ISSN 1807-1783                atualizado em 10 de março de 2010   


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O riso recai sobre as Matronas – o caso de Juvenal (Parte 1)

por Silva, Lorena Pantaleão da

Sobre o artigo[1].

Sobre a autora[2]

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Introdução

Qual é a importância de um estudo sobre a situação feminina durante o período imperial romano? Claro que poderíamos afirmar que esta pesquisa é relevante para uma melhor compreensão da sociedade romana, ou mesmo, que se trata de dar voz a um grupo que, durante um período bastante longo, foi praticamente ignorado pelos Estudos Clássicos.

Neste sentido, ressaltamos que, conforme apontado por Pantel[3], mesmo com inserção do tema nos estudos historiográficos, em geral estes eram dedicados à análise das mulheres célebres, daquelas que de alguma maneira estavam ligadas a homens relevantes na esfera política ou econômica. Desta forma, voltando nosso olhar para historiografia da Antiguidade observamos estudos que não apresentam uma multiplicidade de identidades femininas existentes neste período, mas, em geral, ressaltam um comportamento considerado exemplar, de dedicação ao lar e a família.

Logo, a idéia da mulher romana, pura, casta e que agia de bom grado de acordo com os padrões sociais de sua época foi cristalizada no imaginário coletivo, como um exemplo a ser seguido. Quando muito encontramos na historiografia produzida no período anterior a inserção dos questionamentos levantados pelo movimento feminista na academia, algumas divisões referentes ao estatuto feminino, elaboradas a partir de uma diferenciação social entre matronas, mulheres da elite romana, as quais eram apresentadas como tendo uma postura irrepreensível, e as demais pertencentes aos grupos populares que teriam comportamento mais desregrado[4].

Considerando esta especificidade dos estudos realizados sobre as mulheres romanas e o impacto que as interpretações elaboradas pelos historiadores podem ter na sociedade contemporânea acreditamos que, conforme apontado por Bernal[5], cada período elabora a construção de sua própria visão da Antiguidade Clássica, e a nosso ver, este foi durante muito tempo um passado patriarcal com figuras femininas inexpressivas.

Ao pensarmos nos questionamentos que vem sendo elaborados para a disciplina histórica desde as mudanças provocadas pelas obras de Foucault, sobre a objetividade e isenção do pesquisador, acreditamos que se a história é elaborada de acordo com os questionamentos do presente no qual o historiador está inserido esta é passível de múltiplas interpretações para um mesmo fato.

Por conseguinte, a nosso ver, a principal motivação para o desenvolvimento de um estudo sobre o tema está ligada ao questionamento do uso político da Antigüidade, o qual vem sendo abordado em trabalhos como, por exemplo, o apresentado por Bernal[6] sobre a utilização do passado romano para justificar atitudes colonialistas pelas nações européias. Finalmente, ao invés de negarmos a percepção política existente na criação de interpretações sobre o Império Romano acreditamos como uma saída para a elaboração das pesquisas é explicitar estas escolhas no decorrer do trabalho. Assim ao apresentar os meios pelos quais chegou a uma determinada conclusão o pesquisador permite que o leitor compreenda a partir de quais posicionamentos ele produziu aquele resultado.

Deste modo, consideramos que a entrada dos movimentos sociais na academia nas décadas de 1960 e 1970, incluindo o movimento feminista, bem como o surgimento de novas epistemologias impulsionadas pelos questionamentos apresentados por estes sejam igualmente o resultado de uma preocupação política influenciando o estudo da história. No entanto, ao citar abertamente o interesse inicial de resgatar a presença feminina ao longo da história e, posteriormente, com o desenvolvimento dos estudos de gênero, estas análises apontam explicitamente suas motivações, permitindo que o leitor reconheça as influências presentes no trabalho do pesquisador e não acredite que o mesmo é resultado de uma observação isenta que resgata o passado tal como este ocorreu.

Assim, apresentaremos algumas considerações sobre a situação das mulheres da elite romana durante o período imperial, influenciados pelos estudos de gênero. Destarte, centralizamos nosso estudo na obra de Juvenal, que viveu entre os séculos I e II d.C., especificamente a sexta sátira deste autor, que possui como tema principal as mulheres. Buscamos estabelecer um diálogo com a teoria literária afim de compreender melhor como o autor constrói uma imagem das matronas em sua obra.

A escolha desta obra para análise não é aleatória, mas baseia-se na possibilidade de rever uma certa falta de interesse acadêmico. Em um primeiro momento, uma das principais justificativas para a inexistência de estudos sobre as mulheres romanas seria a falta de vestígios para a realização destas pesquisas, dado apontado por Finley[7], em seu artigo “As silenciosas mulheres de Roma”, por exemplo, já que são praticamente nulos os relatos literários femininos remanescentes do império romano, com exceção da obra de Sulpícia[8]. Tal afirmação desconsiderava a possibilidade de análise dos textos cômicos, por exemplo, os quais apresentam dados detalhados sobre as mais diversas áreas e grupos sociais do mundo romano.

Contudo, conforme é apontado Cardoso[9], observamos a presença constante de figuras femininas na Literatura Latina especialmente nos gêneros menores, ainda que descritas por autores masculinos. Segundo Cardoso, nestes exemplares de literatura os personagens se aproximariam mais da realidade, favorecendo a pesquisa histórica, embora devamos considerar que suas obras foram elaboradas para provocar o riso.

Ainda que as sátiras possuam esta especificidade acreditamos ser possível utilizar as obras satíricas como base para o trabalho do historiador, desde que, com atenção redobrada para o humor por meio do diálogo com a teoria literária. Para tanto, destacamos a necessidade de uma abordagem interdisciplinar que considere o diálogo com estudos sobre o riso e sátira, a qual foi imprescindível para o desenvolvimento desta pesquisa.

Assim dividimos este texto da seguinte forma: em um primeiro momento apresentaremos algumas questões sobre o humor, em especial sobre o mundo romano, em seguida algumas considerações sobre como a historiografia vem abordando o tema que nos propomos analisar, informações sobre Juvenal e sua obra para, finalmente, apresentarmos algumas considerações sobre a sexta sátira deste autor dedicada exclusivamente à descrição do comportamento das mulheres romanas.

O riso romano

Embora a historiografia tenha desprezado fontes humorísticas anteriormente, concordamos com Henk[10] quando afirma que o humor fornece pistas sobre quais temas são relevantes na sociedade e cultura de um determinado período, ainda que seja um elemento de difícil exploração devido a modificação de suas expressões cultural e temporalmente. Entre as diversas formas de definição do humor possíveis, trabalharemos aqui a partir da demarcação do humor como qualquer mensagem cuja intenção e a de provocar o riso ou um sorriso[11].

Neste sentido, Bergson[12] visando compreender os elementos da fabricação do riso, os quais seriam supostamente universais, elabora interpretações sobre a comicidade que acreditamos válidas para o estudo aqui proposto. Como principais características este autor destaca o humor como algo que é inerente ao ser humano, ao mesmo tempo em que se destina a inteligência pura, ou seja, de que não existe riso onde o sentimento se aproxima do objeto que é abordado pela comicidade.

Sobre este tema esclarecemos que, embora concordemos com Bergson no que diz respeito aos mecanismos que regem o humor humano, acreditamos que os objetos e a forma como estes mecanismos são adotados diferem, temporal, social e culturalmente. Se o humor e o riso são universais conforme é afirmado por Minois[13], as formas como cada sociedade o elabora e sistematiza diferem consideravelmente.

Questionando qual era o papel do humor na elaboração desta obra, lembramos que ao abordar a idéia de discurso, Foucault[14], entre outras questões, aponta as ligações entre o discurso elaborado, a instituição e o ritual que legitima o autor do mesmo. Destarte, o autor enfatiza a relação entre a produção do discurso com o poder. Entre os aspectos internos dos discursos apresentados por Foucault como, por exemplo, os processos de exclusão, ressaltamos a idéia de interdição, a qual alega que em todas as sociedades existem temas que não devem ser abordados, sendo excluídos do discurso devido um mecanismo de coerção interna do mesmo. Bergson, por outro lado, destaca que o humor, além de inerente ao ser humano tem a permissão de trabalhar com temas que seriam dificilmente elaborados em outros discursos que não possuíssem esta característica, ou seja, devido à especificidade do estilo estes poderiam abordar temas interditados a outros textos. Assim acreditamos que o humor é um dos mecanismos que permitem burlar este interdito imposto aos discursos.

Esta relação com a interdição de temas nos parece bastante relevante para este trabalho já que o texto a ser analisado é marcado pelo humor, ou seja, era um estilo literário que permitia ao autor estabelecer uma crítica a moral romana do período, alertando sobre aspectos que não surgem em outros textos literários. Neste sentido, lembramos que Juvenal na primeira sátira, ao apontar os motivos que o levam escrever, afirma que embora escreva em um gênero menor, como o satírico, não o faz por falta de competência, mas porque este é o único estilo que lhe permite criticar a sociedade romana.

Pensando no mundo romano, o riso era encontrado nas mais diversas esferas, inclusive era apreciado pela elite, a qual era autora e destinatária inicial das obras literárias. Desta forma, destacamos que estudos recentes apontam os romanos como sendo ciosos e orgulhosos de seu humor[15], o qual aparecia em diversas esferas da sociedade. Graff[16] ressalta que Cícero, por exemplo, destacava a importância do humor como elemento coercitivo em situações nas quais não seria permitido estabelecer um diálogo direto com o interlocutor; como uma forma de crítica entre iguais encontrada pelos cidadãos, especialmente os aristocratas, destes se repreenderem mutuamente sem correrem risco de retaliação. Neste sentido os romanos se orgulhavam de seu humor, o qual poderia ter uma função didática ou moral.

No caso do trecho proposto para análise, a sexta sátira, observamos uma grande quantidade de matronas romanas em situações obscenas, de adultério, ridicularizando os maridos e os costumes da elite, apresentando um comportamento contrário à suposta moral do período. Embora não compreendamos tais situações literárias como um reflexo da sociedade romana, acreditamos que a análise de tal texto e dos elementos que causavam o riso sobre as matronas para o mundo romano pode nos apresentar dados sobre a concepção de feminino na Antiguidade, tema que trataremos a seguir.

Visões sobre as matronas

Podemos observar na obra de Juvenal um número enorme de personagens femininas, as quais apareciam agindo de forma bastante presente na sociedade na qual estavam inseridas. Contudo, especialmente na historiografia sobre o tema anterior a década de 1970, pouco tratara sobre a situação feminina. Entre os autores que o fizeram destacamos a obra de Carcopino[17], escrita na década de 1930. Ao elaborar um panorama da situação feminina durante o período imperial o autor apresenta interpretações a partir da obra de Juvenal, afirmando que estas mulheres da elite romana agiam como as senhoras da quinta avenida que mantém seus maridos sob seu poder por meio da fortuna que possuem[18]. Destacamos que sua obra é inovadora em vários sentidos, ao se propor trabalhar com a vida privada romana, explicitando questões como a rotina da população, as práticas cotidianas. Para tanto Carcopino elabora sua análise por meio de fontes que abordem estes temas, ou seja, entre outras obras trabalha com exemplares dos gêneros menores da literatura.

Contudo, com o aparato metodológico que possuía naquele momento, embora se proponha a elaborar uma análise sobre a situação feminina em Roma, o autor apresentou um texto satírico como um reflexo da sociedade romana, desconsiderando o grupo ao qual Juvenal pertence e o estilo literário do qual ele lança mão. Embora afirme que ocorreu um aumento nas liberdades femininas no período do império, fato apresentado inicialmente de forma positiva, ao construir seu texto observamos que ocorre uma valorização do modelo de matronas presente na república em detrimento das mulheres do período imperial, naturalizando as palavras de Juvenal como uma única verdade.

Em outro momento, na década de 1960 outros autores, como por exemplo, Finley [19], ao abordar a situação feminina no mundo romano, alegam uma grande dificuldade em se estudar este grupo, visto a inexistência de registros elaborados por mulheres. Destarte, seu estudo é elaborado por meio da análise de lápides e da legislação romana, bem como de alguns cânones literários. Neste sentido, embora apresente alguns vestígios materiais estes não são contrapostos a literatura, mas servem para corroborar os elementos nela apresentados.

Focando sua análise nos estudos sobre as mulheres da elite romana, Finley aponta que estas não possuíam nenhuma participação social efetiva, sempre submetidas ao poder do pater familias, ou seja, com uma expressão social bastante restrita estando sempre sob a tutela do pai ou do marido. Finley também afirma que estas se contentavam com a alegria alheia do estado, marido ou filhos, reafirmando um ideal de mulher romana que estava sempre sob a tutela de um homem sem questionar esta situação. Lembramos que este texto é produzido durante a década de 1960, quando ocorre a emergência do movimento feminista, porém o autor não elabora nenhum diálogo com outros pesquisadores.

Um último exemplo de estudo que caracterizamos como pertencente a uma historiografia tradicional sobre o mundo romano (que aqui se torna sinônimo daquela elaborada desconsiderando os estudos feministas) é o apresentado por Veyne[20]. O estudioso trabalha com uma perspectiva menos fechada, com algumas diferenciações em relação aos dois autores citados anteriormente, como a afirmação de que, por uma influência da moral estóica durante o período imperial passa a ser exigida uma nova atitude do cidadão romano para com sua esposa, tornando-a companheira deste. Porém estes dados não o impedem de reafirmar a moral romana, já que esta postura não era homogênea e tal posicionamento masculino era um mérito e não um dever. Por conseguinte, para o autor, o amor doméstico não era esperado e o papel feminino em sua análise da sociedade romana é minimizado, tornando a esposa uma moeda de troca social: ser mãe seria uma honrosa prisão na qual a dama carregava a honra e fortuna paterna[21]. Destacamos que, ao contrário dos demais autores citados, quando Veyne escreve sua análise sobre o universo feminino os estudos de gênero estão sendo realizados na academia, mas o autor se distancia desta proposta.

Ao contrário dessa forma de pensamento, a idéia desse trabalho é empreender uma análise da obra de Juvenal visando compreender como este autor elabora a construção social e cultural de personagens femininas, ou seja, por meio de um discurso de um indivíduo o qual, ainda que letrado, não pertencia a aristocracia senatorial, alocando este autor em meio as relações de poder nas quais estava inserido e aquelas que ele reproduz em sua obra. Questionamos assim a naturalização inerente às interpretações que elaboram padrões únicos para o comportamento feminino na antiguidade, ao atentar para as diferenciações presentes em discursos marcados pelo elemento cômico, por exemplo.

Considerando as proposições apresentadas, acreditamos que a análise do texto de Juvenal sob a perspectiva dos estudos de gênero pode nos apresentar novas interpretações sobre a situação feminina no período imperial, pois, devido a especificidade de sua escrita este autor pode estabelecer críticas e considerações sobre as mulheres que não poderiam ser elaboradas em outro formato literário. Para a elaboração desta interpretação acreditamos ser essencial considerarmos o grupo socioeconômico no qual o autor estava inserido, assim como um diálogo com as pesquisas literárias sobre a sua obra.

Juvenal e sua obra

Juvenal é apontado como responsável pela concepção moderna de sátira, pois se os romanos inventaram este estilo literário, ele o marcou pela indignação, sua principal característica[22]. Sobre Juvenal sabemos muito pouco, teria vivido em Roma, no período de aproximadamente 50d.C a 140d.C. Já sua obra é constituída por dezesseis sátiras de temas diversos, entre os quais se destacam as críticas às relações sociais, ao comportamento feminino, e a grupos como os nobres ou estrangeiros. Membro das camadas mais simples da população, estudou retórica na juventude devido ao patrocínio de um liberto rico e, já adulto, utilizou estes conhecimentos para manter uma vida bastante simples. Estes dados levaram alguns estudiosos, como Parattore[23], a afirmarem que a sua crítica constante aos costumes da elite talvez seja resultado destas experiências, de alguém que trabalhou para ser reconhecido sem conseguir que isto realmente ocorresse.

Sua obra teria sido elaborada no período entre 120-130 d.C. e, embora atualmente as sátiras estejam reunidas em um único volume, é importante ressaltar que elas foram concebidas separadamente em cinco livros. O primeiro, no qual constavam da primeira à quinta sátira e o segundo livro que contém a sexta sátira foram, provavelmente, elaboradas no final do reino de Trajano ou imediatamente antes da ascensão de Adriano. O terceiro (sátiras de 7 a 9) parece ter sido escrito no início do reinado de Adriano. E, finalmente, o quinto livro (13-16, esta última inacabada) é posterior a 127 d.C[24].

Desta forma, embora vivesse em um momento de expansão econômica e cultural romana, especialmente devido ao intercâmbio com estrangeiros, o autor não é favorecido por nenhum destes acontecimentos, sentindo-se marginalizado, pois sua cidadania não era tão relevante quanto o dinheiro ou o contato com personagens ilustres. Entre as principais características desta obra, destacam-se a indignação, a qual poderia ter uma dimensão política, além de uma forte influência da retórica. Como a audiência era composta por pessoas da elite que teriam freqüentado as aulas de retórica, pressupõe-se que elas eram capazes de compreender os exercícios elaborados pelo autor. Considerando a influência da oratória na obra de Juvenal, a diferença entre esta e a sátira seria, segundo Braund, a predominância de maus exemplos, destinados a provocar o riso, com algumas exceções quando ele evoca os exemplos de virtude da república como recurso retórico.

Destacamos o estilo satírico pelo seu caráter ácido, pelo forte moralismo, além, obviamente do seu teor humorístico. Logo, ao concebermos os membros da sociedade romana como extremamente ciosos de sua imagem conforme apontado por Cubillos Poblete[25], especialmente os nobres, os quais buscavam manter-se longe dos escândalos, acreditamos que a obra de Juvenal tenha causado um grande impacto nesta sociedade.

A própria métrica escolhida pelo autor, hexâmetro datílico, acaba por causar o riso na audiência visto que era típico das grandes epopéias, e o autor se apropria deste verso nobre para tratar de temas prosaicos. Assim o riso é provocado não apenas pelo conteúdo, mas também pela forma com a qual o autor se expressa[26].

Dentre as dezesseis sátiras elaboradas pelo autor uma se destaca, a sexta, tendo como tema principal a situação das mulheres. Neste sentido nossa análise será focada em como o autor apresenta as mulheres de uma elite romana neste trecho, contrapondo este autor com os dados apresentados pela historiografia tradicional sobre as matronas romanas.

A sexta sátira

Na sátira que analisamos aqui, Juvenal elabora uma série de críticas ao comportamento feminino, contudo, um grupo específico se destaca: o das matronas romanas, ou seja, mulheres da elite romana. No início deste trecho o autor nos apresenta uma mulher que teria o comportamento exemplar, a qual existiria apenas em um passado nostálgico simples e dedicada à família, atendendo aos padrões morais e éticos. Em contraponto a esta mulher modelo, ao longo da sátira o autor cria diversas personagens, as quais são apresentadas como despudoradas, esbanjadoras, vingativas e fofoqueiras, além de extremamente vaidosas, característica utilizada em diversos momentos para provocar o riso, seja uma vaidade intelectual, quando elas citam autores que não compreendem tentando impressionar seus pares, seja aquela ligada ao aspecto físico.

Sendo assim, Juvenal desaconselha os casamentos, lembrando que as mulheres ricas têm o controle sobre seus esposos. Outra característica negativa destas personagens seria o fato de serem facilmente influenciadas por sacerdotes ou astrólogos. Para a análise aqui proposta escolhemos alguns trechos que consideramos mais relevantes dentro da construção que este autor elabora sobre as matronas. Destacamos que não se trata de uma única personagem, e que poucas vezes elas recebem nomes próprios, mas que em sua grande maioria as citações se referem a mulheres ou matronas, de forma generalizada, como se os comportamentos apresentados fossem comuns a um grupo bastante extenso.

Lembramos aqui que este pode ser apontado como um dos primeiros mecanismos para produção do riso, segundo Bergson, a mecanização ou a sobreposição de uma forma rígida sobre a vida, a qual deveria ser fluida e sem repetições. Neste caso, Juvenal aponta como diversas mulheres, com comportamentos variados, se aproximam ao burlar e desconsiderar as imposições da moral romana. Assim, o “formato” da conduta das matronas se apossa das personagens, como se, conforme a metáfora apontada por Bergson, o comportamento destas fosse controlado por um mecanismo de marionetes, repetindo-se indefinidamente na sociedade, fator que leva os ouvintes ao riso.

Sobre a terminologia utilizada para definir estas personagens lembramos que, inicialmente matrona é um substantivo utilizado para se referir à mulher, preferencialmente casada. Etimologicamente ele deriva do termo mater, sendo que seu significado mais amplo comporta uma idéia de nobreza ou dignidade, sendo utilizado para designar as mulheres da elite romana[27]. Concebemos a utilização deste termo para citar personagens em situações pouco honrosas como uma artimanha para provocar o riso, e possibilidade de realizar uma crítica social velada[28].

Juvenal apresenta diversas expressões de feminino com papéis sociais bastante diferenciados. Mais do que o modelo binário que opõe matronas a prostitutas, presente na historiografia tradicional, observamos nesta sátira múltiplas possibilidades de apresentação da feminilidade na sociedade romana. Por exemplo, no início desta sexta sátira, o autor apresenta o que seria um modelo para conduta feminina. Tal exemplo citado em um passado nostálgico, (técnica usada para explicitar os defeitos do presente no qual o autor escreve) a mulher é apresentada por meio do termo uxor, esposa, representada, como mulher forte, companheira de seu marido e protetora dos filhos, pois não se recusaria a amamentá-los, fator que compreendemos como uma critica a mulher da elite romana, pois conforme apresentado por Rousellle[29], as matronas não costumavam amamentar sua prole por questões estéticas,

As descrições prosseguem apresentando um exagero cômico, observado, por exemplo, quando o autor afirma que caso o homem encontrasse uma esposa que atendesse aos padrões morais, e que fosse amorosa e simples ele deveria agradecer aos deuses. Esta afirmação sobre a inexistência de mulheres de boa índole é constante na obra como podemos notar no trecho a seguir:

“Quê? Hás –de achar Esposa honesta, e nobre

Que as antigas imitam em bons costumes?

Sangrai no braço, ó Médicos tal homem

Efeminado, e ao mesmo tempo doido,

Se por sorte, mulher te coube honesta

Sobe em humilde prece ao capitólio

E reverente a Jove adora; mata

De Juno em honra a vítula soberba

Com os adornos áureos preparada.” [30]

Quid quod et antiquis uxor de moribus illi

quaeritur? O medici, nimiam pertundite uenam.

Delicias hominis! Tarpeium limen adora

Pronus et auratam Iunoni caede iuuencam,

Si tibi contigerit capitis matrona pudici.”

(Juvenal, VI, 45-49)

Destacamos que o texto é iniciado afirmando que o homem que desejava uma esposa honesta, (citada pelo termo uxor) deveria estar fora de seu juízo normal, para em seguida afirmar que deveria agradecer caso encontrasse uma matrona honesta, ou seja, vinculando diretamente a inexistência de uma esposa honesta com a camada social a qual esta supostamente pertenceria.

Em toda a sexta sátira as matronas são apresentadas como péssimas esposas sempre tentando ludibriar os maridos, além de serem infiéis, tomando como amante qualquer um, seja escravo ou nobre, buscando a satisfação pessoal. Um aspecto fundamental apresentado pelo autor é o papel do luxo e da riqueza na degeneração dos costumes que resultou nesse tipo de comportamento feminino. Juvenal afirma que o maior culpado pelo fim dos bons costumes que reinavam outrora era o luxo excessivo presente em Roma, afirmando que as mulheres pobres são honestas em detrimento das demais, que pelo dinheiro são corrompidas, como se percebe no trecho a seguir:

“De culpas tais saber a origem queres?

Fazia honestas a módica fortuna

De outro tempo as Romanas; o trabalho,

O breve sono, as mãos ao fuso entregues;

Ameaçando Aníbal a Cidade,

Postados os maridos nas ameias,

Dos pobres tetos alongava os crimes.

Da longa paz agora o mal sentimos:

Mais temível que as armas, veio o luxo,

Que vinga o Mundo que vencer soubemos

Não há crime, ou torpeza que não reine

Aqui, desque a pobreza foi banida:

1 “Vnde haec monstra tamen uel quo de fonte, requiris?

Praestat casta humilis fortuna Latinas/

quondam, nec vittis contingi parua sinebant

tecta, labor somnique breves et vellere Tusco

uexatae duraeque manus ac proximus urbi

Hannibal et stantes Collina turre mariti.

Nunc patimur longae pacis mala; saeuior armis,

luxuria incubuit victumque ulciscitur orbem.

Nullum crimen abest facinusque libidinis, ex quo

paupertas Romana perit.” (Juvenal - VI 286 - 295)

Contudo, ao descrever as relações matrimoniais do período, o autor afirma que não seriam apenas as mulheres que se corrompem pelo dinheiro, mas também existiriam maridos avarentos que, para não perderem o dote das esposas, calavam-se frente aos seus atos. Logo estas mulheres, graças ao seu dinheiro, poderiam comprar a situação de solteira, sendo citadas por meio do termo vidua, que pode ser apresentado como solteira ou viúva. Destacamos que o duplo sentido deste termo forma um trocadilho, como se estas mulheres fossem, graças a sua fortuna, “viúvas de maridos vivos”. Novamente, o dinheiro e a avareza surgem como fatores responsáveis pela decadência moral, quando, por interesse o marido se permite estar em uma situação infame. Aqui, a redação divide a culpa pelos delitos entre ambas as partes, e, deve-se frisar, observamos que dentro destes casamentos a condição financeira seria um dado definitivo para o estabelecimento das normas de conduta de ambas as partes.

A suposta sujeição às vontades femininas é novamente apresentada quando o autor aponta como elas opinavam sobre a realização de tarefas rotineiras, no trato com os escravos e na resolução de problemas familiares, dificilmente ficando satisfeitas. O homem é apresentado como maritus, ou seja, marido. A utilização deste termo reforça que o laço familiar que envolve ambos não significa, necessariamente, que eles estivessem sob uma relação conjugal ideal, que para este autor, como foi apresentado no início da sátira seria a sujeição feminina ao esposo. Estas mulheres, caso não tivessem seus desejos atendidos pediriam o divórcio em busca de alguém que satisfizesse as suas vontades. A apresentação deste episódio realça uma das principais características desta sexta sátira, que seria apresentar de forma cômica os desvios do ideal feminino, baseado principalmente nas noções de docilidade, castidade e modéstia[31], desvios causados pela riqueza excessiva.

Uma das críticas fundamentais presentes na obra, é o fato das matronas não mais exercerem plenamente o seu papel de mães. Trata-se também de uma das principais distinções entre as mulheres da elite e as pertencentes aos grupos populares, visto que estas últimas ainda tinham filhos segundo o autor. Estas citações sobre a virtude presente na pobreza são constantes em sua obra, o que acreditamos ser uma influência da moral estóica, associada ao caráter ácido da sátira visando produzir uma critica contundente aos membros da elite romana, especialmente aos da classe senatorial. Após tal citação afirma que, ao menos, as pobres teriam filhos, as matronas nem isto, pois faziam uso de técnicas contraceptivas e abortivas, que lhes seriam fornecidas por feiticeiros:

“raras vezes verá paridas ricas.

Têm arte as feiticeiras, tem remédios,

Que estéreis mães tomam, ou matam

No ventre por dinheiro esses meninos.

Ah! Esposo infeliz! Dá-lhe essa dose

Com que no ventre expire o triste infante:

Que desta arte a não ser, adulterino

Verás por filho etíope no berço

Tão feio, que em jejum, encontradiço

O não quiseras ver, mas que forçado

Por tua morte nomeará herdeiro.”

Hae tamen et partus subeunt discrimen et omnis

nutricis tolerant fortuna urguente labores;

sed iacet aurato uix ulla puerpera lecto

Tantum artes huius, tantum medicamina possunt

quae steriles facit atque homines in uentre necandos

conducit. Gaude, infelix, atque ipse bibendum porrige quidquid erit; nam si distendere uellet

et uexare uterum pueris salientibus, esses Aethiopis fortasse pater (Juvenal VI - 592 - 600)

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[1] Este artigo é resultado das considerações da minha monografia de conclusão de curso, apresentada ao departamento de História da UFPR em junho de 2008, sob orientação da prof. Dra. Renata Senna Garraffoni.

[2] Mestranda em história na UFPR, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Renata Senna Garraffoni. Bolsista da Capes.

[3] PANTEL, P. “A história das mulheres na Antigüidade, hoje” In: História das Mulheres no ocidente.vol. 1. Porto: Afrontamento, 1990.

[4] CAVICCHIOLI, M. “A posição da mulher na Roma Antiga. Do discurso acadêmico ao Ato Sexual” In. FUNARI, P. et alii. Amor, Desejo e Poder na Antigüidade, Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.

[5] BERNAL, M. “A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia européia”. In. FUNARI, P.P.A. (org) Repensando o Mundo Antigo. Unicamp-IFCH, Campinas, 2003.

[6] Idem,Ibidem.

[7] FINLEY, M. “As mulheres silenciosas de Roma”. In: Aspectos da Antigüidade. Portugal: Edições 70, 1990. pp. 143-156.

[8] Escritora do período de Augusto. Suas obra é a única reminiscência de uma literatura de autoria feminina proveniente do mundo romano.

[9] CARDOSO, Zélia. “A representação da mulher na poesia latina” In. FUNARI, P. et alii. Amor, Desejo e Poder na Antigüidade, Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003

[10] HENK, D. “Humor, riso e o Campo: reflexões da antropologia”. In. Uma história cultural do humor.Rio de Janeiro: Record, 2000. pp.251-276

[11] BREMMER, J; ROODENBURG, H. “Introdução”. In. Uma história cultural do humor.Rio de Janeiro: Record, 2000.pp.13-25.

[12] BERGSON, H. O riso. São Paulo: Martins Fontes.2007.

[13] MINOIS, G. “O riso unificado dos latinos” In. História do riso e do escárnio. São Paulo: Unesp, 2003.

[14] FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

[15] MINOIS, G. op.cit.

[16] GRAFF, F. “Cícero, Plauto e o Riso Romano”. In. BREMMER, J; ROODENBURG, H.(orgs) Uma história cultural do humor.Rio de Janeiro: Record, 2000.

[17] CARCOPINO, J. Roma no apogeu do império. São Paulo: Companhia das letras, 1990.

[18] Idem, Ibidem p.123

[19] FINLEY, M. op cit.

[20] VEYNE, P. “O Império Romano”. In. Áries, P; Duby, G. (orgs.) História da Vida Privada. São Paulo, Companhia das Letras, 2009.

[21] Idem, Ibidem, p.77

[22] BRAUND, S. “Introduction”. In: JUVENAL, Satires. Londres: Cambridge University Press, 1996.

[23] PARATORE, E. História da Literatura Latina. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1983.

[24] BRAUND, S. op.cit.

[25] CUBILLOS POBLETE, M. “La Mirada juvenaliana: La cocina romana como reflejo de la sociedad.” Instituto de História. Pontifícia Universidad Católica de Valparaiso. Vol. XII. Pp.: 129-130. 2004.

[26] GARRAFFONI, R. Bandidos e salteadores na Roma Antiga. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2002.

[27] Todas as análises filológicas de termos em latim apresentadas foram elaboradas a partir da consulta ao ERNOUT & MEILLET, 1967.

[28] FUNARI, P.P.A., GARRAFFONI, R. “Gênero e conflitos no Satyricon: O Caso da Dama de Éfeso”. In. História Questões e Debates. Curitiba, n. 48/49, pp. 101-117, 2008.

[29] ROUSSELLE, A. Pornéia. São Paulo, Brasiliense, 1984.

[30] Os trechos apresentados em português são de tradução de Francisco Antonio Martins Bastos. Os mesmos estão na língua original ao lado, retirados da coleção Les Bellles Lettres. A contagem dos versos corresponde a presente na obra em sua língua original.

[31] HODGART, M. La sátira. Madrid: Guadarrama. 1969. P. 81.