Sobre o artigo[1]
Sobre o autor[2]
A declaração da morte do intelectual
francês, advogado e filósofo por formação Claude Lévi-Strauss, que a partir de
1940/50 começou a adquirir grande destaque no âmbito das ciências sociais e da
filosofia, foi veiculada pela principais meios midiáticos do Brasil no ano de
2009. Veio a tona o trabalho de Lévi-Strauss no Brasil e a discussão sobre a
corrente estruturalista. As notícias chamaram a atenção pela forma nacionalista
e personalista em que foram situadas. A fim de contribuir para atenuar o
reducionismo das idéias do pesquisador francês, torna-se importante relacionar
alguns posicionamentos e argumentos inerente ao debate do estruturalismo em
Lévi-Strauss, referente a modernidade ou a demais períodos históricos.
Este debate conceitual no permite
refletir o estuturalismo por meio de vários autores, tais como, Ferdinand de
Saussure, Marcel Mauss, Émile Durkheim, Jacques Lacan, Luis Althusser e Fernand
Braudel. No entanto, devido a justicativa antes apresentada, somente
analisar-se-á o estruturalismo sob a ótica de Levi-Strauss, por meio de alguns
de seus textos: As Estruturas Elementares do Parentesco, Antropologia
Estrutural, O Totemismo Hoje e O Pensamento Selvagem, discutindo,
assim, apenas seus pontos essenciais.
Para melhor compreensão do
aspectos estruturais de Lévi-Strauss foi realizado uma pesquisa bibliográfica de
autores que analisam as suas idéias. Nesse sentido, podemos destacar as obras
de Jean-Marie Auzias em Chaves do Estruturalismo, Edmund Leach em As
Idéias de Lévi-Strauss e H. Lepargneur em Introdução aos Estruturalismos.
Por fim, foram encontrados dois artigos na Revista Ensaios de História do
Curso de Graduação em História da Unesp-Franca, de autoria de Itamar Teodoro de
Faria, os quais também nos possibilitam discurtir a estrutura em Lévi-Strauss.
A partir do conceito fundante
de estrutura, tal como utilizado na acepção corrente da lingüística saussuriana,
o que se processa é uma busca profunda de reformulação do cenário das ciências
humanas. De sua formação inicial eminentemente filosófica, esse autor migrará,
posteriormente, para o campo da Antropologia, ou como ele se refere, para a
Etnologia.
Segundo Leach (1970;23),
Lévi-Strauss é distinguido entre os intelectuais do seu próprio país como
expoente máximo do “Estruturalismo”, uma palavra que passou a ser usada como se
denotasse toda uma nova filosofia de vida, em analogia ao “Marxismo” ou
“Existencialismo”.
O estruturalismo levi-straussiano
trama-se em um contexto a que se aliam empréstimos feitos à Linguística
estutural e uma rígida ruptura com a compreensão histórica. Basta-se alcançar a
estutura subjacente para se estabelecer uma explicação universal válida. Para
ter sucesso nesse projeto Lévi-Strauss assume o método lingüístico aprendido
diretamente de Romam Jakobson, quando da estada de ambos na New Scholl for
Social Research, em Nova Iorque, na década de 40.
O objetivo de Lévi-Strauss com
sua “marcha inversa” é:
(...) atingir, além da imagem consciente e sempre diferente que os homens formam
de seu devir, um inventário de possibilidades inconscientes que existem em
número ilimitado; e cujo repertório e relações de compatibilidade ou de
incompatibilidade que cada uma mantém com todas as outras que fornecem uma
arquitetura lógica e desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis,
sem nunca serem arbitrários. (Lévi-Strauss, 1976; 39)
Ao analisarmos a obra
Antropologia Estrutural (1975), percebe-se a objeção de Lévi-Strauss pelo
cientificismo que consegue dar conta da variedade de conteúdo em lingüística e
antropologia. O autor compara os sistemas fonológicos com o sistema de
parentesco, sendo elaborados pelo espírito no estágio de pensamento
inconsciente. Ambos são elementos de significação, só atingindo a mesma sob a
condição de se integrarem em sistemas. Em regiões afastadas do mundo e em
sociedades profundamente diferentes de formas de parentesco, regras de
casamento, atitudes identicamente prescritas entre certos tipos de parentes faz
crer que, em ambos os casos, os fenômenos observáveis resultam do jogo de leis
gerais, mas ocultas. Numa outra realidade, os fenômenos de parentesco são
fenômenos do mesmo tipo que os fenômenos linguísticos.(...) Nenhuma outra
interpretação pode explicar a universalidade da proibição do incesto, da qual a
relação avuncular, em seu aspecto mais geral, é somente um corolário, ora
manifesto ora disfarçado. (1985; 47 - 69)
O autor continua a sua
abordagem estrutural, nessa mesma obra, relacionando o aspecto estrutural com a
língua e a cultura, examinando as regras do casamento, a organização social e os
sistemas de parentesco em duas áreas distintas: indo-européia e sino-tibetana.
Levi-Strauss conclui que, na área indo-européia, a estrutura social (regras do
casamento) é simples, mas os elementos (organização social) destinados a
figurar na estrutura são numerosos e complexos. Na área sino-tibetana, a
situação se inverte. A estutura é complexa, visto que justapõe, ou integra, dois
tipos de regras matrimoniais, mas a organização social, de tipo clânico,
permanece simples.
Assim é possível relacionar a
tarefa dos antropólogos e dos lingüístas:
Estas descobertas seriam aproveitáveis para uma ciência ao mesmo tempo muito
antiga e muito nova, uma antropologia entendida em sentido mais lato, ou seja,
um conhecimento do homem que associe diversos métodos e diversas disciplinas,
que nos revelará um dia as molas secretas que movem este hóspede, presente sem
ser convidado aos nossos debates: o espírito humano.(1985;99)
Em outro capítulo de
Antropologia Estrutural, intitulado A Eficácia Simbólica, Lévi-Strauss lança
uma nova luz sobre certos aspectos da cura xamanística. Em um parto difícil, a
parteira solicita a intervenção do xamã, que por meio do canto facilitará a
mulher indígena a dar a luz.O xamã fornece à sua doente uma linguagem, na
qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados de outro modo
informuláveis. (1985;228) É importante observar que o xamã não toca na
mulher, o seu canto (Muu) libera a criança, já que a paciente acredita no mito,
acarretanto em sua cura.
Para Lévi-Strauss, a cura
xamanística se situa a meio caminho entre a nossa medicina orgânica e terapeutas
psicológicas como a psicanálise. Em ambos os casos, propõe-se conduzir à
consciência conflitos e resistências até então conservados inconscientes que, em
razão de seu recalcamento por outras forças psicológicas, que no caso do parto,
por causa de natureza própria, a qual não é psíquica, mas orgânica, ou até
simplesmente mecânica. Na psicanálise, essa experiência denomina-se abreação,
ou seja, resignificação do trauma.
A indagação que pode persistir até o
presente momento é a seguinte: Qual a relação da cura xamanística com o
estruturalismo levistraussiano? A resposta se econtra no que o autor denomina
como a eficácia simbólica, onde o inconsciente põe forma ao conteúdo invariante,
ou seja, a cura xamã no parto pelo psicológico é eficaz fisiologicamente. Nesse
sentido, talvez seja pertinente a utilização de placebo na contemporaneidade
para eventuais curas.
Em seguida, ao trabalhar A
Estrutura dos Mitos nessa mesma obra, Lévi-Strauss sugere que o mito é linguagem
que tem lugar em nível muito elevado, e onde o sentido chega a decolar do
fundamento lingüístico (1985;242).
1.
Se os mitos têm um sentido, este não pode se ater aos elementos isolados que
entram em sua composição, mas à maneira pela qual estes elementos se encontram
combinados.
2.
O mito provém da ordem da linguagem, e faz parte integrante dela, entretanto, a
linguagem, tal como é utilizada no mito, manifesta propriedades específicas.
3.
Essas propriedades só podem der pesquisadas acima do nível habitual da expressão
lingüística; dito de outro modo, elas são de natureza mais complexa do que as
que se encontram uma expressão linguística de qualquer tipo.
Para fundamentar o aspecto
estrutural, o autor analisa o crescimento do mito como algo contínuo, em
oposição a sua estrutura que permanece descontínua e invariante. Dessa forma,
Lévi-Strauss levanta a possibilidade (real para tal) de descobrirmos um dia que
a mesma lógica é produzida no pensamento mítico e no pensamento científico, e
que o homem pensou sempre do mesmo modo.
Em outra obra analisada no presente
trabalho, Antropologia Estrutural Dois (1976), Levi-Strauss
mostra como relações de aliança, a estrutura social, a organização espacial da
aldeia e as representações religiosas formam um sistema. O autor menciona a
contribuição de Durkheim, em As Formas Elementares da Vida Religiosa,
para o estruturalismo, já que o último situa as mútliplas variações da religião
como atualização do sistema, sendo a vida religiosa considerada estrutural e
categorizante. Mais uma vez, é necessário que se afaste o vivido para estabecer
o aspecto estrutural.
Nessa abordagem, Lévi-Strauss
estuda o aspecto estrutural no plano da aldeia winnebago e a questão do eixo
norte-sul entre os Bororós. A propósito da aldeia winnebago, verifica-se um
sistema ternário em um diagrama desconhecido por seus habitantes, sendo que é
um diagrama teórico destinado a reorganizar dados etnográficos que, aprendidos
no âmbito empírico, não deixam aparecer estas propriedades. No caso dos Bororós,
nota-se que as organizações dessa aldeia são exatas, pois onde a sua divisão em
metades exogâmicas se refere a uma ordem simbólica, já que sua eficiência
prática é de certa forma anulada por uma endogamia de fato.
A estudiosa Jean-Marie Auzias,
ao elencar os estudos do antropólogo francês em seu livro Chaves do
Estruturalismo, relata que quando Lévi-Strauss visitou as aldeias dos índios
bororós, o etnólogo trabalhou no próprio terreno em elevadíssimo nível de
abstração,por mais paradoxal que isso possa parecer. Trata-se de reconhecer sem
preconceitos a presença e o valor dos conceitos. E tanto mais que, no final,
percebe-se um entrosamento extremamente farto de estruturas sociais. Ora, o
que é universal no homem decorre da natureza e a cultura se apresenta relativa e
singular. (1972, p. 62)
Em Estruturas Elementares
do Parentesco (2003;47) , Claude Lévi-Strauss coloca a proibição do
incesto como parte estrutural do sistema, já que a isogamia é a base da
sociedade no sentido de troca, formando sistemas de comunicação e circulação.
a proibição do incesto apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente
reunidos, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios
de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas regra que, única
entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade.
Na análise levistraussiana, a base
da sociedade está nos laços de parentesco e no regime de troca. Assim podemos
colocar o incesto como “aberração” do estruturalismo, pois quebra o pacto e
aliança, provoca a desordem e contraria a ação humana de instituir ordem ao
caos. O autor refere-se às diversas monstruosidades prometidas no folclore de
diversos povos primitivos, principalmente australianos, a pais incestuosos. A
proibição do incesto constitui o passo fundamental graças ao qual, pelo qual,
mas sobretudo no qual se realiza a passagem da natureza à cultura. (2003;62)
O autor ainda considera que, no sistema de parentesco, a figura dos pais não
pode ser analisada isoladamente, mas sim em um sentido estrutural (pai, mãe,
tio, filho, sobrinho).
Nesse sentido, o autor busca
discutir a relação entre natureza e cultura, sendo a atitude humana definida
por ordem biológica ou por ordem cultural. No entanto, nenhuma análise real
permite apreender o ponto de passagem entre os fatos da natureza biológica e os
fatos da cultura, além do mecanismo de articulação entre eles. A discussão desse
texto permite ao autor concluir que em toda parte onde manifesta regra, existe a
certeza de estar numa etapa da cultura.
O curto de se explicar o homem e a sua cultura é superá-los, diluí-los, (re)
integrá-lo à natureza. Para explicar o homem e a cultura, Lévi-Strauss os detrói
para equacioná-los em uma “síntese de nova ordem”. Fecha-se um círculo: a
cultura se reintegra à natureza. Afinal, as culturas são possibilidades da
natureza humana (não em oposição, mas em relação à natureza), e também pertence,
por seu suporte físico, à Natureza. (Faria, 1999;37)
A análise de As estruturas
elementares de parentesco feita por Leach (1970) demonstra que o argumento
levistraussiano é sistemático: consideramos sociedades com dois grupos
intermatrimoniais, depois quatro, depois oito, depois uma sequência de tipos
assimétricos mais complexos. É tudo feito com elegância que até o mais cético
dos profissionais talvez encontre alguma dificuldade em localizar o ponto exato
em que o argumento descarrilha pela tangente. Na opinião de Leach (1970;104),
o produto final é, em grande parte, falacioso mas até o estudo das falácias pode
ser comprovadamente compensador.
A
originalidade profunda da antropologia de Lévi-Strauss aparece ainda mais em sua
discussão do totemismo. Em Totemismo Hoje, podemos perceber que
base de pensamento primitivo não se difere do pensamento moderno, sendo esta
intrínseca ao espírito humano, justificando, assim, o título dessa obra.
Por meio da pesquisa de Durkheim,
que situa o totemismo como a primeira forma racional de pensamento lógico,
Lévi-Strauss a relaciona como forma de organizar o caos, consolidando o que se
considera diverso por meio da racionalidade humana, indiferente à questão do
tempo (primitivo ou moderno). Mais uma vez, fica bastante evidente a relação
entre os pensamentos desses dois autores, respondendo ao filósofo H. Bergson e à
sua filosofia preconceituosa limitada ao homem branco. Nesse sentido,
Lévi-Strauss(1986;132) conclui:
O pretenso totemismo é da ordem do entendimento, e as exigências a que responde,
o modo como procura satisfazê-las, são antes de tudo de ordem intelectual. Neste
sentido, nada tem de arcaico ou longínquo. A sua imagem é projectada, não
recebida; não retira do exterior a sua subtância. Porque, se a ilusão recobre
uma parcela de verdade, esta não está fora de nós, mas em nós.
O espírito humano formaliza a
sua estutura diferenciando-se, nesse momento. Leach (1970) ao compreender essa
relação levistraussinana, diz que os animais limitam-se apenas a comer e o
alimento deles é qualquer coisa que lhes seja acessível e que seus instintos são
colocados nessa categoria. Mas os seres humanos, uma vez retirados do seio
materno que os amamentou, não possuem tais instintos. As convenções da sociedade
decretam o que é alimento e que não é, e as espécies de alimentos que devem
ser consumidos em tais ocasiões. E como as ocasiões são ocasiões sociais, deve
existir alguma espécie de homologia estruturada.
A última obra de Lévi-Strauss que
este trabalho pretende abarcar é O Pensamento Selvagem (1997). Nessa
obra, o antropológo francês, observa que a explicação científica não consiste,
como fomos levados a imaginar, na redução do complexo ao simples. Dessa forma,
cometemos o erro de ver o selvagem como exclusivamente governado por suas
necessidades orgânicas ou econômicas, não percebendo que ele nos dirige a mesma
cultura e que, para ele, seu próprio desejo de conhecimento parece melhor
equilibrado que o nosso.
Nessa obra, o autor procura
identificar o simbolismo em tribos australianas, pois insere em uma sistêmica de
raciocínios de oposições binárias, com determinadas soluções sociológicas em que
o importante é a forma e não o seu contéudo.
Para explicar a freqüência observada em certas soluções sociológicas, que se
podem prender a condições objetivas e particulares, não invocaremos o conteúdo
mas a forma. A matéria das contradições conta menos que o fato de que existem
contradições, e seria preciso grande casualidade para que
a ordem social e a ordem natural se prestassem conjuntamente a uma síntese
harmoniosa. Ora, as formas de contradições são bem menos variadas que seus
conteúdos empíricos. Nunca se salientará o suficiente a indigência do pensamento
religioso; ele explica porque os homens tantas vezes recorreram aos mesmos meios
para resolver problemas cujos elementos concretos podem ser muito diferentes,
mas que têm em comum o fato de pertencerem todos a “estruturas de contradição”.
(1997;113)
Sendo assim, Lévi-Strauss pôde
concluir a sua percepção dos povos selvagens, reduzindo as suas representações
a um código que permite passar de um sistema para outro, seja formulado quer em
termos naturais, quer em termos culturais. O pensamento selvagem pode ser
definido como pensamento analógico, sendo o próprio ser atemporal, aprendendo o
mundo, como totalização sincrônica e diacrônica ao mesmo tempo.
Posteriormente, nessa mesma
obra, o autor faz uma debate com Jean Paul Satre, que entre os filósofos
contemporâneos, não é o único a valorizar a história em detrimento das outras
ciências humanas e faz dela uma concepção quase mítica. Lévi-Strauss (1997)
relata que o etnólogo respeita a história, mas não lhe atribui uma valor
privilegiado, concebendo-a como uma pesquisa complementar à sua: uma abre o
leque das sociedades humanas no tempo, a outra, no espaço. Fazendo isso,
Lévi-Strauss (1997) contra-argumenta que os historiadores escolhem, destacam e
recortam, pois uma história verdadeiramente total os colocaria perante o caos;
mesmo uma história que se diz universal ainda não é mais que uma justaposição de
algumas histórias locais, dentro das quais os vazios são muito mais numerosos
que os espaços cheios; uma história verdadeiramente total neutralizar-se-ia a si
própria, igualando seu produto a zero.
De fato, a história não está ligada ao homem nem a nenhum objeto particular. Ela
consiste, inteiramente, em seu método, cuja experiência prova que ela é
indispensável para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura
qualquer, humana ou não-humana. Portanto, longe de a busca da inteligibilidade
levar à história como seu ponto de chegada, é a história que serve de ponto de
partida para toda busca da inteligibilidade. Tal como se diz de algumas
carreiras, a história leva a tudo, mas com a condição de sair dela. (1997;291)
Dessa forma, podemos mencionar
o estudo de Itamar Teodoro de Faria, publicado na Revista Ensaios de História da
Unesp – Franca (1998), já que relaciona o estruturalismo levistraussiano e o
lugar da história. Esse pesquisador conclui que em O pensamento selvagem
(1997), palco das escaramuças de Lévi-Strauss com relação a Sartre, transparece
do autor o entendimento da história como equivalente ao mito, não sendo a
inteligibilidade das trasnformações diacrônicas nem maior nem menor do que a
inteligibilidade das transformações sincrônicas. A história se vê assimilada
pela estrutura, a qual seria a vantagem dos sistemas classificatórios:
integrar toda a história, mesmo e sobretudo aquela que se poderia acreditar
rebelde ao sistema. Lévi-Strauss insiste que, quando a história assume a forma
de recompilação de eventos passados, ela faz parte do presente do pensador, não
de seu passado. Para o ser humano pensante, toda experiência recordada é
contemporânea.
As limitações científicas do
estruturalismo em Lévi-Strauss também são compreendidas por Lepargneur (1972),
que o entende como do ponto de vista dos linguistas e como dos etnologos. Esse
mesmo autor continua a sua abordagem dizendo que Lévi-Strauss a idéia de que
compreennder é reduzir um tipo de realidade a um modelo já conhecido somado à
de que existem determinismos inconscientes e de que existe, em toda ordem, um
sentido chave de que os outros são transposições simbólicas e harmônicas. Isso
conduz Lévi-Strauss a uma concepção de estrutura como modelo abstrato,
suficientemente afastado da realidade empírica para comportá-la em todas as suas
diferenças. Modelo que relaciona elementos primários invariáveis e para o qual o
que importa não é a essência dos elementos em si, mas as relações estabelecidas.
A estrutura levistraussiana abarca
tempo e espaço. Estas duas categorias se vêem adjetivadas: o que se tem agora é
um tempo social e um espaço social. Tempo e espaço têm de ser submetidos aos
desdobramentos do funcionamento estruturante orgânico das sociedades e culturas.
Ao invés de um tempo uno, o que temos é um tempo estrutural, tempo que se
circunsccreve às limitações determinadas pelas manifestações da estrutura. Cada
combinação articula e sistematiza o seu tempo e seu espaço (Faria, 1998).
O objetivo de Lévi-Strauss é
reconstrutir o mundo em modelos que, abrindo mão das qualidades sensíveis dos
elementos manipulados, façam surgir uma inteligibilidade totalizante que imponha
um sentido geral à revelia dos sentidos particulares assumidos e atribuídos
historicamente.Esse autor postula a existência de invariantes, ou universais,
que são os elementos, as formas pensadas em âmbito ontológico. Esses elementos,
na sua forma pura, não têm existência concreta. O invariante é um príncipio
universal e enquanto tal ele não é algo, ele apenas estrutura o real.
A estrutura no âmbito da
inconsciência pode ser comparada a um tabuleiro de xadrez em que as peças não
podem ser analisadas separadamente. Podemos ordenar o esquema estrutural
levi-straussiano da seguinte maneira, sendo que as suas mundanças estão
previstas na lógica sistêmica.
1.Sistema
inconsciente
2.Lógica do sistema –
relações dos termos
3.Regras do sistema
(Leis Univesais)
A estrutura é mais simples que a
realidade observada e sua forma leva a combinatória. A estrutura é atualizável
(nascer, casar e reproduzir), mas invariante com infinitas possibilidades de
conteúdo. Para Levi-Strauss é necessário afastar-se do vivido e a ação escapa do
consciente do agente, opondo-se a tradição hermenêutica dos anos 60. Dessa
forma, pressupõe que a estrutura esvazia o sentido existencial do texto,
anulando a relevância do tempo e, conseqüentemente, a análise histórica, haja
vista que as previsibilidades das mudanças e sua estrutura invariante. A
análise do presente permite conhecer o futuro e o passado (anti-história ou
história como ilustração), escapando ao próprio tempo (anacrônico).
Nessa análise, é possível constatar
que a sociedade é comunicação (parentesco, econômico, linguagem), ocorrendo um
paralelismo estrutural entre diversos aspectos inerentes a ela. Seguindo essa
abordagem, a análise estrutural seria como montar um quebra-cabeças, onde é
preciso descobrir como as peças se encaixam em um recorte não arbitrário. Essa
mesma análise não altera a maneira das relações sociais, apenas permite
compreendê-las por meio de categorias inconscientes e raciocínios combinatórios.
Portanto, pode-se dizer, por meio
dessa breve discussão, que na análise levistraussina as estruturas fundamentais
que instauram a vida em sociedade é e o sistema de línguas e de parentesco,
vistas em uma realidade afastada e uma estrutura subjacente (sistêmica). A
estrutura não possui sujeito, a ação estrutural é sujeitada. Essa linha de
pensamento passa a ser denominada como Estuturalismo de Modelos Clássicos.
Referências
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SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguistica geral. São Paulo: Editora
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[1]
A proposta de análise do estrututralismo em Lévi-Strauss presente nesse
trabalho é oriunda das aulas do Programa de Pós-Graduação em História,
na disciplina Aspectos do Estruturalismo, ministrada pelo Prof. Dr. Jean
Marcel Carvalho França.
[2]
Doutorando em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de
Franca, sob orientação da Profa. Dra. Ida Lewkowicz. Professor Efetivo
do Departamento de Turismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
E-mail: leandro@turismo.ufop.br