Sobre o artigo[1]
Sobre o autor[2]
El 13 de agosto de 1521 heroicamente defendido por Cuauhtémoc cayó Tlatelolco en
poder de Hernán Cortés. No fue triunfo ni derrota, fue el doloroso nacimiento
del pueblo mestizo que es el México de hoy.
Jaime Torres Bodet[3],
em placa na Praça das Três Culturas, México DF.
Introdução
A memória histórica mexicana foi cristalizada no século XX como uma
memória mestiça. Desde fins do século XIX, a exaltação da “mistura de raças” que
gerara o “povo mexicano” acabou por se constituir em tema nacional e mito
fundador. O discurso da mestiçagem tornou-se o símbolo máximo da idéia de um
“mexicano puro”, superior por herdar todas as qualidades das raças que o
compuseram, em especial a indígena (asteca, em uma operação de toma do todo pela
parte) e a espanhola.
O mestiço tornara-se um lugar discursivo vitorioso, e distava de outras
teorias raciais que afirmavam que a mescla empobrecia o ser humano. De Justo
Sierra a Andrés Molina Enríquez e José Vasconcelos, a figura do mestiço foi se
perfilando ao futuro da nação, louvando-se a memória e o índio asteca como raça,
enquanto o lugar dos indígenas vivos se tornava cada vez mais ambíguo[4].
Ao afirmar que os índios atuais não eram os mesmos que os antigos, fosse pela
raça, fosse pela História, se lhes tirava a historicidade. Falar de índios
tornou-se construir o pitoresco, o quadro de costumes, uma cena estática de um
povo fora da História.
E, se os indígenas deixavam de ser os herdeiros da História mexicana e de seu
território, essa herança seria recebida pelos “verdadeiros” mexicanos, mestiços
de pele clara. “Se previa um período de transição de um ou dois séculos, depois
do qual, a operação estaria terminada: o mexicano teria assimilado,
perfeitamente, as qualidades do índio, mas sem mostrar o fenótipo deste último”[5].
Adolfo Duclós Salinas, jornalista político, membro da elite porfiriana, por
exemplo, profetizou em 1893 que em apenas mais um século o total da população
indígena já teria sido assimilado pela população mestiça, grupo que, para Justo
Sierra, constituía a família mexicana ‘propriamente dita’, e que, para Andrés
Molina Enríquez, seria o grupo mais forte, numeroso e patriota do país, porque
nele existiam unidade de origem, religião, tipo, língua, desejos, propósitos e
aspirações[6].
O México podia esperar um ou dois séculos. Afinal, já esperara tantos
outros. Ao iniciar-se o Porfiriato, a intelectualidade mexicana partilhava da
crença na História pátria, na unidade do povo para o bem e o progresso da nação.
O discurso sobre o índio, como vimos, mantinha-se ambivalente, entre a repulsa e
a assimilação excludente, a exclusão por fusão. Gérard Bouchard, analisando a
antiga idéia nascida no século XVIII (ou talvez antes, com os missionários
insistindo na integração pela catequese) de que a pretensa inferioridade
indígena não seria inata, mas uma condição que poderia ser eliminada por meio da
educação, reinventada e reestruturada ao longo do XIX, ainda agregou: “esta
concepción resurgió en México a principios del siglo XX, en el contexto de la
Revolución y, más tarde, después de 1940, también en el discurso de los
antropólogos que proponían una integración plena de los indios a la sociedad
blanca y mestiza[7]”.
Em suma, a mestiçagem, como mito de união nacional, sobreviveu ao regime de
Porfirio Díaz e recebeu uma espécie de consagração ao findar o primeiro quarto
do século XX, em pleno contexto revolucionário, com a publicação, em 1925, de
La raza cósmica, de José de Vasconcelos.
Nesse último movimento constitutivo, após a publicação de Vasconcelos, a
mestiçagem vai se afastando da integração (hierárquica) de todas as raças, para
concentrar-se na mescla desigual das “benesses” dos espanhóis com as indígenas.
Apenas depois da segunda metade do século passado e, em especial, nas últimas
décadas, a crítica da mestiçagem começou a ser feita em termos altissonantes o
suficiente para não ser abafada pelos elogios à tese. A crítica à teoria do
México mestiço “incluía
a subseqüente erosão das ‘regiões de refúgio’, como as comunidades indígenas
autônomas, do ponto de vista geográfico ou lingüístico, e da romantização ou
folclorização do índio e do negro, que diminuíam o alcance de seu engajamento
ativo nas práticas políticas contemporâneas”.
Explicações sobre como os criollos teriam se apropriado do passado
indígena e constituído o discurso da mestiçagem
Se a teoria da mestiçagem acabou contribuindo para a exclusão dos
indígenas na sociedade contemporânea, uma primeira questão chama a atenção:como
de categoria marginalizada em tempos coloniais, os mestiços tornaram-se uma
elite dominante no México? Para responder essa questão, houve algumas
proposições que analisaremos neste item.
Os mestiços (em especial filhos de espanhóis e indígenas) eram,
independentemente das discussões acadêmicas que se realizaram no século XX e
XXI, uma realidade física na Nova Espanha e engendraram uma preocupação imediata
por parte da Coroa e das autoridades coloniais. Mas o caminho para análise dessa
mestiçagem e sobre como os criollos apropriaram-se do passado indígena
como se esse fosse seu rendeu debates bastante diversos.
As primeiras instruções reais recebidas na América recém-encontrada, no
início do século XVI, recomendavam a união de espanhóis e indígenas. Agustín
Basave Benítez, rememorando essa legislação, revela que, em 1503, o governador
Nicolás de Ovando recebeu em Santo Domingo a instrução real para que tal união
fosse incentivada, com o intuito de transformar os indígenas em “gente de
razão”.
Oito anos depois, Fernando, o Católico escreveu ao vice-rei Diego Colombo
para que propiciasse a união legítima (autorizada formalmente apenas em 1514)
entre aqueles de ambos os continentes que viviam amancebados. Las Casas sugeriu
que filhos de trabalhadores espanhóis e índios fossem “mesclados”. O poderoso
cardeal Jiménez de Cisneros, de maneira pragmática, também via na união da
nobreza índia com varões espanhóis um instrumento que facilitaria o controle das
novas terras[9].
É lícito afirmar que a primeira geração de mestiços foi absorvida ou pela
linhagem paterna ou, mais comumente, pela materna. A aparição do termo “mestizo”
na documentação colonial deu-se na década de 1530, já relacionada a indivíduos
que não tinham quaisquer afiliações com seus grupos parentais e que se tornavam,
por essa ausência de raízes definíveis, sinônimo de bastardos e de filhos
ilegítimos: afinal, aqueles que eram adotados pelas culturas paterna ou materna
não recebiam essa nomenclatura. “Como um resultado dessa perceptível falta de
afiliação cultural, mestizos eram, comumente, banidos de posições de
poder e prestígio. […] Já ao final do século XVI, mestizos e mulatos
tinham crescido em número para se tornarem uma massa de errantes de raça mista,
tornando-se a quintessência dos párias da Nova Espanha”[10].
Não obstante “mestiço” tenha se tornado sinônimo de “bastardo”, as uniões
(na maior parte das vezes, informais) entre espanhóis e indígenas grassaram. Na
população da cidade do México em fins do século XVIII, os documentos dividiam a
população como 50% de “brancos”, dos quais apenas 2% não eram criollos. O
restante da composição populacional da capital era de 24% qualificados como
“índios” e o restante quase inteiramente de “mestiços” (além da considerável
presença de negros e asiáticos). Mas isso não refletia o restante do vice-reino,
no qual a percentagem de “brancos” era da ordem de 18%, 17,8% deles criollos,
e de 60% de indígenas, sendo o restante de mestiços, negros e asiáticos[11].
Logo, enquanto caracterizou-e o discurso do “nós” em torno da figura do
criollo, e do outro como o “índio” (sem considerar as muitas etnias que
compunham esse amálgama sem rosto), o mestiço figurava como um “não-lugar”
discursivo.
Nessa sociedade profundamente dividida por critérios de mistura de sangue,
o primeiro passo na direção de uma mestiçagem do discurso histórico deu-se
quando a elite criolla literalmente expropriou o passado pré-hispânico dos
indígenas e o converteu em seu. Para alguns autores, como David Brading[12]
e Augustín Basave Benítez[13],
o fato de os criollos terem começado a equiparar o passado indígena ao
greco-romano dizia respeito a uma solução discursiva que reclamou para si o
pretérito asteca. Adotar o esplendoroso passado indígena (uma vez que não havia
quem mais o reclamasse) era desvincular-se por completo da miséria do índio vivo
e da incerteza e da bastardia do mestiço. Já para outra corrente
historiográfica, homens como Sigüenza y Góngora mostravam as grandezas do
passado asteca, mas sem tomar esse passado como seu:
Detrás de estas versiones retóricas de un pasado indígena imperial (a la romana)
se buscaba acabar con la discriminación hacia los criollos y crear imágenes de
prestigio.
El mundo indígena prehispánico no era aún visto como el pasado de los criollos,
sino sólo como un medio para dar a la patria un timbre de orgullo, para cambiar
la imagen que de ella tenían los europeos, que no creían que en América se diera
nada bueno.
Con todo, junto a la recuperación que Sigüenza hacía del pasado con las armas
retóricas de su tiempo, estaba también su interés científico de anticuario por
preservar y coleccionar códices, mapas y documentos indígenas[14].
Já no Século das Luzes, enquanto a Europa punha-se cada vez mais como
centro irradiador da civilização e do progresso, da cultura e do conhecimento,
consolidaram-se no Velho Mundo as distinções entre “selvagens” (como os
indígenas do Brasil) e os “bárbaros” ou “semi-civilizados” (astecas e incas).
Enquanto no continente europeu se descreviam essas sociedades, diminuindo sua
importância e lugar histórico, o criollismo estava candente e produzia,
na América, verdadeiras peças de defesa aos ataques discursivos sofridos. Com
muita erudição, foi nesse século que a clivagem entre índios vivos e
“históricos” atingiu maior sofisticação.
Federico Navarrete Liñares, historiador mexicano, acredita
(assemelhando-se a Brading) que esse “empréstimo” do passado indígena por parte
dos criollos se explique pelas circunstâncias das relações interétnicas
no vice-reino. Para diferenciarem-se dos espanhóis que os discriminavam, os
criollos não podiam usar nem critérios lingüísticos, nem religiosos, nem
culturais, pois eram os mesmos que os peninsulares partilhavam. Ademais, eram
justamente o idioma espanhol, o catolicismo e as formas europeizadas de sua
cultura que diferenciavam o grupo criollo dos indígenas e das castas,
tornando-o superior às demais etnias da Nova Espanha.
Para construir uma identidade própria no presente, os criollos
tiveram que construir para si um passado diferente daquele dos espanhóis. Dessa
forma, passaram a se considerar herdeiros da glória das grandes civilizações
indígenas. Uma ressalva na escolha deste passado completa a teoria de Navarrete:
“Los criollos asumieron como propia la historia de los mexicas precisamente
porque éste era el grupo indígena que había sido vencido por los españoles y no
era uno de sus aliados vencedores, como tlaxcaltecas.
De esta manera, los criollos se inventaron un pasado indígena, pero un pasado
que había sido derrotado y subyugado por ellos mismos, lo que servía para
justificar su superioridad sobre los indígenas contemporáneos.
[…] En suma, la identificación con el pasado indígena no implicaba una
identificación con indígenas del presente, sino que servía para marcar una
diferencia con los españoles[15]
”.
Já para John Leddy Phelan, o fato de criollos terem escolhido o passado
asteca pode parecer incongruente, afinal esse grupo não tinha afinidade
sangüínea com os índios vivos e seus ancestrais astecas. Em segundo lugar, a
sociedade colonial era rigidamente baseada no sistema de castas, com os
criollos ocupando uma posição social de um lado diametralmente oposto ao dos
índios. Se os criollos não estavam procurando uma restauração consciente
dos ideais culturais dos astecas, como explicar essa aproximação?
Para o historiador norte-americano, as origens do que ele chamou de
“neo-astequismo” no século XVIII estavam relacionadas à memória produzida pelos
cronistas religiosos das primeiras décadas do vice-reino: “The early
missionaries were animated by the conviction that the new Indian Church was a
return to the spirit of the primitive Apostolic Church of Christ’s time.
Since the sixteenth-century Indian Church appeared like the primitive Church,
the pre-conquest period in America became analogous to the pre-Christian era in
Europe, that is, classical antiquity[16]”.
A literatura acadêmica sobre a mestiçagem no México
Uma segunda pergunta a responder é: como as discussões acadêmicas mais
recentes têm abordado a questão do mestizo no México. A literatura sobre
“mestiçagem” divide-se, grosso modo, em duas correntes, denominadas por Marilyn
Grace Miller[17]
como uma divisão somática e uma proposição semiótica para a questão da
mestiçagem. Uma busca estudar a formação do país do ponto de vista “étnico” ou
“racial”, dividindo a população mexicana ou vice-reinal a partir de dados
obtidos em censos oficiais ou em estatísticas fornecidas por cronistas,
estudiosos ou autoridades de cada uma das épocas abordadas. Essa corrente de
pensamento usualmente aponta para o crescente percentual da população mestiça do
México ao longo dos séculos, em proporção inversa ao decréscimo da população
indígena e branca (quando não também da população negra e asiática). Através de
estudos estatísticos, tenta-se provar que o México, de fato, tornou-se um país
majoritariamente mestiço, entendendo a mestiçagem em seu sentido biológico,
mescla de duas ou mais diferentes heranças de “sangue”, “raça” ou “gene”.
Mas há inúmeros questionamentos a tal pensamento. O primeiro deles, dentro
da corrente da semiótica da mestiçagem, relaciona-se ao próprio conceito de
mestiço e às divisões da humanidade a partir de características físicas,
morfológicas e fenotípicas[18].
Outro se refere aos critérios utilizados no contexto mexicano para se dividir a
população.
O conceito de “raça” foi empregado de forma polissêmica ao longo da
História. No início do século XVI, estava ligado indissoluvelmente à categoria
ibérica de Limpeza de sangue: “where the absence of Jewish and Muslim blood
defined an honorable Christian.
In some instances the term was used more to refer to groups of people of common
origin”.
Já em fins do XVIII,“raça” tornou-se um conceito mais secularizado e era
utilizado para referir-se à linhagem à qual um indivíduo pertencia. Também em
fins da mesma centúria, mas principalmente no século seguinte, emergiu uma noção
de “raça” baseada em distinções genéticas e biológicas: “It argued that human
differences were ‘scientifically’ ascribed instead of based on religion”[19].
Ilona Katzew ainda mapeou outra forma de abordar a mesma questão. A partir dos
anos 1960, deu-se um debate sobre a sociedade mexicana colonial, que girou em
torno de sua estratificação e que tomou conta de parte da historiografia
norte-americana. De um lado, havia os que propunham as posições de casta,
racialmente definidas, como as principais forças a moldar a sociedade colonial:
o status que se tinha era decorrente da condição de nascimento[20].
Para o outro lado da discussão, questões de classe, como riqueza e ocupação,
especialmente no fim do período de domínio espanhol, tinham importância muito
maior na localização social de um indivíduo[21.
Patricia Seed[22]
refere-se a esse debate como um “não-debate” e oferece considerações que
mesclariam as noções estatutárias e econômicas na definição do lugar social das
pessoas na Nova Espanha. De nossa parte, podemos agregar que a discussão sobre
raça e classe foi muito forte na historiografia norte-americana da década de
1960 e que isso se ligava a preocupações candentes à época, como a luta pelos
direitos civis ou o caráter do liberalismo na Guerra Fria. Nesse sentido, foram
utilizados, naquela discussão, conceitos anacrônicos de raça e classe para
analisar uma sociedade de Antigo Regime, cujas raízes haviam migrado da Espanha
e de instituições medievais de Limpeza de sangue.
Existem outras formas de abordar o conceito de mestiço, das quais
destacaremos duas, bastante opostas, mas ambas ligadas à chamada Etno-História,
movimento de fusão entre proposições da Antropologia e da História, que se
solidificou a partir dos anos 1960. A primeira delas é a idéia de que houve uma
mistura mensurável que foi tanto física e estética, quanto de crenças e de
costumes. Entender como se operaram essas mesclas com o intuito de compreender
fenômenos contemporâneos, como a globalização e a World culture, é o
projeto de trabalho do historiador francês Serge Gruzinski.
Suas pesquisas giram em torno de dois conceitos: mestiçagem e
globalização, este último entendido como expansão dos valores ocidentais
(“ocidentalização”), bem como na sua aceitação, recriação ou rejeição. Esses
dois termos seriam estreitamente ligados e fariam da mestiçagem um fenômeno
incontrolável, inevitável, que teria engendrado o mundo contemporâneo,
globalizado, desde os tempos da expansão ibérica na modernidade:
“Se fosse mais bem conhecido, o século XVI da expansão ibérica [...] nos
proibiria evocar a globalização como uma situação inédita e recente. Os
fenômenos de misturas e de rejeição que atualmente observamos por todo lado em
escala planetária tampouco têm esse caráter de novidade que costuma lhes ser
atribuído. Desde o Renascimento a expansão ocidental não parou de provocar
mestiçagens nos quatro cantos do mundo e reações de rejeição [...]. as primeiras
mestiçagens de projeção planetária aparecem, assim, estreitamente ligadas às
premissas da globalização econômica iniciada na segunda metade do século XVI, um
século que, visto da Europa, da América ou da Ásia, foi por excelência o século
ibérico, assim como o nosso [XX] se tornou o século americano”[23].
O pesquisador francês trabalhou com a premissa de que o contato advindo
da Conquista e da colonização teria gerado “desde os primeiros tempos, a
mestiçagem biológica, isto é, a mistura de corpos – quase sempre acompanhada
pela mestiçagem de práticas e crenças”
[[24].
Essas mestiçagens só poderiam ser entendidas quando inscritas numa fase de
expansão da Europa e num contexto de colonização. De outra forma, seríamos
impedidos de entendê-las, reduzindo-as a meros fenômenos culturais.
Por mestiçagem, Gruzinski designou “as misturas que ocorreram em solo
americano no século XVI entre seres humanos, imaginários e formas de vida,
vindos de quatro continentes – América, Europa, África e Ásia”. Diferenciou
esse conceito de hibridação, aplicado às “misturas que se desenvolveram
dentro de uma mesma civilização ou de um mesmo conjunto histórico – a Europa
cristã, a Mesoamérica – e entre tradição que, muitas vezes, coexistem há séculos”[25].
A combinação de ambas as categorias levaria a compreensão da construção do
“pensamento mestiço”. As mestiçagens e as hibridações teriam um componente
objetivo, observável em fontes variadas, mas também poderiam ser compreendidas
no estudo da “consciência que os autores do passado” tinham desses processos.
Essa segunda dimensão da mestiçagem poderia ser encontrada tanto nas
manipulações como nas construções presentes nos discursos e condenações que
esses personagens de antanho elaboraram.
Se as teses de Gruzinski acreditam na força do “pensamento mestiço” e nas
possibilidades que ele traria para entender a contemporaneidade, Navarrete,
professor da Universidade Autônoma do México, parece trilhar o caminho oposto.
Essa visão diferente postula que o discurso da mestiçagem pode também silenciar
as possibilidades de pluralidade. Partindo da premissa da etnogênese[26],
o historiador mexicano escreveu que e visão unitária da identidade mestiça
entrou em crise, especialmente em seu país, onde foi atacada pela pluralidade
dos grupos sociais que não se identificam com a chamada “ideologia da
mestiçagem”.
Outra discordância frontal que Navarrete faz da teoria do elogio da
mestiçagem de Gruzinski reside no uso da História. Se para o professor da “École
des hautes Études en Sciences Sociales” de Paris o estudo da História
permite compreender fenômenos atuais, o intelectual mexicano acredita que os
problemas de hoje pouco ou nada se relacionam, de forma causal, com o
passado:
“al contrario de la historia oficial que ve la situación actual de los indios
como una prolongación de la explotación en la época colonial, o que intenta
explicar su cultura únicamente con referencia a las culturas prehispánicas, la
condición actual de los indios debe comprenderse como resultado de las
relaciones de dominación, segregación y explotación a las que son sometidos en
el presente de la manera en que su cultura se ha adaptado a esta situación. En
suma, el pasado no debe usarse como una justificación para no examinar el
presente. Si en México los indios son discriminados, la razón no se encuentra
solamente en lo que pasó hace 500 anos, o hace 50, sino en lo que está pasando
ahora”.
Navarrete distingue dois tipos de mestiços quando pensa a História do México: o
colonial e o moderno. O primeiro ocupava papel secundário entre as grandes
categorias étnicas (espanhóis e índios), não desenvolvendo uma identidade de
grupo muito forte, pois muitos deles acabaram incorporados a alguma das
categorias majoritárias. O segundo tipo de mestiço, embora tenha emprestado o
nome dessa categoria étnica colonial, e tenha inventado para si uma História
que o tornava descendente de tais filhos de espanhóis e índias, era muito
diferente. Os mestiços modernos não eram resultado de um “proceso biológico
de mezcla entre dos ‘razas’ diferentes, la indígena y la blanca, sino de un
proceso de cambio cultural, social e identitario.
Por otro lado, lejos de ser un grupo marginal, se han convertido en el grupo
dominante y han definido la identidad nacional mexicana”.
Esse segundo grupo acabou constituindo uma “ideologia da mestiçagem”, “doctrina
racial y nacionalista elaborada por diversos intelectuales a finales del siglo
XIX y principios del XX, que se convirtió en la ideología oficial del Estado
mexicano”.
Conclusão
Ao tentar construir uma nação homogênea, em moldes europeus, nos quais um povo,
uma raça única, habitava um território delimitado, compartilhando tradições,
História e costumes, o liberalismo mexicano do século XIX precisou forjar um
consenso coletivo do qual acreditava depender a sobrevivência do país. Esse
consenso foi a teoria da mestiçagem.
A segunda metade do século assistiu a intensos movimentos migratórios,
principalmente um êxodo rural, graças ao desenvolvimento das estradas e da
industrialização. Era o triunfo liberal que o Porfiriato consolidaria. Nele, o
indígena não encontrava muito espaço, “porque essa figura colonial pertencia ao
paradigma de uma História pré-hispânica, salvífica, apoiada na teleologia
cristã”. Lentamente, essa “antiga figura” foi sendo incorporada na teoria da
mestiçagem, “construída segundo o novo paradigma da historiografia científica e
nacional”[29].
Crer na mestiçagem obrigava a conciliar hispanofilia e indigenismo em benefício
próprio. Cortés passou a ser visto como astuto, um mal necessário. Em
contrapartida, louvavam-se também os missionários (tão distantes do corrupto
clero) e seu zelo inabalável. Dos indígenas herdava-se apenas aquilo que se
considerava bom; do espanhol também. Negava-se a violência do segundo e as
“crendices torpes” dos primeiros.
Ao longo deste trabalho assistimos a um processo pelo qual os indígenas foram
amalgamados em um bloco homonímico e tiveram sua historicidade subtraída:
expulsos do discurso histórico-nacional, tornaram-se objetos de estudos
acadêmicos nas áreas de História, Antropologia, Etnologia e Arqueologia e pelo
cruzamento delas. Transformaram-se em figuras atemporais, uma vez que, em um
esforço originado em um discurso criollo, reinventado ao longo do século
XIX, os índios vivos deixaram de ser associados aos antigos. Tirando sua
historicidade como grupo, viraram uma espécie de quadro de costumes[30].
Monumentos erguidos à celebração do mestiço, como a organização e exibição
das informações na Praça das Três Culturas, no México, acabam se tornando
datados em sua pretensão de eternidade. Celebrando uma cultura modernista e
urbana, culminância do progresso do projeto da mestiçagem, entre os anos de
1964 e 1965 os arquitetos Mario Pani e Ricardo de Robina levaram a cabo uma
imensa restauração em Tlatelolco. Pani em especial, como diretor geral da obra
na Praça das Três Culturas, Zona Arqueológica, Igreja de Santiago de Tlatelolco
e do Colégio de la Cruz e Tecpan, foi o responsável pela disposição ao visitante
das ruínas astecas, da Igreja colonial e dos prédios modernos, triunfo da
mestiçagem.
Projeto ousado, não resistiu em seu ideal romântico, ao massacre de 1968, ao
terremoto de 1985 e às experiências em Chiapas, em 1994: “analysts
who typically focused only on texts had to admit that through the symbolic portrayal
of mestizaje
in material projects such as the Plaza de las Tres Culturas
in Tlatelolco, Mexico, attention could be deflected from the everyday experience
of nonwhite or nonurban communities that did not share the values and goals
of the mestizo majority”
(Miller:
2004, 4).
[1]
Esse texto é resultado de pesquisa financiada pelo CNPq e parte de uma
investigação maior sobre a questão da mestiçagem no México. Ver
Fernandes, Luiz E. O. Patria Mestiza: Memória e
História na invenção da nação mexicana entre os séculos XVIII e XIX.
Tese de Doutorado. Campinas, SP: [s. n.], 2009.
[2]
Pós-doutorando em História pelo Departamento de História do
IFCH-Unicamp.
[3]
A autoria da frase é atribuída ao poeta Torre Bodet pelo site do INAH
(http://dti.inah.gob.mx/index.php?option=com_content&task=view&id=962,
acessado em 18 de junho de 2009) e por
Schulte, Francisco.
Mexican spirituality:
its sources and mission in the earliest Guadalupan sermons.
Maryland: Rowman & Littlefield, 2002, pp. 1 e 2.
[4]
Rozat
Dupeyron, Guy. Los
Orígenes de la Nación: pasado indígena e historia nacional. Mexico:
Universidade Iberoamericana/Conacutla,
2001, p. 15.
[5]
Bouchard.
Gérard. Génesis de las naciones y culturas del Nuevo Mundo:
ensayo de historia comparada. México: Fondo de Cultura Económica, 2003,
p. 264.
[6]
González Navarro,
Moisés. “El
mestizaje mexicano en el periodo nacional”. Revista Mexicana de
Sociología, Vol. 30, No. 1.,
Jan. - Mar., 1968, p. 38.
[7]Bouchard,
Op.
Cit., pp. 259, 263-264. Tradução: “este conceito ressurgiu no México em
princípios do século XX, no contexto da Revolução e, mais tarde, depois
de 1940, também no discurso dos antropólogos que propunham uma
integração plena dos índios com a sociedade branca e mestiça”.
[8]
Miller,
Marilyn Grace.
Rise And Fall Of The Cosmic Race.
Austin: University of Texas Press, 2004, p. 4.
[9]
Basave
Benítez, Agustín. México mestizo: Análisis del nacionalismo
mexicano en torno a la mestizofilia de Andrés Molina Enríquez.
México: FCE: 1992, pp. 17-18.
[10]Katzew,
Ilona. Casta Painting: Images of Race in Eighteenth-century
Mexico. >New Haven: Yale University
Press, 2005, p. 40.
[11]
Merino,
Mauricio. “La formación del Estado nacional mexicano: pasado colonial,
ideas liberales y gobiernos locales” IN: Colom González, Francisco.
Relatos de nación: la construcción de las identidades nacionales en
el mundo hispánico. México:
Iberoamericana/Vervuert, 2005, p. 339.
[12]
Brading, David.
Los Orígenes del nacionalismo mexicano. México: Era,
1985, p. 37-42.
[13]Basave
Benítez, Op. Cit., pp. 18-20.
[14]
Rubial García,
Antonio. “Nueva España: imágenes de una identidad unificada” IN:
Florescano, Enrique (Coord.). Espejo mexicano. México:
Conacutla/Fundación Miguel Alemán/FCE,
2002,
p. 88. Tradução:
“Por trás destas versões retóricas de um passado indígena imperial (a la
romana) se buscava acabar com a discriminação com os criollos e criar
imagens de prestígio. O mundo indígena pré-hispânico não era ainda visto
como o passado dos criollos, apenas como um meio para dar à
pátria um timbre de orgulho, para mudar a imagem que dela tinham os
europeus, que não acreditavam que na América pudesse haver qualquer
coisa boa. Contudo, junto à recuperação que Sigüenza fazia do passado
com as armas retóricas de seu tempo, estava também seu interesse
científico de antiquário por preservar e colecionar códices, mapas e
documentos indígenas”.
[15] Navarrete
Liñares, Federico.
Las relaciones
interétnicas en México.
México: UNAM, 2004, p. 65. Tradução: “os criollos assumiram como
própria a história dos mexicas precisamente porque este era o grupo
indígena que havia sido vencido pelos espanhóis e não era um de seus
aliados vencedores, como os tlaxcaltecas. Desta maneira, os criollos
inventaram para si um passado indígena, mas um passado que havia sido
derrotado e subjugado por eles mesmos, o que servia para justificar sua
superioridade sobre os indígenas contemporâneos. […] En suma, a
identificação com o passado indígena não implicava uma identificação com
indígenas do presente, mas servia para marcar uma diferença com os
espanhóis”.
[16]
Phelan,
John Leddy. “Neo-Aztecism in the eighteenth century and the genesis of
Mexican Nacionalism”. IN: Diamond, Stanley, ed., Culture in History:
Essays in Honour of Paul Radin.
Nova York: Columbia University Press,
1960, p. 760. Tradução: “Os
primeiros missionários eram animados pela convicção de que a nova Igreja
indiana era um retorno ao espírito primitivo da Igreja apostólica dos
tempos de Cristo. Uma vez que a Igreja indiana do século XVI parecia com
a Igreja primitiva, o período pré-Conquista tornou-se análogo à era
pré-cristã na Europa, ou seja, a Antiguidade Clássica”.
Phelan ainda escreveu: “The deities of the Aztecs were developed in an
atmosphere suggestive of the gods of the Greek and the Romans. The Aztec
rulers took on the virtues of heroic Roman emperors. Each Aztec rulers
took on the virtues of heroic Roman emperors. Each Aztec sovereign was
thought to personify a classical virtue. The Council of the Republic of
Tlaxcala became enfused with an aura of a Roman senate. In saluting the
arrival of the viceroy, the Conde de Paredes, Sigüenza y Góngora urged
representative of the crown to seek inspiration in the classical virtues
of the Aztec emperors”. Op. Cit., p 761.
[17]
Miller, Op. Cit., p. 7.
[18]
Sobre essa divisão do mundo a partir de raças e a crítica a ela,
recomendamos Gilroy, Paul.
Against Race:
Imagining Political
Culture Beyond the Color Line.
Harvard University Press, 2000.
Em entrevista, a historiadora Célia M. Marinho Azevedo afirmou “O
conceito de raça, no sentido científico do termo, pode ser datado do
século XIX, finais do século XVIII, ganhando cada vez mais força no
final do século XIX e passagem para o século XX. O conceito científico
de raça significa pensar o mundo dividido em raças, ou seja, a
humanidade não é aquela humanidade em que todos somos iguais, criados
por Deus, mas sim dividida em diversas raças. Com o darwinismo social do
século XIX estabelece-se que há raças distintas e que as mais fortes
conseguem sobreviver, derrotando as mais fracas.
A palavra raça é mais antiga, vem do século XVII quando se usava o termo
mais para designar coisas diferentes, usava-se, por exemplo, o termo
‘sangue azul’ para designar os nobres. Mas não havia uma ciência que
pensava a raça e a divisão da humanidade em raças. Isso só é estruturado
a partir do século XVIII. As pesquisas e os livros sobre raças são
publicados sobretudo nos séculos XIX e XX. Alguns historiadores acham
que a noção de raça nesse sentido científico que a gente usa hoje vem
desde os séculos XIV e XV, que esse olhar racista sobre a humanidade
seria quase que ahistórico, isto é, estaria fora da História. Desde os
gregos antigos, havia uma idéia de que há raças que são nascidas para
serem inferiores, para servir às classes superiores. Eu pessoalmente
acho que o discurso científico e sistematizador sobre as raças é de
finais do século XVIII e início do XIX. É importante perceber que essa
idéia não ficou apenas na cabeça dos cientistas, essa idéia foi levada à
população. As pessoas se pensam como pertencentes a raças”. (IN
http://www.integral.br/zoom/materia.asp?materia=141, acesso em 29 de
setembro de 2009)
[19]
Katzew,
Op. Cit., p. 210. Tradução:
“onde a ausência de sangue judeu ou muçulmano definia um cristão
honorável. Em alguns casos, o termo era mais usado para se referir a um
grupo de origem comum”; “argumentava-se que as diferenças humanas eram
‘cientificamente’ relacionadas, ao invés de baseadas na religião”.
[20]
Ver Cook, Sherburne F.& Borah, Woodrow. The Indian Population of
central Mexico, 1530-1610. Berkeley: University of California Press,
1960; McCalister, Lyle N. “Social structure and social change in New
Spain”. Hispanic American Historical Review 43, no. 3, 1963, PP.
349-370; Mörner, Magnus. Race mixture in the History of Latin America.
Boston: Little Brown, 1967.
[21]
Ver Chance, John K. & Taylor, William B. “Estate and class in a colonial
city: Oaxaca in 1792”, Comparative Studies in Society and History
19, no. 3, 1977, pp. 454-487; McCaa, Robert; Schwartz, Stuart &
Grubessich, Arturo, “Race and class in Colonial Latin America: a
critique”. Comparative Studies in Society and History 21, no. 3,
1979, pp. 421-433.
[22]
Seed,
Patricia. “Social Dimensions of Race: Mexico City, 1753”.
Hispanic American Historical Review, 62, no. 4, 1982.
[23]
Gruzinski, Serge. O
pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, PP.
18-19.
[26]
“El concepto de ‘etnogénesis’, que quiere decir literalmente ‘creación
de la etnicidad o de lo étnico’, nos permite comprender mejor la
compleja relación entre continuidad y cambio en las identidades
étnicas. Según esta idea, las sociedades modifican y reinventan
continuamente su identidad étnica para adaptarse a las circunstancias
cambiantes y a las diferentes relaciones interétnicas en que participan.
En este proceso creativo utilizan los elementos heredados de su pasado
y también elementos nuevos, muchas veces tomados de los otros grupos
étnicos con que se relacionan” (Navarrete,
Op. Cit.,
p. 35).
[27]
Op. Cit. p. 34.
Tradução: “ao contrário da História oficial que vê a situação oficial
dos índios como um prolongamento da exploração colonial, ou que procura
explicar sua cultura unicamente fazendo referências às culturas
pré-hispânicas, a condição atual dos índios deve ser compreendida como
resultado das relações de dominação, segregação e exploração a que são
submetidos no presente, de forma que sua cultura se adaptou a essa
situação. Em suma, o passado não deve ser usado como justificativa para
não examinar o presente. Se no México os índios são discriminados, a
razão não se encontra somente no que se passou a 500 anos, ou a 50, mas
no que está acontecendo agora.”
[28]
Op. Cit. pp. 78 e 79. Tradução: “processo biológico de mescla entre duas
‘raças’ diferentes, a indígena e a branca, sem um processo de mudança
cultural, social e identitária. Por outro lado, longe de ser um grupo
marginal, converteram-se no grupo dominante e definiram a identidade
nacional mexicana”; “doutrina racial e nacionalista elaborada por
diversos intelectuais em finais do século XIX e princípios do XX, que
se converteu na ideologia oficial do Estado mexicano”.
[29]Rozat,
Op. Cit., pp. 13 e 15.
[30]
“Esta visión coloca a las culturas indígenas fuera de la historia, pues
ve los cambios que inevitab1emente han experimentado en los últimos
quinientos año desde la llegada de los europeos como negativos y como
una pérdida de su autenticidad. Así, niega a las culturas indígenas la
posibilidad de cambiar sin perder su identidad y por ello las priva de
un futuro propio. En suma, concibe a los grupos indígenas como
sobrevivencias del pasado que deben ser valoradas y cuidadas casi como
piezas de museo, y no como seres históricos que han sido capaces de
transformar su cultura y su sociedad.
Por otro lado, esta concepción presenta una imagen igualmente
simplificada de los mestizos pues reduce la riqueza y pluralidad de sus
culturas a una sola característica, la modernidad. Según la ideología
del mestizaje, los mestizos deben estar orgul1osos de su pasado
indígena, pero en el presente deben hacer suya la cultura de la
modernidad para así poder progresar.
De acuerdo con esta visión, entonces, los indígenas son los custodios de
una tradición que pertenece al pasado y que no tiene futuro, los
mestizos son los custodios de una modernidad que pertenece al futuro y
que debe dejar atrás el pasado, glorificándolo en museos y libros, pero
no viviendo de acuerdo con él. Escindidos en este falso dilema entre
tradición y modernidad, pareciera que los mexicanos en general no
podemos encontrar una manera de buscar nuestro futuro sin negar nuestro
pasado, ni de decidir cómo queremos combinar la tradición y la
modernidad”. Navarrete, Op.
Cit., pp. 14-15.
[31]
Miller, Op. Cit., p. 4. Tradução: “analistas que tipicamente focaram-se apenas em textos tiveram
que admitir que através da caracterização simbólica da mestizage
em projetos materiais como os da Plaza de las Tres Culturas, em
Tlatelolco, Mexico, a atenção podia ser desviada da experiência
cotidiana de comunidades não brancas e não urbanas que não
compartilhavam os valores e objetivos da maioria mestiza”.