ISSN 1807-1783                atualizado em 29 de outubro de 2010   


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Da festa à inserção: louvores e glória a um santo pardo no Recife (1745)

por Janaína Santos Bezerra

Sobre a autora *

 

O mais ínclito mártir, a quem guarda
E festeja a gente da cor parda
Em o templo, ou igreja do tal povo
Com zelo colocado santo novo
É o objeto do aplauso tão decente
E a quem vênia toma o presente[1]

 Em meados do século XVIII, mais especificamente no ano de 1745, o Recife foi palco de um “grandioso festejo”[2] religioso e profano, realizado e patrocinado pelos homens pardos[3], em homenagem a São Gonçalo Garcia, um santo pardo. A questão da cor do Santo e sua relação com a santidade foram motivo de inquietações, polêmicas e múltiplas discussões, o que caracterizou o evento como uma verdadeira manifestação de aclamação à cor parda, assim como uma oportunidade de os envolvidos na polêmica tecerem negociações políticas com o intuito de alcançar inserção social.

Nessa ocasião, um grupo de pardos de Pernambuco, a Irmandade do Livramento, e os franciscanos se uniram em prol da mesma causa: a eleição e a institucionalização de devoção a um santo pardo, embora os interesses sociais desses agentes, as conquistas que almejavam, fossem diversos. Era visível que a população parda vinha crescendo quantitativamente em Pernambuco, e esse crescimento gerou ambições por parte desses indivíduos mestiços que, de suas novas posições, almejavam reconhecimento social, motivo que pode ser apontado aqui como uma das principais causas impulsionadoras a levar os pardos a se auto-homenagear, ou seja, serem protagonistas de tamanho espetáculo. Nessa conjuntura, os franciscanos, através da pessoa de Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão e Manuel da Madre de Deus, aparecem como figuras centrais ao divulgar o culto a São Gonçalo Garcia, uma vez que ele também era um franciscano. A Irmandade do Livramento dos Homens Pardos do Recife também abraçou a causa, e, aliando-se aos franciscanos, estabeleceram uma frente de ação para criar um espaço onde pudessem negociar seus interesses. A imagem do santo, como ícone representativo desse poder em constituição, ocuparia um de seus altares colaterais, o que lhe proporcionaria maior visibilidade enquanto instituição religiosa e caritativa.

No mundo ibérico, o Santo foi um importante aliado do Estado e da Igreja; seu exemplo, no que tange a virtude e santidade, bem como sua subordinação aos poderes instituídos foi um instrumento para conformar os comportamentos sociais tanto para brancos quanto para os chamado homens de cor[4]. O Catolicismo procurou estimular a devoção aos santos de cor, usados juntamente com as irmandades, como estratégia para promover a conversão dos negros, em particular nos núcleos urbanos, através da ação associada do clero secular e das ordens religiosas. Para isso, idealizaram modelos de santidade negra. Nesse sentido, o século XVIII viu intensificar-se a ação das Ordens, que contavam com experientes hagiógrafos no Ocidente Cristão, na difusão de modelos de santidade que pudessem auxiliar na conversão de africanos e seus descendentes. No Brasil, o culto de Santo Elesbão e de Santa Efigênia contou com o destacado e significativo papel da Ordem do Carmo, idealizadora de uma proposta de catequese para os negros, inserindo o projeto num contexto de disputa com as demais ordens religiosas, por maior representatividade no interior da cristandade colonial.  As ações dos franciscanos na divulgação do culto a São Benedito, “santo preto”, descendente de escravos africanos, é um bom exemplo dessa disputa.

Também o culto à Imaculada Conceição, no início do século XVIII, pode ter-se beneficiado dessa luta entre as Ordens, quando os religiosos franciscanos se empenharam em reforçá-lo. “Tradicionalmente”, os franciscanos foram os promotores da crença da Imaculada Conceição entre os leigos, desde o período medieval, quando, em seus sermões e pregações, insistiam na eficácia quase ilimitada dessa “rainha do céu” junto a seu divino filho em favor dos pecadores. Em Pernambuco a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição é muito antiga, data da segunda metade do século XVI, e congregava a elite açucareira da Capitania. Muito próxima da Irmandade da Misericórdia, ajudou a fundar o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, casa de clausura feminina, que serviu à elite até a Invasão Holandesa. Há uma referência à Irmandade da Conceição dos pardos sujeitos, mas não podemos avançar nos dados dessa última. É provável que tenha surgido como estratégia de aproximação do mundo das elites, já que os pardos, embranquecidos, olhavam para a sociedade ambicionando inclusão no mundo dos bem-nascidos. Não descartamos as ações dos franciscanos na promoção desse culto entre os mesclados [5]

Os dominicanos também se propuseram a colaborar para a divulgação dos santos católicos negros. Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos contou com o apoio dessa ordem para sua difusão em Portugal. Julita Scarano, ao ressaltar o florescimento do culto a essa senhora, argumenta que, “a principio, tivessem os dominicanos atraído os devotos de cor para as associações de seus conventos e, posteriormente, se tenham estes tornado tão numerosos que acabaram criando agrupamentos autônomos”[6]. Segundo a autora, “os dominicanos e as associações que haviam criado contribuíram eficazmente para estimular a devoção do Rosário, tanto no próprio reino quanto no ultramar”, visto que um dos meios de integrar os negros na religião católica foi levá-los a participar das irmandades. A princípio, devem ter entrado em agremiações de brancos, constituindo nelas grupos minoritários. Posteriormente, com o apoio dos dominicanos, passaram a se reunir em núcleos separados, formando suas próprias confrarias.

Os franciscanos vão investir fortemente na promoção do culto a São Gonçalo Garcia, em Pernambuco. É sabido que essa ordem, juntamente com as demais, Carmelitas e Dominicanos, estes no reino, configurou-se como um componente fundamental na pastoral do culto aos santos. “Com o objetivo de orientar e canalizar a fé dos grupos urbanos, estas ordens defenderam com maior veemência a idéia de que os santos forneciam exemplos de vida que deveriam ser imitados pelos fiéis”[7]. Voltaram-se para os grupos excluídos, como negros e mestiços, tentando, através da fé em um orago, organizá-los social e espiritualmente. Mas, como sempre, é impossível conformar totalmente os interesses humanos; esses grupos das margens, apropriando-se desses espaços cedidos pelas ordens religiosas, acabaram por utilizá-los para promover sua inclusão social através dos meios institucionalizados. Formas de luta, formas de resistência. Liberdade conquistada aos centímetros, no entanto, sem deixar de ser eficaz. 

Por outro lado, não podemos afirmar que a divulgação do culto a São Gonçalo Garcia tenha sido uma causa abraçada pelos franciscanos unanimemente. Ter um santo pardo dentro da instituição talvez não tenha sido um motivo de orgulho para determinados integrantes da ordem. É certo que alguns franciscanos se empenharam na promoção do culto a São Gonçalo Garcia, tendo em vista ter sido ele o primeiro santo pardo das Américas. Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, através de um sermão, expressou sua exaltação à cor parda, classificando-a como bem aventurada entre as demais. Já Frei José dos Santos Cosme e Damião[8], também franciscano, no sermão proferido nas festividades em homenagem ao mesmo santo na Bahia, no ano de 1746, demonstrou, no entanto, constrangimento ao abordar o tema. Enquanto as palavras ouvidas na Igreja de Nossa Senhora do Livramento do Recife tinham sido de exaltação à cor parda, como a mais perfeita de todas, Frei José dos Santos Cosme e Damião chegou a pedir desculpas por estar tratando de um santo mulato. Disse ele:

Só se havemos de assuntar como coisa certa e indubitável, que S. Gonçalo Garcia foi filho de pai Católico, e de mãe gentia, de pai Europeu e de mãe Asiática; de pai Português natural de Guimarães, e de mãe Indiática natural de Baçaim: por cuja razão se compete com propriedade genuína em todo o rigor filosófico não só o especioso título de Neófito, mas também o específico predicado, ou atributo, ainda que de alguns mal avaliado, e menos preciado (não quisera proferir por não escandalizar os vossos ouvidos; mas permite-me o dizer uma vez) de mulato, ou mestiço[9].

Em nenhuma outra parte mais de seu sermão volta a falar da cor do Santo.

Provavelmente por mera coincidência, o painel representativo dos 26 mártires do Japão, existente na Capela de Ordem Terceira de Salvador, inclui Gonçalo Garcia entre os poucos personagens que crucificados, aparecem por detrás de outros, não permitindo que se lhes veja a cor[10].

  É notável, segundo os relatos, que as festividades em homenagem a São Gonçalo Garcia no Recife foram realizadas em circunstâncias bem diferentes das comemorações realizadas um ano após na Bahia. Isso nos faz pensar que Pernambuco passava por transformações sociais que justificam uma possível mobilidade social. Nos livros de batismo localizados na Igreja do Santíssimo Sacramento do Recife, foram encontrados dezenas de pardos, e, embora com cabedal e possuindo cativos, não alcançaram reconhecimento social fácil, sendo bastante complexa a inserção social dos enriquecidos, que eram considerados como de sangue infecto. Diante do exposto, percebe-se a contribuição dos franciscanos na divulgação do culto a São Gonçalo Garcia. Ao certo, a devoção a esse santo na Capitania de Pernambuco foi promotora de visibilidade, espraiando-se para outras regiões do Brasil. Porém, nossa intenção se volta agora para a “causa” dos chamados pardos. Ou seja, o que levou esses indivíduos a se auto-homenagear? Para respondermos a essa indagação, é preciso primeiro identificar os sujeitos históricos envolvidos na questão, assim como a posição social que ocupavam no período aqui estudado. Para tanto, analisamos alguns registros de homens de destaque, alguns reconhecidos como pardos, que fizeram parte da Irmandade do Livramento e viveram em Pernambuco no período em que, provavelmente, não apenas participaram, mas custearam as festividades em louvor a um santo de sua cor.

Um provável participante foi José Rabelo de Vasconcelos, pintor setecentista, integrante da Irmandade de Nossa Senhora do Livramento dos Homens Pardos do Recife. Em 1736, foi eleito mordomo; de 1738 a 1741 foi procurador; escrivão em 1740; juiz em 1746; tesoureiro em 1774; e, além de sua participação ativa na instituição, ainda alcançou a patente de capitão[11].

Ele ocupou o posto de Militar das Ordenanças e atingiu o mais alto grau de sua carreira como Coronel do Regimento dos Pardos do Recife. O fato de José Rabelo de Vasconcelos ter atuado em atividades da irmandade de pardos, são provas de que era pardo e, consequentemente, esteve presente nas festividades em homenagem a São Gonçalo Garcia, visto que era de obrigação dos irmãos e integrantes da mesa comparecer às festividades organizadas pela citada instituição. Outra prova de sua participação é a elaboração artística de um dos chafarizes expostos na festividade. E, se tudo isso não bastasse, há o fato de Sotério Ribeiro da Silva ter oferecido sua Súmula  Triunfal[12], ao senhor capitão “José Rabello de Vasconcellos”[13].

Outro exemplo foi o de Felipe Néri da Trindade, que nasceu em 20 de maio de 1714, na vila do Recife. Ele era filho do pardo Francisco de Almeida Pessoa e de Maria Botelho Campely[14]. Felipe Néri da Trindade era irmão do conhecido padre Manuel de Almeida Botelho, grande músico pernambucano, compositor e instrumentista[15]. Ele, assim como o pai e o irmão, também foi integrante da Irmandade do Livramento do Recife. Felipe não foi apenas um bom músico, compositor e instrumentista, foi também “perito na língua latina, como consumado nos preceitos da oratória e poesia”[16]. Por volta de 1739, iniciou suas atividades como “Mestre de Humanidades” e ficou nessa atividade, provavelmente, por mais de dezoito anos. Como pardo, foi membro da Irmandade do Livramento do Recife e nela ocupou cargos. O primeiro foi de mordomo, no ano de 1743 a 1744, quando contava 29 anos de idade completos. Para ocupar esse lugar, Felipe Néri da Trindade pagou uma esmola, à Irmandade, de 1$600 réis, como estava estabelecido no compromisso da instituição. Posteriormente, foi eleito juiz entre 1759-1760 e, segundo os relatos, exerceu as funções com muita eficiência e muito zelo, o que lhe garantiu mais dois anos consecutivos, sendo substituído, no ano de 1761, por Brasílio Álvares Pinto, irmão de muito destaque na associação dos pardos do Recife e pai de Luiz Álvares Pinto, músico pardo de prestígio no espaço setecentista pernambucano.

Felipe Néri da Trindade foi um sacerdote pardo tido na Irmandade do Livramento, e, entre os intelectuais e artistas de seu tempo, como um homem de prestígio e respeito, apesar de sua “baixeza de nascimento”. Segundo a documentação analisada, no domingo, 19 de setembro de 1745, padre Felipe Néri da Trindade não só compareceu à festa, como também participou da Academia[17], feita “com toda a grandeza e tão científica; como engenhosa em uma casa na mesma Rua do Livramento”[18]. A participação do padre na Academia deu-se demonstrando seu talento ao compor e recitar a seguinte Glosa:

Imitar um firme amante
A Jesus no teor da vida,
É virtude tão subida,
Quanto tem de relevante;
Isto a todos é constante
Mas eu quando os olhos puz
Em Gonçalo numa cruz,
Então vi, que com mais sorte,
Imitente até a morte
Foi Gonçalo de Jesus[19]

Nos versos recitados, o religioso expressa seu respeito e sua adoração ao Santo Gonçalo Garcia, estabelecendo, em alguns momentos, paralelo entre o martírio de Gonçalo e o semelhante sofrimento de Jesus na cruz.Outro protagonista da festa foi Ignácio Ribeiro que, juntamente com Felipe Néri da Trindade, participou da Academia. Não sabemos ao certo se ele era um homem pardo. Ao lhe fazer referência, Domingos Loreto Couto não menciona a cor de seus pais, apenas esclarece que era natural da terra e filho de Martinho Ribeiro e Joanna de Silva. De fato, Ignácio foi um homem de prestígio na sociedade pernambucana, doutor em teologia, dominava o latim e o estudo das ciências. Foi ordenado presbítero e considerado um perfeito sacerdote.  Nas palavras de Domingo Loreto Couto:

[...] aprendeu com incrível brevidade os preceitos da gramática latina no colégio Pátrio dos Padres Jesuítas, e passando aos estudos das ciências severas no de Olinda se admirou a viveza do seu engenho acompanhada de uma suma modéstia [...] É excelente músico, e tangedor de todo gênero de instrumento, de tal sorte que compõe a letra, e posta por ele em solfa a canta com boa voz, suma graça, e destreza. Na metrificação por versos latinos, e vulgares é excelente. Tem composto muitas obras musicais, e poéticas das quais tem saído à luz[20].

O fato de Ignácio Ribeiro ter sido um homem de prestígio talvez justifique a ausência de referência a sua cor na documentação. O intenso processo de mestiçagem pelo qual Pernambuco passava deu origem a indivíduos de aparência bastante diversificada, sendo frequente uma autoidentificação. Por isso, não podemos descartar a possibilidade de ter sido pardo. Ao certo, ele abraçou a causa do santo pardo, participando ativamente de um dos momentos de destaque da festa que foi a Academia.

Esses, dentre tantos outros artistas e intelectuais mestiços ou não, compareceram às festividades em louvor a São Gonçalo Garcia no Recife, demonstrando envolvimento no evento, inclusive nas despesas da festa. Isso comprova que um grupo de pardos, não só acumularam riquezas, ocupando cargos de prestígio dentro e fora da Irmandade do Livramento, como também desfrutaram de condições para ostentar tal prestígio em suas festas, como qualquer colono branco de posses. Devido à grandiosidade e à importância que alcançou, essa festividade acabou marcando o calendário religioso, no qual encontramos vestígios de sua realização em anos posteriores a 1745. Como exemplo, podemos citar os registros dos anos de 1753 a 1755 nos quais, o governador de Pernambuco, Luis Correia de Sá, comprova sua ilustre presença na festa em louvor a esse Santo[21].

 

1 “Irmão Ignácio”: um pardo que ficou na história

Frei Jaboatão, em seu sermão proferido nas festividades no Recife, ressalta alguns nomes de pardos que se destacaram, sejam através da arte, educação ou até mesmo santidade.

Na virtude, e santidade, que é o principal objeto deste discurso, tem a cor parda sujeitos ainda de maior distinção. E sem sairmos da nossa América temos aqueles, que bastam para crédito da mesma cor. E deixando alguns mais modernos, como um irmão Ignácio, mui celebrado nestes nossos tempos na cidade da Bahia, aonde faleceu o ano passado, não deixaremos de fazer particular memória do venerável padre Pedro Soares Pereira, natural do Rio de Janeiro, que desaparecendo daquela terra, sem se entender para onde, se soube depois fora achado em uns lugares desertos da cidade de Gênova na Itália, morto, e de joelhos, e com um papel na mão, em que dava notícia de quem era, e de donde natural; e nesta mesma postura se conserva na Sé de Gênova? Consta o referido de um sumário, que dessas partes se mandou tirar ao Rio de Janeiro, e foram juiz, e escrivão dele o padre João de Barcelos Machado vigário no Rio, e o padre Bartolomeu de França, cura da Sé[22]. (grifos nossos)

Ao observamos esse trecho do seu discurso é possível perceber que o religioso destaca o nome do Irmão Ignácio, que segundo o franciscano teria falecido na cidade da Bahia um ano anterior às festividades em homenagem ao santo de sua mesma cor. Mas quem foi Irmão Ignácio? Que exemplo de vida e de virtude ele teve ao ponto de Frei Jaboatão citá-lo no seu discurso?  Quais eram as suas condições socioeconômicas?

Sobre Irmão Ignácio achamos relatos de sua vida devocional em alguns escritos deixados por Domingos Loreto Couto, em sua obra “Desagravos do Brasil e gloria de Pernambuco” e nas crônicas do próprio Frei Jaboatão, intitulada “Novo Orbe Seráfico Brasílico”.

  Irmão Ignácio, que foi caracterizado por Frei Jaboatão como uma pessoa “humilde” e “desprezível”, nasceu no Recife e teve como nome de batismo Pedro, porém teria mudado esse nome, no momento da sua crisma, para Ignácio da Rocha[23]. Conta Frei Jaboatão que ele era filho de Antônio da Rocha e de uma mulher parda forra, a qual havia sido escrava dos senhores da Casa da Torre, onde também havia nascido o Irmão Ignácio, e tinha por parte de pai um irmão de nome Manuel da Rocha[24].

Ele teria se ausentado da casa dos pais com dezoito anos de idade e se dirigido para o sertão do Rio S. Francisco, onde teria edificado uma casa de barro e vivido uma vida simples em que a suas vestes se resumiam em um vestido de saco e um cordão[25].

Nessa residência ele teria vivido dez anos da sua vida, dirigindo-se em seguida para província de Sergipe onde deu continuidade a sua peregrinação e penitência. Segundo os relatos, ele teria se casado e devido à morte de sua esposa foi para a Cidade da Bahia[26] onde, no ano de 1720, teria recebido de frei Joseph de S. Antônio o hábito e cordão[27].

Na sua aparência trazia traços bem característicos, como cabelos e barbas crescidos, roupas de saco remendado e pés descalços. Sua vida pode ser caracterizada pela mendicância em que o pouco que tinha era para repartir com os mais necessitados[28].

Na Bahia,

ao principio eram ouvidas suas vozes com desprezo, porém, vendo os moradores da Bahia a sua suma pobreza, a austeridade do seu hábito, a mortificação dos seus sentidos e a modesta e compostura das suas ações e palavras, conheceram a virtude por seus próprios sinais e o trataram com piedade, sem contradição. Muitos pecadores se aproveitaram das suas advertências, e com a reforma da sua vida emendaram seus desmanchos. Da eficácia das suas pregações faz prova singularíssima o seguinte sucesso[29].

Segundo os relatos Irmão Ignácio tinha por costume, desde pequeno, passar todo o seu tempo rezando de joelho com uma cruz na mão. Esse costume se manteve mesmo depois de casado. Todos os domingos e festividades ele ia à igreja se confessar e comungar[30]. A sua refeição era basicamente uma substância chamada de “mingau”, caracterizada por Frei Jaboatão como “uma papa rala, feita de mandioca da terra”, ou em lugar desta “umas de beldroegas, cozidas em água e sal”[31].

Nas mãos ele carregava uma cruz, formada de vara de pouca grossura, com um comprimento maior que a sua estatura. Pela manhã se deslocava para as igrejas, em que passava o tempo ouvindo e ajudando a celebrar as missas. Todas as suas horas do dia eram dedicadas à pratica da caridade aos irmãos enfermos[32].

Conta Frei Jaboatão que o Irmão Ignácio, em certo dia, pela manhã, teria entrado,

em casa de Manuel de Oliveira Besse, pai do Cônego Joseph de Oliveira Basse, onde costumava ir muitas vezes e algumas também se agasalhava de noite pela caridade, que lhe faziam a lhe darem um pouco de leite e pão[...] trazia o habito todo molhado por haver chovido muito aquela manhã[...] Pediu a senhora da casa, era D. Leonor de Jesus, irmã do pregador Fr. Joseph de S. Felix[...] Mandou-lhe ela dar uma casaca velha, e esfarrapada, que fora de seu marido. Vestiu-a o Irmão Ignácio, cingiu-se com seu cordão e assentou-se junto a um fogueiro de brasa a tomar calor [...][33].

Nesta mesma casa aconteceu com ele o caso seguinte:

Levantou-se uma noite fora do costumado, estando já todos recolhidos, chegou ao quarto onde se agasalhavam os donos da casa e bradou, dizendo que acordassem, que na casa havia um incêndio. Inquietam-se todos e, feita as diligencias por vários aposentos foram dar em mais retirado, com fogo que já se ia ateando, atribuindo-se à virtude do Irmão Ignácio o ficarem livres daquele perigo, pois só por participação do céu o podia saber por ficar o seu aposento muito distante do outro e sem comunicação entre eles[34].

Esse foi um dos casos citados por Frei Jaboatão, que demonstra a generosidade do Irmão Ignácio com as pessoas que o rodeavam. Na verdade ele nunca tinha tido uma casa própria ou residência fixa; viveu da caridade e solidariedade de amigos.

Segundo Loreto Couto,

[...] todos os dias o Irmão Ignácio ia ajudar aos que trabalhavam na edificação da igreja do Santíssimo Sacramento,além do Carmo, e pediu aos administradores daquele magnífico templo o acabassem com brevidade, porque ele seria o primeiro, que nela se enterraria, e tanto tempo se demorasse, outro tanto estaria privado de sair do desterro desta miserável vida”[35].

Acabada a citada igreja, conta Frei Jaboatão, que no dia 16 de junho de 1744, prevendo que havia chegado o dia da sua morte, direcionou-se à casa de uma devota cujo nome era Maria de Souza. Ao chegar a sua residência o Irmão Ignácio havia lhe pedido “por caridade agasalho por três dias”, com a justificativa de estar enfermo.

Segundo Frei Jaboatão,

Quis a mulher vendo a fraqueza e debilidade em que estava, prepara-lhe galinha, como a doente, mas ele a impediu, dizendo-lhe que só tomaria por caldo algum mingau. Assim chegou ao outro dia e logo de manhã pediu confessor [...] também pediu a extrema-unção, e preparado com todos estes divinos socorros, ao terceiro dia que era quinta feira, dezoito do sobredito mês de junho, dia consagrado ao Santíssimo Sacramento, de cujo suavíssimo mistério foi publico e afetuoso devoto e venerador, pelas três da tarde entregou ao mesmo senhor com sossego dos justos o seu espírito, ficando com um semblante alegre e como quem se estava rindo dos enganos do mundo[36].

O fato do mesmo não ter tido uma residência própria em vida com a sua morte ocorreram dúvidas com relação ao lugar ou igreja em que ele seria sepultado. No dia seguinte ao do seu falecimento, ou seja, na sexta feira pela manhã, foi rezada uma missa. À tarde, o seu corpo passou por uma análise médica, medida comum na época, a qual se deparou com um “corpo flexível em todas as suas partes movendo-se, e dando estalos os dedos dos pés e mãos”[37].

Segundo Frei Jaboatão “todos o queriam para si”.

Os pardos, por ser ele da sua cor, os religiosos de Nossa Senhora do Carmo, por ser irmão do seu Bentinho, os nossos pelo hábito e cordão da Ordem e, até os da companhia, dizem estarem nesta competência, pela cruz, que trazia nas mãos[38].

Diante dessas circunstâncias ficou resolvido, com aceitação de todos, que o seu corpo seria sepultado no dia seguinte, no sábado pela manhã, na nova Igreja do Santíssimo Sacramento, sendo o primeiro ali sepultado, em que se verificou a sua profecia[39]. O sino da igreja deu seis batidas, como era de costume. Porém, relata Frei Jaboatão, ao certo, não foi possível identificar o autor do ato, pois, quando foram verificar quem teria tocado o sino, deparou-se com a porta da torre da igreja fechada e sem nenhuma pessoa pela parte de dentro[40].

 O seu cerimonial fúnebre contou com um numeroso público. O esquife foi carregado por seis reverendos sacerdotes, além da presença de numerosos soldados, que a mando do governador, acompanhou o funeral, no intuito de “evitar a indiscreta devoção do povo, que queriam tirar em retalho o seu hábito por relíquia” [41].

Em suma, Irmão Ignácio, homem pardo, apesar da sua cor, deixou na Bahia uma “grande e celebrada fama, pelo modo de vida, que ali praticou” [42]. Através da caridade e da sua religiosidade conseguiu ser a primeira pessoa a ganhar sepultura na nova igreja do Santíssimo Sacramento[43]. O seu exemplo de vida religiosa o manteve vivo no imaginário daquela época, mesmo após sua morte em 1744. Sendo este o principal motivo do mesmo ser lembrado, por frei Jaboatão em seu sermão proferido nas festividades em louvor a São Gonçalo Garcia no Recife.

 

REFERÊNCIAS

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* Mestra em História Social da Cultura Social pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. E-mail: janatabira@hotmail.com

[1] COUTO, Domingos do Loreto. Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. Ed. Fac-similar. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981.p. 373

[2] Sobre festa e sua relação entre o sagrado e o profano ver: REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. Ver também: VERGER, Pierre. Procissões e carnaval no Brasil, Ensaios/Pesquisa,5, 1984,  MIRCEA, Eliada. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes,1992.

[3] Segundo o dicionário de Bluteau o termo pardo era considerado uma “cor entre branco e o preto”, própria do pardal, o que parecia justificar o nome. Segundo o respectivo dicionário o “homem pardo” teria uma associação ao “mulato”, assim como uma ligação curiosa com uma fera, “o leopardo”. BLUTEAU, Raphael. Vocabulário português e latino. Vol. 1. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1727. Porém, as pesquisas realizadas nos Livros de Batismo e Casamentos localizados na igreja do Santíssimo Sacramento do Recife apontam que, além dos cruzamentos entre negros e brancos, eram pardos também os descendentes dos cruzamentos de pardos e índios, pardos entre si, pardos com negros e cabra com pardos, dentre outros. Para melhor reflexão sobre o uso do termo pardo em Pernambuco ver: BEZERRA, Janaína Santos. Pardos na cor & Impuros no Sangue: etnia, sociabilidades e lutas por inclusão social no espaço urbano pernambucano do XVIII. 2010. 218 f. Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura Regional) – Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife.

[4] OLIVEIRA, A. J. M. Devoção Negra: santos pretos e catequese no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Quartet. 2007.p. 26

[5]VIANA, L. O Idioma da Mestiçagem: as Irmandades de pardos na América Portuguesa. Campina, São Paulo: Editora da UMICAMP. 2007.p. 124; ALMEIDA, O Sexo Devoto: normatização e resistência feminina no Império Português. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2005. CMRO- Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Olinda. Livro escrito pelo vigário capitular: Manuel Vieyra de Lemos Sampaio, 1692.

[6]SCARANO, J. Devoção e Escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. São Paulo: Nacional, 1976.p. 40

[7] OLIVEIRA, A. J. M. Devoção Negra: santos pretos e catequese no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Quartet. 2007.pp.25-26

[8] Sobre o religioso baiano frei José dos Santos Cosme e Damião, temos noticia de que o mesmo teria sido um dos professores de frei Jaboatão no convento da Bahia. Ele era orador sacro afamado, qualificador dos Santos Ofícios e lente de filosofia e teologia que chegou a publicar sermões em Lisboa. Mestre e aluno chegaram a fazer parte da Academia dos Esquecidos. Cf. WILLEKE, Frei Venâncio. Franciscanos na História do Brasil. Vozes, 1977. p. 91

[9] LINS, Rachel Caldas e ANDRADE, Gilberto de Osório. São Gonçalo Garcia: Um culto frustrado. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Massangana, 1986. p.50

[10] Idem

[11] José Antônio de Mello. “Rabelo, pintor setecentista do Recife”, In:______. Tempo de Jornal. Recife: Fundaj, Ed. Massagana, 1998, p. 222

[12] RIBEIRO, Soterio da Silva. Summula Triunfal da nova e grande celebridade do glorioso e invicto martyr São Gonçalo Garcia. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 99, vol. 153, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1928.

[13] Ibid. p.8

[14] DINIZ, Pe. Jaime C. Músicos Pernambucanos do Passado. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1971, 3 v. p.32

[15] MARIZ, Vasco. Vida Musical. In: Suplemento Cultura do Estado de São Paulo (1984-1991). São Paulo: Ed. Civilização Brasileira. p.32

[16] DINIZ, Pe. Jaime C. Op. Cit. p.32

[17] A Academia era uma junta ou assembleia de pessoas onde se recitam versos, discursos, etc., foram muito frequentes em Pernambuco no correr do século XVIII. COSTA, F. A. P. Anais Pernambucanos 1740 – 1794. Recife: FUNDARPE, 1984. V.6.p.359

[18] RIBEIRO, Soterio da Silva. Op. Cit. p.53

[19] Idem

[20] COUTO, Domingos do Loreto. Op. Cit. pp.271-372

[21] REVISTA do Instituto Histórico e Geográfico Pernambucano. Vol. LVI. Ano de 1983-Diário do Governador Correia de Sá- 1749-1756. p.190, 220, 274

[22] JABOATÃO. A. S. M. Discurso Histórico, Geográfico, Genealógico, Político, e Encomiástico, recitado na nova celebridade, que dedicam os pardos de Pernambuco, ao Santo de sua cor, o Besto Gonçalo Garcia, na sua Igreja do Livramento do recife, aos 12 de setembro do ano de 1745. Lisboa, Oficina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustíssima Rainha N. S. 1751. p.206

[23] JABOATÃO, Frei A. S. M. Novo Orbe Seráfico Brasílico ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil. Recife: Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, 1980. Parte Segunda. Vls. I, II, III. pp. 291- 332

[24] Ibid.pp. 290-291

[25]COUTO, Domingos Loreto. Op. Cit.,p. 332

[26] Ibid. p.335

[27]JABOATÃO, Frei A. S. M. Novo Orbe Seráfico Brasílico... Op. Cit., p.290

[28] COUTO, Domingos Loreto. Op. Cit., p. 332

[29] Ibid., p.333

[30] Ibid., p.334

[31] JABOATÃO, Frei A. S. M. Novo Orbe Seráfico Brasílico...Op. Cit., p. 291

[32] Idem

[33] Idem

[34] Ibid. p.293

[35] COUTO, Domingos Loreto. Op. Cit., p.334

[36]JABOATÃO, Frei A. S. M. Orbe Seráfico Brasílico... Op. Cit., .pp.293-294

[37] Idem

[38] Idem

[39] COUTO, Domingos Loreto. Op. Cit., p.335

[40] JABOATÃO, Frei A. S. M. Novo Orbe Seráfico Brasílico... Op. Cit., p.295

[41] Ibid., p.294

[42] Ibid., p.290

[43] Segundo Frei Jaboatão, essa igreja fica localizada “na rua que chamam do passo, a qual tem princípio subindo na Rua dos Sapateiros pela ladeira do Carmo e travessa que toma a mão esquerda pela parte de cima ao poente”. Ibid., p.295