ISSN 1807-1783                atualizado em 13 de janeiro de 2014   


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Sobre o ofício do historiador

por Francisco Dantas de Souza Neto

Sobre o autor[1]

O livro "Era dos extremos: o Breve Século XX: 1914 - 1991", que foi lançado em 1994, é uma obra no qual o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm (1917 - 2012) discorre sobre o século XX. Logo na introdução da obra, ele escreveu que o "ofício do historiador é lembrar o que os outros esquecem". Assim, submerso em uma sociedade na qual o homem pode ser considerado o criador e a criatura de seu próprio espaço, capaz de sofrer e realizar constantes mudanças para se adequar à suas respectivas necessidades, o historiador é um agente que desempenha um papel de grande importância na preservação e busca do conhecimento, auxiliando na reconstrução da identidade humana e lidando com os crescentes desafios na produção do saber histórico.

O ofício do historiador, ao contrário do que pode prevalecer no senso comum, vai muito além da busca pelo passado. É bem mais complexo, com o profissional desenvolvendo técnicas e métodos que possibilitem o pensamento histórico científico e a sua consequente expansão. Desse modo, o historiador não pode ver todo o cenário humano de uma forma objetiva e excluir suas muitas variantes, principalmente quando tem o homem, um ser tão volátil, como objeto de estudo.

Debater sobre o trabalho do historiador é impossível sem a necessária menção à Escola Metódica do século XIX e ao movimento dos "Annales" no século XX, que possibilitaram a mudança na construção do perfil do historiador em relação ao seu campo de pesquisa. A Escola Metódica (ou dita positivista) pregava uma História objetiva, e a tarefa do historiador seria apenas a de coletar um número de fatos, não realizando a reflexão sobre eles. Nesse sentido, o historiador Jose Carlos Reis aborda o seguinte:

A história científica, portanto, seria produzida por um sujeito que se neutraliza enquanto sujeito para fazer aparecer o seu objeto. Ele evitará a construção de hipóteses, procurará manter a neutralidade axiológica e epistemológica, isto é, não julgará e não problematizará o real. Os fatos falam por si e o que pensa o historiador a seu respeito é irrelevante (REIS, 2006, p.18).

Com o advento dos "Annales", sob a liderança de Marc Bloch e Lucien Febvre, e a primeira edição da revista lançada em 1929, na França, ocorre o surgimento de uma "História problema". Os estudos dos "Annales" seriam focados em dimensões sociais e econômicas, deixando de lado a História Política que predominou entre os historiadores chamados de positivistas. Os historiadores passam a realizar um maior diálogo com as outras ciências sociais, e como afirma François Dosse na obra "História em Migalhas", o movimento se constitui como uma "revolução historiográfica":

Quem queira interrogar-se sobre a função do historiador e da história não pode evitar a reflexão sobre a história dos Annales, O que está em jogo é de importância, pois se trata da própria existência da história, da sua capacidade de evitar a dupla tentação suicida, primeiro, a da fuga diante da diluição entre as outras ciências sociais e segundo, a do recuo à velha história positivista do século XIX. (DOSSE, 2003, p. 28)

Dessa maneira, é preciso destacar a visão do historiador e o objeto da história. Nesse ponto, o historiador britânico Keith Jenkins aborda em "A História Repensada" que uma mesma imagem pode ganhar diferentes significados e interpretações em cada área do conhecimento. Por essa relatividade e busca por formas de conhecer o mundo que o historiador é capaz de desenvolver estudos críticos sobre os costumes dos homens em diferentes contextos, e até mesmo em diversos momentos dialogar com outras áreas do conhecimento e seus respectivos discursos.

Esse olhar diferenciado vai de encontro a uma questão inerente à prática profissional do historiador: o exercício do trabalho nos diversos âmbitos seja em patrimônios culturais ou em instituições de ensino. O profissional de História e o seu olhar distinto sobre o seu objeto de pesquisa pode assim, em muitos casos, sofrer com a subversão à máquina burocrática institucional, perdendo a autonomia do seu discurso. Como afirmado pela professora Zita Rosane Possamai no artigo "O ofício da História e novos espaços de atuação profissional":

[...] caberia aos historiadores atenderem o desejo institucional? Lógico que não. Ao contrário, devem contribuir com um olhar diferenciado na compreensão do patrimônio. Sem a especificidade da História, o patrimônio arquitetônico constitui-se em ruínas mudas, sem significação para a sociedade (POSSAMAI, 2008, p.204).

Os entraves em relação ao trabalho do historiador tornam-se explícitos principalmente no Brasil. Apesar dos profissionais terem conquistado novas oportunidades de atuação nos últimos anos[2], ainda há divergências quanto à regulamentação da profissão de historiador[3], se tratando de um projeto ainda em tramitação. Os desacordos no que diz respeito à atuação dos historiadores criam um ambiente propicio que dificulta o surgimento de um conselho de História, denotando assim não apenas os desafios historiográficos que o profissional precisa enfrentar, mas também entender a estrutura de sua própria classe de pesquisadores.

Porém, apesar dos fatores apresentados, não é possível discorrer sobre a atuação do profissional de História no Brasil sem fazer a referência ao papel da ANPUH, a Associação Nacional de História. Criada originalmente em 19 de outubro de 1961 como "Associação Nacional dos Professores Universitários de História", ganhou a denominação atual a partir de 1993, expandindo-se e demonstrando certa diversidade de associados[4]. Destaca-se que o objetivo principal da associação é representar a comunidade de pesquisadores e professores de História perante outros órgãos, bem como na divulgação de estudos e pesquisas sobre assuntos históricos e no ensino de história em diferentes níveis.

Assim, uma necessidade no estudo sobre o ofício do historiador observar a seu desempenho no que diz respeito à dimensão acadêmica, ou seja, ao ensino de História. Na sala de aula contemporânea (ou pós-moderna), é valido abordar que há certa temeridade em ser professor das disciplinas de ciências humanas e sociais, muitas vezes taxadas pelos discentes como matérias sem relevância.

Defrontamo-nos assim com o advento de técnicas de pesquisas diferenciadas e novas tecnologias que possam integrar esses conhecimentos humanísticos de forma mais atraente para os discentes, em oposição ao ensino de história instrumental. É exatamente nesse ponto em que entra o professor de História como um formador de opinião, tendo ele a capacidade de mudar o cenário social e despertar a criatividade presente em cada um de seus alunos e os pensamentos que o façam tentar compreender os caminhos do homem. Trata-se de saber se questionar em meio a inúmeras verdades, de formar alunos que possam entender o significado de História e, essencialmente, que os transformem em agentes de seu próprio tempo e conhecedores de seu próprio passado.

Na perspectiva de entender o ser humano no tempo e sua organização social, econômica e política e ainda atuando na disseminação do discurso histórico, isso vai de encontro ao que Marc Bloch escreveu no clássico "Apologia da história (ou o ofício do historiador)", de que o objeto da história é, por natureza, o homem - denotando assim a evidente subjetividade, com o homem sendo o seu próprio sujeito e objeto de estudo. Como aborda Bloch:

Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem, por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não consegue isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça (BLOCH, 2001, p.54).

E faz parte das habilidades e competências desse "bom historiador" essa necessidade de dominar e produzir diferentes concepções que possam procurar entender os homens (no plural, como Bloch expressa em seu texto, que é o "modo gramatical da relatividade" e da diversidade) no tempo talvez não em sua totalidade, mas em partes que possam auxiliar no descobrimento de novos saberes e na convivência social no presente.

Nesse caso, tendo em vista a expansão no campo dos historiadores (aquela "História vista de baixo", que Jim Sharpe escreve em "A Escrita da História: novas perspectivas", obra organizada por Peter Burke, pode ser um dos vários exemplos) e a evolução contínua do conhecimento, é importante aqui destacar a forma como o profissional utiliza as suas fontes e a linguagem utilizada por ele. Assim sendo, ele não deve limitar-se a apenas um tipo de documentação. Os diferentes espaços de atuação exigem que ele tenha o domínio de diferentes tipos de fontes e que conheça suas metodologias, que trabalhe com os diferentes tipos de imagens, objetos e pessoas. De acordo com Possamai:

É importante que a formação em História preocupe-se em habilitar o profissional a investigar outros documentos além dos escritos ou orais, introduzindo-o no estudo da cultura visual e material. Essa habilidade, que deverá ser desenvolvida na formação, em muito o auxiliará quando necessitar trabalhar em um museu, por exemplo, onde lidará quase que exclusivamente com objetos, artefatos e imagens. (POSSAMAI, 2008, p.212).

Dessa forma, não basta apenas ele conhecer, é preciso saber se comunicar. Não basta apenas investigar o passado, é preciso estar preparado para as implicações geradas com as possíveis novas descobertas. E assim há toda uma questão referente à linguagem utilizada pelo historiador na divulgação de sua escrita, adaptando-a para os diferentes públicos. Marc Bloch estava certo quando escreveu que não imagina "para um escritor, elogio mais belo do que saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos escolares". (BLOCH, 2001, p. 41).

O historiador não apenas resgata alguns pontos do passado para que possa tentar explicar os anseios humanos no presente. A sua importância está justamente em estudar os aspectos de diferentes povos em cada contexto, problematizando a história e questionando o homem em seu tempo. O olhar crítico e diferenciado possibilita que ele não transforme a história em algo alienável e feche seu discurso. Assim, por finalmente, é com o verdadeiro auxilio do historiador que a humanidade começa a construir os seus próprios caminhos.

Referências

BURKE, Peter. A Escrita da História: Novas perspectivas. 1.ed. São Paulo: Editora Unesp, 1992. 352p.

DOSSE, François.História em Migalhas:dos Annales à Nova História. Tradução: Dulce Oliveira Amarante dos Santos. Bauru, SP: EDUSC, 2003. 394 p. (Coleção História)

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2.ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 1995. 632p.

JENKINS, Keith. A História Repensada. São Paulo: Contexto, 2001. 120p.

MARC BLOCH. Apologia da História: ou o ofício do historiador. 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. 159p.

POSSAMAI, Zita Rosane. O ofício da História e novos espaços de atuação profissional. Anos 90. Porto Alegre, v. 15, n. 28, p.201-218, dez. 2008.

REIS, José Carlos. A História entre a Filosofia e a Ciência. 3 ed. Belo Horizonte. Autêntica, 2006.


[1] Graduando do 2º período em História pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)

[2] Um exemplo disso pode estar ligado à prestação de consultoria para a produção de telenovelas, filmes e minisséries que tratem sobre temas históricos, e também sobre a expansão de patrimônios culturais.

[3] Projeto de lei 4699/2012, do Senador Paulo Paim (PT).

[4] A ANPUH não agrega apenas professores e alunos de pós-graduação, mas também historiadores atuantes em outras instituições, de arquivos, museus etc.