Sobre a autora[1]
Iniciada sua construção no ano de 1956, Brasília foi erguida no curto espaço de
tempo de três anos e meio, inaugurada no dia 21 de abril de 1960, aliou as
tentativas e incertezas que surgiram em seu início, subjugando as inúmeras
críticas e receios em relação a sua transferência para o interior do país,
distante dos centros tecnicamente organizados e em meio a um espaço geográfico
que se apresentava relativamente hostil, o presidente Juscelino Kubistchek, o
arquiteto Oscar Niemayer e o urbanista Lúcio Costa, juntamente aliado ao sonho,
o esforço e a idealização de uma infinidade
de
personagens outros, bem como o pioneirismo e a bravura edificante dos candangos,
que a despeito de suas mais variadas origens, consolidaram o plano de construção
da nova capital do país.
A edificação do projeto de transferência da capital para o interior, abriu-se
em possibilidades de representações múltiplas, de criação de uma modernidade
repleta de expectativas e ainda não realizada em outra parte do território
nacional. As divergências quanto à construção de Brasília encontrou lugar de
destaque dentro desse imaginário permeado pelos mais diversos sentimentos
mudancistas e antimudancistas[2],
onde pairava uma forte e relevante atmosfera de insegurança do que seria o
Brasil da nova capital.
Esse mundo de possibilidades, de variados projetos, de imagens distintas e em
conflito, implica entrar no universo simbólico que envolve a construção do novo
centro de decisões do país.
Para se compreender a concepção de Brasília, é preciso entender o cenário ao
qual foi projetada sua construção, ou seja, uma cidade erguida em meio a uma
vasta extensão territorial e com uma baixa densidade populacional.
A transferência da capital para o inabitado interior do sertão brasileiro
encontrava-se ligada a motivos políticos diversos. Desde o século XVIII,
reformadores, revolucionários e estadistas propunham a construção da nova
capital como meio de povoar, desenvolver e assegurar a posse do vasto território
nacional.
A idéia de construção de um Novo Mundo que desencadearia no florescimento de uma
grande civilização, encontrou legitimação em um legado mitológico que
encontraria ressonância com a visão profética de Dom Bosco.
A cidade nasceu sobre o manto do sagrado e sua arquitetura tornou-se símbolo
de uma nova sociedade que se quis afirmar mais justa e solidária. No imaginário
social, este ideário da construção da capital seria caracterizado como paraíso
de fartura e abundância. Na prática foi à concretização da profecia do italiano
João Bosco. Um jovem padre salesiano, futuro santo canonizado, que na noite do
dia 30 de agosto de 1883 teve um sonho profético:
... na região de Goiás, região de um grande planalto, vejo elevar-se uma
terra de riquezas inestimáveis, as quais um dia serão descobertas. Vejo se
elevar uma grande civilização sobre este planalto, a bordo de um lago, entre o
15º e o 20º paralelo. Lá surgirá uma futura terra prometida... lá correrá leite
e mel...lá será de uma riqueza incomensurável...[3]
A descrição dessa visão corresponde ao sítio de Brasília e antecipou em
aproximadamente oito anos o que constaria na Constituição de 1891, a vinda da
capital para o Planalto Central, aliando uma perspectiva de desenvolvimento e de
integração nacional com uma idéia visionária
Proveniente de uma família humilde, Giovanni Merchior Bosco, nasceu no dia 16 de
agosto do ano de 1815, na cidade de Castelnuovo d´Asti, Piemont, Itália, João
Bosco conquistou notoriedade no cenário religioso com a fundação da Pia
Sociedade de São Francisco de Sales, conhecida como Ordem dos Franciscanos em
Turim, no ano de 1859.
Fator de relevância notável em sua biografia, São João Bosco possuía um numeroso
inventário profético, fruto de premonições que o acompanharam durante toda a
vida desde a infância e onde se insere a sua famosa premonição sobre a cidade.
Ainda que sua visão não correspondesse exatamente ao sítio de Brasília, esse
fato torna-se irrelevante diante das imagens da capital, onde sua visão foi
legitimada pelas representações aqui presentes e instituída de sentidos que
configura a cidade como terra marcada pela sacralidade e imbuída de aspectos
religiosos.
A própria espacialidade de Brasília, confere ressonância à profecia de Dom
Bosco, incorporado ao imaginário local como santo padroeiro da cidade e por ela
homenageado por meio de sua arquitetura.
A Ermida Dom Bosco e o Santuário Dom Bosco apresentam-se como obras
arquitetônicas representativas nesse aspecto, inseridas em uma dimensão
simbólica que se empenha em revalidar a profecia do jovem padre italiano
explicitamente e a todo instante revivendo o mito da criação da Terra
Prometida.
Além do forte apelo ao universo sagrado, Brasília foi planejada como centro
de inovações e desenvolvimento, de singularidade na área da saúde, moradia,
educação, de convivência entre os que aqui vivessem. Esse aspecto utópico de seu
planejamento e construção também se refletiram em sua arquitetura, com o
objetivo de padronizar os espaços residenciais e assim amenizar as diferenças
sociais.
A idéia definitiva de transferência da nova capital encontrou fins legais na
constituição de 1891, em seu artigo terceiro, onde ficava estipulada uma área de
14400 quilômetros quadrados no Planalto Central para a instalação da futura
capital do país, o que permitiria ao governo estabelecer sua soberania por todo
o Brasil, ao mesmo tempo em que a mudança propiciaria a integração nacional ao
estimular o desenvolvimento de recursos existentes no interior do país, gerando
um maior crescimento econômico a partir do centro em direção aos outros pontos
do território nacional.
Na Assembléia Constituinte de 1946, Epitácio Pessoa e Café Filho, elaboraram
decretos para o início da construção, que se daria em 1920 e 1955
respectivamente. Em 1922 uma pedra fundamental foi simbolicamente colocada como
marca de um novo tempo.
Todavia, foi no governo de Juscelino Kubitschek, no ano de 1955 que a idéia
encontrou forma em sua campanha presidencial. Em seu programa de metas, que
respondia às teorias do desenvolvimentismo formuladas durante a década de 1950
pela CEPAL e no Brasil pelo ISEB[4],
a construção de Brasília tornou-se sua meta-síntese.
Juscelino argumentava que a construção da nova capital no Planalto
Central possibilitaria tanto uma maior integração nacional como o
desenvolvimento regional, incorporando o interior à economia o que produziria um
novo espaço nacional que resultaria em uma nova época para o país.
No entanto quando Juscelino anunciou a construção definitiva de
Brasília, encontrou resistência de diversos segmentos da sociedade. Imprensa,
lideranças parlamentares, políticos locais. Cada Estado a sua maneira reagiu à
consolidação de seu projeto.
Kubstichek e seus aliados reagiram com uma hábil e eficiente campanha de
incentivo à construção da capital, partindo da premissa de que a nova
espacialidade deveria não apenas interligar o interior com o restante do país,
mas igualmente transformar a sociedade brasileira.
Brasília foi forjada pelo mito e pela idéia da construção de uma cidade com um
projeto modernista rico em carga simbólica. Uma cidade sem raízes, povoada por
imigrantes e aberta a identidades múltiplas, marcada por um fenômeno urbano
singular, responsável por envolver seu planejamento na construção de um espaço
síntese, de cruzamento para diversas expressões regionais do país, diálogo entre
tradição e vanguarda.
A idéia de transferência da capital para o interior inseria-se em uma
perspectiva de desenvolvimento que objetivava a interiorização do país de forma
estratégica e a muito planejada, consolidada de forma efetiva no governo do
então presidente Juscelino Kubitschek.
Brasília não se revela apenas como lugar qualquer do território nacional, mas
insurge como um espaço mítico na construção da nação. Cidade projetada em forma
de cruz, avião ou pássaro, apresenta-se carregada por fatores simbólicos e
embora Juscelino Kubistchek nunca tenha se referido ao caráter místico-esotérico
da capital, dele também nunca se desvencilhou inserido no próprio imaginário
popular e recriado como reencarnações de líderes distantes e importantes dentro
da História.
Ligados a essa perspectiva visionária, a arqueóloga e egiptóloga brasileira Iara
Kern e o educador e empresário Ernani Figueiras Pimentel, com base em uma
pesquisa de seis anos, concluída em 1984, lançaram um livro e posteriormente um
filme, em fita VHS, intitulado Brasília Secreta[5],
onde a figura de Juscelino Kubistchek aparece como reencarnação ou continuação
de Akenaton, ambos aproximados por personalidade, ideais e destinos
semelhantes.
A cidade antiga de Akenaton e a moderna Brasília de Juscelino Kubistchek
colecionam um série de coincidências. O tempo recorde de construção, o centro
como local escolhido, a própria espacialidade e aspectos físicos das obras
arquitetônicas, a forma de pássaro de asas abertas e o uso da tecnologia
avançada empregada para a viabilização dos projetos, tudo coincidentemente
sugerindo uma continuidade entre ambas as cidades.
Ainda segundo o vídeo, Juscelino Kubistchek tinha conhecimento de Akenaton e sua
cidade no Egito, fazendo uma alusão à obra do antigo Faraó, com a inauguração da
nova capital vista como um resgate do passado para o futuro da humanidade.
No imaginário social a construção da capital idealizava a
edificação de uma nova sociedade, uma combinação singular emergiu no Planalto
central. De um lado o moderno representado pelas obras da arquitetura delineado
pela presença de estruturas cuidadosamente trabalhadas, em um espaço urbano
estrategicamente elaborado com a incorporação do sagrado à própria dinâmica da
cidade. De outro, o espaço tradicional, que por sua vez, se faz presente na
relação de dependência direta com o sonho profético de Dom Bosco e pelos
marcadores representacionais e materiais que se encarregam por designar a imagem
de Brasília como centro místico-esotérico.
A partir da visão de Dom Bosco, o mito da criação de Brasília, reflete a
presença do sagrado em contato constante com o profano. Uma cidade planejada
dentro de uma perspectiva futurista e uma utopia modernista, mas preservando,
como forma de coesão do grupo, o espaço religioso em diálogo com o racional.
Mitos que designam a capital como centro privilegiado de contato com o universo
sagrado e região predestinada em busca de uma nova consciência religiosa.
O horizonte e a farta abundância de cristais na região do Planalto Central, o
cruzamento dos eixos, a imagem da cruz como idéia da união com o sagrado, a
Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios, espaços profanamente
políticos e centro de decisões do país e sua espacialidade triangular, a própria
sacralidade dos símbolos utilizados por Lúcio Costa no planejamento da cidade
ensejaram Brasília nessa perspectiva mística e mítica.
As Superquadras são o exemplo dessa espacialidade
pretendida objetivando minimizar as diferenças, espaço de moradia da população,
de aspecto e função originais, como forma de habitação coletiva em meio a uma
organização doméstica.
Holston, autor que se dedicou aos estudos sobre a cidade, assim declara:
...Fica claro que as superquadras de Brasília são concebidas para incorporar os
benefícios e relações coletivas de moradia... em oposição ás relações
capitalistas de lucro e propriedade, consideradas nocivas à vida doméstica.
Nessa concepção, o arquiteto está claramente comprometido com a criação de uma
organização residencial assim, com a reestruturação das relações entre o público
e o privado na vida social.
[6]
Na prática as diferenças entre o público e o privado não se
efetivaram e o mito não se transformou em realidade. Brasília é uma cidade com
os problemas e vivências de qualquer outra cidade, quanto às estruturas sociais,
os comportamentos e as dificuldades que envolvem um grande centro urbano, no
entanto sua áurea mística e esotérica firma-se como característica inerente e
indissociável de sua imagem, muito significativo em todo o território nacional.
O Brasil é marcado por um emblemático pluralismo religioso decorrente da própria
formação do país. Território destacado por uma miscigenação fortemente arraigada
desde os tempos coloniais, espaço de junção de várias culturas.
Como afirma Laura de Mello e Souza, o sincretismo foi o objeto característico da
religiosidade originária desde os primeiros séculos.
Traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturaram-se, tecendo uma
religião sincrética e especificamente colonial. De certa forma, reeditava-se
aqui a história – recentemente contada- da cristianização do Ocidente: ‘ toda
uma rede de instituições e de práticas, algumas certamente muito antigas,
constituía a trama de uma vida religiosa que se desenrolava a margem do culto
cristão. ’ Aqui, tolerou-se e se incentivou o sincretismo quando necessário,
mantendo-o nos limites do possível.[7]
A autora procura retratar determinadas nuances da História do Brasil
que se referem às especificidades, principalmente por se tratar do período
colonial, onde os traços identitários e de significação estão fortemente
atrelados à metrópole.
O recorte conferido ao trabalho de Laura de Mello e Souza se circunscreveu a
história de vários personagens comuns que tiveram suas vidas devassadas pelas
visitas e inspeções realizadas pelo Santo Ofício.
A autora trás, ainda, a perspectiva do imaginário traçado a partir de relatos
de viajantes, missionários e cronistas sobre as novas terras recém descobertas e
que se delineavam por suas características de Paraíso e Inferno dentro do
contexto elaborado pelos parâmetros do Velho Mundo.
Na Terra de Santa Cruz, com tendências que iam do endêmico ao demoníaco,
as manifestações religiosas foram as mais variadas possíveis. Toda
multiplicidade de tradições pagãs, africanas, indígenas, judaicas, era vivida e
inserida no cotidiano da população. Para autora não existiam práticas rituais
exclusivas de uma determinada cultura e sim religiosidades populares sincréticas
e místicas, sem a prevalência de uma sobre a outra.
Por meio da Nova História Cultural, as manifestações culturais passam a
adquirir um valor preponderante nas ações humanas e nos fatores sociais. Como
uma nova forma de abordagem de análises já realizadas, essa tendência de
historiografia surge como elemento catalisador do conhecimento humano.
Com o declínio dos grandes paradigmas explicativos, a reboque de uma
objetividade e racionalidade das ciências humanas, a preocupação contemporânea
se dá pela interpretação do fenômeno social por meio de suas representações. Uma
moderna tendência de análise historiográfica, que compreende a importância dos
sistemas simbólicos de idéias e imagens coletivas, como forma de captar a
pluralidade dos sentidos e resgatar a construção dos significados.
Ancorada nessa perspectiva de análise da Nova História Cultural, Laura de Mello
e Souza procurou retratar em sua pesquisa uma tendência mundial de atribuir
valoração às práticas e às representações cotidianas como objeto de investigação
histográfica.
Com fortes influências de autores como o inglês Edward Thompson[8],
que ganhou destaque durante os anos sessenta ao abordar as classes populares da
Inglaterra setecentista, influenciado pela tradição marxista, mas com olhares ao
campo cultural que promoveu um novo posicionamento e um rompimento com os campos
econômicos tão em voga na época, Laura de Mello vai construindo seu objeto de
pesquisa de modo a conferir importância à cultura popular no Brasil e atribuir
sentido as formas religiosas existentes.
Sem dúvida foi à forte influência do autor Carlo Ginzburg[9]
que se revela evidente em sua obra. A autora chega, por vezes, a falar de
“Menocchios caboclos” ao referir-se a vários colonos, negros, índios,
cafuzos ou mamelucos, que por ocasião de seus depoimentos deixavam patente as
críticas às práticas realizadas pela Igreja Católica como instituição de fé,
referindo-se a personagens com uma extrema capacidade de formulações sincréticas
e com a criação de uma cosmologia alternativa, tendo como fundamentação uma
cultura popular rica em crenças e mitos e o acréscimo de novas informações
advindas de várias outras fontes e recursos, aliadas às novas regras e dogmas
oficias da Igreja Católica.
Carlo Ginzburg em sua obra O Queijo e os Vermes, reconstituiu,
utilizando-se de processos realizados pelos inquisidores durante o século XVI, a
vida de um moleiro de Montereale, pequena aldeia do Friuli, de nome Domenico
Scandela, conhecido por Menocchio, que ocupava uma posição de destaque dentro da
comunidade e que por se manifestar a respeito de idéias advindas de várias
partes, aliada a uma cultura popular já existente, foi perseguido, preso e
queimado pela fogueira da Santa Inquisição.
Um personagem peculiar, por se destacar como homem letrado, que teve acesso as
mais diversas leituras em uma Itália em luta contra o avanço do protestantismo e
em meio a importantes mudanças sociais como a Reforma e a invenção da Imprensa,
o que lhe propiciava o acesso a determinados livros sofisticados que eram
adaptados a sua interpretação, de acordo com suas vivências cotidianas e que
colaboraram de forma decisiva para construção desse personagem atípico e de sua
cosmogonia original.
A ênfase para se entender essa religiosidade popular é a da circularidade
cultural, que o autor sistematizou em suas obras, influenciado por Mikhail
Baktin[10],
a quem o termo surge originalmente, Ginzburg revelou um núcleo de crenças ainda
muito identificadas a resquícios de uma cultura oral, pagã e popular de longa
duração, afastadas as possibilidades de uma assimilação direta da cultura
dominante pelos populares e sim a constatação de um movimento recíproco e
contínuo que influencia os diferentes níveis.
A atração exercida pelas novas possibilidades que cercaram a idéia da
construção de Brasília perpassou às razões meramente políticas e propiciaram uma
valorização da integração das diversas tradições regionais presentes no
território nacional, onde tal diversidade passou a ser visualizada como marca
para a constituição dos fundamentos da identidade nacional. A cidade ideal,
pretendida com a construção da nova capital, apresenta todas as contradições,
incoerências e injustiças presentes em qualquer outro centro urbanístico. O
plano mítico encarna e representa a força simbólica do social frente à realidade
construída objetivamente.
Tal objetivo assume feições mitológicas, pois a construção da nova capital do
Brasil enquanto centro político foi elaborado como o surgimento de algo
inteiramente inovador, um novo começo, uma nova origem. Dimensões que se faz
presente em um tempo outro, à parte, próprio das dimensões sagradas e
extracotidianas.
Brasília enquanto idéia, situa-se no plano místico-esotérico, elaborado em torno
de noções como Nova Era e Novo Mundo, antecipando uma modernidade
ainda inexistente na época do seu planejamento.
Como New Age, utilizaremos o conceito utilizado por Deis Siqueira[11].
New Age poderia ser caracterizado como um conglomerado de tendências que não
teria textos sagrados, dogmas, líderes estritos, nem se caracterizaria como uma
organização fechada. Tratar-se-ia mais de uma sensibilidade espiritual do que de
um movimento espiritual estruturado. Expressaria desejo de harmonia, busca de
melhor integração do pessoal e do privado com o ecológico e com o cósmico,
partindo-se da presença do divino em tudo e em todos os processos evolutivo.
A capital e o seu entorno apresentam-se como campo de experimentação e de
produção que reúne vários elementos representativos desse Novo Tempo, mas que se
liga a outras fontes, além do mito místico que envolve a sua construção. Emerge
no espaço da capital a experimentação, o convívio, a integração de várias
sistematizações religiosas oriundas de diversas doutrinas e de outras visões de
mundo. Referenciais vindos da Índia, Tibete, Egito, Japão e do interior do país,
nas regiões mais distantes e com uma religiosidade bastante acentuada, com uma
ritualística eminente e uma forte cultura popular.
Representações simbólicas e sagradas que marcam tanto o imaginário social de
Brasília, quanto propiciam o surgimento de seitas e grupos responsáveis por uma
nova visão de mundo. A construção de um campo sagrado-religioso que se propõe a
oferecer respostas.
Não apenas surgiram vários grupos religiosos influenciados pela construção da
nova capital, como tal fenômeno continua a proliferar, evidenciando uma
característica não apenas Ocidental, mas que pode ser observada como uma
tendência da modernidade e do desenvolvimento cultural de nossa civilização.
Trata-se de modelos alternativos que se apresentam como respostas a inquietações
antigas, movimentos culturais e criativos de experimentação que propõe novos
estilos de vida e a emergência de uma nova religiosidade, diversa das grandes
religiões tradicionalmente institucionalizadas e com uma flexibilidade em
relação à ortodoxia.
A emergência de fenômenos religiosos não se delimita ao domínio do sagrado, mas
se caracteriza por sua atuação como fato social. O sagrado traduzindo a
sociedade sob forma de imagens e modificando-se à medida que o contexto se
transforma.
Para o surgimento de determinados movimentos ou mesmo para que se justifique a
espera messiânica do povo brasileiro, a existência de certas crenças e mitos
torna-se necessários para sua efetivação, onde o país insurge com um leque de
possibilidades e símbolos em meio a uma religiosidade marcante, ligando o mundo
social ao sagrado de forma a propiciar o surgimento de seitas e grupos
peculiares.
Em um movimento com tal designação a crença no enviado divino, como mensageiro
de um tempo futuro e próspero, que trará justiça e salvação encontra-se inserida
na própria cultura brasileira.
Vamireh Chacon, professor da Universidade de Brasília, em seu brilhante ensaio a
cerca da busca pela identidade brasileira mais profunda, dedica uma substanciosa
reflexão sobre os traços messiânicos como característica do povo brasileiro.
Somos messiânicos desde as origens luso-afro-indígenas, e vivemos eternamente
como que á espera de que El-Rei Dom Sebastião, de mãos dadas com Zumbi dos
Palmares e algum cacique tupinambá do século XVI, venha nos apontar um caminho
de redenção, melhor dito de salvação. Enquanto eles não surgem das brumas
atlânticas, corremos atrás de lideranças carismáticas, pois eleição após eleição
sempre surgem auto-proclamados salvadores da pátria.[12]
O autor destaca a importância das lideranças carismáticas como uma constante
na política brasileira, identificada pelo povo como destino nacional e
referência profunda da forte carga religiosa característica do país, marcado por
uma contínua espera messiânica, que se sobressai das vivências pessoais e se
mistura aos mais diversos campos de ação, como maneiras de se adaptar a
determinadas situações da vida cotidiana em um constante processo de
significação do próprio país, em busca de uma identidade e uma cultura
profundamente nacional, que abrigue a multiplicidade de significações e
tradições das mais diversas e divergentes regiões.
Essa nova espacialidade, por via de conseqüência, encaminhava a sua
caracterização na medida em que se definia a estruturação da cidade. Para tanto,
o sagrado dava ânimo e orientava no mais das vezes organização do lugar. A
paisagem cultural, em resumo, ganhava contornos e texturas mais nítidos ao
colocar harmonizados e em relação de contigüidade as construções templárias e
residenciais. Crenças, princípios e propósitos religiosos dotavam de sentidos o
que não se resumia solo profano.
A Capital Federal se traduz, além de outras fisionomias que a apresentam ao
mundo, pela presença de uma religiosidade vigorosa, que, validado o profetismo
de Dom Bosco e sua presciência no despontar de uma terra de bem-aventurança,
contribui para a sua construção e legitimação enquanto cenário político-reitor
do país.
Bibliografia
CHACON, Vamireh. Deus é Brasileiro: o imaginário do messianismo político no
Brasil. 2º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. 204 p.
CHRISTIAEN, Yves. La Mutation de Monde.
De nouveaux cieux. Une nouvelle Terre.
Essai d´une nouvelle conscience historique. Paris, Dervy, Livres, 1978
GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro
perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
HOLSTON, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia.
São Paulo. Cia das Letras, 1993.
MELLO, Gláucia Buratto Rodrigues
de. Millénarismes brésiliens: Contribution à l´ étude de L´ imaginaire
contemporan. Université de Grenoble II. 1999. [trad. Cristãos Ecléticos e
a Nova Jerusalém no Planalto Goiano.] 2005.
SIQUEIRA, Deis. Sociologia das
Adesões: novas religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil/
Deis Siqueira, Ricardo Barbosa de Lima (orgs)- Rio de Janeiro: Garamond: Vieira,
2003.
SANTOS, Michelle dos. A
construção de Brasília nas Tramas e Imagens e Memórias pela imprensa escrita.
Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Instituto de Ciências
Humanas, Departamento de História, 2008
SOUZA, Laura de Mello. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. Companhia das
Letras, 1986.
[1]
Mestranda em História Cultural pela UnB - eladearaujo@yahoo.com.br
[2]
SANTOS, Michelle dos. A construção de Brasília nas Tramas e Imagens e
Memórias pela imprensa escrita. Dissertação de Mestrado.
Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Departamento de
História, 2008.
[3]CHRISTIAEN,
Yves. La Mutation de Monde.
De
nouveaux cieux. Une nouvelle Terre.
Essai d´une nouvelle conscience historique. Paris, Dervy, Livres, 1978.
Apud. SIQUEIRA, Deis. Sociologia das Adesões: novas
religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil/ Deis
Siqueira, Ricardo Barbosa de Lima (orgs)- Rio de Janeiro: Garamond:
Vieira, 2003.
p.05.
[4]
Entre as teorias desenvolvidas pela CEPAL (Comissão Econômica para a
América Latina, órgão das Nações Unidas) e no Brasil pelo ISEB
(Instituto Superior de Estudos Brasileiros), destacava-se a
industrialização dirigida pelo Estado como meio pelo qual os países
subdesenvolvidos poderiam alcançar rapidamente um crescimento econômico
e uma vantajosa posição no cenário internacional.
[5]
MELLO, Gláucia Buratto Rodrigues de. Millénarismes brésiliens:
Contribution à l´ étude de L´ imaginaire contemporan.
Université de Grenoble II. 1999. [trad. Cristãos Ecléticos e a Nova
Jerusalém no Planalto Goiano.] 2005. P.146.
[6]HOLSTON,
James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia.
São Paulo. Cia das Letras, 1993. Apud. SIQUEIRA, Deis. Sociologia
das Adesões: novas religiosidades e a busca místico-esotérica na capital
do Brasil/ Deis Siqueira, Ricardo Barbosa de Lima (orgs)- Rio de
Janeiro: Garamond: Vieira,
2003.p.21.
[7]
Laura de Mello e Souza. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São
Paulo: Companhia das Letras. Pág. 97. O principal tema de investigação
da pesquisadora paulista é a feitiçaria. A autora descreve as “projeções
imaginárias” construídas sobra à colônia portuguesa e como a
religiosidade de Portugal se adaptou ao novo contexto. Em sua maior
parte, o estudo limita-se a descrever as práticas e rituais mágicos ou a
vida dos feiticeiros. A documentação gerada pela repressão inquisitorial
é a principal fonte de reconstrução da religiosidade popular presente no
Brasil colônia.
[8]
Edward Thompson é autor de “A formação da classe operária inglesa”, onde
se encontra diversas análises sobre o mundo religioso na organização da
classe, com predomínio da teoria marxista quanto á religião. Semelhante
posição transparece-se em sua pesquisa sobre a “Economia moral”, uma
tese a cerca dos princípios morais do povo como influência do
cristianismo e dos inúmeros pregadores populares. As reflexões de Edward
Thompson ressaltaram o papel das tradições, costumes e idéias nos
movimentos de transformação social, sem desconsiderar a base
sócio-econômica.
[9]
Carlo Ginzburg é autor italiano da trilogia sobre religião: “Os
andarilhos do bem”, “O Queijo e os vermes” e “A História noturna”. As
inovações metodológicas realizadas por Ginzburg despertaram as
admirações de muitos estudiosos. Sua proposta consiste em iniciar a
análise com pequenos sinais e indícios, para a reconstrução do passado.
Seus textos renovaram a abordagem da história religiosa, com interesse
principal focado na cultura popular, criando-se uma nova escola chamada
micro história.
[10]Mikhail
Bakhtin, no livro A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento
procura examinar a cultura popular filtrada por um intelectual
renascentista (Rabelais), Carlo Ginzburg faz o processo inverso em O
Queijo e os Vermes, a cultura oficial évisualizada pelo ponto
de vista popular.
[11]
SIQUEIRA, Deis. Sociologia das Adesões: novas religiosidades e a busca
místico-esotérica na capital do Brasil/ Deis Siqueira, Ricardo Barbosa
de Lima (orgs)- Rio de Janeiro: Garamond: Vieira, 2003.
[12]
Vamireh Chacon. Deus é Brasileiro. O imaginário do messianismo
político no Brasil. 2º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1998. 204p.