à oligarquia, e na democracia é a tendência à selvageria e ao império
da violência –; e como foi dito há pouco, é impossível que cada um desses tipos
de constituição não tenda com o tempo a converter-se na sua forma degenerada.
Prevendo essa inexorabilidade, então, Licurgo não elaborou uma constituição
simples e uniforme, mas uniu nela todas as características boas e peculiares às
melhores formas de governo, de tal maneira que nenhum dos seus componentes
pudesse crescer indevidamente e degenerar nos males a eles inerentes, e que,
sendo a força de cada um contrabalançada pela dos outros, nenhum deles
prevalecesse e se sobrepusesse aos outros, e assim a constituição permanecesse
longo tempo em estado de equilíbrio, como uma nau singrando o mar contra o
vento; o poder real ficaria a salvo da arrogância por temor do povo, ao qual
seria dada uma participação suficiente no governo, e o povo por seu turno não
ousaria tratar os reis com desdém por temor dos anciãos do Conselho que, sendo
selecionados entre os melhores cidadãos, estariam todos sempre do lado da
justiça; assim, o poder do Estado que se achasse inferiorizado por causa de sua
submissão aos costumes tradicionais passaria a ter sempre força e peso graças ao
apoio e à influência dos anciãos. Conseqüentemente, elaborando sua constituição
dessa maneira Licurgo preservou a liberdade de Esparta por um período mais longo
que qualquer outro povo (...).
Com este excerto, desnubla-se o que foi dito até então: há, sim, entre todos os
revolucionários o claro desejo de acabar com a monarquia; e assim o fizeram.
Contudo, uma vez no poder, instaura-se o debate sobre os pormenores do governo
republicano. Neste momento, torna-se quase impossível não relacionar as idéias
de Robespierre ao pensamento rousseauniano sobre Esparta e Licurgo, opondo-se às
idéias atenienses de Danton. Estas diferenças ficarão mais claras com a análise
de determinadas cenas do filme abordado que será feita mais tarde. Antes, porém,
convém introduzir algumas premissas da teoria de Rousseau no que se refere ao
campo político e social; em suma, suas concepções acerca da ordem civil e do
Estado moderno.
3.A
POLITEIA DE ROUSSEAU: O CONTRATO SOCIAL
Publicado em 1762, mais de uma década depois do primeiro Discurso, o
Contrato Social viria para inflamar um momento já marcado pela turbulência
política na Europa. Polêmico, foi proibido na Paris absolutista e queimado em
Genebra, enquanto disseminava-se nos círculos insurretos e convertia-se na
Bíblia da Revolução de 1789. Dividido em quatro livros, o Contrato
preocupa-se com a organização política da sociedade; em outras palavras,
Rousseau quer descobrir se há ou não condições de alcançarmos a liberdade e a
igualdade vivendo dentro de laços sociais. A resposta será simples: o Contrato
Social. É por meio do pacto social que Rousseau infere a possibilidade de êxito
na construção de uma sociedade justa e eficaz. É claro que as idéias e modelos
extraídos do Contrato não eram aplicáveis em quaisquer circunstâncias de tempo
ou lugar, visto que as grandes civilizações já estariam condenadas; todavia,
sinalizavam uma salvaguarda daquilo que ainda não estava corrompido – requisitos
esses não compreendidos pelos revolucionários, que achavam poder regenerar a
França do século XVIII na Esparta virtuosa de Licurgo.
As críticas ao despotismo não eram novas, se considerarmos o ideal postulado por
Locke, um século antes, de ordem civil cuja autoridade seria fundada na razão.
Mas o pacto social de Rousseau inovava no que diz respeito à origem dessa ordem.
Sim, o homem nasce livre; esta liberdade, porém, será suprimida pela outra
liberdade, instituída após o indivíduo alcançar a idade da razão: a liberdade
convencional. Por nascer de uma convenção, o social sobrepõe-se ao
individual, e o convencional, à natureza, posto que permanecer na ordem natural
seja negar o próprio desenvolvimento humano. Desta maneira, a transição do
estado natural para o estado civil – palco, inclusive, do surgimento da
propriedade – é inevitável, além de conflituoso, pois ali nascem as
desigualdades. A ruína dos homens apenas será impedida com a formação do pacto,
estabelecendo leis que obriguem os membros daquela ordem a se respeitarem e,
acima de tudo, que atendam aos interesses do bem comum.
A convenção será, enfim, responsável por instituir a autoridade – não mais
apoiada em princípios naturais, como se faziam crer os déspotas que, até então,
governavam pela força.
Vimos, então, que a ordem social é somente alcançada pela convenção, e é essa
convenção que legitimará a autoridade, posto que o povo seja soberano; desta
forma, a República ou corpo político se refere à comunidade regida pela
vontade geral soberana. A vontade geral, grosso modo, não se configura na
vontade da maioria, como nas assembléias, mas nos atos e decisões que alcancem o
bem comum: longe de representar a soma de interesses particulares, ela expressa
a vontade de cada cidadão imbuído do interesse coletivo. Como reconhecer, no
entanto, essa vontade geral, a fim de alcançá-la no plano concreto? Rousseau
aponta um instrumento de mediação entre a idéia (a vontade per se) e a sua
materialização: o conjunto de leis.
Em síntese, a lei expressa a vontade geral, e, por conseguinte, não pode ser
formulada diretamente pelo povo, raramente esclarecido. Para esta tarefa,
Rousseau admite a existência de guias, cuja missão será interpretar as
necessidades civis e traduzi-las num sistema de leis justo e eficaz. A esse
guia, o filósofo dará o nome de legislador. O legislador deve ser cônscio
dos problemas comuns, e capaz de facilitar o processo de socialização por meio
das instituições; afora a genialidade, ele deve ser virtuoso. Sim, pois, não
sendo magistrado, nem soberano (a não ser enquanto parte do povo), o
legislador não tem direitos legislativos, nem pode governar como um tirano. Ele
antecipa, enfim, a tomada de consciência do povo enquanto soberano, reafirmando
a adesão de cada indivíduo ao pacto.
Como modelos de legislador, Rousseau seleciona três exemplos: a lei judaica de
Moisés; a Esparta de Licurgo; e a Roma legendária de Numa Pompílio. São esses
guias que, aliados a bons governos, retardarão ao máximo a (inevitável)
degeneração do corpo político.
4.A
DECADÊNCIA DA CIVILIZAÇÃO
Se no Contrato de Rousseau a preocupação recai na busca por um modo de
apaziguar os efeitos da desigualdade durante o processo socializante, criando um
ambiente onde os homens, já em estado civil, possam alcançar a liberdade e a
igualdade , nos dois Discursos, a atenção volta-se à reconstrução desses
estágios – natural e civil – e, por conseguinte, à causa e efeito da decadência
das civilizações. Ainda em relação aos dois escritos, é visível a radicalização
entre um e outro: enquanto no primeiro, o progresso nas artes e nas ciências é
visto como propulsor da viciosidade humana, o segundo amplia a questão para a
estrutura da desigualdade social.
Em síntese, o Discurso sobre as ciências e as artes (1750, vencedor do
Concurso de Moral da Academia de Dijon) investe contra a percepção dominante na
época ao rejeitar a idéia de superioridade moral vinculada à influência das
Luzes. Para Rousseau, as artes e as ciências, ao invés de tornarem as nações
melhores do ponto de vista moral, fez com que os homens se perdessem em meio à
decadência dos costumes. Logo, a civilização acaba por corromper o homem,
consolidando os vícios provenientes do processo de socialização: o ócio, a
ambição, ou os desejos egoístas, dissimulados ante uma capa de polidez e
virtuosismo.
Rousseau também encontra os modelos de povos que se mantiveram virtuosos por se
afastarem das teias civilizatórias: os antigos persas, os citas, os germanos, ou
a própria Roma dos primórdios. Mas nenhum destes exemplos comparava-se a
Esparta, república de quase-deuses:
“Esquecer-me-ia que foi no próprio seio da Grécia que se viu surgir essa
cidade tão célebre pela sua feliz ignorância quanto pela sabedoria das leis,
essa república antes de quase deuses do que de homens, tanto suas virtudes
pareciam superiores à humanidade? Oh! Esparta, eterno opróbrio de uma doutrina
vã! Enquanto os vícios levados pelas belas-artes se introduziam conjugados em
Atenas, enquanto um tirano lá reunia, com tanto cuidado, as obras do príncipe
dos poetas, tu escorraçavas para fora de teus muros as artes e os artistas, as
ciências e os sábios! O acontecimento marcou essa diferença. Atenas tornou-se a
moradia da polidez e do bom gosto, o país dos oradores e dos filósofos; lá a
elegância das edificações correspondia à da língua; viam-se, em todas as partes,
o mármore e a tela animados pelas mãos dos mestres mais hábeis. De Atenas saíram
essas obras surpreendentes que serviram de modelo a todas as épocas corrompidas.
O quadro da Lacedemônia é menos brilhante. ‘Lá’, diziam os outros povos, ‘os
homens nascem virtuosos e o próprio ar do país parece inspirar a virtude’. De
seus habitantes só nos resta a memória de seus atos heróicos. Tais monumentos
valerão menos, para nós, do que os mármores interessantes que Atenas nos
deixou?”. (ROUSSEAU 1973a: 345-346)
Mais do que representar a decadência da civilização, o progresso das artes e das
ciências simboliza algo mais complexo: houve, para tanto, uma transformação na
condição humana, que passou de um ser natural para um ser social. Ora, sendo um
gérmen de ócio e vaidade, não poderia existir em ambiente de igualdade.
O segundo Discurso é dividido em duas partes: na primeira, Rousseau tenta
reconstruir o homem em seu estado primitivo, nos aspectos físico, metafísico e
moral; na segunda parte, ele vislumbra o processo transitório que acomete o
indivíduo até o estado atual.
As premissas levantadas nos dois Discursos formularão, em grande parte, a
tese apresentada no Contrato Social: a sociedade não provém da lei
natural; e o estado de natureza, longe de ser eterno, tende inevitavelmente à
conversão para o estado civil. A deterioração do estado natural acompanha o
estabelecimento de um pacto que institui, por meio de convenção, um Governo, e
rejeita a vontade individual em benefício da vontade geral. As desigualdades e o
declínio são inevitáveis; não obstante, o que Rousseau apresentaria no
Contrato seria o desenvolvimento ideal da transição para o estado em
sociedade: uma vida simples e comunitária, como tivera a Esparta de Licurgo. A
obra de Rousseau, veículo de suas teses republicanas, atingiria na Revolução
Francesa o ápice de sua repercussão: Marat, Robespierre, Saint-Just, bem como os
demais sans-culottes, considerariam seus escritos proféticos. Conforme
Luiz Salinas Fortes, o Clube dos Jacobinos proclamaria, em 1794, Rousseau como
modelo a ser seguido; Babeuf, chefe da Conspiração dos Iguais, também fora
influenciado por suas teses (FORTES 1989: 114). Como veremos adiante, seu
pensamento traduzir-se-á em diversos momentos da fase revolucionária; cabe,
então, esmiuçá-la através das cenas construídas por Andrzej Wajda em seu
premiado, e controverso, Danton.
5.A
REPÚBLICA EM NARRATIVA
5.1As várias
faces da Revolução
A obra de Wajda, malgrado contemplar um curto período dentro do movimento
revolucionário, encerra duas ideologias presentes no contexto em debate: a veia
dos Enciclopedistas, com sua capacidade de restauração do direito natural; e o
viés rousseauniano, de natureza humana irremediavelmente corrompida. Querela que
polariza Rousseau a Diderot, ou Rousseau a Voltaire; ou, neste caso, traz à cena
o jogo de forças entre seus desafiantes, Danton e Robespierre. Conquanto haja
uma nítida marca pessoal do cineasta, parece-nos necessário apontar a
caracterização feita por Wajda destes sujeitos políticos, especialmente em
termos de sua densidade histórica.
Já nos primeiros minutos, o conservadorismo do Comitê de Salvação Pública,
chefiado por Robespierre, empastela o jornal Le Vieux Cordelier após a
leitura de um dos impressos, feita por Heron a Robespierre. A oficina,
pertencente ao dantonista Camille Desmoulins, é fechada sob a acusação de
promover idéias contrárias à Revolução e à Convenção Nacional, uma vez que o
teor do texto claramente acusa o governo de despotismo. Eis que surge a primeira
menção ao incômodo de se ter Danton lutando contra os comitês: Saint-Just afirma
a Maximilien que a morte de Georges Danton pouparia problemas à República.
Ora, embora o filme não explane (muito) isso, a verdade é que Danton foi
afastado da chefia do Comitê por seu caráter moderado, aproximando-se mais dos
intentos burgueses, do comércio. Neste sentido, Danton liga-se à Atenas, dando
mostras de um pensamento similar ao dos girondinos, que condenavam Esparta;
contra a apologia do modelo espartano, eles diziam que a sociedade espartana era
a negação da sociedade burguesa, inibindo o desenvolvimento econômico,
industrial e social, além de não possuir liberdade nem fomentar a propriedade
privada. Licurgo teria imposto privações aos cidadãos, como é observável em
trechos de sua biografia redigida por Plutarco:
“A segunda das medidas políticas de Licurgo – e a mais audaciosa – foi a
redistribuição da terra. Pois, como a desigualdade era terrível e muitos pobres
e indigentes confluíam para a cidade, ao passo que o dinheiro se concentrava nas
mãos de uns poucos; decidido a banir o abuso, a inveja, a delinqüência, o luxo e
as duas doenças do Estado que eram, todavia, mais antigas e importantes do que
essas, a riqueza e a pobreza, [Licurgo] persuadiu-os para que, posto em comum
todo o país, redistribuísse-o desde a base; e conviveram fazendo-se
absolutamente semelhantes e com igual patrimônio, no que se refere aos meios de
vida, mas aspirando ao primeiro posto em virtude. Sabendo que, entre um e outro,
não existe maior diferença nem desigualdade do que a que estabelece a censura de
seus defeitos e o elogio de suas qualidades”
(Licurgo, 8).
“(...) Em primeiro lugar, anulando o valor de qualquer moeda de ouro e de prata,
decretou que só se utilizaria o ferro; e a este lhe conferiu tão pouco valor,
apesar do seu grande peso e volume, que a troca de dez minas [uma mina equivale
a 100 dracmas, e cujo peso aproximado seria de 437 gramas; 10 minas, portanto,
têm quase 4,5 Kg de massa] exigia um grande armazém em casa e um jugo para
transportá-lo [o ferro]. Com esta medida em vigor, desapareceram muitas classes
de delitos da Lacedemônia. Pois, quem iria roubar, aceitar como suborno,
subtrair ou saquear aquilo que nem se podia esconder nem era desejável ter e
que, acima de tudo, tampouco era rentável o trabalhar, já que, como com vinagre,
segundo diz-se, acabou a dureza do ferro aquecido e retirou sua utilidade para
outras aplicações, dado que era impossível forjá-lo e manejá-lo? (...) pois os
produtos não tinham saída (...) nem chegavam fardos de mercadorias aos portos,
nem punha o pé na Lacônia nenhum sofista de discursos, nem charlatães
agoureiros, nem proxenetas, nem artesãos de jóias de ouro ou de prata,
precisamente porque não havia moeda. Pelo contrário, privado assim o luxo, em
pouco tempo, de quem o fomentava e alimentava, ele mesmo, por si só, ia-se
extinguindo”
(Licurgo, 9).
“Todavia mais resoluto em combater o luxo e extirpar o afã de dinheiro, realizou
a terceira medida – e a mais nobre –, a organização dos
syssítia [comida comunitária citada já na Odisséia de Homero, livro
IV]; de tal modo que comiam uns com os outros, reunindo-se para tomar alimentos
e rações iguais para todos e previamente determinadas, em vez de passar o tempo
em casa, reclinados em liteiras e ante mesas luxuosas, como animais insaciáveis,
engordando na sombra pelas mãos de demiurgos e cozinheiros, e conseguindo perder
junto a seus costumes também seus corpos; abandonados assim a toda classe de
apetites e excessos que exigem longos repousos, banhos quentes, muita
tranqüilidade e, de certo modo, uma enfermidade diária” (Licurgo, 10).
“Pois nada os permitiam viver a seu gosto, senão que pela cidade, como em um
acampamento, observando um método de vida já estabelecido, a serviço dos
assuntos públicos e, em suma, convencidos de que não pertenciam a si mesmos,
senão à pátria (...). E que isto também era, de certo modo, um dos benefícios
que Licurgo havia proporcionado a seus próprios concidadãos: abundante tempo
livre; pois, em modo algum os deixava se ocupar em ofícios manuais e, quanto à
atividade comercial, que requer uma penosa dedicação e entrega, tampouco era
preciso nenhuma, já que o dinheiro carecia por completo de interesse e apreço”
(Licurgo, 24).
Se a rigidez dos costumes espartanos ou a devoção à pátria feriam os cânones
liberais, não sabemos ao certo. Pois essa “sociedade burguesa”, como bem lembra
Hazard, era demasiadamente complexa para inferir tais certezas: ou, seria mais
correto supor, possuía variantes em excesso. À aristocracia faustosa que perde
espaço num cenário de novas concepções acerca do Estado e da sociedade, segue
uma classe pouco imersa às luzes, que maneja o povo mais pobre como mero
instrumento: este, nem esclarecido, nem portador de ofício decente, e, portanto,
insuscetível à revolução de espírito. Os filósofos, então, ignoram-no.
Robespierre os atacaria, em discurso (não reproduzido por Wajda):
“A mais importante e mais ilustre (seita) era aquela que ficou conhecida pelo
nome de enciclopedista; abrangia alguns homens merecedores de estima e um muito
maior número de charlatães ambiciosos; muitos dos seus chefes tinham-se tornado
cidadãos importantes no Estado. Quem quer que ignore a sua influência e a sua
política não poderá ter uma idéia clara do Prefácio da nossa Revolução. Essa
seita, em matéria de política, manteve-se sempre acima dos direitos do povo; em
matéria de religião, avançou muito para além dos preconceitos religiosos. Os
seus corifeus clamavam algumas vezes contra o despotismo, mas recebiam pensões
dos déspotas; tão depressa escreviam livros contra a corte, como logo
dedicatórias aos reis, discursos aos cortesãos e madrigais às cortesãs; tinham
orgulho no que escreviam, mas rastejavam com humildade nas antecâmaras”.
Danton deixa-se levar pela maré enciclopédica, ao passo que tentava se
aproximar, movido por um discurso moderado, à alta burguesia. Segundo essa mesma
Enciclopédia, a propriedade fazia o cidadão; e, somente assim, este poderia
guardar o Estado (HAZARD 1974 vol.2: 72). Nesta perspectiva, passamos à noção de
propriedade em Rousseau, para quem o Estado, perante seus membros, é senhor de
todos os seus bens mediante o contrato: a propriedade privada só existe por
convenção, e ainda assim, limitada à esfera de subsistência. São essas palavras
que impulsionarão os avanços populares (luta pela abolição da escravidão,
confisco de bens dos nobres etc.) cometidos durante o Terror, espelhados – é
preciso reiterar – nos mesmos princípios da Esparta licurgana, cuja valorosa
coletividade e reformas sociais exalam tão estimadas virtudes. A Atenas de
Danton, de outro lado, conjugava mercantilismo e liberdade civil num paradigma
de sociedade burguesa ideal; Wajda, entretanto, pouco se atém a estas questões,
preocupando-se mais em alçar Danton à posição de vítima dos desmandos
ditatoriais da Convenção.
Isso se torna evidente em outra cena, quando Danton, dirigindo-se ao centrista
Philippeaux, intenciona tramar uma ofensiva ao Comitê de Salvação Pública: “Se
você quer fazer da pobreza uma virtude revolucionária, confie suas coisas a
Robespierre”. Novamente, cabe frisar as duas interpretações distintas do passado
aplicadas ao presente: o ideal de igualdade proferido por Plutarco é, quiçá,
romantizado pela ala montanhesa comandada por Robespierre e seus colaboradores,
enquanto os opositores, a fim de corroborar seus discursos, apontam os vieses
negativos da mesma leitura do autor antigo. Na concepção dantonista, a aversão
ao luxo, ou, como diria Rousseau, a alienação total de si ao Estado (ironizado
por Danton na figura de Robespierre, pintado como déspota) transfigura-se em
pobreza e retrocesso econômico.
5.2Projeto
republicano e educação
Ainda no início da trama, Wajda ambienta a casa de Robespierre. Sua primeira
tomada, contudo, exibe a cena de um menino banhando-se aos cuidados da irmã.
Durante o ato, a criança proclamava a Constituição, num exercício de memorização
orquestrado pela mulher; a todo o momento, ela o lembrava da importância de
conhecer aquele texto, “ser bom cidadão”, punindo-o sempre que houvesse erro ou
esquecimento. A carga simbólica desta cena parece ser, sem dúvida, de grande
valia na concepção do cineasta: sua composição será retomada no final da
película, quando o menino, vestido como um homem adulto, declama os mesmos
versos a Robespierre – cena imbuída de certos juízos de valor a fim de servir ao
corpus argumentativo construído por Wajda.
Em Emílio (1762) Rousseau meneia a educação de acordo com seu pensamento
político e social. O propósito, grosso modo, é suscitar o aparecimento de
condições que permitam a vivência de homens transformados em uma sociedade
igualmente remodelada. Tarefa cruel, haja vista a impossibilidade de regeneração
dentro do atual estado civil: uma sociedade justa pressupõe uma nova humanidade,
mas esta somente encontra terreno propício dentro de uma nova sociedade (PARRY
2001: 248). Ora, se é este o caso, a solução não se mostra impraticável:
reeducar uma nova geração poderia sinalizar um novo começo. Ao contrário de
outros filósofos, capazes apenas de propor a continuidade da “imitação” – mas
substituindo os valores aristocratas por valores burgueses –, Rousseau manifesta
o desejo de uma imitação do natural (uma natureza real, não visualizada pelo
filtro dos agentes modernos). Claro que isso evocava um paradoxo: como educar
contra a sociedade se o cidadão é educado pela sociedade?
Voltemos ao filme. O menino recitava, sob os olhares atentos da irmã, os artigos
da Constituição. Façamos, então, um paralelo com Plutarco (Licurgo, 16),
quando este menciona a educação das crianças espartanas:
“(...) Letras, na realidade, só aprendiam para seguir adiante; enquanto que toda
a educação restante estava orientada à total obediência, a ter firmeza durante o
cansaço e a vencer os combates”.
Enfim, na concepção rousseauniana: o bom legislador adéqua as leis às
particularidades da nação. Esparta se articula sob os trâmites de guerra: o
espartano deve ser instruído para atender a estas expectativas. Deste modo, em
nada difere do Emílio de Rousseau, projeto de cidadão.
Chega-se a uma constatação: seja a Esparta dos primórdios, a sociedade ideal de
Emílio, ou ainda, a Europa revolucionária de Robespierre aos olhos de Wajda, a
boa sociedade é aquela constituída de homens livres, cidadãos, que constroem as
leis e as obedecem, posto que, na sociedade forjada pelo Contrato, os direitos
só serão fixados pelas leis (ROUSSEAU 1973c, II: 6) . A lei é universal, mas
respeitada por ser útil, não arbitrária. Em última instância, a educação natural
de Rousseau almeja evitar a criação de tiranos ou escravos, senão gerar cidadãos
capazes de ser livres – e, do mesmo modo, aptos a estabelecer um Estado que
possibilite sua liberdade.
5.3Imagens e
idéias: a simbologia de um banquete
Diderot preconizou uma educação voltada para forjar cidadãos, e declarou o
direito à liberdade política, assim como faria Rousseau. No entanto, seguidor (e
mentor) das ciências e belas artes, contrastava com os cânones rousseaunianos de
rusticidade e bucolismo, princípios resgatados, por sua vez, dos romanos e
espartanos legendários. Mais uma vez, presenciamos o rastro do que seria, no
contexto da Querelle, o embate Atenas versus Esparta: trazendo,
então, à luz nossos personagens, detenhamo-nos à refeição entre Danton e
Robespierre. Os breves minutos do diálogo são responsáveis por delinear as
personificações de espartanos e atenienses.
A residência de Danton, local do encontro, é caracterizada como um antro de
felicidade e prazer, onde os cômodos abrigam desde dançarinas exóticas e
partidas de jogos até sessões evocativas. Ao contrário da casa modesta com
móveis rústicos de Robespierre, a mansão de Danton esbanja luxuosidade, com
afrescos nas paredes e pinturas ricamente molduradas, além de objetos auríferos
e pratarias para servir a refeição. Sobre esse tema, o aspecto ateniense de
Danton é exemplificado no apresto dos diversos pratos a serem oferecidos,
lembrando a crítica de Plutarco aos glutões, acima citada (Licurgo, 10).
Diversas carnes e molhos, muito mais do que os dois homens suportariam comer,
foram preparadas com cuidado, para impressionar Robespierre. Tamanho apreço com
os requintes da mesa são condenáveis pelos espartanos, que preferiam um almoço
simples e em grupo, conforme continuaria Plutarco acerca dos syssítia (Licurgo,
10):
“Assim, pois, já era importante esta conseqüência [a extirpação da ociosidade
provocada pela organização dos syssítia], mas mais que esta, foi conseguir
acabar com o interesse pelo dinheiro, como diz Teofrasto [discípulo de
Aristóteles], e deixá-lo sem valor com a parceria das comidas e a frugalidade da
dieta alimentícia; pois, não era possível o uso nem o desfrute, nem tão só a
vista ou ostentação de grandes preparativos, já que à mesma comida dada ao
pobre, tinha acesso o rico”.
É possível apontar, também, a similitude entre o episódio retratado no filme e a
outra fonte antiga: a riqueza de detalhes e alimentos rememora, pois, a
famigerada cena na casa do liberto Trimalquião, descrita por Petrônio (século I
d.C.) em seu Satyricon como uma ceia absurdamente farta, em que se
apresentam maravilhosos utensílios e comidas aos convivas. Resquícios de
viciosidade ateniense e romana nos costumes de Georges Danton ao pôr a mesa. A
bebida também é um ponto fraco ressaltado para o alegre Danton: o francês bebe
em demasia, mostrando nervosismo frente ao convidado revolucionário.
Robespierre é o oposto. Desde o início, quando recusa se olhar no espelho para
ver se sua peruca fora corretamente posta pelos barbeiros, Robespierre é a
personificação do espartano austero, sisudo. A personagem filmada por Wajda
talvez chegue a destoar um pouco do perfil traçado por Plutarco, que faz questão
em apontar os divertimentos existentes na vida em Esparta; porém, mantém sua
essência inflexível diante daquilo que é apresentado por Danton. Robespierre tem
uma alimentação frugal – fato bem quisto pelos autores antigos como Suetônio,
por exemplo, que elogia a parca alimentação de Augusto – que o faz declinar
todos os oferecimentos de Danton (vestido em exuberante cor vermelha,
contrastando com o apagado costume do adversário): nunca cedendo ao excesso.
Percebendo a inutilidade de tanto trabalho para agradar a Robespierre, Danton
joga os pratos ao chão, deixando sobre a mesa apenas as taças, que são
preenchidas com vinho; enquanto Georges esvazia o conteúdo de uma só vez,
Maximilien apenas beberica, impassível.
Aqui, merece atenção, outra vez, o aparente culto à riqueza proferido por
Danton. Ou, podemos também dizer, a fiel incorporação do ideal (quase utópico)
de homem rousseauniano – social, porém dotado das virtudes naturais – por
Robespierre. Isso porque a caracterização da sociedade moderna feita por
Rousseau, citada anteriormente neste artigo, aplica-se habilmente à situação
retratada: o homem sociável apenas vive em função de outrem, seja mediado pelas
normas de conduta, seja por seus julgamentos. Veja-se Danton mergulhado em luxo,
distinção e fartura, com o claro intento de comover Robespierre, seduzi-lo em
sua retórica e vencer o duelo. Já Robespierre, atento aos princípios de
valor do modelo de Rousseau, busca evitar a qualquer custo tamanha viciosidade,
afastando-se da ostentação e das artes propagadas por seu adversário: não
consegue, todavia, desvincular-se da condição de homem social, posição também
ocupada por Danton. Ora, como bem afirma Rousseau no prefácio do Discurso
sobre a origem da desigualdade, o estado natural não mais existe, nem mesmo
retornará futuramente. Aliás, a destruição das artes e das ciências somente
manteria os vícios e desencadearia novos problemas (CASSIRER 1999: 54-55). O
contrato social possibilita, nesta conjuntura, retomar a liberdade do homem, mas
não a simplicidade; a forma dessa liberdade, por outro lado, diferirá daquela
inerente ao homem natural.
Convém ressaltar, por fim, a relação entre riqueza e pobreza extraída daquele
cenário. Segundo Cassirer, ainda que rejeite o acúmulo fútil de bens, Rousseau
não desvalida a propriedade privada: o Estado deve, antes de tudo, assegurar os
direitos e deveres (CASSIRER 1999: 60). Não obstante, a desigualdade econômica
reinante na atual ordem corrompe na medida em que produz as desigualdades
políticas e morais: o Contrato pretende harmonizar estas forças, enquanto
legitima a vontade geral. Da mesma forma que não há apologia à barbárie, como
acusavam os enciclopedistas, também não existe culto à pobreza, nem cruzada
contra a propriedade privada; há, do contrário, um equilíbrio de poderes, de
modo que um rico não tenha mais privilégios políticos em detrimento de um pobre.
De volta à película, logo a conversa ganha um tom mais sério. Robespierre aprova
o fim dos floreamentos de Danton e a mudança para um questionamento que fosse
direto ao cerne; novamente, aqui se compreende a reprovação espartana dos
discursos atenienses. A temática política transparece a seguir: ao recusar
aliar-se a Robespierre e ser indagado se se acha superior ao governo, Danton
responde: “Todo indivíduo excepcional é superior à massa”. Fica claro o que já
foi dito acima em relação à Ilíada; Danton é cônscio de sua areté e sabe
que se destaca dentre os demais homens, trazendo-nos à memória o embate de
orgulhos narrado por Homero entre Aquiles e Agamêmnon no Canto I (o francês, tal
como Aquiles, despreza o comando ao qual deve obediência). Porém, enfrenta um
adversário a sua altura: Robespierre usará de sua individualidade para lutar por
seu povo; Robespierre é o retrato de Licurgo, é a pessoa que, singularmente,
normatiza o todo, a sociedade, tornando os homens iguais perante as leis. E o
chefe do Comitê de Salvação Pública, assim como o legislador espartano
apresentado por Plutarco, prefere fechar-se em sua pátria a aceitar os
requerimentos burgueses comerciais dos dantonistas que, segundo ele, só querem
enriquecer às custas da Revolução. Para tanto, terá de enfrentar o demagogo
Danton, a quem as ruas adoram. Quando diz que não recuará diante de nada para
dar felicidade à massa, enfurece o robusto francês, que se levanta e vocifera
próximo a Robespierre. Ofende-o e chega a agredi-lo fisicamente, despenteando
seus cabelos postiços. Robespierre mantém-se inalterado, como o era Licurgo,
segundo Plutarco (Licurgo, 11):
“Esta é a razão pela qual dizem que a Licurgo, ante esta medida [a dos repastos
públicos], opuseram-se com especial rancor os ricos e que, formando fileiras
contra ele, todos juntos o insultavam e davam mostras de sua indignação. No
final, atacado por um numeroso grupo, conseguiu escapar da ágora correndo e,
tomando vantagem sobre os demais, pôde refugiar-se no templo. Mas um certo
jovenzinho que, em geral, não era de má índole, ainda que violento e impulsivo,
Alcandro, perseguindo-o e alcançando-o, no momento em que ele [Licurgo] se
virou, [Alcandro] deu-lhe um golpe com seu bastão no olho e vazou-lhe. Licurgo,
então, sem nenhuma fraqueza ante a dor, senão firme ante eles [os cidadãos],
mostrou aos cidadãos a cara ensangüentada e o olho perdido. Tanta vergonha e
arrependimento se apoderou de quem o viu, a ponto de entregarem Alcandro a ele e
o escoltarem até sua casa, compartilhando sua indignação. Licurgo, elogiando a
conduta daqueles, retirou-se e, quando introduziu Alcandro em sua casa, nada de
mal lhe fez, nem lhe disse, senão que, depois de despedir-se de seus amigos,
servidores e criados, propôs a ele [Alcandro] que se pusesse a seu serviço. Ele,
que não era um miserável, cumpria em silêncio quando lhe era ordenado, e ao
permanecer ao lado de Licurgo e compartilhar seu modo de vida, na contemplação
de sua simplicidade e profundidade da alma, da austeridade de sua dieta e de sua
fortaleza ante as fadigas, também ele ficou fascinado ante ao varão, e aos
familiares e amigos dizia que Licurgo não era cruel, nem petulante, mas sim
somente afável e simples com os demais. Desta forma, pois, ele ficava castigado,
e a pena recebida havia consistido em que, de jovem perigoso e arrogante,
transformou-se em homem muito prudente e sensato”.
Ao final, Robespierre, não igualmente simples e afável como o era Licurgo, mas
seco e austero como uma rocha, sai da casa de Danton.
5.4(Re)leituras
da história: os frutos da revolução
O filme encaminha-se ao final: acusação e julgamento de Danton. E aqui uma
seqüência de cenas delineia, ainda mais, as diferenças entre Esparta e Atenas, e
suas mentalidades aplicadas ao mundo moderno do período revolucionário.
Começa-se pelo comentário de um dos membros do Comitê ao atraso de Robespierre
para a reunião, que pede desculpas: “Você fala como um rei que se dirige
a seu gabinete”; embora seja uma alusão direta ao Antigo Regime, desconcerta
Robespierre, que sempre propalou o fim do absolutismo. Os trabalhos do Comitê de
Salvação Pública seguem normalmente e, dentre debates favoráveis e contrários, a
prisão de Danton e seus cúmplices é decretada, todos acusados de atividades
antipatrióticas, conspiratórias, desestabilizadoras da ordem vigente.
Danton não se aflige e aceita a prisão. Porta-se magnanimamente diante do guarda
que lê a ordem: a portentosa figura do jacobino assusta os funcionários do
Comitê. Por sua vez, durante os trabalhos da Convenção Nacional, Robespierre é
chamado à tribuna para defender o encarceramento dos dantonistas. O caráter
licurgano vem à tona em suas palavras inflamadas: “Vamos colocar certos
indivíduos acima da República?”. Mais: “O mundo vos observa. Não podemos jamais
demonstrar fraqueza ou covardia moral, pois o que se tornaria a França se
perdêssemos a confiança nos franceses?”. Ou seja, é sublinhada a necessidade de
se manterem iguais, mesmo que, segundo a observação de Danton durante a ceia,
seja preciso cortar cabeças para o nivelamento. As virtudes espartanas – neste
caso, francesas – devem vir em primeiro plano: o povo deve ser aguerrido,
mostrar-se forte em seus desejos, transmitidos não individualmente, mas enquanto
vontade geral – conceito esse, cabe lembrar, tão marcante na obra de
Rousseau.
A “confiança nos franceses” pretendida por Robespierre repousava, a priori,
na certeza de amor à pátria que a eles fora ensinado ter, e que os tornava, por
conseguinte, modelo de sociedade ideal. Da mesma maneira, Licurgo não se via
acima das massas, mas como bom legislador, constituía-se parte delas, sem deter
qualquer direito além dos que já possuía. Deixando-se morrer de fome, após
visitar o oráculo de Delfos, era cônscio de sua importância política, mas não
almejava outra coisa senão a preservação da felicidade e virtudes de Esparta,
frutos de sua legislação e do bom governo (PLUTARCO, Licurgo, 11). Não
que Danton estivesse fora do projeto patriótico; era um republicano, afinal. Mas
destoava no que diz respeito à conduta do homem liberal, e da espécie de
sociedade que se forjaria na Revolução, porquanto quisesse demonstrar o valor
das luzes e dos princípios burgueses. Quer não ser Licurgo, mas Sólon, cuja
defesa à propriedade e ao comércio transfiguram a rival de Esparta na Meca da
burguesia iluminada; Danton quer, enfim, restabelecer a democrática Atenas na
França de seu tempo.
Em seu julgamento no Tribunal Revolucionário, Georges Danton remete-nos aos
grandes oradores atenienses. Utiliza-se da retórica para a sua defesa. E
desobedece às regras ao se dirigir diretamente ao povo que assiste, não passivo,
ao julgamento. Esse mesmo povo aceita ser visto como uma massa uniforme ao
apoiar a fala de Danton de que não concordava com o fato de estar sentado no
banco dos réus junto a “bandidos comuns”, como diz. O povo apóia o destaque de
Danton, as pessoas reconhecem sua areté, sua métis (astúcia) –
similar a de Odisseu –, corroboram o pensamento de Danton de que ele se difere
dos demais (sendo isso também um atributo da demagogia ateniense).
Danton, o heleno ateniense bem quisto pelas massas, todavia, não está presente
no ateliê de Jacques-Louis David para observar a bela pintura sobre a morte de
Marat, nem para atentar ao belo traje azul, nobre, que Robespierre veste,
posando para o cenógrafo David: ensaio da Festa do Ser Supremo, na qual o
espartano queimava o fanatismo cristão a fim de libertar o povo da religião.
Muito menos, foi Danton capaz de escutar as ordens de Robespierre dadas para se
apagar a figura do dantonista Fabre d’Eglantine do imenso retrato “Juramento do
Jogo da Péla”, embora David tenha argumentado que ele estivesse lá: sem
lembranças daqueles que desestabilizam o governo, é a mensagem implícita. Wajda,
pois, de forma brilhante, provoca a platéia ao criar essa anedota com clara
referência ao stalinismo e ao desaparecimento de Trotsky na famosa fotografia de
1920: deveras, a pintura de David não contém Fabre.
Georges Danton não viveria mesmo para ver a obra de Jacques-Louis David
finalizada: no tribunal, ele e seus partidários são condenados à morte na
guilhotina. Os “argivos de longos cabelos” – como narrava Heródoto (História,
I, 82) – têm suas madeixas cortadas a fim de facilitar o contato da lâmina em
seus pescoços, enquanto os lacedemônios cultivavam seus fios compridos. Em 5 de
Abril de 1794, Danton e os demais homens são guilhotinados em público. Porém,
não sem antes de parar em frente à casa de Robespierre e exclamar,
profeticamente, que logo o chefe do Comitê também teria sua cabeça cortada.
Cônscio da morte de Danton, Saint-Just vai visitar Robespierre, que está
acamado, esmorecido com o fim do adversário, com o findar da aristeia.
Comentam que a Ditadura seria o caminho correto a seguir doravante.
Ironicamente, o jacobino Napoleão Bonaparte, grande patrono das artes e ciências
tão atenienses em sua essência, viria a deturpar, no futuro, as conquistas do
espartano Robespierre.
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[1]
Graduanda em História pela Universidade de São Paulo. Endereço
eletrônico: <<glaucia.lemos@usp.br>>.
[2]
Bacharel em História pela Universidade de São Paulo. Mestrando em
Arqueologia pela USP. Endereço eletrônico: <<alex.martire@usp.br>>.
[3]
Todas as traduções neste artigo são de nossa autoria.