ISSN 1807-1783                atualizado em 04 de novembro de 2008   


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A Escola dos Annales: histórias e revoluções historiográficas

por Jossefrânia Vieira Martins

Sobre a autora[1]

 

Este texto busca refletir acerca das transformações teórico-metodológicas pelas quais o conhecimento histórico passou com o desenvolvimento e a atuação da Escola dos Annales concebida e liderada primeiramente por Marc Bloch e Lucien Febvre nas primeiras décadas do século XX. Para tanto, mergulhamos na historicidade dos Annales atentando para as várias posturas que modelaram a primeira e a segunda geração. Aproximando a história às ciências sociais, a “história nova” edificou um novo olhar sobre o conhecimento e sobre o ofício do historiador.

Desde o encontro entre Marc Bloch e Lucien Febvre a historiografia nunca mais foi a mesma (BURKE, 1997), no entanto, as variações de opinião acerca de como e o que mudou com o advento da Escola dos Annales são muitas. O “montante” de paradigmas, afirmações e direções permearam as três gerações desse movimento. Na verdade a grande contribuição historiográfica dos Annales em sua primeira geração foi a possibilidade de um diálogo entre a história e as ciências sociais, rompendo uma barreira invisível e ao mesmo tempo sólida, legitimada por uma história tradicional, factual, excessivamente preocupada com os acontecimentos advinda do século XIX. (REIS: 2004).

A “história nova” empreendida por Febvre e Bloch com a Escola dos Annales, começa a tecer suas redes de conhecimento em contraposição a história tradicional “enraizada” nos grandes homens e fatos, e que dessa forma, marginalizava muitos aspectos das experiências humanas, entretanto para a “história nova”, toda vivência humana é portadora de uma história. Partindo desta idéia que os Annales construíram o sentido de “História total”. A primeira geração dos Annales foi o ponto de partida para as novas abordagens da história. Bloch em Les Reis Thaumaturges (Os Reis de Taumaturgos) amplia o campo historiográfico sobre o estudo do mundo rural, fazendo comparações entre a França e a Inglaterra, algo novo do ponto de vista tradicional “acostumado” a escrever sobre temas mais restritos.

Febvre objetivava uma pesquisa interdisciplinar com uma história voltada para a problematização, entretanto em algumas obras propunha uma homogeneidade de pensamento praticamente “impossível”. Era preciso levar em consideração os vários aspectos e diferenças humanas, seja ele homem, mulher, rico ou pobre. O fato é que as diferenças existem na forma de pensar dos indivíduos, e não levá-las em consideração é negligenciar outros campos relevantes.

Os pensamentos de Marc Bloch e Lucien Febvre se entrecruzaram na criação de uma revista. Assim, os Annales surgiu como nova proposta no meio científico, contrariando a história política tradicional e abrindo espaços para a história social e econômica. Nesse período são muitas as publicações concernentes aos referidos temas. A revista dos Annales condensou os saberes e experiências de Bloch e Fevbre, assim como suas críticas a uma história tradicional, enraizada no modelo positivista. Mas, no que acreditavam os positivistas? Que relação mantinham com o objeto da história? Qual noção tinham do conhecimento histórico? Como destaca José Carlos Reis:

 "Acreditavam os ditos “positivistas”, parece, que isso era possível. Acreditavam que, se adotassem uma atitude de distanciamento de seu objeto, sem manter relações de interdependência, obteriam um conhecimento histórico objetivo, um reflexo fiel dos fatos do passado, puro de toda distorção subjetiva. O historiador, para eles, narra fatos realmente acontecidos e tal como eles se passaram. [2]"

 

Nessas conexões de dizeres e saberes, os positivistas “amarram” o historiador a teias complexas e interrompem seu processo criador. Em termos historiográficos o “cientista” positivista colhe provas de suas falas, fechando suas conclusões objetiva e comprovadamente. Contrários a essas idéias, Bloch e Fevbre se assemelhavam, delineando a primeira geração, aos seus modos. Com a morte dos maiores representantes da primeira geração, Bloch e em seguida Fevbre, é Braudel o sucessor e diretor efetivo dos Annales. Sua proposta inicial é de renovação, conseqüência de conflitos internos ocorridos no período pós-morte de Fevbre.

A desestabilidade ameaçava a continuação de uma revista que apesar de ampla, ainda guardava resquícios de centralidade Bloch/Fevbre. Nesse sentido, o novo “líder” propõe renovar o Annales, para isso recruta jovens historiadores aptos a novas propostas, entretanto, também centralidade de pensamento e discussões em torno de Braudel, embora a segunda geração não se resuma apenas a ele. Nesse momento, a revista com suas produções acadêmicas ganha “ares” de escola. Os jovens “recrutados” por Braudel formam um grupo, suas perspectivas irão moldar a nova fase dos Annales.

O fato é que Braudel influenciaria toda uma geração, os estudos que não seguiam suas perspectivas, em parte eram influenciados. Com ou sem Braudel, a segunda geração foi mais que um instrumento hierárquico da primeira, na realidade a constituiu na institucionalização de uma escola, embora se conteste o que seria o Annales, uma escola ligada a um paradigma? O próprio Brandel discorda: “Os Annales, apesar da sua vivacidade, nunca constituíram uma escola no sentido estrito, isto é, um modelo de pensamento fechado em si mesmo”. (Apud: REIS, 2004, p. 70).[3]

Essa amplitude de discussão permeiam a idéia ou a construção da mesma acerca da chamada “Escola” dos Annales. Se Braudel não acreditava em modelos de pensamento dentro do ele mesmo criou, então a idéia, as discussões, a fábrica de conclusões são apenas lapsos do que podemos chamar de Escola dos Annales.

Se para ele a “Escola dos Annales” não ocorreu no sentido simplista do termo, porque o recrutamento de jovens, numa alegoria denotando o conjunto, unidade e reunião de idéias? Por que a centralidade de pensamento em torno de si? Com ele, a segunda geração torna possível uma continuidade do projeto dos Annales, uma experiência que produziu suas descontinuidades. No mediterrâneo, uma obra que valoriza as mudanças econômicas e sociais ocorridas a longo prazo, está transposto suas idéias dialogando com a geografia, constrói uma “geo-histórica”. Como afirma Burke (1997, p. 49): “A verdadeira matéria do estudo é essa história do homem em relação a seu meio”, uma espécie de geografia/história ou como Braudel preferia denominar uma geo-história”[4]. Sendo assim, “objetivo é demonstrar que todas as características geográficas, têm a sua história, ou melhor, são partes da história”.[5]

Constrói-se uma realidade histórica de espaços, permanece o intuito e a prática da interdisciplinaridade tão exacerbada por Fevbre. Outra importante contribuição de Braudel foi à inovação no conceito de tempo, que para ele é manejado entre a distinção de curta e longa duração, ou seja, os eventos históricos, podem se dar em ampla ou restrita dimensão temporal. Neste caso, outro conceito é fundamental, a noção de estruturas, que interage no decorrer desses eventos com a categoria temporal.

Segundo Peter Burke (1997, p. 55), Braudel realiza um movimento de “combinar um estudo da longa duração com o de uma complexa interação entre o meio, a economia, a sociedade, a política, a cultura e os acontecimentos”. Todos esses aspectos sedimentados por um controle que se tem sobre sua figura em relação a seus discípulos. Sobre sua égide a história dialoga com outros conhecimentos, narra a história quantitativa serial, regional, demográfica, entre outras. Uma visão do todo, uma história global é proposta, mesmo que Braudel destine suas inquietações para o problema da liberdade individual. Seriam as coletividades coadjuvantes de sua escrita?

A Escola dos Annales tem na sua história o marco de uma “revolução” historiográfica francesa (BURKE, 1997). O início do século XX tem suas particularidades, os Annales são, portanto frutos de seu tempo. Suas maiores contribuições consistem no implemento da história-problema, da ampliação das fontes, do enquadramento da história como “ciência humana e social”, através de uma relação interdisciplinar, porém tudo isso motivado ainda por um ideal de cientificidade.

Ideal esse que se distingue da filosofia da história do século XIX e do advento do conhecimento histórico com o positivismo. A história produz leis? Qual o ofício do historiador? A história é feita apenas de acontecimentos políticos, de heróis e tratados? Contrapor-se a esses fundamentos talvez seja a grande contribuição dos Annales. Se na primeira geração temos uma função de conhecimento (Febvre/Bloch) e na segunda geração a individualização da liderança, isso de forma alguma retira da revista e/ou da escola a magnitude dessa revolução no conhecimento histórico. “A historiografia jamais será a mesma”[6] e nisto Peter Burke tem razão.


 

[1] Bacharel e Licenciada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

[2] REIS, José Carlos. A história, entre a ciência e a filosofia. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p 18.

 

[3] BRAUDEL, Apud REIS, 2004, p. 70.

[4] BURKE, Peter. A Escola dos Annales, (1929 – 1989) A Revolução Francesa da Historigrafia. São Paulo: Editora UNESP, 1997, p. 49.

 

[5] Idem.

[6] BURKE, Peter. A Escola dos Annales, (1929 – 1989) A Revolução Francesa da Historigrafia. São Paulo: Editora UNESP, 1997, p. 127.