Sobre o autor
(*)
Assisti ao nascer de
Casa-grande & senzala, tenho acompanhado sua atuação durante um quarto de século
dramático, e quero dar meu testemunho (...) Naqueles anos que sucederam ao
movimento armado vitorioso de 1930. Iniciava-se esse crescer de nossa cultura,
do público ledor, do interesse pelas coisas brasileiras.
Jorge Amado
Casa-grande & senzala
(1) foi
publicado em 1933, compondo juntamente a Sobrados e Mucambos (1936) e
Ordem e Progresso (1957) as três maiores contribuições de Gilberto Freyre à
História do Brasil. O livro trata da formação colonial e do patriarcado no
Brasil a partir da ocupação portuguesa no nordeste litorâneo. O período
compreende o que chamamos América Portuguesa na historiografia produzida sobre o
tema, enfatizando os primeiros duzentos anos da implantação das lavouras de
açúcar como projeto mercantilista lusitano de exploração e extração comercial. O
livro divide-se em cinco capítulos:
I – Características gerais da
colonização portuguesa no Brasil: formação de uma sociedade escravocrata e
híbrida, onde o autor situa sua compreensão para o início da ocupação
através dos navegadores portugueses, II – O indígena na formação da família
brasileira, onde trabalha com relatos de cronistas e viajantes para perfazer
o papel do indígena na sociedade brasileira, III – O colonizador português:
antecedentes e predisposições, para abordar o papel português como
gerenciador do projeto de colonização, IV – O escravo negro na vida sexual e de
família do brasileiro, enfatizando a importância do escravo africano nas
relações senhores/escravos (sexo e família) do engenho de açúcar e o V capítulo
que serve para uma continuação deste.
Possui ainda um subtítulo: Introdução à
história da sociedade patriarcal no Brasil - 1.
A referência secundária soa sugestiva, na perspectiva que Freyre pensava em dar
continuidade à obra numa cronologia sobre o tema (2).
O resultado deste livro deu-se num período de três anos de exílio, após as
mudanças ocorridas no Brasil em 1930 e sua ligação com o panorama político da
época:
(...)
Casa-grande & senzala se insere num quadro em que o debate sobre a formação
nacional compõe um cenário político em que a centralização administrativa altera
o lugar não apenas das regiões como dos grupos que exercem o poder local e
regional (...) Podemos pensar a existência de uma cultura brasileira? Esse
perfil corresponde às exigências da civilização ocidental e, portanto, o Brasil
pode figurar no concerto geral das nações? (BASTOS, 2004, p. 217)
A chamada República Velha (1889-1930) chegava
ao fim com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. A regionalização política dos
blocos de Minas Gerais e São Paulo propunha mudanças importantes. O Brasil
aspirava por um modelo político e econômico capaz de atender às elites urbanas
com projetos industriais em detrimento do velho Brasil rural (PRADO
JUNIOR,1999). As mesmas elites dominantes passavam a exigir respostas sobre os
rumos do país, sobretudo em relação às populações excluídas desde o fim oficial
da escravidão (1888) e o advento de nossa república moderna (1889). Estamos
falando, especificamente, de um lugar social onde essa massa de pobres –
sobretudo de origem camponesa – poderia figurar no sentido de uma nacionalidade.
Freyre buscará respostas no contexto à qual
estava vinculado politicamente: o das oligarquias agrárias de Pernambuco, à
época, em pleno declínio econômico no nordeste brasileiro. Fato curioso, é que o
autor insere uma dedicatória para os avós antes do prefácio de CG&S,
ajudando-nos a compreender sua ligação para com aquele Brasil saudosista de suas
lembranças da infância (3).
Moreira Leite (1976) refere-se ao livro CG&S
como uma Busca pelo tempo perdido (analogia à obra do escritor francês
Marcel Proust). O momento histórico áureo das antigas fazendas e engenhos de
açúcar, reminiscências do ciclo açucareiro no litoral entre os séculos XVI e
XVII, são laureados como a trajetória do bom civilizador, no caso, o
português.
Nascido em Recife, Pernambuco, em 1900, Freyre
estudou nos Estados Unidos e posteriormente na Europa. Seu intercâmbio com o
exterior lhe permitiu uma sólida formação sociológica. As incursões em Colúmbia
(Nova Iorque, EUA) e Oxford (Inglaterra) deram-lhe novos instrumentos
analíticos, além de uma rica temática desenvolvida por autores espanhóis:
Ganivet, Unamuno, Pio Borja e Ortega y Gasset (BASTOS, 2004).
Atualmente, seria complexo discutir – numa
relação cronológico-biográfica – em que região do estrangeiro Freyre obteve
maior influência intelectual. É claro que seus estudos de graduação e
pós-graduação na América do Norte recebem maior destaque em artigos e livros a
seu respeito. Queremos deixar bem claro neste trabalho, uma objeção sobre o seu
perfil biográfico: o contingente de monografias e teses relacionadas à sua obra
é imenso. Portanto, é necessário salientar que existem visões divergentes a
respeito de sua influência acadêmica. Ou pelo menos, a maior delas.
Sua base documental para fundamentar a tese de
CG&S é inovadora, diferente do convencionalismo historiográfico de sua época.
Freyre utiliza-se de diários íntimos, cartas, livros de viagens, folhetins,
autobiografias, confissões, depoimentos pessoais escritos, versos e cantigas da
tradição oral. Assim, constrói sua interpretação do cotidiano patriarcal
agrário-exportador-escravista e açucareiro. Em sua tese sobre a formação da
sociedade brasileira via nordeste, articulam-se três elementos: o patriarcado,
a interpretação de etnias e culturas e o trópico. Outros três
sub-itens: clima, raça e biologia. Conforme afirma o autor:
A
formação patriarcal do Brasil explica-se, tanto nas suas virtudes como nos seus
defeitos, menos em termos de “raça” e de “religião” do que em termos econômicos,
de experiência de cultura e de organização da família, que foi aqui a unidade
colonizadora. Economia e organização social que às vezes contrariaram não só a
moral sexual católica como as tendências semitas do português aventureiro para a
mercancia do tráfico. (FREYRE, 2002, p.47)
A formação antropológica de Freyre nos Estados
Unidos nos ajuda a entender sua idéia racial nos trópicos. Não devemos esquecer
que aliado às transformações políticas no país, havia
as teorias racistas de seu tempo, como as teses eugênicas na Europa. No
Brasil, as premissas de ideologia racista aparecem reforçadas por intelectuais e
médicos, sobretudo no meio psiaquiátrico. Durante os séculos XIX e XX,
respectivamente, a idéia de superioridade racial ganha destaque nos círculos
científicos e acadêmicos, reforçando o surgimento de teorias misóginas na
Europa, já vinculadas à marcha neocolonialista em Ásia e África.

Figura
01
- Vista do Recife antigo por J. Moritz Rugendas (O Brasil
de Freyre)
Fonte:
http://www.memorialpernambuco.com.br/memorial

Figura
02
- Moinho de cana-de-açúcar em Minas Gerais, por J. Moritz Rugendas
Fonte:
www.terrabrasileira.net/.../oficios/engenho2.jpg
As influências de Freyre
Em 1887, emigra para os EUA o destacado
professor e antropólogo alemão Franz Boas (1858-1942). Tornou-se conhecido entre
cientistas na América do Norte ao representar a Antropologia Cultural (4),
inaugurando uma série de pesquisas inovadoras para as Ciências Sociais,
sobretudo, com a pesquisa etnográfica de campo.
Boas, com suas idéias, tornou conhecido
seu conceito denominado etnocentrismo e
a necessidade de estudar cada cultura singularmente em seus próprios termos. Se
contrapôs aos evolucionistas (5), que
compreendiam as culturas não-caucasianas (não-brancas) como inferiores. Conforme
dissemos anteriormente, a invasão feita por países da Europa Ocidental nos
continentes asiático e africano reforçaram o surgimento de teorias apoiadas na
“lei do mais forte”, conceitos que visavam dominar política e culturalmente
outros povos.
No Brasil, a influência desse
debate chegou num momento em que as classes dominantes queriam livrar-se do
passado escravista e da “mancha” negativa desse extrato social, criando
justificativas econômicas e políticas para manter a exclusão de uma densa camada
de ex-escravos negros, mestiços e indígenas configurando o cenário do país no
início do século XX.
Autores como Nina Rodrigues, Sílvio Romero e
Oliveira Vianna (6), viam na mestiçagem e na
herança cultural africana (de forma geral), males sociais ligados por cunho
genético. Para a tal mentalidade burguesa e racista de então, o atraso da nação
estaria relacionado à mistura racial. Claro, esses milhões de excluídos passavam
a ser associados (e culpabilizados) aos problemas criados pela minoria abastada
desde a formação colonial. Tipos físicos oriundos da mestiçagem resultariam em
humanos defeituosos, com problemas de caráter. Ou seja, mulheres e homens
biológica e socialmente inferiores.
Um dos poucos a se contrapor ao racismo
hegemônico de seus contemporâneos, entre outros, foi Manoel Bomfim (1993) em seu
A América Latina, Males de Origem (1905) (7).
Critica duramente seus compatriotas ao afirmar que o maior entrave ao
desenvolvimento da nação estava na herança escravista portuguesa, e não na
miscigenação daí paralelamente originada. Bomfim acaba levando sua tese a todo o
contexto latino-americano.
Gilberto Freyre desempenhou um papel
fundamental ao romper em parte com essa literatura racista: traz a/o mestiço/a
para uma situação de status. Enfatiza a influência africana da
colonização como algo positivo, mas defende sua “submissão” dentro do projeto
lusitano nos trópicos: a negra e o negro tiveram um papel
importante na formação da nova raça, mas capitaneado pelo português aventureiro,
plástico, cosmopolita, de espírito nômade, capaz de conciliar a Península
Ibérica arabizada e africanizada nesta América Tropical que, por
estas características, diferenciava-se de outros colonizadores europeus
(REIS,1999).
Freyre, conhecido por sua visão anti-racista,
evidentemente, não se separa totalmente dessas doutrinas preconceituosas. Em
síntese, busca outro caminho na sua interpretação de Brasil antigo, nostálgico,
onde as relações de dominação lusa não foram totalmente ruins ou benéficas,
dissertando sobre um certo equilíbrio antagônico entre os gentílicos e
escravos transladados para a costa americana:
O negro
é, também, responsável pelo traço dionisíaco do caráter brasileiro; é ele que
ameniza o apolíneo presente no ameríndio, marca tão patente em seus rituais. A
dança, por exemplo, nos primeiros tem caráter sensual, enquanto nos segundos é
puramente dramática. A alegria do africano contrabalançou o caráter melancólico
do português e a tristeza do indígena. A alegria e a bondade do africano são em
grande parte responsáveis pela doçura que marca as relações senhor/escravo no
Brasil. (BASTOS, 2004, p.231)
Aqui, o autor defende a
existência de uma explicação benéfica para a cultura escravagista no nordeste.
Para ele, surgiu neste meandro de dominação uma estrutura permitindo certa
“docilidade” entre colonizador e colonizado. Como o português era nostálgico,
precisava de um Dionísio africano (alegre) e um Apolo índio (triste) – a medida
certa de um novo tipo humano tropical – caracterizando sua tese de que essas
três etnias se complementariam naturalmente.
O que fez, em certa medida, foi uma conciliação
dos paradigmas intelectuais dominantes de seu tempo (no caso, os racistas
clássicos do início do século XX). Precisava dar uma resposta enquanto
representante regionalista, pensador, oriundo de um nordeste associado ao atraso
e a velhas estruturas sociais diferentemente do sul-sudeste despontando como
regiões promissoras ao surgimento de uma nova mentalidade sobre a História do
Brasil (REIS, 1999).
Inevitavelmente, CG&S trouxe um debate
necessário. Inserir o “mulato e o negro ao justo valor” implicava outro jeito de
ser brasileiro/a: um retrato mais pitoresco e naturalista do cotidiano dos
engenhos, com seus casarões de largos pavimentos e sua senzala indivisível na
produção de cultura e sincretismo dos elementos indígena, africano e católico.
Para Freyre o açoite associado à festa nos engenhos intermediou todas estas
contradições (MEDEIROS, 1984).
Implicava-se criar outra imagem do país que
pudesse figurar em âmbito geral, refletindo na mentalidade das elites e seu
posicionamento em relação ao próprio povo. A imagem é a herança negativa da
escravidão que preocupava o poder público, as instituições. A esfera
governamental estava decidida a desenvolver um “plano” para tentar “limpar” a
cara da nação de seus traços mais “desagradáveis” (REIS,1999).
Questões de contexto
Não devemos, seguramente, desvencilhar-nos de
um panorama internacional, situando o Brasil na América Latina e, sobretudo, a
relação de nossa burguesia com a Europa. Para Bomfim (1993), uma das poucas
vozes a contrapor idéias sobre interpretações deletérias do imaginário europeu
do início do século XIX, é pensar como os países ricos deste continente viam os
movimentos de independência anti-colonialistas e a forma como essas relações
refletiam no pensamento europeu de um modo geral:
(...) Não
como de costume, sempre que se trata de repúblicas latino-americanas, os
doutores e publicistas da política mundial se limitam a lavrar sentenças –
invariáveis e condenatórias. A ouvi-los, não há salvação possível para tais
nacionalidades. É, esta, uma opinião profundamente, absolutamente arraigada no
ânimo dos governos, sociólogos e economistas europeus. Como variante a essas
sentenças, eles se limitam a ditar, de tempos em tempos, uns tantos conselhos
axiomáticos; mas os ditam da ponta dos lábios, no tom em que o mestre-escola
repete ao aluno indisciplinado e relapso: “Se você me ouvisse, se não fosse um
malandro, faria isto e mais isto e isto...; mas você não presta para nada!...
Nunca será nada!... (BOMFIM, 1993, p.38)
Embora num tom mais generalista e de protesto,
o autor perfila neste período histórico a dificuldade em opor essa visão
etnocêntrica na qual se espelhavam nossas classes dominantes. Noutro âmbito,
torna-se fundamental a reflexão marxista de Prado Junior (1998), numa
compreensão econômica ao trazer a representatividade dos primeiros passos de uma
economia propriamente nacional, voltada para si e às necessidades da população.
Desde a formação do país, não houve
necessidade de guiar a população rumo ao seu destino, independente dos
interesses estrangeiros, germinando o condicionamento desfavorável ao mercado
externo para uma cultura de produção e consumo, nos moldes de uma
república capitalista moderna. Modelo que demorou a se instalar face a
estagnação herdada pela antiga ordem escravocrata, fortemente arraigada no
sistema do latifúndio monocultor. A crise mundial (1929) desencadeia no Brasil
as conseqüências daquilo que assentava sua vida econômica de exportação:
Que
grande futuro se pode esperar da produção de um gênero cuja situação é esta? O
mais grave contudo é que a lavoura cafeeira no Brasil se achava em franca
decadência. Sua produtividade e seus rendimentos declinavam, e em boa parte
delas os custos (apesar dos ínfimos salários pagos) tendem a ultrapassar o nível
de preços. Isso é repetição de uma velha história: já foi referido que em todas
as zonas sucessivas em que se desenvolveu a cultura do café, a diminuição da
produtividade seguiu de perto a fase da expansão (...). (PRADO, 1998, p.294)
Devemos entender a crise nacional/internacional
do café em 1929/1930 como um grande embate, não apenas da economia do café
agro-exportador, mas da estrutura fundiária vinculada ao trabalho manual. Ao
ex-escravo passando a compor um trabalhador servil nas grandes propriedades de
terra em diferentes regiões do país (8). A
reflexão do historiador Caio Prado já apontava no fim da República Velha um
modelo agrário que não atendia culturalmente ao crescimento de uma economia
urbano-industrial.
De fato, não houve no estado brasileiro do
século XIX uma tendência geral para o liberalismo burguês que, diferentemente do
nosso modelo territorialista de expansão, caminhou a passos rápidos na porção
hispano-americana. O liberalismo autonomista da América do Norte não influenciou
a nobreza decadente ligada à Casa Real que, ao instalar-se na colônia, manteve
uma obsessão pela unidade política: controlar os habitantes e centralizar o
território afastando-nos da América Espanhola de tendências iluministas
(WERNECK, 1975). Também para Fernandes (1975), o liberalismo burguês capitalista
após a independência (1822) era um “destino a ser conquistado no futuro”.
Daí pensarmos que durante a República Velha
(1889-1930), o estado oligárquico alimentava em sua vocação expansionista uma
necessidade de incorporar “valores civilizacionais”, por assim dizer, para todos
os habitantes deste novo país. Os “anti-sociais” (escravos africanos e
indígenas) dessa configuração imaginária, politicamente determinista e
excludente, apoiava-se no evolucionismo racial para gerenciar os rumos de um
país “moderno”.
Aquele/a saindo do trabalho manual das
lavouras e ocupando centros urbanos após a decadência do Império. Freyre
conhecia bem as teses eugênicas discutidas na Europa (9)
e não estava interessado numa adesão científica a tal xenofobia, mas cabia-lhe a
função de reinterpretá-las e fazer jus aos derrotados políticos de 30 (10).
Por um lado parecia fácil, o autor não se
considerava um acadêmico, ligado a universidades ou escolas profissionais
(embora tenha influenciado o surgimento de muitas). Escrever um livro sobre a
história do Brasil, enquanto intérprete do nordeste açucareiro pareceu uma
grande oportunidade, como costumava dizer, “para sua vocação de pensador livre”.
Aliás, como se referiu Darcy Ribeiro no prólogo à edição de CG&S na
Biblioteca de Ayacucho, em Caracas, Venezuela:
(...)
Sempre me intrigou, e me intriga ainda, que Gilberto Freyre sendo tão
tacanhamente reacionário no plano político – em declaração recente chega a dizer
que a censura de imprensa é, em geral, benéfica e que nos Estados Unidos a
censura é mais rigorosa do que em qualquer outro país do mundo – tenha podido
escrever esse livro generoso, tolerante, forte e belo. (RIBEIRO
apud
FREYRE, 2002, pp.11-12)
Seu estilo literário e ensaístico, de fato,
parecia mediar o outro Freyre conservador, defensor da colonização portuguesa no
plano cultural e, no plano político, do golpe de 1964 (11).
Com a Ditadura Militar e sua nova configuração internacional, se exigia
estratégias desenvolmentistas tardias como ensejo de instalar um capitalismo
semi-industrial no Brasil (12).
Antes, devemos considerar esse monumento da
literatura brasileira como um ideal de miscigenação. Paralelamente a tudo
isso, tornou-se conferencista visitante em universidades mundo afora,
contribuindo inclusive, para a consolidação das Ciências Sociais e quiçá, da
Sociologia (13). No Brasil, influenciou
historiadores, sociólogos e antropólogos no que concerne a pesquisa social.
Em 1956, por iniciativa do professor Henri
Gouhier, da Sorbonne, Freyre foi objeto de seminário no Castelo de Cerisy
(França). Roger Bastide, Jean Duvignaud e Georges Gurvitch, entre outros
convidados, classificaram-no como um “dos maiores, senão o maior sociólogo
moderno”. Vários de seus livros foram traduzidos para as línguas inglesa,
francesa, polonesa, húngara, espanhola, italiana, alemã, sueca, norueguesa e
japonesa (FREYRE, 2002).
Em 1946, é eleito deputado federal pelo Estado
de Pernambuco, participando da Assembléia Constituinte, experiência da qual
resultou o livro Quase política. Como deputado, apresenta em 1948,
Projeto de Lei que, aprovado, cria o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais. Em 1951, sistematiza no Instituto de Goa (Índia) os fundamentos da
Lusotropicologia. Tratava-se de uma tese que consistia em situar o homem dos
trópicos numa abordagem interdisciplinar de cultura, o homem híbrido, tropical,
provavelmente inspirada nos anos de pesquisa para CG&S.
Fato curioso é que após críticas ao seu
pensamento, como as de Fernandes (1975), em poucos anos essa visão tropicológica
do Brasil, por assim dizer, cai em desuso. É tida como discurso apologético à
colonização portuguesa. A crítica que se segue a Freyre é de que estaria
simpatizando com regimes colonialistas ainda presentes nas décadas de 40, 50 e
60 por países capitalistas ocidentais, como França, Espanha e Portugal.
Outras críticas acabam se desdobrando não
apenas a Casa-grande & senzala, mas a outros textos do autor, como O
mundo que o português criou (1940), Interpretação do Brasil (1947) e
Novo mundo nos trópicos (1971), entre outros trabalhos. Segundo Bastos
(2004), movimentos sociais e estudiosos das questões étnicas passaram a
denunciar o caráter hipócrita da tese, uma vez que o mito se baseia na afirmação
de que a ordem social é aberta a todos igualmente, forjando-se a crença de que
existe harmonia entre estrutura social e a estrutura racial na sociedade
brasileira.
Reflexão importante é a formulada por Sérgio
Buarque de Holanda a respeito da impropriedade da extensão e interpretação
acerca do patriarcalismo em outras regiões do Brasil e não apenas no nordeste do
açúcar. Afirma que o autor pernambucano aplicou erroneamente os conceitos
sociológicos de forma e conteúdo, desconhecendo a realidade histórica das
diferenças regionais do país (BASTOS, 2004, pp.233-34).
Bem, temos um bom motivo para
trazer não apenas críticas, mas enfatizar a importância deste livro para a
literatura nacional, tendo em vista seu pioneirismo no que diz respeito à
interpretação da formação de nossa sociedade. Hoje podem ser explicadas pelas
influências das teorias sociais difundidas naquele momento, a obra de Freyre é
um marco, um grande ensaio sobre as coisas do Brasil e seria bastante improvável
dizer que não aprendemos um pouco sobre nós mesmos em CG&S.
Referências
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trópico/Lourenço Dantas Mota (Org.). São Paulo: Senac, 2004.
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cultural. Celso Castro (Org.). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
BOMFIM, Manoel. A América
Latina, males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.
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silêncio dos vencidos: história e revolução. São Paulo: Brasiliense, 1994.
FAUSTO, Boris. História do
Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
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Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
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MEDEIROS, Maria Alice Aguiar.
O elogio da dominação: relendo Casa-grande & senzala. São Paulo: Achiamé,
1984.
N’KRUMAH, Kwame.
Neocolonialismo, último estágio do imperialismo. Rio de Janeiro: Editora
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www.nee.ueg.br/seer/index.php/revistaplurais/article/viewfile/67/92.
PRADO Junior, Caio. História
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do império. São Paulo/Rio de Janeiro: Companhia Melhoramentos de São Paulo,
1925.
WERNECK, Luiz. A revolução
passiva: iberismo e americanismo no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
(2)
Teoricamente, esta
seqüência aparece com Sobrados e Mucambos (1936), já explorando o fim da América
Portuguesa e início do Brasil Colônia propriamente dito (séculos XVIII e XIX).
Ver Freyre (1967).
(3)
“... À memória
de meus avós Francisca da Cunha Teixeira Mello, Alfredo da Silva Freire, Maria
Raimunda da Rocha Wanderley e Ulysses Pernambucano de Mello”.
(4)
A Antropologia
Cultural desenvolveu-se com os estudos pioneiros de Franz Boas. A tradução
no Brasil de alguns textos de Boas (2007) por Celso Castro é um valioso material
para entendermos um pouco dos conceitos sobre raça e cultura
formulados a partir de suas pesquisas de campo entre os Esquimós (norte do
Canadá) e tribos no oeste dos Estados Unidos (Índios
Pueblo). Já no século XIX, este
antropólogo teuto-estadunidense foi um árduo crítico do evolucionismo
científico em voga principalmente na Europa. O que Boas percebeu foi uma
interpretação equivocada das idéias de Charles Darwin (1809-1882) quando
publicou o seu A origem das espécies (1859). Os autores ocidentais
colocavam no ápice do processo evolutivo a própria sociedade em que viviam, ou
seja, europeus de maioria caucasiana.
(5)
Suas teses aparecem
nos trabalhos/textos principais entre livros que publicou, como Handbook of
North American Languages (cujo primeiro volume é de 1911), The Mind of
Primitive Man (1911, 2ª edição revista em 1938), Primitive Art (1927)
e Anthropology and Modern Life (1928).
(7)
Pedagogo, escritor e
pesquisador sergipano que traça um panorama do Brasil na América Latina a partir
do perfil dos intelectuais que criticavam a mestiçagem, designando-a como um
elemento degenerativo para a sociedade. O debate sobre “raças superiores” e
“raças inferiores” estava pautado no ponto de vista do colonizador europeu.
Bomfim negou a existência de povos atrasados e adiantados contrariando os
antropossociólogos admitidos como mestres em seu tempo (Gobineau, Lapouge,
Ammon, Chaberlain, Lombroso, etc.)
(10)
Um estudo mais
detalhado pode ser encontrado na pesquisa de Edgar de Decca (1994) sobre a
economia industrial no sudeste e sul após a chegada de Getúlio Vargas ao poder
republicano no Brasil.
(13)
Seus títulos
honoríficos são extensos. Gilberto Freyre recebeu prêmios e honrarias de
praticamente todos os centros universitários importantes de seu tempo. Na 46ª
edição de CG&S (FREYRE,2002) encontra-se um bom percurso bibliográfico e
profissional do autor recifense. Alguns prêmios notórios: Doutor Máximo
(1962), Universidade de Coimbra (Portugal). Prêmio Anisfield-Wolf (1957),
para a 2ª edição de Casa-grande & senzala. Doutor Honoris Causa (1965)
concedido pelas Universidades de Münster (Alemanha), Sussex (Inglaterra) e
Sorbonne (França).
(14)
Uma das críticas mais
duras a Freyre refere-se às suas relações diplomáticas com António de Oliveira
Salazar (1889-1970), Premiê português com tendências e inspiração claramente
fascistas, tendo apoiado os países do Eixo durante a 2ª Guerra Mundial
(1939-1945), entre eles Alemanha, Itália e Japão. Enquanto nações africanas como
Angola e Moçambique lutavam por sua independência política nos anos 60 e 70,
Freyre recebia condecorações do militar português durante sua estadia em
Portugal, à esta altura como divulgador de suas obras. PINTO, João Alberto da
Costa. Ver www.nee.ueg.br/seer/index.php/revistaplurais/article/viewFile/67/92.