Sobre o artigo
[1]
Sobre o autor[2]
Investigar a atuação maçônica e
espírita no amplo contexto das lutas religiosas e sociais, no Ceará da Primeira
República, com os representantes da Igreja Católica, implica inseri-los no
âmbito dos confrontos globais entre modernistas e tradicionalistas. Para Le
Goff existiu, na Europa dos primeiros anos do século XX, o “modernismo
religioso”. O movimento centrava-se em dois problemas: o dogmatismo e a evolução
social e política. Ou seja, a crise advinha “do atraso da ciência eclesiástica
em relação à cultura e às descobertas científicas [...]”.[3]
Domingues, por sua vez, observa que “A modernidade emergiu tendo no coração de
seu imaginário a emancipação da humanidade da necessidade e dos grilhões da
superstição e da dominação”.[4]
E são exatamente essas manifestações cientificistas nas esferas do saber e da
fé, com repercussões na esfera do poder, que constituem o centro da problemática
deste trabalho, uma vez que no bojo desse modernismo se apresentarão dois
movimentos de natureza filosófico-moral, marcados por concepções racionalistas e
cientificistas do mundo.
Assim, de um lado, a religião
tradicional imersa nos domínios da crescente secularização - entendida como
perda de poder e de validade das visões tradicionais de mundo, abaladas em sua
substância pelos novos critérios da racionalidade instrumental - debate-se
diante da progressiva racionalização das visões de mundo; de outro lado, maçons
e espíritas, abstendo-se de uma crítica estrutural e sócio-política ao
capitalismo, desenvolvem um racionalismo religioso, configurado em atitudes
filantrópicas, beneficentes e caritativas, conciliando espiritualismo e
reformismo na solução da “questão social”, ao tempo que fundamentam o advento da
justiça social resultante do progressivo desenvolvimento tecnocientífico e da
evolução moral-espiritual da Humanidade. Nesse caso, representavam a
possibilidade de uma nova utopia, a da regeneração espiritual pela
auto-transformação, oposta ao tradicionalismo da escatologia católica.
Constatam-se que, no Ceará da
Primeira República, a Maçonaria e o Espiritismo se constituíram os maiores
opositores ao dogmatismo religioso, às vezes até anticlericais, e por isso mesmo
atacados pela Igreja Católica, como seus maiores “inimigos”. Contudo, os ataques
do catolicismo, não contemplados pela historiografia, davam conta de uma
concorrência moderno-espiritualista de maçons e espíritas no campo religioso,
assentada em bases racionalistas e cientificistas e fortemente inserida nas
classes altas, imprensa e meios intelectuais locais, desde o início do século
XX.[7]
Podemos destacar a atuação
espírita de Vianna de Carvalho em conferências nas lojas maçônicas e salões das
associações de classe e suas polêmicas com o clero local nas páginas da
imprensa, como no jornal A República, em 17 de janeiro de 1911:
A reação do clero local à atuação
de Viana de Carvalho pode ser exemplificada nas palavras do padre Vanderillo
Herpierre, asseverando os perigos e a falsidade da revelação espírita, no mesmo
jornal, a 6 de abril de 1911:
Na década de 1920, O Nordeste
intensificaria seus ataques ao Espiritismo, utilizando dos discursos de médicos,
psiquiatras, sacerdotes brasileiros ou estrangeiros. Em certa ocasião publica
carta de leitor, intitulada “A propósito do espiritismo”, denunciando o
“proselitismo” espírita nas dependências do Colégio Militar e comparando-o com a
difusão do positivismo naqueles meios no início da República. O paralelo é
revelador das condições do enraizamento espírita na sociedade cearense.
Polibio reconhecia que os anos
passavam e a “fé racional” ainda era algo distante da massa da população, apesar
do avanço da modernidade, do “assombroso desenvolvimento” das “ciências
positivas”:
O jornal O Ceará, do
jornalista, professor e maçom Julio de Matos Ibiapina se colocou na defesa
irrestrita da Maçonaria, ante os ataques do diário católico:
Outro maçom-espírita, Políbio,
não olvidava essa lição, quando observava as crenças e práticas religiosas da
sociedade local, mesmo que para isso precisasse “invadir a seara alheia”:
[...] Quero falar de um uso, ou
antes um abuso, corrente entre alguns fiéis, ignorantes, já se vê, da Santa
Madre Igreja Católica Apostólica Romana, a que não pertenço. [...] É uma praxe
cuja origem se perde em longínquo passado a de fazer promessas. [...] No meu
parecer de herege contumaz, acho que ao Criador, nós as criaturas que o
adoramos, temos o direito de pedir-lhe todas as coisas que julgamos boas e
necessárias, especialmente as de caráter espiritual, mas nada lhe devemos
prometer, a não ser praticar o que julgamos serem os seus mandamentos.[23]
Para a Maçonaria a relação de
complementaridade entre religião e ciência era essencial para a compreensão do
caráter moralizador da Ordem. Pensada e definida como uma grande escola de
sabedoria, a Maçonaria contempla a evolução do conhecimento humano a partir da
tentativa de fusão dos conhecimentos iniciáticos (esotéricos) dos antigos e com
as aquisições da ciência moderna, com o fim de esclarecer gradativamente a
consciência humana da sua interação espírito/matéria.
O Espiritismo, por sua vez, como
“ciência do Espírito”, com desdobramento filosófico e conseqüência
moral-evangélica, promovia uma religiosidade de caráter íntimo, favorecedora de
afinidades e aliança tática com a Maçonaria, ao tempo que acirrava a oposição da
Igreja Católica, autoconsiderada depositária do patrimônio espiritual da nação.
DENIS, Léon. Socialismo e
Espiritismo. Trad. Wallace Leal. V. R. Matão(SP):Casa Editora O Clarim,
1987.
DOMINGUES, José Maurício.
Interpretando a Modernidade: Imaginário e Instituições. Rio de
Janeiro:Editora FGV, 2002.
LE GOFF, Jacques.
Antigo/Moderno In
História e Memória. Campinas:Editora da Unicamp, 1992, p.167-202.
LINHARES, Marcelo. História da
Maçonaria Primitiva, Operativa, Especulativa). Londrina:A Trolha,1997.
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Intelectuais e o Espiritismo. Niterói:Publicações Lachâtre,1997.
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– Discurso e prática católicos. Fortaleza:Edições UFC, 1987.
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Léon Denis e a Maçonaria. São Paulo:Madras Editora, 2003.
MONTENEGRO, João A. Alfredo de S.
O Trono e o Altar: As Vicissitudes do Tradicionalismo no Ceará (1817-1978).
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PARENTE, Josênio C. Anauê – Os
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Fortaleza:Expressão Gráfica/Núcleo de Documentação Histórica/NUDOC-UFC, 2007.
______. Modernidade e
espiritualismo na imprensa operária cearense da Primeira República. Revista
História Hoje – Revista Eletrônica de História - ANPUH, v. 5, nº13,
2008. Disponível em:
http://www.anpuh.org/revistahistoria/public
[1]
Texto inspirado em comunicação do autor realizada no Simpósio Temático –
Religiosidades: temas e paradigmas de análise, sob a coordenação dos
professores Artur César Isaia e Mara Clara Tomaz Machado, desenvolvido
no XXV Simpósio Nacional História, em Fortaleza-Ce, julho de 2009.
[3]Le
Goff, 1992,
p. 180-181.
[4]Domingues,
2000, p.35.
[8]
Cf. Barata, 1999; Silva, 2007.
[15]
Apud KLEIN FILHO, 1999, p.98.
[23]
Gazeta de Notícias. Fortaleza-Ce, 4 set.
1927, grifo nosso.