ISSN 1807-1783                atualizado em 10 de março de 2010   


Editorial

Expediente

De Historiadores

Dos Alunos

Arqueologia

Perspectivas

Professores

Entrevistas

Reportagens

Artigos

Resenhas

Envio de Artigos

Eventos

Curtas


Nossos Links



Destaques
Fale Conosco
Cadastro
Newsletter


A Construção da mítica e mística Brasília

por Daniela Nunes de Araújo

Sobre a autora[1]

Iniciada sua construção no ano de 1956, Brasília foi erguida no curto espaço de tempo de três anos e meio, inaugurada no dia 21 de abril de 1960, aliou as tentativas e incertezas que surgiram em seu início, subjugando as inúmeras críticas e receios em relação a sua transferência para o interior do país, distante dos centros tecnicamente organizados e em meio a um espaço geográfico que se apresentava relativamente hostil, o presidente Juscelino Kubistchek, o arquiteto Oscar Niemayer e o urbanista Lúcio Costa, juntamente aliado ao sonho, o esforço e a idealização de uma infinidade de personagens outros, bem como o pioneirismo e a bravura edificante dos candangos, que a despeito de suas mais variadas origens, consolidaram o plano de construção da nova capital do país.

A edificação do projeto de transferência da capital para o interior, abriu-se em possibilidades de representações múltiplas, de criação de uma modernidade repleta de expectativas e ainda não realizada em outra parte do território nacional. As divergências quanto à construção de Brasília encontrou lugar de destaque dentro desse imaginário permeado pelos mais diversos sentimentos mudancistas e antimudancistas[2], onde pairava uma forte e relevante atmosfera de insegurança do que seria o Brasil da nova capital.

Esse mundo de possibilidades, de variados projetos, de imagens distintas e em conflito, implica entrar no universo simbólico que envolve a construção do novo centro de decisões do país.

Para se compreender a concepção de Brasília, é preciso entender o cenário ao qual foi projetada sua construção, ou seja, uma cidade erguida em meio a uma vasta extensão territorial e com uma baixa densidade populacional.

A transferência da capital para o inabitado interior do sertão brasileiro encontrava-se ligada a motivos políticos diversos. Desde o século XVIII, reformadores, revolucionários e estadistas propunham a construção da nova capital como meio de povoar, desenvolver e assegurar a posse do vasto território nacional.

A idéia de construção de um Novo Mundo que desencadearia no florescimento de uma grande civilização, encontrou legitimação em um legado mitológico que encontraria ressonância com a visão profética de Dom Bosco.

A cidade nasceu sobre o manto do sagrado e sua arquitetura tornou-se símbolo de uma nova sociedade que se quis afirmar mais justa e solidária. No imaginário social, este ideário da construção da capital seria caracterizado como paraíso de fartura e abundância. Na prática foi à concretização da profecia do italiano João Bosco. Um jovem padre salesiano, futuro santo canonizado, que na noite do dia 30 de agosto de 1883 teve um sonho profético:

... na região de Goiás, região de um grande planalto, vejo elevar-se uma terra de riquezas inestimáveis, as quais um dia serão descobertas. Vejo se elevar uma grande civilização sobre este planalto, a bordo de um lago, entre o 15º e o 20º paralelo. Lá surgirá uma futura terra prometida... lá correrá leite e mel...lá será de uma riqueza incomensurável...[3]

A descrição dessa visão corresponde ao sítio de Brasília e antecipou em aproximadamente oito anos o que constaria na Constituição de 1891, a vinda da capital para o Planalto Central, aliando uma perspectiva de desenvolvimento e de integração nacional com uma idéia visionária

Proveniente de uma família humilde, Giovanni Merchior Bosco, nasceu no dia 16 de agosto do ano de 1815, na cidade de Castelnuovo d´Asti, Piemont, Itália, João Bosco conquistou notoriedade no cenário religioso com a fundação da Pia Sociedade de São Francisco de Sales, conhecida como Ordem dos Franciscanos em Turim, no ano de 1859.

Fator de relevância notável em sua biografia, São João Bosco possuía um numeroso inventário profético, fruto de premonições que o acompanharam durante toda a vida desde a infância e onde se insere a sua famosa premonição sobre a cidade.

Ainda que sua visão não correspondesse exatamente ao sítio de Brasília, esse fato torna-se irrelevante diante das imagens da capital, onde sua visão foi legitimada pelas representações aqui presentes e instituída de sentidos que configura a cidade como terra marcada pela sacralidade e imbuída de aspectos religiosos.

A própria espacialidade de Brasília, confere ressonância à profecia de Dom Bosco, incorporado ao imaginário local como santo padroeiro da cidade e por ela homenageado por meio de sua arquitetura.

A Ermida Dom Bosco e o Santuário Dom Bosco apresentam-se como obras arquitetônicas representativas nesse aspecto, inseridas em uma dimensão simbólica que se empenha em revalidar a profecia do jovem padre italiano explicitamente e a todo instante revivendo o mito da criação da Terra Prometida.

Além do forte apelo ao universo sagrado, Brasília foi planejada como centro de inovações e desenvolvimento, de singularidade na área da saúde, moradia, educação, de convivência entre os que aqui vivessem. Esse aspecto utópico de seu planejamento e construção também se refletiram em sua arquitetura, com o objetivo de padronizar os espaços residenciais e assim amenizar as diferenças sociais.

A idéia definitiva de transferência da nova capital encontrou fins legais na constituição de 1891, em seu artigo terceiro, onde ficava estipulada uma área de 14400 quilômetros quadrados no Planalto Central para a instalação da futura capital do país, o que permitiria ao governo estabelecer sua soberania por todo o Brasil, ao mesmo tempo em que a mudança propiciaria a integração nacional ao estimular o desenvolvimento de recursos existentes no interior do país, gerando um maior crescimento econômico a partir do centro em direção aos outros pontos do território nacional.

Na Assembléia Constituinte de 1946, Epitácio Pessoa e Café Filho, elaboraram decretos para o início da construção, que se daria em 1920 e 1955 respectivamente. Em 1922 uma pedra fundamental foi simbolicamente colocada como marca de um novo tempo.

Todavia, foi no governo de Juscelino Kubitschek, no ano de 1955 que a idéia encontrou forma em sua campanha presidencial. Em seu programa de metas, que respondia às teorias do desenvolvimentismo formuladas durante a década de 1950 pela CEPAL e no Brasil pelo ISEB[4], a construção de Brasília tornou-se sua meta-síntese.

Juscelino argumentava que a construção da nova capital no Planalto Central possibilitaria tanto uma maior integração nacional como o desenvolvimento regional, incorporando o interior à economia o que produziria um novo espaço nacional que resultaria em uma nova época para o país.

No entanto quando Juscelino anunciou a construção definitiva de Brasília, encontrou resistência de diversos segmentos da sociedade. Imprensa, lideranças parlamentares, políticos locais. Cada Estado a sua maneira reagiu à consolidação de seu projeto.

Kubstichek e seus aliados reagiram com uma hábil e eficiente campanha de incentivo à construção da capital, partindo da premissa de que a nova espacialidade deveria não apenas interligar o interior com o restante do país, mas igualmente transformar a sociedade brasileira.

Brasília foi forjada pelo mito e pela idéia da construção de uma cidade com um projeto modernista rico em carga simbólica. Uma cidade sem raízes, povoada por imigrantes e aberta a identidades múltiplas, marcada por um fenômeno urbano singular, responsável por envolver seu planejamento na construção de um espaço síntese, de cruzamento para diversas expressões regionais do país, diálogo entre tradição e vanguarda.

A idéia de transferência da capital para o interior inseria-se em uma perspectiva de desenvolvimento que objetivava a interiorização do país de forma estratégica e a muito planejada, consolidada de forma efetiva no governo do então presidente Juscelino Kubitschek.

Brasília não se revela apenas como lugar qualquer do território nacional, mas insurge como um espaço mítico na construção da nação. Cidade projetada em forma de cruz, avião ou pássaro, apresenta-se carregada por fatores simbólicos e embora Juscelino Kubistchek nunca tenha se referido ao caráter místico-esotérico da capital, dele também nunca se desvencilhou inserido no próprio imaginário popular e recriado como reencarnações de líderes distantes e importantes dentro da História.

Ligados a essa perspectiva visionária, a arqueóloga e egiptóloga brasileira Iara Kern e o educador e empresário Ernani Figueiras Pimentel, com base em uma pesquisa de seis anos, concluída em 1984, lançaram um livro e posteriormente um filme, em fita VHS, intitulado Brasília Secreta[5], onde a figura de Juscelino Kubistchek aparece como reencarnação ou continuação de Akenaton, ambos aproximados por personalidade, ideais e destinos semelhantes.

A cidade antiga de Akenaton e a moderna Brasília de Juscelino Kubistchek colecionam um série de coincidências. O tempo recorde de construção, o centro como local escolhido, a própria espacialidade e aspectos físicos das obras arquitetônicas, a forma de pássaro de asas abertas e o uso da tecnologia avançada empregada para a viabilização dos projetos, tudo coincidentemente sugerindo uma continuidade entre ambas as cidades.

Ainda segundo o vídeo, Juscelino Kubistchek tinha conhecimento de Akenaton e sua cidade no Egito, fazendo uma alusão à obra do antigo Faraó, com a inauguração da nova capital vista como um resgate do passado para o futuro da humanidade.

No imaginário social a construção da capital idealizava a edificação de uma nova sociedade, uma combinação singular emergiu no Planalto central. De um lado o moderno representado pelas obras da arquitetura delineado pela presença de estruturas cuidadosamente trabalhadas, em um espaço urbano estrategicamente elaborado com a incorporação do sagrado à própria dinâmica da cidade. De outro, o espaço tradicional, que por sua vez, se faz presente na relação de dependência direta com o sonho profético de Dom Bosco e pelos marcadores representacionais e materiais que se encarregam por designar a imagem de Brasília como centro místico-esotérico.

A partir da visão de Dom Bosco, o mito da criação de Brasília, reflete a presença do sagrado em contato constante com o profano. Uma cidade planejada dentro de uma perspectiva futurista e uma utopia modernista, mas preservando, como forma de coesão do grupo, o espaço religioso em diálogo com o racional. Mitos que designam a capital como centro privilegiado de contato com o universo sagrado e região predestinada em busca de uma nova consciência religiosa.

O horizonte e a farta abundância de cristais na região do Planalto Central, o cruzamento dos eixos, a imagem da cruz como idéia da união com o sagrado, a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios, espaços profanamente políticos e centro de decisões do país e sua espacialidade triangular, a própria sacralidade dos símbolos utilizados por Lúcio Costa no planejamento da cidade ensejaram Brasília nessa perspectiva mística e mítica.

As Superquadras são o exemplo dessa espacialidade pretendida objetivando minimizar as diferenças, espaço de moradia da população, de aspecto e função originais, como forma de habitação coletiva em meio a uma organização doméstica.

Holston, autor que se dedicou aos estudos sobre a cidade, assim declara:

...Fica claro que as superquadras de Brasília são concebidas para incorporar os benefícios e relações coletivas de moradia... em oposição ás relações capitalistas de lucro e propriedade, consideradas nocivas à vida doméstica. Nessa concepção, o arquiteto está claramente comprometido com a criação de uma organização residencial assim, com a reestruturação das relações entre o público e o privado na vida social. [6]

Na prática as diferenças entre o público e o privado não se efetivaram e o mito não se transformou em realidade. Brasília é uma cidade com os problemas e vivências de qualquer outra cidade, quanto às estruturas sociais, os comportamentos e as dificuldades que envolvem um grande centro urbano, no entanto sua áurea mística e esotérica firma-se como característica inerente e indissociável de sua imagem, muito significativo em todo o território nacional.

O Brasil é marcado por um emblemático pluralismo religioso decorrente da própria formação do país. Território destacado por uma miscigenação fortemente arraigada desde os tempos coloniais, espaço de junção de várias culturas.

Como afirma Laura de Mello e Souza, o sincretismo foi o objeto característico da religiosidade originária desde os primeiros séculos.

Traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturaram-se, tecendo uma religião sincrética e especificamente colonial. De certa forma, reeditava-se aqui a história – recentemente contada- da cristianização do Ocidente: ‘ toda uma rede de instituições e de práticas, algumas certamente muito antigas, constituía a trama de uma vida religiosa que se desenrolava a margem do culto cristão. ’ Aqui, tolerou-se e se incentivou o sincretismo quando necessário, mantendo-o nos limites do possível.[7]

A autora procura retratar determinadas nuances da História do Brasil que se referem às especificidades, principalmente por se tratar do período colonial, onde os traços identitários e de significação estão fortemente atrelados à metrópole.

O recorte conferido ao trabalho de Laura de Mello e Souza se circunscreveu a história de vários personagens comuns que tiveram suas vidas devassadas pelas visitas e inspeções realizadas pelo Santo Ofício.

A autora trás, ainda, a perspectiva do imaginário traçado a partir de relatos de viajantes, missionários e cronistas sobre as novas terras recém descobertas e que se delineavam por suas características de Paraíso e Inferno dentro do contexto elaborado pelos parâmetros do Velho Mundo.

Na Terra de Santa Cruz, com tendências que iam do endêmico ao demoníaco, as manifestações religiosas foram as mais variadas possíveis. Toda multiplicidade de tradições pagãs, africanas, indígenas, judaicas, era vivida e inserida no cotidiano da população. Para autora não existiam práticas rituais exclusivas de uma determinada cultura e sim religiosidades populares sincréticas e místicas, sem a prevalência de uma sobre a outra.

Por meio da Nova História Cultural, as manifestações culturais passam a adquirir um valor preponderante nas ações humanas e nos fatores sociais. Como uma nova forma de abordagem de análises já realizadas, essa tendência de historiografia surge como elemento catalisador do conhecimento humano.

Com o declínio dos grandes paradigmas explicativos, a reboque de uma objetividade e racionalidade das ciências humanas, a preocupação contemporânea se dá pela interpretação do fenômeno social por meio de suas representações. Uma moderna tendência de análise historiográfica, que compreende a importância dos sistemas simbólicos de idéias e imagens coletivas, como forma de captar a pluralidade dos sentidos e resgatar a construção dos significados.

Ancorada nessa perspectiva de análise da Nova História Cultural, Laura de Mello e Souza procurou retratar em sua pesquisa uma tendência mundial de atribuir valoração às práticas e às representações cotidianas como objeto de investigação histográfica.

Com fortes influências de autores como o inglês Edward Thompson[8], que ganhou destaque durante os anos sessenta ao abordar as classes populares da Inglaterra setecentista, influenciado pela tradição marxista, mas com olhares ao campo cultural que promoveu um novo posicionamento e um rompimento com os campos econômicos tão em voga na época, Laura de Mello vai construindo seu objeto de pesquisa de modo a conferir importância à cultura popular no Brasil e atribuir sentido as formas religiosas existentes.

Sem dúvida foi à forte influência do autor Carlo Ginzburg[9] que se revela evidente em sua obra. A autora chega, por vezes, a falar de “Menocchios caboclos” ao referir-se a vários colonos, negros, índios, cafuzos ou mamelucos, que por ocasião de seus depoimentos deixavam patente as críticas às práticas realizadas pela Igreja Católica como instituição de fé, referindo-se a personagens com uma extrema capacidade de formulações sincréticas e com a criação de uma cosmologia alternativa, tendo como fundamentação uma cultura popular rica em crenças e mitos e o acréscimo de novas informações advindas de várias outras fontes e recursos, aliadas às novas regras e dogmas oficias da Igreja Católica.

Carlo Ginzburg em sua obra O Queijo e os Vermes, reconstituiu, utilizando-se de processos realizados pelos inquisidores durante o século XVI, a vida de um moleiro de Montereale, pequena aldeia do Friuli, de nome Domenico Scandela, conhecido por Menocchio, que ocupava uma posição de destaque dentro da comunidade e que por se manifestar a respeito de idéias advindas de várias partes, aliada a uma cultura popular já existente, foi perseguido, preso e queimado pela fogueira da Santa Inquisição.

Um personagem peculiar, por se destacar como homem letrado, que teve acesso as mais diversas leituras em uma Itália em luta contra o avanço do protestantismo e em meio a importantes mudanças sociais como a Reforma e a invenção da Imprensa, o que lhe propiciava o acesso a determinados livros sofisticados que eram adaptados a sua interpretação, de acordo com suas vivências cotidianas e que colaboraram de forma decisiva para construção desse personagem atípico e de sua cosmogonia original.

A ênfase para se entender essa religiosidade popular é a da circularidade cultural, que o autor sistematizou em suas obras, influenciado por Mikhail Baktin[10], a quem o termo surge originalmente, Ginzburg revelou um núcleo de crenças ainda muito identificadas a resquícios de uma cultura oral, pagã e popular de longa duração, afastadas as possibilidades de uma assimilação direta da cultura dominante pelos populares e sim a constatação de um movimento recíproco e contínuo que influencia os diferentes níveis.

A atração exercida pelas novas possibilidades que cercaram a idéia da construção de Brasília perpassou às razões meramente políticas e propiciaram uma valorização da integração das diversas tradições regionais presentes no território nacional, onde tal diversidade passou a ser visualizada como marca para a constituição dos fundamentos da identidade nacional. A cidade ideal, pretendida com a construção da nova capital, apresenta todas as contradições, incoerências e injustiças presentes em qualquer outro centro urbanístico. O plano mítico encarna e representa a força simbólica do social frente à realidade construída objetivamente.

Tal objetivo assume feições mitológicas, pois a construção da nova capital do Brasil enquanto centro político foi elaborado como o surgimento de algo inteiramente inovador, um novo começo, uma nova origem. Dimensões que se faz presente em um tempo outro, à parte, próprio das dimensões sagradas e extracotidianas.

Brasília enquanto idéia, situa-se no plano místico-esotérico, elaborado em torno de noções como Nova Era e Novo Mundo, antecipando uma modernidade ainda inexistente na época do seu planejamento.

Como New Age, utilizaremos o conceito utilizado por Deis Siqueira[11].

New Age poderia ser caracterizado como um conglomerado de tendências que não teria textos sagrados, dogmas, líderes estritos, nem se caracterizaria como uma organização fechada. Tratar-se-ia mais de uma sensibilidade espiritual do que de um movimento espiritual estruturado. Expressaria desejo de harmonia, busca de melhor integração do pessoal e do privado com o ecológico e com o cósmico, partindo-se da presença do divino em tudo e em todos os processos evolutivo.

A capital e o seu entorno apresentam-se como campo de experimentação e de produção que reúne vários elementos representativos desse Novo Tempo, mas que se liga a outras fontes, além do mito místico que envolve a sua construção. Emerge no espaço da capital a experimentação, o convívio, a integração de várias sistematizações religiosas oriundas de diversas doutrinas e de outras visões de mundo. Referenciais vindos da Índia, Tibete, Egito, Japão e do interior do país, nas regiões mais distantes e com uma religiosidade bastante acentuada, com uma ritualística eminente e uma forte cultura popular.

Representações simbólicas e sagradas que marcam tanto o imaginário social de Brasília, quanto propiciam o surgimento de seitas e grupos responsáveis por uma nova visão de mundo. A construção de um campo sagrado-religioso que se propõe a oferecer respostas.

Não apenas surgiram vários grupos religiosos influenciados pela construção da nova capital, como tal fenômeno continua a proliferar, evidenciando uma característica não apenas Ocidental, mas que pode ser observada como uma tendência da modernidade e do desenvolvimento cultural de nossa civilização. Trata-se de modelos alternativos que se apresentam como respostas a inquietações antigas, movimentos culturais e criativos de experimentação que propõe novos estilos de vida e a emergência de uma nova religiosidade, diversa das grandes religiões tradicionalmente institucionalizadas e com uma flexibilidade em relação à ortodoxia.

A emergência de fenômenos religiosos não se delimita ao domínio do sagrado, mas se caracteriza por sua atuação como fato social. O sagrado traduzindo a sociedade sob forma de imagens e modificando-se à medida que o contexto se transforma.

Para o surgimento de determinados movimentos ou mesmo para que se justifique a espera messiânica do povo brasileiro, a existência de certas crenças e mitos torna-se necessários para sua efetivação, onde o país insurge com um leque de possibilidades e símbolos em meio a uma religiosidade marcante, ligando o mundo social ao sagrado de forma a propiciar o surgimento de seitas e grupos peculiares.

Em um movimento com tal designação a crença no enviado divino, como mensageiro de um tempo futuro e próspero, que trará justiça e salvação encontra-se inserida na própria cultura brasileira.

Vamireh Chacon, professor da Universidade de Brasília, em seu brilhante ensaio a cerca da busca pela identidade brasileira mais profunda, dedica uma substanciosa reflexão sobre os traços messiânicos como característica do povo brasileiro.

Somos messiânicos desde as origens luso-afro-indígenas, e vivemos eternamente como que á espera de que El-Rei Dom Sebastião, de mãos dadas com Zumbi dos Palmares e algum cacique tupinambá do século XVI, venha nos apontar um caminho de redenção, melhor dito de salvação. Enquanto eles não surgem das brumas atlânticas, corremos atrás de lideranças carismáticas, pois eleição após eleição sempre surgem auto-proclamados salvadores da pátria.[12]

O autor destaca a importância das lideranças carismáticas como uma constante na política brasileira, identificada pelo povo como destino nacional e referência profunda da forte carga religiosa característica do país, marcado por uma contínua espera messiânica, que se sobressai das vivências pessoais e se mistura aos mais diversos campos de ação, como maneiras de se adaptar a determinadas situações da vida cotidiana em um constante processo de significação do próprio país, em busca de uma identidade e uma cultura profundamente nacional, que abrigue a multiplicidade de significações e tradições das mais diversas e divergentes regiões.

Essa nova espacialidade, por via de conseqüência, encaminhava a sua caracterização na medida em que se definia a estruturação da cidade. Para tanto, o sagrado dava ânimo e orientava no mais das vezes organização do lugar. A paisagem cultural, em resumo, ganhava contornos e texturas mais nítidos ao colocar harmonizados e em relação de contigüidade as construções templárias e residenciais. Crenças, princípios e propósitos religiosos dotavam de sentidos o que não se resumia solo profano.

A Capital Federal se traduz, além de outras fisionomias que a apresentam ao mundo, pela presença de uma religiosidade vigorosa, que, validado o profetismo de Dom Bosco e sua presciência no despontar de uma terra de bem-aventurança, contribui para a sua construção e legitimação enquanto cenário político-reitor do país.

Bibliografia

CHACON, Vamireh. Deus é Brasileiro: o imaginário do messianismo político no Brasil. 2º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. 204 p.

CHRISTIAEN, Yves. La Mutation de Monde. De nouveaux cieux. Une nouvelle Terre. Essai d´une nouvelle conscience historique. Paris, Dervy, Livres, 1978

GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOLSTON, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo. Cia das Letras, 1993.

MELLO, Gláucia Buratto Rodrigues de. Millénarismes brésiliens: Contribution à l´ étude de L´ imaginaire contemporan. Université de Grenoble II. 1999. [trad. Cristãos Ecléticos e a Nova Jerusalém no Planalto Goiano.] 2005.

SIQUEIRA, Deis. Sociologia das Adesões: novas religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil/ Deis Siqueira, Ricardo Barbosa de Lima (orgs)- Rio de Janeiro: Garamond: Vieira, 2003.

SANTOS, Michelle dos. A construção de Brasília nas Tramas e Imagens e Memórias pela imprensa escrita. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Departamento de História, 2008

SOUZA, Laura de Mello. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. Companhia das Letras, 1986.


[1] Mestranda em História Cultural pela UnB - eladearaujo@yahoo.com.br

[2] SANTOS, Michelle dos. A construção de Brasília nas Tramas e Imagens e Memórias pela imprensa escrita. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Departamento de História, 2008.

[3]CHRISTIAEN, Yves. La Mutation de Monde. De nouveaux cieux. Une nouvelle Terre. Essai d´une nouvelle conscience historique. Paris, Dervy, Livres, 1978. Apud. SIQUEIRA, Deis. Sociologia das Adesões: novas religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil/ Deis Siqueira, Ricardo Barbosa de Lima (orgs)- Rio de Janeiro: Garamond: Vieira, 2003. p.05.

[4] Entre as teorias desenvolvidas pela CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina, órgão das Nações Unidas) e no Brasil pelo ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), destacava-se a industrialização dirigida pelo Estado como meio pelo qual os países subdesenvolvidos poderiam alcançar rapidamente um crescimento econômico e uma vantajosa posição no cenário internacional.

[5] MELLO, Gláucia Buratto Rodrigues de. Millénarismes brésiliens: Contribution à l´ étude de L´ imaginaire contemporan. Université de Grenoble II. 1999. [trad. Cristãos Ecléticos e a Nova Jerusalém no Planalto Goiano.] 2005. P.146.

[6]HOLSTON, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo. Cia das Letras, 1993. Apud. SIQUEIRA, Deis. Sociologia das Adesões: novas religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil/ Deis Siqueira, Ricardo Barbosa de Lima (orgs)- Rio de Janeiro: Garamond: Vieira, 2003.p.21.

[7] Laura de Mello e Souza. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras. Pág. 97. O principal tema de investigação da pesquisadora paulista é a feitiçaria. A autora descreve as “projeções imaginárias” construídas sobra à colônia portuguesa e como a religiosidade de Portugal se adaptou ao novo contexto. Em sua maior parte, o estudo limita-se a descrever as práticas e rituais mágicos ou a vida dos feiticeiros. A documentação gerada pela repressão inquisitorial é a principal fonte de reconstrução da religiosidade popular presente no Brasil colônia.

[8] Edward Thompson é autor de “A formação da classe operária inglesa”, onde se encontra diversas análises sobre o mundo religioso na organização da classe, com predomínio da teoria marxista quanto á religião. Semelhante posição transparece-se em sua pesquisa sobre a “Economia moral”, uma tese a cerca dos princípios morais do povo como influência do cristianismo e dos inúmeros pregadores populares. As reflexões de Edward Thompson ressaltaram o papel das tradições, costumes e idéias nos movimentos de transformação social, sem desconsiderar a base sócio-econômica.

[9] Carlo Ginzburg é autor italiano da trilogia sobre religião: “Os andarilhos do bem”, “O Queijo e os vermes” e “A História noturna”. As inovações metodológicas realizadas por Ginzburg despertaram as admirações de muitos estudiosos. Sua proposta consiste em iniciar a análise com pequenos sinais e indícios, para a reconstrução do passado. Seus textos renovaram a abordagem da história religiosa, com interesse principal focado na cultura popular, criando-se uma nova escola chamada micro história.

[10]Mikhail Bakhtin, no livro A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento procura examinar a cultura popular filtrada por um intelectual renascentista (Rabelais), Carlo Ginzburg faz o processo inverso em O Queijo e os Vermes, a cultura oficial évisualizada pelo ponto de vista popular.

[11] SIQUEIRA, Deis. Sociologia das Adesões: novas religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil/ Deis Siqueira, Ricardo Barbosa de Lima (orgs)- Rio de Janeiro: Garamond: Vieira, 2003.

[12] Vamireh Chacon. Deus é Brasileiro. O imaginário do messianismo político no Brasil. 2º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. 204p.