Sobre o artigo[1]
Sobre a autora[2]
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Introdução
Qual é a importância de um estudo sobre a situação feminina durante o período
imperial romano? Claro que poderíamos afirmar que esta pesquisa é relevante para
uma melhor compreensão da sociedade romana, ou mesmo, que se trata de dar voz a
um grupo que, durante um período bastante longo, foi praticamente ignorado pelos
Estudos Clássicos.
Neste sentido, ressaltamos que, conforme apontado por Pantel[3],
mesmo com inserção do tema nos estudos historiográficos, em geral estes eram
dedicados à análise das mulheres célebres, daquelas que de alguma maneira
estavam ligadas a homens relevantes na esfera política ou econômica. Desta
forma, voltando nosso olhar para historiografia da Antiguidade observamos
estudos que não apresentam uma multiplicidade de identidades femininas
existentes neste período, mas, em geral, ressaltam um comportamento considerado
exemplar, de dedicação ao lar e a família.
Logo, a idéia da mulher romana, pura, casta e que agia de bom grado de acordo
com os padrões sociais de sua época foi cristalizada no imaginário coletivo,
como um exemplo a ser seguido. Quando muito encontramos na historiografia
produzida no período anterior a inserção dos questionamentos levantados pelo
movimento feminista na academia, algumas divisões referentes ao estatuto
feminino, elaboradas a partir de uma diferenciação social entre matronas,
mulheres da elite romana, as quais eram apresentadas como tendo uma postura
irrepreensível, e as demais pertencentes aos grupos populares que teriam
comportamento mais desregrado[4].
Considerando esta especificidade dos estudos realizados sobre as mulheres
romanas e o impacto que as interpretações elaboradas pelos historiadores podem
ter na sociedade contemporânea acreditamos que, conforme apontado por Bernal[5],
cada período elabora a construção de sua própria visão da Antiguidade Clássica,
e a nosso ver, este foi durante muito tempo um passado patriarcal com figuras
femininas inexpressivas.
Ao pensarmos nos questionamentos que vem sendo elaborados para a disciplina
histórica desde as mudanças provocadas pelas obras de Foucault, sobre a
objetividade e isenção do pesquisador, acreditamos que se a história é elaborada
de acordo com os questionamentos do presente no qual o historiador está inserido
esta é passível de múltiplas interpretações para um mesmo fato.
Por conseguinte, a nosso ver, a principal motivação para o desenvolvimento de um
estudo sobre o tema está ligada ao questionamento do uso político da
Antigüidade, o qual vem sendo abordado em trabalhos como, por exemplo, o
apresentado por Bernal[6]
sobre a utilização do passado romano para justificar atitudes colonialistas
pelas nações européias. Finalmente, ao invés de negarmos a percepção política
existente na criação de interpretações sobre o Império Romano acreditamos como
uma saída para a elaboração das pesquisas é explicitar estas escolhas no
decorrer do trabalho. Assim ao apresentar os meios pelos quais chegou a uma
determinada conclusão o pesquisador permite que o leitor compreenda a partir de
quais posicionamentos ele produziu aquele resultado.
Deste modo, consideramos que a entrada dos movimentos sociais na academia nas
décadas de 1960 e 1970, incluindo o movimento feminista, bem como o surgimento
de novas epistemologias impulsionadas pelos questionamentos apresentados por
estes sejam igualmente o resultado de uma preocupação política influenciando o
estudo da história. No entanto, ao citar abertamente o interesse inicial de
resgatar a presença feminina ao longo da história e, posteriormente, com o
desenvolvimento dos estudos de gênero, estas análises apontam explicitamente
suas motivações, permitindo que o leitor reconheça as influências presentes no
trabalho do pesquisador e não acredite que o mesmo é resultado de uma observação
isenta que resgata o passado tal como este ocorreu.
Assim, apresentaremos algumas considerações sobre a situação das mulheres da
elite romana durante o período imperial, influenciados pelos estudos de gênero.
Destarte, centralizamos nosso estudo na obra de Juvenal, que viveu entre os
séculos I e II d.C., especificamente a sexta sátira deste autor, que possui como
tema principal as mulheres. Buscamos estabelecer um diálogo com a teoria
literária afim de compreender melhor como o autor constrói uma imagem das
matronas em sua obra.
A escolha desta obra para análise não é aleatória, mas baseia-se na
possibilidade de rever uma certa falta de interesse acadêmico. Em um primeiro
momento, uma das principais justificativas para a inexistência de estudos sobre
as mulheres romanas seria a falta de vestígios para a realização destas
pesquisas, dado apontado por Finley[7],
em seu artigo “As silenciosas mulheres de Roma”, por exemplo, já que são
praticamente nulos os relatos literários femininos remanescentes do império
romano, com exceção da obra de Sulpícia[8].
Tal afirmação desconsiderava a possibilidade de análise dos textos cômicos, por
exemplo, os quais apresentam dados detalhados sobre as mais diversas áreas e
grupos sociais do mundo romano.
Contudo, conforme é apontado Cardoso[9],
observamos a presença constante de figuras femininas na Literatura Latina
especialmente nos gêneros menores, ainda que descritas por autores masculinos.
Segundo Cardoso, nestes exemplares de literatura os personagens se aproximariam
mais da realidade, favorecendo a pesquisa histórica, embora devamos considerar
que suas obras foram elaboradas para provocar o riso.
Ainda que as sátiras possuam esta especificidade acreditamos ser possível
utilizar as obras satíricas como base para o trabalho do historiador, desde que,
com atenção redobrada para o humor por meio do diálogo com a teoria literária.
Para tanto, destacamos a necessidade de uma abordagem interdisciplinar que
considere o diálogo com estudos sobre o riso e sátira, a qual foi imprescindível
para o desenvolvimento desta pesquisa.
Assim dividimos este texto da seguinte forma: em um primeiro momento
apresentaremos algumas questões sobre o humor, em especial sobre o mundo romano,
em seguida algumas considerações sobre como a historiografia vem abordando o
tema que nos propomos analisar, informações sobre Juvenal e sua obra para,
finalmente, apresentarmos algumas considerações sobre a sexta sátira deste autor
dedicada exclusivamente à descrição do comportamento das mulheres romanas.
O riso romano
Embora a historiografia tenha desprezado fontes humorísticas anteriormente,
concordamos com Henk[10]
quando afirma que o humor fornece pistas sobre quais temas são relevantes na
sociedade e cultura de um determinado período, ainda que seja um elemento de
difícil exploração devido a modificação de suas expressões cultural e
temporalmente. Entre as diversas formas de definição do humor possíveis,
trabalharemos aqui a partir da demarcação do humor como qualquer mensagem cuja
intenção e a de provocar o riso ou um sorriso[11].
Neste sentido, Bergson[12]
visando compreender os elementos da fabricação do riso, os quais seriam
supostamente universais, elabora interpretações sobre a comicidade que
acreditamos válidas para o estudo aqui proposto. Como principais características
este autor destaca o humor como algo que é inerente ao ser humano, ao mesmo
tempo em que se destina a inteligência pura, ou seja, de que não existe riso
onde o sentimento se aproxima do objeto que é abordado pela comicidade.
Sobre este tema esclarecemos que, embora concordemos com Bergson no que diz
respeito aos mecanismos que regem o humor humano, acreditamos que os objetos e a
forma como estes mecanismos são adotados diferem, temporal, social e
culturalmente. Se o humor e o riso são universais conforme é afirmado por Minois[13],
as formas como cada sociedade o elabora e sistematiza diferem consideravelmente.
Questionando qual era o papel do humor na elaboração desta obra, lembramos que
ao abordar a idéia de discurso, Foucault[14],
entre outras questões, aponta as ligações entre o discurso elaborado, a
instituição e o ritual que legitima o autor do mesmo. Destarte, o autor enfatiza
a relação entre a produção do discurso com o poder. Entre os aspectos internos
dos discursos apresentados por Foucault como, por exemplo, os processos de
exclusão, ressaltamos a idéia de interdição, a qual alega que em todas as
sociedades existem temas que não devem ser abordados, sendo excluídos do
discurso devido um mecanismo de coerção interna do mesmo. Bergson, por outro
lado, destaca que o humor, além de inerente ao ser humano tem a permissão de
trabalhar com temas que seriam dificilmente elaborados em outros discursos que
não possuíssem esta característica, ou seja, devido à especificidade do estilo
estes poderiam abordar temas interditados a outros textos. Assim acreditamos que
o humor é um dos mecanismos que permitem burlar este interdito imposto aos
discursos.
Esta relação com a interdição de temas nos parece bastante relevante para este
trabalho já que o texto a ser analisado é marcado pelo humor, ou seja, era um
estilo literário que permitia ao autor estabelecer uma crítica a moral romana do
período, alertando sobre aspectos que não surgem em outros textos literários.
Neste sentido, lembramos que Juvenal na primeira sátira, ao apontar os motivos
que o levam escrever, afirma que embora escreva em um gênero menor, como o
satírico, não o faz por falta de competência, mas porque este é o único estilo
que lhe permite criticar a sociedade romana.
Pensando no mundo romano, o riso era encontrado nas mais diversas esferas,
inclusive era apreciado pela elite, a qual era autora e destinatária inicial das
obras literárias. Desta forma, destacamos que estudos recentes apontam os
romanos como sendo ciosos e orgulhosos de seu humor[15],
o qual aparecia em diversas esferas da sociedade. Graff[16]
ressalta que Cícero, por exemplo, destacava a importância do humor como elemento
coercitivo em situações nas quais não seria permitido estabelecer um diálogo
direto com o interlocutor; como uma forma de crítica entre iguais encontrada
pelos cidadãos, especialmente os aristocratas, destes se repreenderem mutuamente
sem correrem risco de retaliação. Neste sentido os romanos se orgulhavam de seu
humor, o qual poderia ter uma função didática ou moral.
No caso do trecho proposto para análise, a sexta sátira, observamos uma grande
quantidade de matronas romanas em situações obscenas, de adultério,
ridicularizando os maridos e os costumes da elite, apresentando um comportamento
contrário à suposta moral do período. Embora não compreendamos tais situações
literárias como um reflexo da sociedade romana, acreditamos que a análise de tal
texto e dos elementos que causavam o riso sobre as matronas para o mundo romano
pode nos apresentar dados sobre a concepção de feminino na Antiguidade, tema que
trataremos a seguir.
Visões sobre as matronas
Podemos observar na obra de Juvenal um número enorme de personagens femininas,
as quais apareciam agindo de forma bastante presente na sociedade na qual
estavam inseridas. Contudo, especialmente na historiografia sobre o tema
anterior a década de 1970, pouco tratara sobre a situação feminina. Entre os
autores que o fizeram destacamos a obra de Carcopino[17],
escrita na década de 1930. Ao elaborar um panorama da situação feminina durante
o período imperial o autor apresenta interpretações a partir da obra de Juvenal,
afirmando que estas mulheres da elite romana agiam como as senhoras da quinta
avenida que mantém seus maridos sob seu poder por meio da fortuna que possuem[18].
Destacamos que sua obra é inovadora em vários sentidos, ao se propor trabalhar
com a vida privada romana, explicitando questões como a rotina da população, as
práticas cotidianas. Para tanto Carcopino elabora sua análise por meio de fontes
que abordem estes temas, ou seja, entre outras obras trabalha com exemplares dos
gêneros menores da literatura.
Contudo, com o aparato metodológico que possuía naquele momento, embora se
proponha a elaborar uma análise sobre a situação feminina em Roma, o autor
apresentou um texto satírico como um reflexo da sociedade romana,
desconsiderando o grupo ao qual Juvenal pertence e o estilo literário do qual
ele lança mão. Embora afirme que ocorreu um aumento nas liberdades femininas no
período do império, fato apresentado inicialmente de forma positiva, ao
construir seu texto observamos que ocorre uma valorização do modelo de matronas
presente na república em detrimento das mulheres do período imperial,
naturalizando as palavras de Juvenal como uma única verdade.
Em outro momento, na década de 1960 outros autores, como por exemplo, Finley
[19],
ao abordar a situação feminina no mundo romano, alegam uma grande dificuldade em
se estudar este grupo, visto a inexistência de registros elaborados por
mulheres. Destarte, seu estudo é elaborado por meio da análise de lápides e da
legislação romana, bem como de alguns cânones literários. Neste sentido, embora
apresente alguns vestígios materiais estes não são contrapostos a literatura,
mas servem para corroborar os elementos nela apresentados.
Focando sua análise nos estudos sobre as mulheres da elite romana, Finley aponta
que estas não possuíam nenhuma participação social efetiva, sempre submetidas ao
poder do pater familias, ou seja, com uma expressão social bastante
restrita estando sempre sob a tutela do pai ou do marido. Finley também afirma
que estas se contentavam com a alegria alheia do estado, marido ou filhos,
reafirmando um ideal de mulher romana que estava sempre sob a tutela de um homem
sem questionar esta situação. Lembramos que este texto é produzido durante a
década de 1960, quando ocorre a emergência do movimento feminista, porém o autor
não elabora nenhum diálogo com outros pesquisadores.
Um último exemplo de estudo que caracterizamos como pertencente a uma
historiografia tradicional sobre o mundo romano (que aqui se torna sinônimo
daquela elaborada desconsiderando os estudos feministas) é o apresentado por
Veyne[20].
O estudioso trabalha com uma perspectiva menos fechada, com algumas
diferenciações em relação aos dois autores citados anteriormente, como a
afirmação de que, por uma influência da moral estóica durante o período imperial
passa a ser exigida uma nova atitude do cidadão romano para com sua esposa,
tornando-a companheira deste. Porém estes dados não o impedem de reafirmar a
moral romana, já que esta postura não era homogênea e tal posicionamento
masculino era um mérito e não um dever. Por conseguinte, para o autor, o amor
doméstico não era esperado e o papel feminino em sua análise da sociedade romana
é minimizado, tornando a esposa uma moeda de troca social: ser mãe seria uma
honrosa prisão na qual a dama carregava a honra e fortuna paterna[21].
Destacamos que, ao contrário dos demais autores citados, quando Veyne escreve
sua análise sobre o universo feminino os estudos de gênero estão sendo
realizados na academia, mas o autor se distancia desta proposta.
Ao contrário dessa forma de pensamento, a idéia desse trabalho é empreender uma
análise da obra de Juvenal visando compreender como este autor elabora a
construção social e cultural de personagens femininas, ou seja, por meio de um
discurso de um indivíduo o qual, ainda que letrado, não pertencia a aristocracia
senatorial, alocando este autor em meio as relações de poder nas quais estava
inserido e aquelas que ele reproduz em sua obra. Questionamos assim a
naturalização inerente às interpretações que elaboram padrões únicos para o
comportamento feminino na antiguidade, ao atentar para as diferenciações
presentes em discursos marcados pelo elemento cômico, por exemplo.
Considerando as proposições apresentadas, acreditamos que a análise do texto de
Juvenal sob a perspectiva dos estudos de gênero pode nos apresentar novas
interpretações sobre a situação feminina no período imperial, pois, devido a
especificidade de sua escrita este autor pode estabelecer críticas e
considerações sobre as mulheres que não poderiam ser elaboradas em outro formato
literário. Para a elaboração desta interpretação acreditamos ser essencial
considerarmos o grupo socioeconômico no qual o autor estava inserido, assim como
um diálogo com as pesquisas literárias sobre a sua obra.
Juvenal e sua obra
Juvenal é apontado como responsável pela concepção moderna de sátira, pois se os
romanos inventaram este estilo literário, ele o marcou pela indignação, sua
principal característica[22].
Sobre Juvenal sabemos muito pouco, teria vivido em Roma, no período de
aproximadamente 50d.C a 140d.C. Já sua obra é constituída por dezesseis sátiras
de temas diversos, entre os quais se destacam as críticas às relações sociais,
ao comportamento feminino, e a grupos como os nobres ou estrangeiros. Membro das
camadas mais simples da população, estudou retórica na juventude devido ao
patrocínio de um liberto rico e, já adulto, utilizou estes conhecimentos para
manter uma vida bastante simples. Estes dados levaram alguns estudiosos, como
Parattore[23],
a afirmarem que a sua crítica constante aos costumes da elite talvez seja
resultado destas experiências, de alguém que trabalhou para ser reconhecido sem
conseguir que isto realmente ocorresse.
Sua obra teria sido elaborada no período entre 120-130 d.C. e, embora atualmente
as sátiras estejam reunidas em um único volume, é importante ressaltar que elas
foram concebidas separadamente em cinco livros. O primeiro, no qual constavam da
primeira à quinta sátira e o segundo livro que contém a sexta sátira foram,
provavelmente, elaboradas no final do reino de Trajano ou imediatamente antes da
ascensão de Adriano. O terceiro (sátiras de 7 a 9) parece ter sido escrito no
início do reinado de Adriano. E, finalmente, o quinto livro (13-16, esta última
inacabada) é posterior a 127 d.C[24].
Desta forma, embora vivesse em um momento de expansão econômica e cultural
romana, especialmente devido ao intercâmbio com estrangeiros, o autor não é
favorecido por nenhum destes acontecimentos, sentindo-se marginalizado, pois sua
cidadania não era tão relevante quanto o dinheiro ou o contato com personagens
ilustres. Entre as principais características desta obra, destacam-se a
indignação, a qual poderia ter uma dimensão política, além de uma forte
influência da retórica. Como a audiência era composta por pessoas da elite que
teriam freqüentado as aulas de retórica, pressupõe-se que elas eram capazes de
compreender os exercícios elaborados pelo autor. Considerando a influência da
oratória na obra de Juvenal, a diferença entre esta e a sátira seria, segundo
Braund, a predominância de maus exemplos, destinados a provocar o riso, com
algumas exceções quando ele evoca os exemplos de virtude da república como
recurso retórico.
Destacamos o estilo satírico pelo seu caráter ácido, pelo forte moralismo, além,
obviamente do seu teor humorístico. Logo, ao concebermos os membros da
sociedade romana como extremamente ciosos de sua imagem conforme apontado por
Cubillos Poblete[25],
especialmente os nobres, os quais buscavam manter-se longe dos escândalos,
acreditamos que a obra de Juvenal tenha causado um grande impacto nesta
sociedade.
A própria métrica escolhida pelo autor, hexâmetro datílico, acaba por causar o
riso na audiência visto que era típico das grandes epopéias, e o autor se
apropria deste verso nobre para tratar de temas prosaicos. Assim o riso é
provocado não apenas pelo conteúdo, mas também pela forma com a qual o autor se
expressa[26].
Dentre as dezesseis sátiras elaboradas pelo autor uma se destaca, a sexta, tendo
como tema principal a situação das mulheres. Neste sentido nossa análise será
focada em como o autor apresenta as mulheres de uma elite romana neste trecho,
contrapondo este autor com os dados apresentados pela historiografia tradicional
sobre as matronas romanas.
A sexta sátira
Na sátira que analisamos aqui, Juvenal elabora uma série de críticas ao
comportamento feminino, contudo, um grupo específico se destaca: o das matronas
romanas, ou seja, mulheres da elite romana. No início deste trecho o autor nos
apresenta uma mulher que teria o comportamento exemplar, a qual existiria apenas
em um passado nostálgico simples e dedicada à família, atendendo aos padrões
morais e éticos. Em contraponto a esta mulher modelo, ao longo da sátira o autor
cria diversas personagens, as quais são apresentadas como despudoradas,
esbanjadoras, vingativas e fofoqueiras, além de extremamente vaidosas,
característica utilizada em diversos momentos para provocar o riso, seja uma
vaidade intelectual, quando elas citam autores que não compreendem tentando
impressionar seus pares, seja aquela ligada ao aspecto físico.
Sendo assim, Juvenal desaconselha os casamentos, lembrando que as mulheres ricas
têm o controle sobre seus esposos. Outra característica negativa destas
personagens seria o fato de serem facilmente influenciadas por sacerdotes ou
astrólogos. Para a análise aqui proposta escolhemos alguns trechos que
consideramos mais relevantes dentro da construção que este autor elabora sobre
as matronas. Destacamos que não se trata de uma única personagem, e que poucas
vezes elas recebem nomes próprios, mas que em sua grande maioria as citações se
referem a mulheres ou matronas, de forma generalizada, como se os comportamentos
apresentados fossem comuns a um grupo bastante extenso.
Lembramos aqui que este pode ser apontado como um dos primeiros mecanismos para
produção do riso, segundo Bergson, a mecanização ou a sobreposição de uma forma
rígida sobre a vida, a qual deveria ser fluida e sem repetições. Neste caso,
Juvenal aponta como diversas mulheres, com comportamentos variados, se aproximam
ao burlar e desconsiderar as imposições da moral romana. Assim, o “formato” da
conduta das matronas se apossa das personagens, como se, conforme a metáfora
apontada por Bergson, o comportamento destas fosse controlado por um mecanismo
de marionetes, repetindo-se indefinidamente na sociedade, fator que leva os
ouvintes ao riso.
Sobre a terminologia utilizada para definir estas personagens lembramos que,
inicialmente matrona é um substantivo utilizado para se referir à mulher,
preferencialmente casada. Etimologicamente ele deriva do termo mater,
sendo que seu significado mais amplo comporta uma idéia de nobreza ou dignidade,
sendo utilizado para designar as mulheres da elite romana[27].
Concebemos a utilização deste termo para citar personagens em situações pouco
honrosas como uma artimanha para provocar o riso, e possibilidade de realizar
uma crítica social velada[28].
Juvenal apresenta diversas expressões de feminino com papéis sociais bastante
diferenciados. Mais do que o modelo binário que opõe matronas a prostitutas,
presente na historiografia tradicional, observamos nesta sátira múltiplas
possibilidades de apresentação da feminilidade na sociedade romana. Por
exemplo, no início desta sexta sátira, o autor apresenta o que seria um modelo
para conduta feminina. Tal exemplo citado em um passado nostálgico, (técnica
usada para explicitar os defeitos do presente no qual o autor escreve) a mulher
é apresentada por meio do termo uxor, esposa, representada, como mulher
forte, companheira de seu marido e protetora dos filhos, pois não se recusaria a
amamentá-los, fator que compreendemos como uma critica a mulher da elite romana,
pois conforme apresentado por Rousellle[29],
as matronas não costumavam amamentar sua prole por questões estéticas,
As descrições prosseguem apresentando um exagero cômico, observado, por exemplo,
quando o autor afirma que caso o homem encontrasse uma esposa que atendesse aos
padrões morais, e que fosse amorosa e simples ele deveria agradecer aos deuses.
Esta afirmação sobre a inexistência de mulheres de boa índole é constante na
obra como podemos notar no trecho a seguir:
“Quê? Hás –de achar Esposa honesta, e nobre
Que as antigas imitam em bons costumes?
Sangrai no braço, ó Médicos tal homem
Efeminado, e ao mesmo tempo doido,
Se por sorte, mulher te coube honesta
Sobe em humilde prece ao capitólio
E reverente a Jove adora; mata
De Juno em honra a vítula soberba
Com os adornos áureos preparada.”
[30]
“Quid quod et antiquis uxor de moribus illi
quaeritur? O medici, nimiam pertundite uenam.
Delicias hominis! Tarpeium limen adora
Pronus et auratam Iunoni caede iuuencam,
Si tibi contigerit capitis matrona pudici.”
(Juvenal, VI, 45-49)
Destacamos que o texto é iniciado afirmando que o homem que desejava uma esposa
honesta, (citada pelo termo uxor) deveria estar fora de seu juízo normal,
para em seguida afirmar que deveria agradecer caso encontrasse uma matrona
honesta, ou seja, vinculando diretamente a inexistência de uma esposa honesta
com a camada social a qual esta supostamente pertenceria.
Em toda a sexta sátira as matronas são apresentadas como péssimas esposas sempre
tentando ludibriar os maridos, além de serem infiéis, tomando como amante
qualquer um, seja escravo ou nobre, buscando a satisfação pessoal. Um aspecto
fundamental apresentado pelo autor é o papel do luxo e da riqueza na degeneração
dos costumes que resultou nesse tipo de comportamento feminino. Juvenal afirma
que o maior culpado pelo fim dos bons costumes que reinavam outrora era o luxo
excessivo presente em Roma, afirmando que as mulheres pobres são honestas em
detrimento das demais, que pelo dinheiro são corrompidas, como se percebe no
trecho a seguir:
“De culpas tais saber a origem queres?
Fazia honestas a módica fortuna
De outro tempo as Romanas; o trabalho,
O breve sono, as mãos ao fuso entregues;
Ameaçando Aníbal a Cidade,
Postados os maridos nas ameias,
Dos pobres tetos alongava os crimes.
Da longa paz agora o mal sentimos:
Mais temível que as armas, veio o luxo,
Que vinga o Mundo que vencer soubemos
Não há crime, ou torpeza que não reine
Aqui, desque a pobreza foi banida:
1
“Vnde haec monstra tamen uel quo de fonte, requiris?
Praestat casta humilis fortuna Latinas/
quondam, nec vittis contingi parua sinebant
tecta, labor somnique breves et vellere Tusco
uexatae duraeque manus ac proximus urbi
Hannibal
et stantes Collina turre mariti.
Nunc patimur longae pacis mala; saeuior armis,
luxuria incubuit victumque ulciscitur orbem.
Nullum crimen abest facinusque libidinis, ex quo
paupertas Romana perit.”
(Juvenal - VI 286 - 295)
Contudo, ao descrever as relações matrimoniais do período, o autor afirma que
não seriam apenas as mulheres que se corrompem pelo dinheiro, mas também
existiriam maridos avarentos que, para não perderem o dote das esposas,
calavam-se frente aos seus atos. Logo estas mulheres, graças ao seu dinheiro,
poderiam comprar a situação de solteira, sendo citadas por meio do termo
vidua, que pode ser apresentado como solteira ou viúva. Destacamos que o
duplo sentido deste termo forma um trocadilho, como se estas mulheres fossem,
graças a sua fortuna, “viúvas de maridos vivos”. Novamente, o dinheiro e a
avareza surgem como fatores responsáveis pela decadência moral, quando, por
interesse o marido se permite estar em uma situação infame. Aqui, a redação
divide a culpa pelos delitos entre ambas as partes, e, deve-se frisar,
observamos que dentro destes casamentos a condição financeira seria um dado
definitivo para o estabelecimento das normas de conduta de ambas as partes.
A suposta sujeição às vontades femininas é novamente apresentada quando o autor
aponta como elas opinavam sobre a realização de tarefas rotineiras, no trato com
os escravos e na resolução de problemas familiares, dificilmente ficando
satisfeitas. O homem é apresentado como maritus, ou seja, marido. A
utilização deste termo reforça que o laço familiar que envolve ambos não
significa, necessariamente, que eles estivessem sob uma relação conjugal ideal,
que para este autor, como foi apresentado no início da sátira seria a sujeição
feminina ao esposo. Estas mulheres, caso não tivessem seus desejos atendidos
pediriam o divórcio em busca de alguém que satisfizesse as suas vontades. A
apresentação deste episódio realça uma das principais características desta
sexta sátira, que seria apresentar de forma cômica os desvios do ideal feminino,
baseado principalmente nas noções de docilidade, castidade e modéstia[31],
desvios causados pela riqueza excessiva.
Uma das críticas fundamentais presentes na obra, é o fato das matronas não mais
exercerem plenamente o seu papel de mães. Trata-se também de uma das principais
distinções entre as mulheres da elite e as pertencentes aos grupos populares,
visto que estas últimas ainda tinham filhos segundo o autor. Estas citações
sobre a virtude presente na pobreza são constantes em sua obra, o que
acreditamos ser uma influência da moral estóica, associada ao caráter ácido da
sátira visando produzir uma critica contundente aos membros da elite romana,
especialmente aos da classe senatorial. Após tal citação afirma que, ao menos,
as pobres teriam filhos, as matronas nem isto, pois faziam uso de técnicas
contraceptivas e abortivas, que lhes seriam fornecidas por feiticeiros:
“raras vezes verá paridas ricas.
Têm arte as feiticeiras, tem remédios,
Que estéreis mães tomam, ou matam
No ventre por dinheiro esses meninos.
Ah! Esposo infeliz! Dá-lhe essa dose
Com que no ventre expire o triste infante:
Que desta arte a não ser, adulterino
Verás por filho etíope no berço
Tão feio, que em jejum, encontradiço
O não quiseras ver, mas que forçado
Por tua morte nomeará herdeiro.”
Hae tamen et partus subeunt discrimen et omnis
nutricis tolerant fortuna urguente labores;
sed iacet aurato uix ulla puerpera lecto
Tantum artes huius, tantum medicamina possunt
quae steriles facit atque homines in uentre necandos
conducit. Gaude, infelix, atque ipse bibendum porrige quidquid erit; nam si
distendere uellet
et uexare uterum pueris salientibus, esses Aethiopis fortasse pater (Juvenal VI
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[1]
Este artigo é resultado das considerações da minha monografia de
conclusão de curso, apresentada ao departamento de História da UFPR em
junho de 2008, sob orientação da prof. Dra. Renata Senna Garraffoni.
[2]
Mestranda em história na UFPR, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª
Renata Senna Garraffoni. Bolsista da Capes.
[3]
PANTEL, P. “A história das mulheres na Antigüidade, hoje” In:
História das Mulheres no ocidente.vol. 1. Porto:
Afrontamento, 1990.
[4]
CAVICCHIOLI, M. “A posição da mulher na Roma Antiga. Do discurso
acadêmico ao Ato Sexual” In. FUNARI, P. et alii. Amor, Desejo
e Poder na Antigüidade, Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.
[5]
BERNAL, M. “A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o
colonialismo e para a hegemonia européia”. In. FUNARI, P.P.A.
(org) Repensando o Mundo Antigo. Unicamp-IFCH, Campinas, 2003.
[7]
FINLEY, M. “As mulheres silenciosas de Roma”. In:
Aspectos da Antigüidade. Portugal: Edições 70, 1990. pp.
143-156.
[8]
Escritora do período de Augusto. Suas obra é a única
reminiscência de uma literatura de autoria feminina proveniente do mundo
romano.
[9]
CARDOSO, Zélia. “A representação da mulher na poesia latina”
In. FUNARI, P. et alii. Amor, Desejo e Poder na
Antigüidade, Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003
[10]
HENK, D. “Humor, riso e o Campo: reflexões da antropologia”. In.
Uma história cultural do humor.Rio de Janeiro: Record,
2000. pp.251-276
[11]
BREMMER, J; ROODENBURG, H. “Introdução”. In. Uma
história cultural do humor.Rio de Janeiro: Record,
2000.pp.13-25.
[12]
BERGSON, H. O riso. São Paulo: Martins Fontes.2007.
[13]
MINOIS, G. “O riso unificado dos latinos” In. História
do riso e do escárnio. São Paulo: Unesp, 2003.
[14]
FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições
Loyola, 2008.
[16]
GRAFF, F. “Cícero, Plauto e o Riso Romano”. In. BREMMER, J;
ROODENBURG, H.(orgs) Uma história cultural do humor.Rio de
Janeiro: Record, 2000.
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Todas as análises filológicas de termos em latim
apresentadas foram elaboradas a partir da consulta ao
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[29]
ROUSSELLE, A. Pornéia. São
Paulo, Brasiliense, 1984.
[30]
Os trechos apresentados em português são de tradução de Francisco
Antonio Martins Bastos. Os mesmos estão na língua original ao lado,
retirados da coleção Les Bellles Lettres. A contagem dos versos
corresponde a presente na obra em sua língua original.
[31]
HODGART, M. La sátira. Madrid: Guadarrama. 1969. P.
81.