Sobre o autor
[1]
Introdução
Em artigo intitulado Do códige ao monitor: a trajetória do escrito, Roger
Chartier busca detectar e designar os efeitos de uma revolução, dita inelutável
ou possível, nas modalidades de produção, transmissão e recepção do escrito,
quando o texto, antes visto em livros e jornais, estaria fadado a uma existência
eletrônica, que apreende o leitor num monitor[2].
Uma revolução, que segundo o autor, é mais forte do que a de Gutenberg, pois
além da técnica de reprodução do texto, ela modifica as estruturas e formas do
suporte que o comunica a seus leitores, mudando, inclusive, o estilo da leitura.
Segundo Chartier “se é verdade que abre possibilidades novas e imensas, a
representação eletrônica dos textos modifica totalmente a condição destes”
[3].
Isto por que à materialidade do livro, a representação eletrônica substitui a
imaterialidade de textos sem lugar próprio. Além de proporcionar a livre
composição de fragmentos manipuláveis, ela permite a navegação por arquipélagos
textuais sem beira nem limites.
Essa mudança na cultura da leitura e no sentido das formas não é privilégio do
avanço da informática. Chartier afirma que todas as mudanças na forma do suporte
e da estrutura de transmissão e recepção do escrito que ocorreram e ocorrem ao
longo da história afetam-lhe profundamente os possíveis usos e as possíveis
interpretações. Segundo o autor, “a significação, ou, antes, as significações,
histórica e socialmente diferenciadas de um texto, seja qual for, não podem ser
separadas das modalidades materiais por meio de que o texto é oferecido aos
leitores”
[4].
Seguindo os passos dessa história do escrito desenvolvida por Chartier, este
artigo tem o fito de analisar a trajetória específica do suporte do escrito de
um grupo, que, num primeiro momento, na Academia dos Novos, eram livros
datilografados, e que, a partir de 1946, passou a ser um suplemento literário. A
análise não se pautará na representação deste encarte para os leitores de
jornal, mas no significado que esse periódico teve para o próprio grupo que o
formulara, a Turma do Central.
Em 1943 foi fundada a Academia dos Novos. Jovens como Benedito Nunes,
Haroldo Maranhão, Max Martins e Alonso Rocha, formaram um grupo que representou
uma contradição nos discursos dos modernistas, os quais acreditavam que o
movimento já havia se instalado em todas as regiões e que todos os jovens ao
tomarem conhecimento de literatura já se pendiam para a liberdade de expressão
modernista. O fato é que esses jovens moradores de Belém não eram modernistas, e
sim parnasianos. Buscaram, em plena década de 40 – quando o modernismo já havia
se tornado matéria nos compêndios escolares – nos moldes da Academia
Brasileira de Letras, o seu rumo e ritmo literário eivado das formalidades
parnasianas. As reuniões eram levadas a sério, aliás, todos os detalhes eram
levados a rigor, tudo de acordo com os padrões da Academia Brasileira de
Letras. O ar parnasiano do ambiente era conseguido com a fidelidade na
eloqüência, na retórica e nas frases de efeito, características buscadas com
afinco pelos confrades. Outro detalhe eram os patronos, e os fundadores
escolheram logo o seu. Haroldo Maranhão ficou com Humberto de Campos; Alonso
Rocha com Castro Alves; Jurandir Bezerra com Olavo Bilac; Max Martins com
Machado de Assis; e Benedito Nunes com Rui Barbosa. Para Aldrin Figueiredo as
escolhas não se baseavam no conhecimento que cada um possuía de seu patrono, mas
apenas em uma admiração recente e superficial[5].
Os poetas declamavam seus poemas rimados os quais valorizavam o emprego da
palavra rara, do vocabulário precioso e da frase rebuscada, além, certamente, da
preocupação com a perfeição da forma. E qualquer outra forma de poesia era
duramente criticada, e têm-se como exemplo as críticas feitas a Carlos Drummond
de Andrade e Manuel Bandeira, quando foram acusados de não fazer rimas
simplesmente por que não sabiam rimar ou metrificar[6].
Dois anos depois, em 1945, os membros da Academia dos Novos conheceriam o
modernismo e o sentimento de indiferença tornar-se-ia admiração. Certa vez,
conversando com um aluno do professor Francisco Paulo Mendes, o parnasiano Max
Martins ouviu falar acerca do modernismo, onde as rimas não eram mais
necessárias, onde as palavras eram livres. E Max Marins foi o primeiro a deixar
a Academia, sendo seguido pelos outros confrades, fato que resultou no
fim das reuniões parnasianas na casa de Benedito Nunes[7].
Depois desse momento, a Casa das Tias – tal como era chamada a casa onde
Benedito Nunes residia com sua família – foi sendo substituída pelo terraço do
Hotel Central, onde funcionava o Café Central, local onde diariamente esses
jovens passaram a se reunir.
O Café Central era o lugar da poética da Turma do Central. O círculo de
preciosas amizades que já havia na Academia dos Novos se manteve quando
os modernistas horizontes literários se abriram para jovens como Benedito Nunes,
Max Martins, Haroldo Maranhão, Alonso Rocha e Jurandir Bezerra. No Café Central
eles jogavam conversa fora, contavam piadas, discutiam literatura, cinema, artes
plásticas, teatro, existencialismo, simbolismo e modernismo, enquanto tomavam
chá com torradas. Essa amizade contribuiu para o fortalecimento e continuação
desse grupo que se tornaria parte da história da literatura paraense[8].
A importância da Turma do Central na sociedade local foi de grande valor
histórico e cultural. A atuação do grupo abrangeu não só a literatura, pois
tivera participação no âmbito político e social. Em 1951, Max Martins e Benedito
Nunes fundaram o primeiro cineclube de Belém, chamado Os Espectadores, e
nos idos dessa década contribuíram na organização do Teatro Norte Escola.
Nos anos 60 participaram da criação do Serviço de Teatro da UFPA, que anos
depois se tornaria curso de teatro. Isso tudo sem falar da grandeza do
Suplemento Arte-Literatura (1946-51), da Revista Encontro (1948) e
da Revista Norte (1952). Em 1947 ocorreu a primeira e única reunião da
ABDE (Associação Brasileira de Escritores) presidida por Haroldo Maranhão. Além
disso, no campo do engajamento político, na década de 50, esses jovens assinaram
o Manifesto Pró-Paz, idealizado por Stalin; em 1960, assinaram o Manifesto
Pró-Cuba e, no ano seguinte, o Manifesto Pró-Jango[9].
Participaram também, junto à Folha do Norte, do Movimento de Resistência
Democrática que estimulou a Coligação de partidos antibaratistas em prol da
eleição do General Zacarias Assumpção nos anos 50. Enfim, a Turma
ligou-se a diversos setores da sociedade e promoveram avanços expressivos no
meio cultural de Belém, fato que mostra o quão substancial fora a relação
prática do grupo cultural com a sociedade local.
A Turma do Central tinha consciência do seu papel na sociedade, e não se
eximira dessa responsabilidade. Participou das manifestações culturais e
políticas no intuito de não permitir que a trágica história recente se
repetisse. Max Martins expressa essa consciência quando afirma que essa nova
geração não confia em ninguém senão em si mesma, e que estão cansados de
mentiras políticas como a da revolução de 30[10].
Vê-se nas palavras e nos atos desse grupo uma consciência social que norteou sua
história. A preocupação com os rumos da sociedade local é o aspecto que
caracteriza essa consciência social. Os conhecimentos e valores compartilhados
pelos jovens e adultos da Turma do Central e do Suplemento
Arte-Literatura contribuíram para uma nova forma de pensar a literatura e a
história, o que resultou também em atos que auxiliaram a cultura, a política e a
sociedade. Esse grupo de poetas, contistas, críticos, ensaístas e críticos, por
tudo que representaram nas diversas relações que estabeleceram com a sociedade
local, deixaram uma herança de imensa carga histórica e de grande valor cultural
para o entendimento da história da literatura paraense e quiçá brasileira.
Certamente a Turma do Central deixou um legado expressivo para a escrita
da história da literatura da Amazônia. Escrever, pois, uma história social da
literatura paraense, recortando o período em que circulou o suplemento
Arte-Literatura, é tarefa de grande labor e também de grande importância
histórica. Alguns estudos a respeito da literatura da Amazônia afloraram através
de pesquisas feitas por estudiosos da região. Pode-se grosso modo citar
A modernidade literária no Estado do Pará: os suplementos literários da Folha
do Norte[11],
de Júlia Maués; Querelas esquecidas: o modernismo brasileiro visto das
margens[12],
de Aldrin Moura de Figueiredo, e O Grupo dos Novos: memórias literárias de
Belém do Pará[13],
de Marinilce Oliveira Coelho. São pesquisas que esclarecem um passado há tanto
negligenciado pela historiografia, colocando em xeque a tradição de atribuir aos
movimentos literários das grandes metrópoles do centro-sul uma posição de
destaque para a compreensão da história do modernismo brasileiro. Com efeito, o
estudo do modernismo não mais realizado pela idéia de centro-periferia, mas pelo
seu contrário, contribui sobremaneira para um conhecimento mais particularizado
e mais completo acerca do Modernismo no Brasil.
O suplemento Arte-Literatura e o seu significado para a Turma do
Central.
Meados da década de 1940. Neste contexto de fim de guerra e de redemocratização
surgiu uma nova tendência na imprensa brasileira: a criação de suplementos
literários. Estes foram idealizados para minar o isolamento da literatura
nacional entre si e entre outros países. Tais periódicos acolheram diversas
linguagens e os mais significativos nomes da geração de escritores, poetas,
contistas, ensaístas e críticos dessa década, e se tornariam, segundo Alzira
Alves de Abreu, em instrumentos de ascensão social, por onde os colaboradores
conseguiam influências que lhos permitia o acesso a universidades, a cargos
públicos, a editoras e à política[14].
Os suplementos literários na década de 1940-50 foram responsáveis por uma das
principais características da nova geração da literatura brasileira: a de não
pertencer somente ao eixo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Muito pelo
contrário, ela se fazia presente em vários Estados brasileiros, e com uma
produção muito intensa, fortalecida por meio da criação de revistas e
suplementos literários.
Alguns suplementos e revistas destacaram-se: no Ceará havia as Edições Clã[15]
(1946-57); em Recife, Nordeste; em Goiás, Agora[16];
no Maranhão destacavam-se o Malazarte (1947-48), o Sete Dias e o
Suplemento Cultural do Centro Cultural "Gonçalves Dias”,
publicado no Jornal Diário de São Luis[17];
no Rio de Janeiro foi fundado o Suplemento Letras &
Artes (1946-1953) do Jornal A Manhã;
em Belém havia o Suplemento Literário Arte e Literatura, do
Jornal A Província do Pará, e o Suplemento Literário Arte-Literatura
(1946-51), do Jornal Folha do Norte. A literatura do interior – apesar
das dificuldades geográficas, de tempo e de bibliografia – se fortaleceu com a
criação dessas revistas e suplementos literários, momento nos quais as grandes
cidades passaram a enxergar com atenção os trabalhos realizados nas diferentes
regiões do Brasil.
Os livros datilografados por Max Martins na máquina do Banco do Pará, de onde
era funcionário, os quais circulavam apenas pelas mãos dos confrades da
Academia dos Novos, cederam o lugar ao importante e bem elaborado Suplemento
Arte-Literatura, do Jornal Folha do Norte. Criado e dirigido por
Haroldo Maranhão, em 1946, esse suplemento veio mudar a trajetória do escrito e
atingir positivamente e sobremaneira os rumos da poesia e da crítica literária
local. O Suplemento representou uma mudança na técnica de reprodução do texto
bem como em suas estruturas e formas do suporte da comunicação. Para Chartier as
mutações, ao longo da história, na forma e no suporte do escrito comandaram
“novas maneiras de ler, novas relações com o escrito, novas técnicas
intelectuais”
[18].
Os Novos modernistas paraenses puderam, com este novo suporte, expor seus
escritos ao grande público e, sobretudo, acompanhar e dialogar com as novas
tendências da literatura nacional e internacional. A partir desse encarte, frisa
Benedito Nunes, “criou-se um espírito comum na maneira de sentir e de pensar o
mundo e a literatura”
[19].
O Suplemento Literário da Folha do Norte tornara-se o lugar da poética
dos novos poetas. Era também um instrumento de atualização da literatura local,
pois, através dele, tiveram contato com diversos artigos de escritores de várias
regiões do País e também do exterior. O suplemento exprimira um sentimento
geracional de renovação na medida em que oportunizou a esses jovens exporem seus
poemas modernos e, ao mesmo tempo, colocou-os em constante contato com o que
havia de mais moderno na literatura mundial. Nas memórias de um deles, Benedito
Nunes: “Só aí começamos a conhecer os grandes romances modernos. Moderno foi
para nós atualização, recuperação do atraso em que a gente estava por não
acompanhar o ritmo da literatura mundial”
[20].
Este periódico, em seus 165 fascículos, veiculado entre os anos de 1946 a 1951,
expôs uma literatura que se propunha com forte apelo existencialista algo comum
na poética dessa geração surgida nos idos dos anos 40. Tinha publicação semanal
e saía aos domingos. Possuía o formato de tablóide, de quatro páginas. Era
aparentemente disforme, possuía uma lógica própria e muito peculiar de
organização. Alguns textos começavam na última página e terminavam na primeira.
Além da poesia e da crítica literária, trazia em suas páginas caricaturas e
fotografias de escritores, fotos de esculturas ou de pinturas modernistas. Nomes
como o de Marc Chagal, Picasso, Salvador Dali e Bruno de Giorge. Além disso,
havia as entrevistas de autores nacionais e internacionais. Nestas entrevistas
destacam-se as de Cecília Meireles, Sartre, Gide e Heidegger[21].
Os temas principais presentes no Suplemento eram os ligados à literatura, à
filosofia da existência e aos novos grupos literários. Isso era comum na maioria
dos suplementos do Brasil e do exterior. Havia uma preocupação em defender o
novo modernismo e sua estética e essência existencialista[22].
Essa geração não era combativa como a dos anos 20, ela não se embrenhava nas
questões políticas do momento, pelo contrário, se importava mesmo era com a
arte, com a literatura e com o indivíduo. A literatura dessa geração tratava do
drama espiritual do pós-guerra. As crises existenciais tornaram-se tema comum na
poesia desses jovens, e neste comenos podemos citar algumas obras publicadas no
Suplemento Arte-Literatura, como Salmo quase elegia (1948), de
Alonso Rocha; Confissão (1947), de Benedito Nunes; O poeta e a rosa
(1948), de Francisco Paulo Mendes e 1º motivo da rosa e 2º motivo da
rosa (ambos em 1948), de Mário Faustino. Havia também a poesia com imagens
surrealistas e lírico-amorosas, é o caso de Haroldo Maranhão em Momento
lírico, mas doloroso (1947). O uso de verso livre e o jogo de palavras, além
da crítica ao estilo de vida moderno, foram comuns em Max Martins em, por
exemplo, Poema, Pedreira, Muaná da Beira do Rio (1950).
Para Júlia Maués o Suplemento paraense estabeleceu os caminhos para a relação
entre as tendências do Modernismo local e o internacional[23].
Havia conexões diretas com outros países através de correspondentes que enviavam
artigos de crítica literária especialmente para o suplemento paraense. Era o
caso do Copyright do Serviço Francês de Informação.
Deste modo, o grupo do suplemento pôde, assim, atualizar a sua literatura com as
mais novas discussões acerca da arte literária e da filosofia da existência, as
quais, naquele momento, estavam, com certa intensidade, voltadas para os
problemas da existência do indivíduo. Essas eram questões impulsionadas pelas
mazelas proporcionadas pelas batalhas da Segunda Guerra Mundial, principalmente.
Os anos 1940 foram marcados pelo crescimento de uma filosofia da existência que
acabou influenciando a literatura do pós-guerra, principalmente por meio dos
escritos engajados do francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), e da poesia lírica,
simbolista e espiritual do poeta e novelista austro-germânico Rainer Maria Rilke
(1875-1926).
Foi também no suplemento literário da Folha do Norte que essa nova
geração paraense, de acordo com Benedito Nunes, incorporou extemporaneamente o
modernismo, restaurando as suas fontes, paulistas e seus derivados cariocas e
mineiros, “sem entreter a menor relação com os pioneiros paraenses da Belém
Nova, excetuando-se o poeta Bruno de Menezes”
[24].
Benedito Nunes afirma que o suplemento reintroduziu o modernismo no Estado, o
qual já havia sido difundido, sem o conhecimento do seu grupo, a partir dos anos
20, pela revista Belém Nova[25].
Logo, se o suplemento reintroduziu o modernismo, então este, nos anos 40, não
existia mais como movimento, isto é, já fazia parte dos compêndios escolares.
Uma das razões para isso decorre da ida de muitos pioneiros, como Eneida de
Moraes, ainda nos anos 20, para o Rio de Janeiro[26].
O desconhecimento de duas décadas acerca da Semana de 22 não impediu que esse
grupo de jovens ávidos por literatura se tornasse uma referência para a
literatura local. E ao contrário de outros grupos de mesma geração, tal como o
grupo paulista Clima, a Turma do Central pusera-se efetivamente
como modernista, e não como um grupo de críticos, característica marcante da
Geração de 45. Na acepção de Benedito Nunes, tal distanciamento promoveu uma
particularidade no grupo paraense, que foi a não adesão à turbulência com os
grupos antecessores, pois para Nunes, uma geração implica pelo menos a geração
antecessora imediata, da qual só conheceram Bruno de Menezes[27].
O já bastante citado suplemento mostra o cruzamento de interesses de
intelectuais de diversas partes do país e suas diferentes formas de
sensibilidade da poética modernista. O encarte também refletiu um sentimento de
pertença ao modernismo, que foi sobejamente cultivado pelos novíssimos
paraenses da Turma do Central.
Nessa circunstância o suplemento literário do jornal Folha do Norte
passou então a ser também um suporte do sentimento de uma geração agônica que
viveu um momento de guerra mundial. Era uma geração agônica por que acabara de
sair de um contexto em que ocorreram diversas atrocidades proporcionadas pelas
guerras e pelos despóticos regimes políticos. Nos jornais as poesias
misturavam-se com as manchetes sobre crimes bárbaros em batalhas e com as
decisões autoritárias dos governantes. Pairava um desconforto e um sentimento de
revolta com os rumos que a história tomava. Nesse contexto histórico
destacaram-se os escritos engajados do francês Maurice Merleau-Ponty
(1908-1961). As produções mais importantes desse filósofo foram de cunho
psicológico: La Structure du comportement (1942) e Phénoménologie de
la perception (1945). Apesar de grandemente influenciado pela obra de Edmund
Husserl, Merleau-Ponty rejeitou sua teoria do conhecimento intencional
fundamentando sua própria teoria no comportamento corporal e na percepção.
Sustentava que seria necessário considerar o organismo como um todo para se
descobrir o que se seguirá a um dado conjunto de estímulos. Voltando sua atenção
para as questões sociais e políticas, Merleau-Ponty publicou em 1947, na revista
Les temps Modernes, um conjunto de ensaios marxistas, chamado
Humanisme et terreur (Humanismo e Terror), a mais elaborada defesa do
comunismo soviético no final dos anos 1940. Contrário ao julgamento do
terrorismo soviético, ele atacou o que considerava uma hipocrisia ocidental[28].
O suplemento Arte-Literatura tornou-se o suporte dessa nova escrita
preocupada com os problemas da existência do indivíduo, e foi também o suporte
de um sentimento geracional que propulsava a novos olhares sobre literatura,
história, existência e sobre a relação entre indivíduo e estrutura social.
Sustentou em suas páginas todo o fardo da construção de uma identidade literária
de um grupo que buscava estabelecer-se no cenário cultural da Belém da década de
1940.
O periódico paraense foi de suma importância para a construção da identidade
grupal dos jovens paraenses, pois até então eles não passavam de um grupo de
jovens poetas desconhecidos localmente e isolados da literatura de outros
estados. Para Marinilce Coelho “o Suplemento Literário da Folha do Norte
foi uma realidade influente com os intelectuais da região e deu vez ao melhor da
poesia, da ficção e da crítica daqueles anos”
[29].
De acordo com Haroldo Maranhão o suplemento abriu espaço para a literatura e não
para a subliteratura, para o sério e permanente, e não para a literatura sem
valor[30].
E certamente a literatura parnasiana não tinha muito espaço no encarte, pois
esta não se tratava de uma coisa nova, moderna, além de não abarcar os temas
sobre o indivíduo. A condição humana na sociedade moderna esteve intensamente
imprimida na poética da geração modernista do após segunda guerra mundial. Ora
com um existencialismo introspectivo, ora com um mais engajado, a geração de 45
exprimiu poeticamente e filosoficamente a supressão, o desrespeito e a violação
da vida cotidiana e da essência do indivíduo, sobretudo por intermédio da
influência das obras de Sartre, Rilke, Heidegger, T.S. Eliot, Baudelaire,
Whitman, Rimbaud, Mallarmé, Yeats, Erza Pound e Merleau-Ponty.
Benedito Nunes era um dos que fazia parte dos poetas mais comprometidos
socialmente, e publicou vários poemas e artigos de crítica literária e filosofia
no suplemento. Pendia poeticamente e filosoficamente, já nos anos 40, para uma
filosofia da existência de caráter mais social, engajado. Em Ação e poesia
(parte I)
[31],
trata das atitudes do homem, como um ser que vive num plano avançado de
conhecimento, e que, portanto, possui a capacidade de reagir às perplexidades do
cotidiano da humanidade no sentido de buscar a liberdade do indivíduo perante a
exploração promovida pela estrutura social do capitalismo. Nesse texto Benedito
Nunes afirma que o homem passou a lidar com o dever, e as obrigações passaram a
interessar apenas ao indivíduo, e não à pessoa humana. Pode-se citar como
exemplo dessa literatura engajada o artigo Considerações sobre a peste,
onde Nunes faz uma análise do romance A Peste, de Albert Camus, e
reafirma essa questão do homem frente à estrutura capitalista. Nesse caso
Benedito Nunes ressalta que a única potencia capaz de arrancar o homem do
desespero é o heroísmo que vem da negação da fé, e que se fundamenta na
necessidade de viver, característico ao homem contemporâneo. Tal heroísmo,
afirma Nunes, surge como conseqüência direta de uma reflexão pessimista em torno
da situação humana.
O existencialismo ligado aos problemas sociais teve muita influência do
marxismo, quando Sartre teria assumido que a sua filosofia da existência possuía
convergências com o marxismo. Para Labin Suzanne a obra de Sartre mostra um
mundo global e popular, por isso ser tão aceita em diversas culturas. É até
difícil definir tamanha influência que ela exerceu no pensamento ocidental,
principalmente. Sua filosofia existencialista ultrapassou fronteiras culturais e
físicas; influenciou a poesia de grupos literários; redefiniu a filosofia de
muitos pensadores[32].
O periódico político-literário Les Temps Modernes, fundado por Sartre e
Merleau-Ponty, em 1945, foi o espaço onde Sartre e outros existencialistas
engajados publicaram seus trabalhos – peças teatrais, poesia e filosofia, e foi
por onde se iniciou a grande difusão do existencialismo pelo mundo afora,
sobretudo devido sua ânsia pela liberdade e pelo engajamento do homem. A noção
de engajamento de Sartre significa a necessidade de um determinado pensador
estar voltado para a análise da situação concreta em que viva, tornando-se
solidário aos acontecimentos sociais e políticos de seu tempo. Pelo engajamento,
a liberdade deixa de ser apenas imaginária e passa a estar situada e
comprometida na ação. Theodor Adorno afirma que, para Sartre, “o sentimento
conceitual da criação poética permanece o pressuposto do engajamento”
[33].
Diversamente de Benedito Nunes, com um toque rilkeano e, pois, mais
introspectivo, aparece o poeta Mário Faustino (1930-62). Era um dos mais jovens,
senão o mais jovem poeta da Turma do Central. A vida de Faustino foi
marcada pela precocidade. Nascido no Piauí, Faustino mudou-se para o Pará ainda
na infância. Caçula de família composta por 20 filhos, o poeta viveu em Belém
com o irmão mais velho, a quem o poeta chamava de pai. Logo aos 16 anos,
trabalhou no jornal A Província do Pará. Antes de seguir para o Rio de
Janeiro, ganhou bolsa de estudos, e, aos 21 anos, seguiu para os Estados Unidos,
onde estudou língua e literatura inglesas. Na capital paraense, envolveu-se com
movimentos literários e intelectuais da região e acabou conhecido em outros
Estados[34].
O tipo de linguagem subjetiva, encontrada claramente em Faustino, é
característica marcante na poesia de Rilke, que possuía um ar atormentado pelos
enigmas do mundo invisível, pelas manifestações do sobrenatural; uma arte
mórbida, inclinada a decifrar os segredos do destino, as charadas da vida e da
morte[35].
Por meio de sua poesia, com devaneios, imagens sonolentas e sensíveis e a
beleza, Faustino exteriorizou, com seu estilo introspectivo, a expressão das
novas tendências da literatura contemporânea. Sua poesia foi primeiramente
influenciada por Baudelaire, Rimbaud, Rilke, Lorca, Cecília Meireles e Fernando
Pessoa. Depois vieram as influências inglesas contemporâneas, dentre os quais se
destacam T.S. Eliot, Cumings, Hart Crane, Dylan Thomas e Erza Pound; logo depois
sofreu o impacto do francês Saint-John Perse. Mas a influência mais visível, no
suplemento, é certamente a de Rainer Maria Rilke[36].
Sartre e Rilke foram as principais matrizes existencialistas na poesia da nova
geração de modernistas paraenses. Artigos nacionais, internacionais, e tradução
de obras de ambos foram amplamente publicados no Suplemento Arte-Literatura,
fato que contribuiu para o diálogo entre essa literatura estrangeira e os poetas
da região. O diálogo foi a chave para uma nova forma de ver a realidade presente
e passada, criticá-la e também negá-la, uma desilusão movida a traumas e medos
de uma história recente. Para o historiador Aldrin Moura de Figueiredo, “os
literatos teriam passado a ver na sociedade um verdadeiro objeto de reflexão e
que, na política ou nas artes, eles tinham o dever de discutir a realidade do
povo brasileiro a partir de suas ‘próprias diretrizes’”
[37].
Essas diretrizes foram construídas a partir de uma história eivada de caminhos
tortuosos, abertos por um grupo de jovens que detinham idéias novas e
diversificadas e um instrumento dominical para materializá-las.
Benedito Nunes e Mário Faustino são exemplos do diálogo com a literatura
existencialista e da evidente diversidade de direções tomadas pelos amigos da
Turma do Central. Com efeito, não houve somente um rumo para a chegada ao
modernismo. Para Aldrin Figueiredo, o processo de descoberta das idéias
modernistas parece ter acontecido de maneira diversa entre os confrades da
Academia dos Novos[38].
Diferentemente do que ocorreu nos rígidos métodos e rituais seguidos à risca
pelos parnasianos da Academia, a liberdade de expressão modernista
imperou nas mentes desses jovens recém-convertidos à literatura moderna, não
sendo, pois, mais necessárias as normas de postura, de escrita e da fala. Pode
até parecer algo idiossincrático a idéia de um grupo de jovens com menos de
vinte anos discutindo literatura francesa e poesia alemã na Belém dos anos 40.
Mas na verdade era muito mais do que isso, era uma arma de atuação na arena
cultural e no embate político, não um diletantismo jovem, como muitos pensavam.
O Suplemento Literário Arte-Literatura foi o suporte dessa nova escrita.
Coube a ele levar ao leitor comum de jornal as novas idéias trazidas e/ou
literalmente buscadas por poetas ansiosos por renovação e modernização tanto da
poesia quanto das ideologias. Buscavam uma nova maneira de ver e fazer a
história, uma história, para Max Martins, distante das falsas promessas dos
politiqueiros anacrônicos dos anos 30 e das velhas lições moralistas[39].
O Suplemento, assim, comportou essa literatura de cunho existencialista, essa
escrita crítica, atônita e agônica, esse sentimento de desilusão à história
recente. O suplemento literário da Folha do Norte, tomado como suporte do
escrito, de formação e divulgação da poética da Turma do Central, serve
como um rico elemento empírico para a compreensão e escrita da história da
literatura modernista em Belém, pois os seus textos possuem um grande valor
histórico e, portanto, revelam aspectos importantes para a construção de uma
história social da literatura. É imenso, dessa forma, o significado histórico
desse suplemento tanto para o grupo que o criou quanto para a escrita da
história do modernismo paraense.
[1]
Mestre em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará
(UFPA). Professor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), e da
Faculdade de Educação Santa Terezinha (FEST). Email:
dawdsonscangussu@hotmail.com
[2]
CHARTIER, Roger. Do códige ao monitor: a trajetória do escrito.
Estudos Avançados, São Paulo: IEA/USP, v.8, n. 21, p. 185-199. p.
185.
[3]
CHARTIER, op. cit, p. 190.
[5]
FIGUEIREDO, Aldrin M. Querelas esquecidas: o modernismo brasileiro visto
das margens. In: PRIORE, Mary Del; GOMES, Flávio dos Santos. Os
Senhores dos Rios. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. p. 265.
[8]
CANGUSSU, Dawdson S. O modernismo paraense da Segunda Geração
(1943-1951): entre o chá e as torradas do Café Central. Trabalho de
Conclusão de Curso. (Graduação em História). Orientador: Aldrin Moura de
Figueiredo. Faculdade de História/Universidade Federal do Pará, 2005.
[9]
NUNES, Benedito. O amigo Chico: fazedor de poetas. Belém: Secult,
2001. p. 23.
[10]
MARTINS, Max. Posição e destino da literatura paraense. Folha do
Norte. Belém, 07 de dezembro de 1947. Suplemento Arte-Literatura,
nº. 55, p. 4. Entrevista.
[11]
MAUÉS, Júlia. A modernidade literária no Pará: o suplemento
literário da Folha do Norte. Belém: UNAMA, 2002.
[12]
FIGUEIREDO, op. cit.
[13]
COELHO, Marinilce Oliveira. Grupo dos Novos: memórias literárias
de Belém do Pará. Belém: EDUFPA/ UNAMAZ, 2005.
[14]
ABREU, Alzira Alves de (org.). Os suplementos literários: os
intelectuais e a imprensa nos anos 50. In: A imprensa em transição:
o jornalismo brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro: FGV, 1996. p. 27.
[15]
Este periódico foi fundado pelo Grupo Clã, que se formou em 1943
e reuniu, na cidade de Fortaleza-Ce, os escritores da chamada Geração de
45 do Modernismo. Dentre os seus membros destacam-se Eduardo Campos
(1923), Artur Eduardo Benevides (1923), Lúcia Fernandes Martins (1926) e
Fran Martins (1913-1996). Clã responsável pela implantação definitiva do
Modernismo no Ceará nos anos 40.
[16]
A revista literária Agora foi fundada, em 1946, por um grupo
formado por Afonso Félix de Sousa (1925-2002), Jesus Barros Boquady
(1929), Bernardo Elis (1915-1997), dentre outros.
[17]
Para saber mais a acerca da geração de 45 no Maranhão, ver: BRASIL,
Assis. Bandeira Tribuzi: Um Poeta da Geração 1945.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante,
ano II, n.62, 2005; SÁ, Sérgio. Crítico indignado.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante,
ano II, n. 57; OLINTO, Antônio. Três tempos da poesia de Nauro Machado.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, ano III, n.
112. Todos esses textos e outros tantos, tais como
Bandeira Tribuzi: Do eldorado do maranhão novo ao consumidor da vida;
Bandeira Tribuzi: Ou a Revolução Estética de 1948; e Bandeira
Tribuzi: um poeta da Geração de 45; Oswaldino Marques: a
sabedoria que clama do exílio; e Nauro Machado: 45 anos de poesia,
podem ser acessados no site: <http://www.guesaerrante.com.br/>.
[18]
CHARTIER, op. Cit, p. 190.
[19]
NUNES, Benedito. Max Martins, Mestre-Aprendiz. In: MARTINS, Max. Não
para consolar. Belém: Cejup, 1992. p. 18.
[20]
NUNES, Benedito. O encontro de uma geração. Disponível em: <www.trilhasdacultura.com.br>.
Acesso em 20 de junho de 2006. [Entrevista].
[22]
Para saber sobre o existencialismo no Brasil ver: BRITO, Farias. As
origens do existencialismo no Brasil. São Paulo: Convívio, 1984.
Cf., também: MOURÃO, Rhéa Sylvia. Os caminhos do existencialismo no
Brasil. Belo Horizonte: Editora o Lutador, 1986.
[23]
MAUÉS, op. cit. p. 24.
[24]
NUNES, Benedito. Meu caminho na crítica. Estudos Avançados, v.
19, n. 55, set./dez. 2005. p. 291. Cf., do mesmo autor: Bruno de
Menezes: inventor e mestre. Revista Asas da Palavra, Belém:
Unama, v. 10, n. 21, semestral. 2006. p. 37-44. Neste artigo o autor
afirma: “em nossa memória literária ficará Bruno de Menezes. Ficará não
apenas como escritor de sua geração, a da revista Belém Nova dos anos
20, mas como um dos melhores poetas do Brasil setentrional, inventor e
mestre na arte da palavra”.
[26]
Para um estudo mais apurado acerca do modernismo paraense dos primeiros
anos do século XX até o final dos anos 20, ver: FIGUEIREDO, Aldrin
Moura. Eternos Modernos: Uma História Social da Arte e da
Literatura na Amazônia, 1908-1929. Campinas. Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas, (2001). Tese de doutorado. Unicamp.
[27]
NUNES, Benedito. Prefácio: Max Martins, Mestre-Aprendiz. op. cit., p.
20.
[28]
Para saber mais sobre o filósofo Merleau-Ponty ver: cf., CHAUÍ,
Marilena. Experiência do pensamento. In: Experiência do Pensamento:
ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty. São Paulo: Martins Fontes, 2002;
ver também: PAVIANI, Jayme. A descrição fenomenológica em M.
Merleau-Ponty. Veritas, Porto Alegre, v. 39, n. 159, p. 569-579,
1994.
[29]
COELHO, op. cit., p. 147.
[30]
MARANHÃO, Haroldo. O Pará não morreu: Viva o Acará! O Liberal,
Belém, 23/IX/1990. [Entrevista].
[31]
NUNES Benedito. Ação e Poesia I. Folha do Norte. Belém, 01 de
junho de 1947. Suplemento Arte-Literatura, n. 28, p. 3.
[32]
LABIN, Suzanne. A arte literária de Jean-Paul Sartre. Folha do Norte.
Belém, 13 de abriu de 1947. Suplemento Arte-Literatura, n. 25, p. 1 e 3.
Cf., também: LÉVY, Bernard-Henri. O século de Sartre. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
[33]
ADORNO, Theodor W. Notas de Literatura. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1973. p. 53.
[34]
Para mais informações sobre a vida de Mário Faustino, ver: cf., CHAVES,
Lilia Silvestre. Mário Faustino: uma biografia. Belém: Secult,
2004. Ver também: CHAVES, Albeniza de Carvalho. Tradição e
modernidade em Mário Faustino. Belém:
UFPA, 1986.
[35]
Cf., BENEVIDES, Walter. Rilke ou a Convivência com a Morte e outros
ensaios. Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1976. Ver também:
ROSA, António Ramos. Rilke e o espaço
interior do mundo. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n. 10,
1972. p. 25-31.
[36]
MULLER, Luciana Martins. Tensões de crítica e de poesia em Mário
Faustino.2000. 173 f. Tese (Doutorado em Filosofia) – USP, São Paulo, 2000. Cf.,
NUNES, Benedito. A poesia de meu amigo Mário. In: BOAVENTURA, Maria
Eugênia (Org.) Mário Faustino: o homem e sua hora e outros
poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
[37]
FIGUEIREDO, op. cit. p. 268.
[39]
MARTINS, Max. Posição e destino da literatura paraense. Folha do
Norte. Belém, 07 de dezembro de 1947. Suplemento Arte-Literatura,
nº. 55, p. 4. Entrevista.